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terça-feira, 29 de novembro de 2011
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Agenda Novembro
Desde sexta-feira, já anda por aí o 2º número da agenda da Guarda (Novembro). Produzida pela CulturGuarda, inclui a oferta instalada e de programação existente na cidade, no período em referência. Dispõe de uma organização temática que inclui a cultura nas suas várias vertentes, encontros / conferências / debates, desporto, formação, feiras e festas, "para os mais novos" e informação útil diversa, com destaque para a restauração e hotelaria. Para facilitar a consulta, acompanha um cronograma e um mapa sinalizado do centro da cidade. Uma ferramenta indispensável para os cidadãos residentes, visitantes, instituições, ou simples curiosos que, em menos de 10 minutos, quiserem ficar a par do que se passa na cidade e nunca ousaram perguntar. Mas para lá da sua óbvia utilidade, a existência de uma agenda como esta pressupõe uma série de benefícios, alguns dos quais passo a enumerar: centralização e sistematização da informação recolhida; maior atenção em relação à sobreposição de eventos, promovendo a sua coordenação prévia; sensibilização dos agentes empresariais e instituições locais para uma divulgação mais criteriosa e uma oferta mais diversificada de produtos e serviços; funcionamento em rede; reforço da identidade local; espaço ideal para quem quer divulgar eventos de menor dimensão e não tem outros meios para o fazer...
Este número está disponível aqui, ou mensalmente a partir do link no sidebar deste blogue. Quem avisa, amigo é...
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sexta-feira, 22 de abril de 2011
Aniversário
Contam-se pelos dedos de uma só mão as vezes que, neste blogue, se fazem postagens como esta. Ora, é sabido que o valor anda de mãos dadas com a raridade. Com umas escapadelas estatísticas pelo meio. Mas vamos ao que interessa. O senhor da fotografia, para quem não sabe, chama~se Américo Rodrigues. Faz hoje precisamente 50 anos. É um amigo dentro e fora deste blogue. E um cúmplice de longa data do escriba, em inúmeros "crimes" de lesa-cultura, nesta cidade da Guarda. Arrasta consigo uma carreira artística e profissional invejável. Mas, não menos importante (vou ter que repetir isto, mas o que é que se há-se fazer?), é o maior responsável pelo facto de a Guarda ter um acesso digno à cultura, ter escapado ao mofo clerical e burguês novecentista, conseguir por vezes um cheirinho de cosmopolitismo, ser uma referência nacional em matéria de política cultural. Não acreditam? Olhem que é mesmo verdade verdadinha! Ora, no dia 25 de Abril vai-lhe ser entregue, pela Ministra da Cultura, a Medalha de Mérito Cultural respectiva. Nem a propósito! Parabéns Américo e que contes muitos!...
quinta-feira, 7 de abril de 2011
A arte da fuga
A fuga tem duas predestinações mais ou menos aceites pelo imaginário popular: a evasão penitenciária e o itinerário da consumação plena de alguma paixão fulgurante, que não espera pela aprovação das circunstâncias onde nasceu. Ambas são depositárias da rêverie romântica, ao jeito de Dumas, ou Camilo, respectivamente. No entanto, só a segunda encerra o núcleo essencial do amor trovadoresco. Ou seja, a representação do amor tal como o Ocidente o conhece, nascida algures na Provença do séc. XII. O maior problema destas movimentações, antes feitas a cavalo e hoje perfeitamente motorizadas, é que ninguém fala do local de chegada. Nada se sabe do que aconteceu "depois". Ou seja: o normal é dizer-se: "fulano e sicrana (ou fulano e sicrano, ou sicrana e fulana, sim, é melhor ampliar as variáveis politicamente correctas, não vão as associações "do sector" cair-me em cima) fugiram os dois anteontem, abandonando tudo". Descontado o pleonasmo da última parte, raramente o local de chegada, ou o desenvolvimento da história romanesca, são tema de conversa, ou mesmo objecto de curiosidade. Porque será? Pudor? Seria bom demais. Desinteresse? A proliferação de romantismo de cordel e das revistas cor de rosa desmentem a hipótese. A minha aposta vai para outra possibilidade, aparentemente menos óbvia: o mito do "foram felizes para sempre" impõe aqui a sua cortina de silêncio cúmplice. É que, se a fuga denota arrojo, também comporta um risco. E quem se arrisca não o faz sem uma determinação acima do cálculo e à margem da decepção. E não é menos verdade que o heurístico "happy end" é a homenagem possível que a resignação videirinha dedica à grandeza. Ou que uma curiosidade indisciplinada consagra ao que já pertence a uma ficção demasiado próxima da realidade. Portanto, para todos os efeitos, "viveram felizes para sempre". Porquê? Don't ask, don't tell!. Caso encerrado.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
A guerrilha não passará!...
