Ocasionalmente, interessam-me as jogadas políticas locais da cidade onde vivo. Mas importa esclarecer que o tema me interessa por simples curiosidade antropológica e não para alinhar jeremiadas placebas. Por sua vez, a curiosidade é a mesma que sinto diante de um palco onde loucos se digladiam por chegar ao poder e depois conservá-lo a todo o custo. Ao poder que eles tomam como tal, entenda-se. Pois na Guarda é notória a baixíssima qualidade dos actores políticos, que a valia do tal teatro épico, grosso modo, acompanha. Mas será que se pode falar de verdadeiro combate político nesta cidade? Um combate em cujo centro estão os modelos, as propostas concorrentes e não os cabeças de cartaz? Um combate onde o ponto de focagem está na mobilização e não na arregimentação? A resposta é negativa, com excepção de umas épicas eleições locais nos idos de 80. Tomemos agora como exemplo o que se assiste nos dois únicos partidos com expressão eleitoral local - PS e PSD. É certo que, desde sempre, a política sempre foi para mim muito mais do que o mundo dos partidos políticos, epifenómenos em vias de extinção. Mas, por conveniência narrativa, centro-me por ora neles. Comecemos pelo PSD. A estrutura local deste partido pouco tem a ver com o que se passa a nível nacional. Ou seja: ausência de debate político-ideológico; resistência à modernidade; discurso voltado para eleitores de uma ruralidade em extinção, de um conservadorismo anacrónico e de um tecido empresarial incipiente; tiques populistas, como se viu com a recente polémica onde um dirigente local compara a actividade cultural ao "circo". Ou seja, o PSD local esquece-se de um pormenor essencial: ser de direita, hoje em dia, é estar do lado da modernidade, do desenvolvimento e da liberdade. É por de lado as respostas conceptuais perante a realidade em que a esquerda ainda continua enredada. Passarei agora ao PS. Aqui a situação adquire uma dimensão trágica. Paredes meias com o grau zero da política. A façanha, embora com antecedentes propícios, foi conseguida pela actual direcção distrital, comandada por esse case study de nome José Albano. Um ilustre desconhecido que, tendo sido eleito deputado da Nação, renunciou ao mandado por um cargo dirigente local. E tendo-se recandidatado na legislatura seguinte, como número dois da lista, viu os seus intentos gorados, graças aos piores resultados da história do partido no distrito. De cuja estrutura já era o responsável máximo. E pensam que daí retirou algumas consequências? Não, limitou-se a apoiar Seguro, o senhor que se seguiu à frente do partido. Depois de ter feito juras de amor eterno a Sócrates. E a confirmar o seu deserto de ideias e propostas para a região. E a promover os seus fiéis. Comportando-se como um simples chefe de facção. É de gente como esta que a Guarda precisa para dirigentes políticos? Adivinha-se a resposta. Em síntese, chega de produtos do aparelho, candidatos a caudilhos, distribuidores de lugares e favores. O que a Guarda necessita, urgentemente, é de políticos mobilizadores, esclarecidos, ousados, atentos ao pulsar da cidade e da região. Só assim prevalecerá o melhor das capacidades instaladas, as boas práticas da administração e a atractividade.
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sexta-feira, 23 de setembro de 2011
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Nobre versus novilíngua
Começaram anteontem os debates a dois, nas várias televisões, entre os candidatos às eleições presidenciais. Para abrir a sequência, o país pode assistir ao round que opôs Fernando Nobre e Francisco Lopes. Percebeu~se claramente que Nobre não teve dificuldade em encostar o comunista às boxes. O último vinha bem preparado, com a habitual cábula minimal repetitiva. Para além dos soundbites habituais do discurso dos comunistas portugueses (e dos admiradores de Enver Hoxa), onde 1+1 é sempre igual a 1, avançou com uma naipe de acusações a Nobre. Assim tentando "demonstrar" a sua incoerência, a volubilidade da sua candidatura, confrontando-o ad nausem com a sua alegada posição contraditória face ao OGE. Ao mesmo tempo, tentava-o associar à real politik, por via de alguns comprometimentos no passado, apontados a dedo e retirados dos arquivos bolorentos da Soeiro Pereira Gomes. Nobre não precisou de muito para "desmontar o boneco". Afinal, quem aceita ser candidato a Chefe do Estado devido a uma decisão de um sinistro Comité Central, conseguida, imagino, pelo sistema de sorteio, bola branca bola preta, não merece grande consideração. E demonstra estar tão mergulhado no sistema como as forças do mal que os seus acólitos tanto diabolizam. E certamente Lopes nunca conseguiu criar um único emprego, como lhe apontou Nobre. Todavia, aposto que já conseguiu destruir muitos, devido à conhecida intransigência negocial dos sindicatos controlados pelos comunistas. Em suma, limitou-se, ao longo do debate, a blindar o seu eleitorado e pouco mais. Nobre fez o que lhe competia e o que sabe sem esforço: ser compassivo, inclusivo, transversal, universalista. Por outro lado, percebi com clareza, se dúvidas houvessem, a natureza do discurso estereotipado e autista dos comunistas. E de como constitui uma afronta à inteligência. Viu-se perfeitamente que o funcionário do PCP, a quem entregaram a "gloriosa" tarefa de se candidatar, não está habituado a este tipo de interlocutores. O PCP vive no mundo da fantasia, onde as palavras substituem as coisas, as profecias valem como objectivos, os conceitos ocultam a realidade e a esquizofrenia anula o mais ténue vestígio de honestidade intelectual. Ter pela frente um verdadeiro lutador, como Fernando Nobre, um homem cujo palco privilegiado tem sido afrontar uma realidade de que as estatísticas não falam, onde há que decidir depressa e sem esperar recompensas, é pedir demasiado a gente tão limitada. E o que é pior, rebater um discurso que, por não ser politizado, é terrivelmente político, que escapa à lógica comezinha e totalitária da novilíngua orweliana dos comunistas, deve ter sido aterrador para o zelota Lopes.