A Fundação Trepadeira Azul, instituição que tem desenvolvido um trabalho notável sobretudo em áreas ambientais, está sediada na Quinta de Santo António, freguesia de Aldeia viçosa, concelho da Guarda. No passado domingo, aí promoveu um concerto de música erudita, pelo grupo "Capela Egitanea". Porém, quem ao local acorreu, deparou-se logo à entrada do recinto com uma situação insólita: o Presidente da junta de Freguesia Local, Baltasar Lopes, acompanhado de alguns comparsas e completamente alterado, gesticulava e vociferava contra a realização do concerto, anunciando o seu boicote ao som das vuvuzelas. Ao mesmo tempo, ameaçava a Direcção da Fundação com represálias de todo o tipo. E até o público que se dispunha a assistir ao espectáculo. As "razões" apresentadas pelo edil para o seu comportamento diziam respeito a questões judiciais passadas, havidas entre a Junta e a Fundação. Pelo caminho, ia erguendo uma série de impedimentos administrativos, completamente infundados, à realização do concerto. Apesar dos repetidos apelos à contenção, o autarca manteve o seu propósito. De modo que as vuvuzelas se fizeram soar ao longo do espectáculo. O desenrolar dos factos foi presenciado pela GNR, chamada ao local, mas que nada fez para impedir o sucedido.
Entretanto, a história é denunciada no dia seguinte pelo Américo Rodrigues no seu blogue "Café Mondego", cujo texto convido a ler. Como verão, os factos são relatados na primeira pessoa, pois o autor esteve presente no concerto e são recheados de abundantes pormenores.
Mas o episódio não termina por aqui. Logo na terça feira, Baltasar Lopes apresentou uma "proposta" na sessão respectiva da Assembleia Municipal (de que é membro por inerência, sendo presidente de uma Junta de Freguesia, para quem não sabe), no sentido de ser diminuído em 20% o apoio da Câmara ao Teatro Municipal da Guarda. A proposta foi posta à votação, tendo sido aprovada com os votos de toda a oposição e parte do PS. Não enquanto resolução, mas como "recomendação". Sem qualquer propósito vinculativo para o executivo, portanto. Durante a discussão, houve ainda tempo para um "iluminado" presidente de junta fazer incluir na proposta o encaminhamento da verba assim "recuperada" para as Juntas de Freguesia. Até ao momento, não houve ainda qualquer reacção por parte da estrutura concelhia do PS. Sabendo-se que Baltasar Lopes, embora independente, foi eleito com o apoio dos socialistas. Por outro lado, Américo Rodrigues denunciou o episódio em primeira mão e da forma veemente que se lhe reconhece. O que levou a que fosse visado de duas formas: como Director do TMG, pela insólita iniciativa descrita; pessoalmente, através de insultos e ameaças que afirma ter recebido a partir de então.