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terça-feira, 16 de março de 2010
O Partido do senhor Silva e do tio Alberto (2)
- O cesáreo Jardim, como não podia deixar de ser, abrilhantou o Concílio com a sua majestática presença. Desta feita, conseguindo congregar na sua pessoa um inédito unanimismo piedoso, uma lacrimejante reverência, só devida, sejamos francos, aos "grandes do reino". Algo nunca visto. A explicação mais óbvia para esta genuflexão devocional colectiva (que, em grande medida, faz lembrar a célebre sequência da gorada execução do protagonista de "O Perfume", de Süskind) estará no peso dos delegados madeirenses, aquando da contagem final de espingardas. Também, é claro. Mas o que aconteceu foi outra coisa, incomparavelmente mais grave. Jardim comprou a tragédia que se abateu sobre a Madeira por dez reis de mel coado. Para vendê-la, a preços exorbitantes e em momentos cirúrgicos, a quem depende, politica e financeiramente. Jardim deu a conhecer neste Congresso a sua nova roupagem: embaixador plenipotenciário de uma catástrofe humanitária que utiliza para fins de branqueamento político, amealhando os dividendos que essa situação possa trazer. Uma velhacaria a que o PSD reunido em Mafra deu ampla cobertura, como se viu.
- Sobra a já célebre "lei da rolha", aprovada por proposta de Santana Lopes. A qual diz mais ou menos isto: qualquer militante que se atreva a criticar a direcção nos dois meses anteriores a um acto eleitoral terá um processo disciplinar à perna, que pode ir até à expulsão. A solução, que consagra um autêntico delito de opinião, é abominável, evidentemente. Mas já lá vamos. Antes, é preciso referir que o episódio foi imediatamente comentado pelo speaker socialista de serviço: Vitalino Canas. A melíflua personagem balbuciou algumas indignações de ordem apocalíptica, com uns sinistros trejeitos bocais pelo meio. O problema, nestes casos, são os telhados de vidro. Como se sabe, o debate e a crítica não abundam para os lados do Rato. O silêncio é devidamente policiado pela núcleo duro socratiano desde 2005. E toda a gente se recorda do tratamento que foi dado ao histórico Edmundo Pedro, quando colocou algumas dúvidas sobre a existência de pluralismo interno no PS, precisamente antes da reeleição de Sócrates como secretário-geral. De resto, leia-se o art. 94º dos estatutos do PS. Embora a letra da lei não seja a mesma, o resultado é idêntico. E sem os 6o dias. Como li algures na blogosfera, pelo menos desde que mataram a Rosa Luxemburgo, ninguém se lembra de ver um socialista criticar os seus dirigentes.
- Seja como for, ao aprovar esta alteração estatutária, o PSD perdeu qualquer autoridade política para manter na sua agenda a denúncia da "asfixia democrática". A questão da liberdade de informação e de expressão é demasiado séria para ser desbaratada por tão pouco. E "tão pouco" quer dizer que a proposta de SL se deve exclusivamente ao seu ajuste de contas com o passado. Aliás, a hidden agenda de Santana para este Congresso incluía certamente a terapia de grupo e o uso intensivo do role playing. Todavia, se as suas limitações óbvias ao nível da personalidade e o seu permanente auto-centramento são já dados adquiridos, não se compreende como proposta tão aberrante teve tamanho acolhimento entre os delegados. Como também não se compreende como a tímida discordância manifestada pelos candidatos não foi expressa de forma mais veemente e comprometida. A não ser, como alguns dizem, que o PSD já percebeu que o próximo líder, qualquer que ele seja, será uma solução transitória, incapaz de unir o partido. E desta forma se conformando com uma solução administrativa de carácter disciplinador, numa área onde a política é quem mais ordena. Ou devia.
PS: os esclarecimentos dados a posteriori por Santana Lopes, em defesa da alteração, valem por si.