Algumas ilações:
a) O caso, embora aparentemente possa ser remetido para o fait divers pitoresco, reveste-se de alguma gravidade. Sendo urgente uma tomada de posição por parte da Câmara e da Concelhia do PS. Retirar a confiança política ao autarca é o mínimo que se exige. O normal seria exigir a sua demissão, ameaçando-o com uma auditoria às contas da praia fluvial.
b) Por outro lado, sabe-se que a deliberação da AM, seja qual for a sua forma, não terá quaisquer efeitos práticos. O órgão não tem competência para alterar orçamentos devidamente aprovados de uma empresa municipal, a Culturguarda. Mesmo assim, é incompreensível como proposta tão descabelada foi aprovada. As razões do proponente são claras: têm as dimensões precisas de uma vingançazinha pessoal de quem não suporta ver-se posto em causa. E de quem usa um órgão autárquico, que integra por inerência de funções, como caixa de ressonância dos seus ressentimentos pessoais. De resto, as repetidas facécias do autarca ajudaram a compor a sua imagem de marca: a do cacique trauliteiro e populista. É altamente improvável que os verdadeiros motivos do edil fossem conhecidos de quem votou favoravelmente a proposta. Que integrou toda a oposição e os Presidentes de Junta do PS. A história é contada aqui pelo AR.
c) O resultado e a composição da maioria que aprovou a proposta não me surpreendem. Por dois motivos: 1º Na Guarda, para além do conhecido populismo associado ao eleitorado tradicionalista de direita e dirigentes dos partidos e instituições que o representam, existe um outro. Trata-se do populismo promovido por certos partidos da chamada esquerda. Que vivem do soundbite miserabilista, de uma superioridade moral que ninguém lhes outorgou e do engraçadismo de circunstância. Associando a cultura ao despesismo e ao desperdício. Ou quando muito, a som de fundo da "revolução". Não porque realmente acreditem nisso, mas por razões de mera estratégia eleitoral. 2º Ficou evidenciado que a maioria dos presidentes de Junta vivem amarrados às suas clientelas e à sua "influência". Não apresentando qualquer estratégia que ultrapasse a sua sobrevivência política. A alteração efectuada à proposta inicial, que faz lembrar a repartição de um saque, fala por si.
d) O TMG é uma peça essencial para a afirmação e desenvolvimento da cidade. Não vou aqui repetir as razões que tantas vezes referi. Aqui, por exemplo. O que interessa, por agora, é focar na noção de que o Teatro Municipal é uma instituição modelar, com provas dadas e, em cada ano que passa, crescentemente acolhido pela cidade no seu imaginário. Claro que não esta isento, bem pelo contrário, da avaliação política nos órgãos próprios, da avaliação do próprio público e do benchmarking. Outra coisa é admitir ou compactuar com esta espécie de terrorismo, que desprestigia as instituições, pode colocar em causa políticas de longo prazo assumidas pela autarquia e cria um ruído completamente à margem do que interessa debater.
Conclusão:
É fundamental não só que a Câmara se demarque desta "recomendação" e de quem a propôe, como também reafirmar a sua aposta na actividade cultural como factor estratégico de desenvolvimento local. Sobretudo agora que se percebeu que, embora para muitos seja esta a aposta certa, ainda não o é para todos. O que não é necessariamente mau. Sabendo-se que as opções políticas de risco são as únicas dignas desse nome.