- Sobra a já célebre "lei da rolha", aprovada por proposta de Santana Lopes. A qual diz mais ou menos isto: qualquer militante que se atreva a criticar a direcção nos dois meses anteriores a um acto eleitoral terá um processo disciplinar à perna, que pode ir até à expulsão. A solução, que consagra um autêntico delito de opinião, é abominável, evidentemente. Mas já lá vamos. Antes, é preciso referir que o episódio foi imediatamente comentado pelo speaker socialista de serviço: Vitalino Canas. A melíflua personagem balbuciou algumas indignações de ordem apocalíptica, com uns sinistros trejeitos bocais pelo meio. O problema, nestes casos, são os telhados de vidro. Como se sabe, o debate e a crítica não abundam para os lados do Rato. O silêncio é devidamente policiado pela núcleo duro socratiano desde 2005. E toda a gente se recorda do tratamento que foi dado ao histórico Edmundo Pedro, quando colocou algumas dúvidas sobre a existência de pluralismo interno no PS, precisamente antes da reeleição de Sócrates como secretário-geral. De resto, leia-se o art. 94º dos estatutos do PS. Embora a letra da lei não seja a mesma, o resultado é idêntico. E sem os 6o dias. Como li algures na blogosfera, pelo menos desde que mataram a Rosa Luxemburgo, ninguém se lembra de ver um socialista criticar os seus dirigentes.
- Seja como for, ao aprovar esta alteração estatutária, o PSD perdeu qualquer autoridade política para manter na sua agenda a denúncia da "asfixia democrática". A questão da liberdade de informação e de expressão é demasiado séria para ser desbaratada por tão pouco. E "tão pouco" quer dizer que a proposta de SL se deve exclusivamente ao seu ajuste de contas com o passado. Aliás, a hidden agenda de Santana para este Congresso incluía certamente a terapia de grupo e o uso intensivo do role playing. Todavia, se as suas limitações óbvias ao nível da personalidade e o seu permanente auto-centramento são já dados adquiridos, não se compreende como proposta tão aberrante teve tamanho acolhimento entre os delegados. Como também não se compreende como a tímida discordância manifestada pelos candidatos não foi expressa de forma mais veemente e comprometida. A não ser, como alguns dizem, que o PSD já percebeu que o próximo líder, qualquer que ele seja, será uma solução transitória, incapaz de unir o partido. E desta forma se conformando com uma solução administrativa de carácter disciplinador, numa área onde a política é quem mais ordena. Ou devia.
PS: os esclarecimentos dados a posteriori por Santana Lopes, em defesa da alteração, valem por si.
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segunda-feira, 15 de março de 2010
Lembrete
Logo à noite, no programa "Prós & Contras", na RTP1, irão estar frente a frente (ou lado a lado, embora a primeira opção seja mais estimulante) José Gil e Eduardo Lourenço. Ir-se-á discutir o futuro de Portugal, sob o tema "Novos Horizontes" (designação kitsch até dizer chega, mas o que é que se há-se fazer?). Graças à presença dos dois pensadores, já valerá a pena uma espreitadela. A emissão começa por volta das 22.30H.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
A idade dos porquês - 7
Porque é que se criou a ideia de que os habitantes das pequenas e médias povoações têm que gostar obrigatoriamente de tudo o que é produzido localmente? Falo especialmente da oferta cultural, mas poderia referir-me também a queijos, ou a cobertores, ou a jornais. É claro que as "coisas da terra" despertam sempre uma natural curiosidade, do tipo benevolente, uma atenção particular, um orgulho magnânimo. Mas é fundamental ir para lá das armadilhas da auto-complacência, atravessar o simples brio paroquial. De modo a perceber que um espectador de Barcelona, de Praga ou de Nova Iorque deveria aplaudir a mesma criação cultural tal como o tal habitante local o faria.
domingo, 27 de setembro de 2009
Fogos circunscritos
As boas notícias deste domingo eleitoral (em Portugal e na Alemanha):
1. O PS perdeu a maioria absoluta
2. O PSD entrou provavelmente em processo de desagregação, caso se reduza a uma simples congregação de interesses e caciques autárquicos. Para quando a criação de um Partido Liberal?
3. Haverá uma maioria de esquerda nas bancadas parlamentares, mas será puramente nominal.
4. O CDS é a 3º força política, afirmando-se como representante da direita não envergonhada e combativa.
5. O PCP continua a transformar as derrotas em vitórias, fazendo lembrar cada vez mais o célebre ministro da informação iraquiano, clamando que os americanos estavam a perder em todo a linha, enquanto os tanques aliados percorriam já as ruas de Bagdad. Seja como fôr, a descida dos comunistas jurássicos para último dos grandes é uma evidência de modernidade.
6. O BE cresceu, mas não o suficiente para conseguir ser um parceiro para uma possível coligação, pois ficou a dois deputados de poder oferecer uma maioria a Sócrates. Passou para 4º lugar, sendo-lhe negado o bronze precisamente pelo CDS/PP, o representante da direita que os bloquistas tanto zurziram. Espera-se também que a sua influência na governação seja pouco mais do que nula. Atendendo também ao ressentimento que a sua campanha agressiva anti-Sócrates gerou no PS.
7. O especial prazer ao ver este BE-travesti-do-PSR a morrer na praia. Imaginando o Dr. Louçã - que ao espelho não parava de perguntar se haveria líder melhor para a esquerda do que ele - aos saltinhos em cima do chapéu, como um personagem do "Amarcord" de Fellini, ou auto-fustigando-se com um chicote oferecido pela Opus Gay.
8. Houve cerca de 100 000 votos em branco, representando 1.75% dos sufrágios, constituindo o sexto "partido" mais votado.
9. Angela Merkel, embora o seu partido tenha baixado a votação, irá governar em coligação com o Partido Liberal.
1. O PS perdeu a maioria absoluta
2. O PSD entrou provavelmente em processo de desagregação, caso se reduza a uma simples congregação de interesses e caciques autárquicos. Para quando a criação de um Partido Liberal?
3. Haverá uma maioria de esquerda nas bancadas parlamentares, mas será puramente nominal.
4. O CDS é a 3º força política, afirmando-se como representante da direita não envergonhada e combativa.
5. O PCP continua a transformar as derrotas em vitórias, fazendo lembrar cada vez mais o célebre ministro da informação iraquiano, clamando que os americanos estavam a perder em todo a linha, enquanto os tanques aliados percorriam já as ruas de Bagdad. Seja como fôr, a descida dos comunistas jurássicos para último dos grandes é uma evidência de modernidade.
6. O BE cresceu, mas não o suficiente para conseguir ser um parceiro para uma possível coligação, pois ficou a dois deputados de poder oferecer uma maioria a Sócrates. Passou para 4º lugar, sendo-lhe negado o bronze precisamente pelo CDS/PP, o representante da direita que os bloquistas tanto zurziram. Espera-se também que a sua influência na governação seja pouco mais do que nula. Atendendo também ao ressentimento que a sua campanha agressiva anti-Sócrates gerou no PS.
7. O especial prazer ao ver este BE-travesti-do-PSR a morrer na praia. Imaginando o Dr. Louçã - que ao espelho não parava de perguntar se haveria líder melhor para a esquerda do que ele - aos saltinhos em cima do chapéu, como um personagem do "Amarcord" de Fellini, ou auto-fustigando-se com um chicote oferecido pela Opus Gay.
8. Houve cerca de 100 000 votos em branco, representando 1.75% dos sufrágios, constituindo o sexto "partido" mais votado.
9. Angela Merkel, embora o seu partido tenha baixado a votação, irá governar em coligação com o Partido Liberal.
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segunda-feira, 7 de setembro de 2009
A fronteira
Há duas fases bem distintas na existência do comum dos mortais. Na primeira, crê-se que as regras são constrangimentos que oprimem. Na segunda, sabe-se, de ciência certa, que elas existem para nos libertar. Refiro-me, naturalmente, às regras enquanto padrões culturais, mais do que normas legisladas. Sendo que, aquelas cuja convicção de obrigatoriedade é mais poderosa, resultam de uma sageza e de uma rotina de polimento negociada através dos tempos. De modo a que, na maior parte das vezes, surjam em contextos com funções e sentidos bastante diferenciados. Percebi também que, perante a evidência, só há duas atitudes possíveis:
1. A sua deposição não concertada, num dado momento, a que se segue a correspondente substituição por uma "nova ordem" redentora. Pelo menos, para as vanguardas esclarecidas, é claro. Como se a narrativa da História que sustenta tal praxis se resumisse a uma longa marcha até ao seu fim, ao fim da História.
2. Ou, então, perceber que essas regras tem elas próprias uma marca genética, a que se poderia chamar caducidade latente. Actuar sobre as regras significaria uma de duas coisas: apressar-lhe o prazo de validade ou, sendo possível, validá-las enquanto forma para uma situação política e social distinta. Mudança que, sendo impossível sem a subsistência da muitas dessas regras, nunca aconteceria a partir delas.
Escusado será dizer que, no primeiro estádio referido, encontramos o marxismo, o fascismo e seus derivados e subprodutos. Trata-se de uma fase embrionária da acção política. Na segunda fase estão os que, como eu, não ignoram que a liberdade é uma filigrana que requer o cuidado de muitas gerações. Precisamente porque esse trabalho, humilde e verdadeiramente audacioso, poderá nunca ficar concluído.
1. A sua deposição não concertada, num dado momento, a que se segue a correspondente substituição por uma "nova ordem" redentora. Pelo menos, para as vanguardas esclarecidas, é claro. Como se a narrativa da História que sustenta tal praxis se resumisse a uma longa marcha até ao seu fim, ao fim da História.
2. Ou, então, perceber que essas regras tem elas próprias uma marca genética, a que se poderia chamar caducidade latente. Actuar sobre as regras significaria uma de duas coisas: apressar-lhe o prazo de validade ou, sendo possível, validá-las enquanto forma para uma situação política e social distinta. Mudança que, sendo impossível sem a subsistência da muitas dessas regras, nunca aconteceria a partir delas.
Escusado será dizer que, no primeiro estádio referido, encontramos o marxismo, o fascismo e seus derivados e subprodutos. Trata-se de uma fase embrionária da acção política. Na segunda fase estão os que, como eu, não ignoram que a liberdade é uma filigrana que requer o cuidado de muitas gerações. Precisamente porque esse trabalho, humilde e verdadeiramente audacioso, poderá nunca ficar concluído.