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terça-feira, 11 de maio de 2010
Acerca do ópio para o povo
E pronto, depois do Futebol, já só falta falar de Fado e de Fátima para compor a tríade revivalista, que muitos entendem ter sobrevivido na Democracia. Mas de Fado não me lerão por aqui uma linha que seja. Prefiro ouvi-lo, simplesmente. De preferência, em locais pouco recomendáveis. Sobre Fátima, coloco-me tão só no terreno da História. Outras paragens são escorregadias e invioláveis. Seja como for, não creio que a trilogia signifique hoje o mesmo, ou tenha o mesmo peso que já teve. Para já, importa dizer que, tirando as décadas de 1830 e 40, quando as principais reformas liberais liquidaram o Antigo Regime, nunca o país mudou tanto e tão depressa como nos últimos 30 anos. E essas mudanças abrangem muito mais do que simples grandezas estatísticas... Mas será que esta transformação deixou intocados determinados sistemas de representação colectiva, de que a tríade é o exemplo máximo? A resposta, a meu ver, não é linear. E aqui, socorro-me de um comentário que já deixei noutro local, sobre o mesmo assunto. É que o cerne do problema não está nessas manifestações, mas na forma como são instrumentalizadas. Todos os regimes e sistemas políticos necessitam de signos (uma estética, uma linguagem, uma narrativa, um conjunto de representações simbólicas) que o legitimem. Todos, sem excepção. Até as democracias. E um pouco forçado apresentar a tríade dos 3F como uma criação exclusiva do Estado Novo. Fátima nasceu antes, como uma reacção do país rural contra os desmandos anti-clericais da 1ª república, a profunda crise económica e política que se deu após a nossa entrada na Grande Guerra e a síncope moral que esta infligiu. O Fado é muito, muito mais do que a canção oficial do Estado Novo. Sobra o Futebol. Trata-se de um fenómeno universal, um ersatz da agressividade e da competição, que assim ganharam um meio pacífico e viável de se expressarem, sob forma lúdica. Também há quem veja em certos momentos de bom futebol a inteligência em movimento. Mas essa análise ficará para depois. Foram instrumentalizados pelo Estado Novo? Sim, mas podia ser de outra maneira? Não conheço nenhum regime - do espectáculo concentrado ou difuso, utilizando a terminologia de Debord, ou noutra perspectiva, pré-industrial ou hedonista, segundo Pasolini - onde esse tipo de apropriação não tenha acontecido. Acabei de ver o magnífico documentário "Fantasia Lusitana", de João Canijo. Através dele, percebi que a gigantesca encenação que o Estado Novo criou de si mesmo, recorrendo à recomposição fantasista dos mitos do passado para serem projectados no presente, não foi sequer original. A originalidade, no contexto delicado e apocalíptico da II Guerra, foi ter transmutado a nossa insignificância numa grandeza oficial tão solene quanto ecuménica. Espectáculo para dois públicos distintos, é bom dizer-se: internamente, capaz de insuflar um orgulho desmedido num país pobre, atrasado e infantilizado. Para o exterior, criando a imagem de um oásis de paz, tolerância e universalismo. Uma neutralidade festiva, um arranjo floral para que as potências beligerantes, julgando-nos loucos simpáticos e exóticos, nos tomassem tão entretidos com a sua celebração que, por decência, ou talvez por compaixão, não nos interrompessem o desfrute desse delírio. Por falar em tríade, creio que a outra bem conhecida - Deus, Pátria, Autoridade - talvez se aproxime mais da verdade para definir o Estado Novo.
A máxima dos 3F foi pois uma espécie de adorno omnipresente no cenário do Portugal dos Pequeninos, criado pelo regime para se amparar e justificar. A melodia certa para a canção com que o país foi embalado durante meio século. Mas foi só isso, um instrumento. Na democracia, por razões óbvias, está muito longe desse desiderato. Aqui, cada um dos vértices tomou caminhos diferentes. A religião transformou-se progressivamente numa questão privada e o laicismo tornou-se uma realidade inquestionável. O Papa movimenta multidões, não enquanto expressão de fé, mas como puro espectáculo. O Fado ganhou merecidamente a condição de género musical nacional (embora não oficial), enriquecido com novas experiências e contributos díspares, que só a liberdade tornou possível. O Futebol, por sua vez, veio a ser um exemplo de sucesso da indústria do entretenimento, de acordo com um modelo empresarial e com a utilização intensiva dos media. Mas tornou-se também palco para reivindicações políticas locais e regionais. Impôs uma redoma à sua volta, que o protege da fiscalização dos poderes constituídos, criando assim uma espécie de imunidade, onde impera uma lógica de funcionamento diferente do resto da sociedade. Mas se, no caso do futebol, se pode falar com propriedade em instrumentalização pelo poder, ela é mais visível a nível local. Juntando no caldeirão as relações com o sector da construção civil, temos uma mistura explosiva. Mas onde as diferenças se fazem notar com maior acuidade é nos meios financeiros que o futebol movimenta. Sobretudo nos clubes de topo, passou-se de um modelo associativo para as SAD, onde os activos financeiros, os direitos televisivos e o merchandising são determinantes. Portanto, se no Estado Novo o Futebol foi convenientemente utilizado pelo regime para fins propagandísticos e domesticação da natural conflitualidade, na Democracia aparece como um fenómeno de massas incontornável, um espelho da sociedade, incluindo o seu lado perverso.