domingo, 5 de julho de 2009
Contraditório
Por vezes ouço o programa "Contraditório", na Antena 1. Trata-se de uma emissão em formato "debate", com comentadores residentes: Ana Sá Lopes, Carlos Magno e Luís Delgado. Recentemente, fui formando a convicção de que a rubrica já teve melhores dias. Na última emissão discutiu-se a saga taurina de Manuel Pinho, o debate parlamentar sobre o Estado da Nação e o relatório da SEDES, que aponta o estado da Justiça como o principal factor de descredibilização do regime. Pois acreditem que o fórum se saldou por uma mediocridade nunca vista. Os comentadores limitaram-se a debitar lugares-comuns, por vezes a descair para o engraçadismo, sem nunca ir à raiz dos problemas. Ana Sá Lopes, um dos maiores exemplos vivos do politicamente correcto, não descola do discurso da tia da Linha, indecisa entre ir ao psicanalista ou ir a uma reunião feminista. A vacuidade é atroz. Luís Delgado, mais um liberal saído na Farinha Maizena, tornou-se um apoiante de última hora de Sócrates. Tudo isto porque, sendo um santanista, não lhe interessam nem um bocadinhos os louros para Ferreira Leite. Lá vai dizendo umas coisinhas sobre politica internacional com algum interesse. O mais lúcido, apesar de tudo. Por último, aparece Carlos Magno. O homem está em estado de pré-senilidade. Repete-se, não deixa falar os outros. Permanentemente auto-centrado, não esconde um provincianismo que, no Porto, já só usa quem quer. O seu posicionamento político é uma nebulosa de bitaites. Onde o factor territorial, com o Porto no centro de tudo, comanda a vida, como na canção. Depois quer fazer passar um progressismo afinal conservador, muito "anos 60", do género "eu é que estive lá nos anos da brasa", etc. É o típico burguês do Norte, mas sem o brilho, a ilustração, ou aquele cepticismo epicurista que podemos encontrar nas crónicas de António Souza Homem. O que redunda, por vezes, num atavismo inaceitável. Recordo-me do momento em que Ana Sá Lopes relatava a importância que tiveram na AR as redes sociais online, mormente o Twitter, no episódio da demissão de Pinho, após a sua investida. Magno rebateu logo que isso (as redes) era politicamente correcto. Assim, sem mais nada. Em que planeta vive este homem? No conjunto, a argumentação de todos foi paupérrima. No caso da Justiça, limitaram-se a meia dúzia de banalidades, a uma comparação com o sistema judicial americano e se a pena imposta a Madoff tinha sido "correcta". Muito pouco, diga-se. Nunca lhes passou pela cabeça que o maior problema da Justiça se pode encontrar na crónica balcanização pelas várias classes que nela operam?
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Já agora...
Intensificação da co-gestão como fórmula participativa por excelência na condução das empresas; encarar o trabalho como um valor acrescentado na qualidade de vida e realização pessoal e não como uma mera utilidade produtiva; abandono gradual do conservadorismo fiscal, com a adopção da progressividade e de uma taxa a incidir sobre operações financeiras; luta sem quartel contra a burocracia e a ineficácia da administração pública; e, sobretudo, para clarificar o contrato associativo que funda a democracia representativa, não confundir a vontade de todos com a vontade geral...
Eis alguns temas que, na praça pública e nos think tanks mais atentos, poderiam fazer a diferença no debate político e social do momento. E trazidos por quem? Pela esquerda reformista, evidentemente. Pois a outra anda demasiado ocupada a olhar para o passado e a apontar aos "neoliberais" nas barracas de tiro.
Eis alguns temas que, na praça pública e nos think tanks mais atentos, poderiam fazer a diferença no debate político e social do momento. E trazidos por quem? Pela esquerda reformista, evidentemente. Pois a outra anda demasiado ocupada a olhar para o passado e a apontar aos "neoliberais" nas barracas de tiro.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
O arraial
Ninguém porá em causa que, na Guarda, existe uma oferta cultural com bastante qualidade. Quer em termos absolutos quer relativos. Mormente aquela que chega por via do TMG. No entanto, apesar de alguma constância ao nível dos públicos, pesa ainda muito o lastro local da relativa ausência de hábitos regulares de fruição cultural e de uma massa crítica participativa e independente. Realidades estruturais que poderão ainda ser vistas sob outros formatos: a inexistência de uma intermediação crítica entre a imprescindível informação, que acompanha os espectáculos e o simples copy/paste dos press release com que os jornais "noticiam" a cultura. Falta pois o meio termo, que neste caso encerra uma virtude inigualável: indicia uma opinião pública descomprometida e esclarecida, mas que não receia sair das torres de cristal onde alguns iluminados se encerram; mostra os sinais de um espaço público dinâmico, sem receio do contraditório, em que várias verdades coexistem e se vão compondo com urbanidade e audácia.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Polling station
Para finalizar o tema eleições europeias, uma nota final. Foi preciso ler o jornal para ficar a saber que, na próxima legislatura, o número de deputados do Parlamento Europeu irá descer de 785 para 736; qual a arrumação das famílias políticas; porque é que vários deputados que integravam o o PPE formaram um grupo anti-federalista; como Cohn-Bendit apostou numa lsta ecologista europeia, que irá ser a 5ª força política; que há um candidato cipriota que quer criar pequenas cidades utópicas na sua ilha; que a extrema-direita foi a segunda força mais votada na Holanda, etc. Por cá, impera a inanidade intelectual, o lavar da roupa suja, o provincianismo e o grau zero no que ao debate sobre a Europa diz respeito. É pena que não se possam escolher candidatos de outras nações europeias para se votar. Gente com outros horizontes. E porque não? Se são eleições europeias, porque é que os cidadãos eleitores são obrigados a decidir só entre o que lhe é "oferecido" na ementa da casa? Entre a Ilda a recitar as novenas leninistas e o Nuno Melo a dar palmadinhas aos agricultores, venha o diabo e escolha. Entre um Vital a perder gás e a tentar branquear o Freeport com o BPN e um Rangel em serviços mínimos, cruzes canhoto. Um cardápio de trastes, talvez com excepção do Miguel Portas. Portanto, está decidido: vou "votar" no Kostas Kyriakou e nos seus falanstérios cipriotas.
terça-feira, 5 de maio de 2009
Pour Finkielkraut, internet est une poubelle
Finkielkraut, Alain, é um conhecido filósofo francês. Polémico quanto baste nas suas obras e nas crónicas radiofónicas que mantém na France Culture, intituladas "Répliques". Recordo-me de me ter entusiamado sem moderação por uma obra de que é co-autor, com Pascal Bruckner: "A Nova Desordem Amorosa", (Bertrand, 1981). Recentemente, foi convidado a participar num debate promovido pelo "Arrêt sur images". Trata-se de um canal televisivo temático, cujo site funciona também como um agregador de conteúdos com especial incidência nos media e na web. Nesse programa, respondendo a Guy Birembaum, insurge-se contra a internet, considerando-a um "local de anarquia, pronto a contaminar os media tradicionais mais civilizados". Claro que o autor de "A Derrota do Pensamento" deve saber do que fala. É pena que nunca lhe tenha passado pela cabeça inverter o fluxo contaminador, pois é esse sentido de circulação que realmente devia preocupar a comunidade internauta e não só. Certo é que, Alain dixit, o lugar da world wide web é a mentureira (em bom vernáculo luso). Então que viva a mentureira e que vivam os respigadores e os alquimistas, que por lá praticam uma estranha ecologia global e democrática!...
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quarta-feira, 25 de março de 2009
Cultura contra a crise
Mesmo a fechar a navegação, descobri um texto de Manuel Maria Carrilho, intitulado "A cultura contra a crise: para uma refundação das políticas culturais". O artigo foi recentemente publicado no DN e foi apresentado à Fundação Res Publica, no início do ano. Depois de uma leitura mais atenta, aqui farei um comentário.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Lembrete
João Tunes, a quem saúdo, acaba de comentar no seu blogue, de forma bem disposta e simpática, um texto meu intitulado "Há coisas que não mudam". Onde fiz uma espécie de ponto de ordem, a partir de aparentes paradoxos. Ora, numa coisa está enganado, meu caro: não ando com companhias pouco recomendáveis, como afirma em jeito irónico, nem elas estão todas do mesmo lado. Acontece que nesse texto falava de ideias. E de que nem sempre aquilo que parece é mesmo, quando se quer ir um pouco mais além. Verifico que muitas dessas ideias que tenho acolhido, foram criadas e desenvolvidas por autores de outros séculos e outra geografia. Por outro lado, a imagem do mata-borrão, embora sugestiva, que aplica para ilustrar um trajecto intelectual que creio dinâmico, não me parece a mais apropriada. Se tivesse empregue a alegoria da giesta e do pinheiro, sendo eu a giesta, estaria plenamente de acordo. Acontece que já não pertenço à geração do emprego para toda a vida, da casa para toda a vida, do fato para toda a vida, das ideias para toda a vida. E estas, mais cedo ou mais tarde, percebe-se que são ferramentas para um sentido ou para uma convicção. Se for preciso actualizá-las, tanto melhor. Claro que dá mais trabalho. Seja como for, no grupo surgido à volta do "Manifesto de Euston" e na filosofia política de Anthony Giddens, que inspirou a terceira via de Blair, encontrará o meu horizonte político-ideológico actual. No binómio identidade / transgressão o tema único que aplico à arte. Bom Natal.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Há coisas que não mudam
Aos poucos, tenho vindo a acolher um conjunto de ideias e de posições normalmente conotadas à direita. Porque são aquelas que melhor servem aquilo por que luto e de que não abdico. Ajudado, em grande medida, pelo repúdio que dedico ao relativismo ético e à dualidade de critérios adoptados pela esquerda histriónica e ideologicamente enquistada. Por outro lado, se acolho determinada argumentação, não deixo de acentuar o que me separa da direita sociológica, a dos interesses. E mais ainda daquela que só conserva o culto do autoritarismo, o medo atávico da actividade cultural, do conhecimento, da autonomia individual. Porque a arte é o terreno da experimentação, o verdadeiro laboratório da existência. Em suma, aquela que de liberal, no sentido político, tem muito pouco. Aquela que, sem o dizer expressamente, teme o exercício da verdadeira liberdade, fora do paternalismo e da sujeição. Esta última ainda predomina no chamado país real. Na Guarda, por exemplo, triunfa em toda a linha. O discurso das forças partidárias alinhadas à direita prima pela ausência de modernidade, de tensão ideológica, de audácia. Quem ouve as declarações dos seus dirigentes julgará que estamos ainda no PREC. Com a diferença de que os inimigos declarados são agora quem realmente quer essa modernidade, a diversidade, a mestiçagem, a transparência, uma cidadania esclarecida e criativa. Em resumo, o maior inimigo da direita - e não só - na Guarda é, no fundo, a cultura e o que ela representa e promove. Mesmo assim, se o terreno da disputa fosse o ideológico, a política pura, o debate até poderia sair enriquecido. Mas não. Tudo não passa de uns remoques cíclicos contra o desenvolvimento sustentado da cidade, também por via da uma actividade cultural séria e estruturada. Tendo como pano de fundo uma espécie de populismo de vão de escada, que inclui acólitos filo-bímbicos na blogosfera. Vejam-se os argumentos propalados por Ana Manso, a propósito da recente incorporação dos activos patrimoniais geridos pela Culturguarda na sua titularidade. Nada de mais natural. Mas para muita gente há aqui algo de maquiavélico. Como se na Guarda não houvesse questões mais importantes para debater. Todavia, há muito que não ouvia algo tão patético. A afirmação de que só os eleitos podem dispor do património municipal é das coisas mais espantosas que tenho ouvido. Alguém deveria ensinar a esta senhora uns rudimentos de Direito Administrativo e societário. O cosmopolitismo e a requalificação da Guarda, a afronta de haver muita gente que pensa pela sua própria cabeça, são pois os inimigos desta gente. Para eles, a cultura resume-se ao foguetório, ao paternalismo e à fogueira das vaidades. E nada mais.
Voltando ao tema inicial, gostaria de ilustrar o meu posicionamento através de um exemplo que fala por si. Conta-se em poucas palavras. Recentemente, em conversa com um arquitecto da capital, este deu-me a entender que equipamentos como o TMG "na Guarda e noutras cidades pouco populosas" era um "desperdício". E que se podiam "produzir coisas" no domínio da cultura sem equipamentos demasiado exigentes. E sabem qual a filiação partidária deste "entendido"? Vá lá, sentem-se primeiro. Pois bem, o Bloco de Esquerda. Neste dia, percebi que há, pelo menos, dois blocos de esquerda. O deste senhor e do Noutel e o do Miguel Portas. No primeiro caso, confina directamente com o PSD local. Para o caso, interessa que o referido arquitecto - para além de uma notável ignorância acerca do que significa o investimento nas infra-estruturas culturais, na especificidade do seu financiamento e na actividade em si - revela que, por detrás do seu esquerdismo freneticamente chic, existem uma série de preconceitos classistas, centralistas e ideológicos mal resolvidos. Que não conseguem esconder um incomensurável défice cultural, humanista, uma incapacidade em ser genuinamente compassivo com o seu semelhante, um patético progressismo esforçado e supostamente infoesclarecido, uma condição de crybaby dos subúrbios, que nunca conheceu as verdadeiras dificuldades da existência, um tecnocrata disfarçado de turista acidental, um queque deliciado com a condição de burguês, mas com um crachá na lapela que iluda a má consciência, a idiotia ciclotímica, o tique taque da vidinha, sim, a vidinha, a tal que Rimbaud renegou, não quando renegou a sua poesia, mas quando a exumou, na condição de traficante de armas, Rimbaud, connaissez vous, architect?
Resumindo: temos fechada a quadratura do círculo. Uma coisa é a honestidade intelectual. Sem que me julgue dela apóstolo, pelo menos não a disfarço por trás de uma coerência com sabor a teimosia. As boas ideias, as justas, não têm dono nem domínio exclusivo. Uma coisa é a direita ideológica, porventura estimulante. Outra, bem diferente, é a direita sociológica. E esta pode encontrar-se em qualquer parte. Mesmo na direita. E onde quer que a encontre, terei sempre um motivo para me rir dela.
Voltando ao tema inicial, gostaria de ilustrar o meu posicionamento através de um exemplo que fala por si. Conta-se em poucas palavras. Recentemente, em conversa com um arquitecto da capital, este deu-me a entender que equipamentos como o TMG "na Guarda e noutras cidades pouco populosas" era um "desperdício". E que se podiam "produzir coisas" no domínio da cultura sem equipamentos demasiado exigentes. E sabem qual a filiação partidária deste "entendido"? Vá lá, sentem-se primeiro. Pois bem, o Bloco de Esquerda. Neste dia, percebi que há, pelo menos, dois blocos de esquerda. O deste senhor e do Noutel e o do Miguel Portas. No primeiro caso, confina directamente com o PSD local. Para o caso, interessa que o referido arquitecto - para além de uma notável ignorância acerca do que significa o investimento nas infra-estruturas culturais, na especificidade do seu financiamento e na actividade em si - revela que, por detrás do seu esquerdismo freneticamente chic, existem uma série de preconceitos classistas, centralistas e ideológicos mal resolvidos. Que não conseguem esconder um incomensurável défice cultural, humanista, uma incapacidade em ser genuinamente compassivo com o seu semelhante, um patético progressismo esforçado e supostamente infoesclarecido, uma condição de crybaby dos subúrbios, que nunca conheceu as verdadeiras dificuldades da existência, um tecnocrata disfarçado de turista acidental, um queque deliciado com a condição de burguês, mas com um crachá na lapela que iluda a má consciência, a idiotia ciclotímica, o tique taque da vidinha, sim, a vidinha, a tal que Rimbaud renegou, não quando renegou a sua poesia, mas quando a exumou, na condição de traficante de armas, Rimbaud, connaissez vous, architect?
Resumindo: temos fechada a quadratura do círculo. Uma coisa é a honestidade intelectual. Sem que me julgue dela apóstolo, pelo menos não a disfarço por trás de uma coerência com sabor a teimosia. As boas ideias, as justas, não têm dono nem domínio exclusivo. Uma coisa é a direita ideológica, porventura estimulante. Outra, bem diferente, é a direita sociológica. E esta pode encontrar-se em qualquer parte. Mesmo na direita. E onde quer que a encontre, terei sempre um motivo para me rir dela.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
quinta-feira, 15 de maio de 2008
quinta-feira, 2 de novembro de 2006
Eis uma feliz e prometedora iniciativa do Centro de Estudos Ibéricos, Teatro Municipal da Guarda e Associação Agostinho da Silva. O programa poderá ser consultado no site do CEI. Onde poderá ser feita também a inscrição on-line.terça-feira, 12 de setembro de 2006
Vai um chouriçinho?
Mário Soares e Pacheco Pereira estiveram frente a frente na emissão de ontem do Prós e Contras na RTP 1 sobre os acontecimentos do 11 de Setembro.Os espectadores puderam assistir a um fantástico debate entre um fantasma da guerra fria e um pensador contemporâneo, entre um sub-gaulês anti-americano e um adepto da liberdade na tradição de Tocqueville, entre um coleccionador de slogans jacobinos e um investigador com um pensamento notoriamente estruturado, entre uma glória senatorial da república prontinho a negociar com os terroristas e alguém que já percebeu desde a primeira hora que estes terroristas só negoceiam cadáveres e medo, entre um campeão do politicamente correcto que pretende transformar as vítimas em carrascos e os carrascos em vítimas e alguém que sabe bem como o fundamentalismo nasce do medo de ser livre e do ódio a quem o consegue ser.
Pela minha parte, fiquei definitivamente esclarecido sobre o delírio irresponsável e suicidário da esquerda quando encara estes temas. Sou defensor intransigente do laicismo, como única forma de organização política em que as convicções religiosas de todos os indivíduos - ou a sua ausência - podem coexistir, mas nenhuma é imposta. Por isso, este estranho fenómeno de incapacidade de interiorização da perda de que a esquerda padece, sublimado num anti-americanismo para lá de qualquer racionalidade, é algo espantoso. Ora, sendo o Islamismo, tal como é interpretado pelos teocratas, a negação daquele princípio secular básico, escapa-me completamente a simpatia com que a esquerda encara uns milhares de fanáticos em vias de possuirem armas nucleares, sem sequer imaginar que, se os terroristas impusessem a sua vontade, os relógios atrasariam, pelo menos, 800 anos.
Para abrilhantar a festa, comparaceu o extraordinário Yossuf Adamgy - o tal que em tempos defendeu a lapidação de Amina Lawal - afirmando a pés juntos que o 11 de Setembro não existiu. Ver aqui o desenvolvimento. O delirante "pensamento" deste artolas pode de resto ser saboreado nesta citação da sua obra "A Mulher no Islão". Imaginem um meio termo entre os apedrejadores da mulher adúltera no filme "A Vida de Brian" dos Monthy Python e o Diácono Remédios. Aí têm o homem. É caso para dizer: ó pá, vai um chouriçinho?
Nota: nestas alturas ganham peso as teses da conspiração, inspiradas no Professor Zandinga e no "Código da Vinci". Algo entre os resumos do Livro de S. Cipriano e as tendas da feira de Vale de Perdizes. Basta ver o documentário recentemente passado sobre o assunto na RTP 2 e toda a dúvida cessa. Há gente para tudo. E até se ganha bom dinheiro e notoriedade com isso. Portanto, recomenda-se a leitura da divertidíssima proclamação das "Seis teses negacionistas sobre o 11 de Setembro", no "Corta-fitas".
Para abrilhantar a festa, comparaceu o extraordinário Yossuf Adamgy - o tal que em tempos defendeu a lapidação de Amina Lawal - afirmando a pés juntos que o 11 de Setembro não existiu. Ver aqui o desenvolvimento. O delirante "pensamento" deste artolas pode de resto ser saboreado nesta citação da sua obra "A Mulher no Islão". Imaginem um meio termo entre os apedrejadores da mulher adúltera no filme "A Vida de Brian" dos Monthy Python e o Diácono Remédios. Aí têm o homem. É caso para dizer: ó pá, vai um chouriçinho?
Nota: nestas alturas ganham peso as teses da conspiração, inspiradas no Professor Zandinga e no "Código da Vinci". Algo entre os resumos do Livro de S. Cipriano e as tendas da feira de Vale de Perdizes. Basta ver o documentário recentemente passado sobre o assunto na RTP 2 e toda a dúvida cessa. Há gente para tudo. E até se ganha bom dinheiro e notoriedade com isso. Portanto, recomenda-se a leitura da divertidíssima proclamação das "Seis teses negacionistas sobre o 11 de Setembro", no "Corta-fitas".
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