A máxima dos 3F foi pois uma espécie de adorno omnipresente no cenário do Portugal dos Pequeninos, criado pelo regime para se amparar e justificar. A melodia certa para a canção com que o país foi embalado durante meio século. Mas foi só isso, um instrumento. Na democracia, por razões óbvias, está muito longe desse desiderato. Aqui, cada um dos vértices tomou caminhos diferentes. A religião transformou-se progressivamente numa questão privada e o laicismo tornou-se uma realidade inquestionável. O Papa movimenta multidões, não enquanto expressão de fé, mas como puro espectáculo. O Fado ganhou merecidamente a condição de género musical nacional (embora não oficial), enriquecido com novas experiências e contributos díspares, que só a liberdade tornou possível. O Futebol, por sua vez, veio a ser um exemplo de sucesso da indústria do entretenimento, de acordo com um modelo empresarial e com a utilização intensiva dos media. Mas tornou-se também palco para reivindicações políticas locais e regionais. Impôs uma redoma à sua volta, que o protege da fiscalização dos poderes constituídos, criando assim uma espécie de imunidade, onde impera uma lógica de funcionamento diferente do resto da sociedade. Mas se, no caso do futebol, se pode falar com propriedade em instrumentalização pelo poder, ela é mais visível a nível local. Juntando no caldeirão as relações com o sector da construção civil, temos uma mistura explosiva. Mas onde as diferenças se fazem notar com maior acuidade é nos meios financeiros que o futebol movimenta. Sobretudo nos clubes de topo, passou-se de um modelo associativo para as SAD, onde os activos financeiros, os direitos televisivos e o merchandising são determinantes. Portanto, se no Estado Novo o Futebol foi convenientemente utilizado pelo regime para fins propagandísticos e domesticação da natural conflitualidade, na Democracia aparece como um fenómeno de massas incontornável, um espelho da sociedade, incluindo o seu lado perverso.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Festival "Olhares sobre o Mundo Rural"

Promovido pelo Cineclube da Guarda, este ano em parceria com a Associação Luzlinar (Feital, Trancoso), este certame tem como tema, na sua quarta edição, “Fronteira e Memória”. Irá realizar-se no Teatro do Convento, em Trancoso, um edifício quinhentista recentemente remodelado para albergar eventos culturais. Esta edição conta, na sua programação, com o precioso apoio do realizador Pedro Sena Nunes, de quem vão ser apresentados dois filmes, um deles, “Tourada”, pela primeira vez. Destaque também para a exibição de “Cordão Verde”, de Hiroatsu Suzuki, recém nomeado para o Festival de Locarno, na secção “Ici et Ailleurs”. Pretende-se, mais uma vez, aprofundar a troca de perspectivas cinematográficas sobre a ruralidade, os seus códigos, as suas margens, as suas dinâmicas, a sua função de conservação das memórias e das identidades. Serão exibidas obras nacionais e duas do outro lado da fronteira, ao longo de dois dias de cinema, debates e uma mini feira do livro.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
A ferida
Por vezes, o narcisismo descontrolado encontra o seu terreno de eleição. Ou seja, aquilo que, à falta de melhor, se poderia chamar a "arte". Não como um meio de criação de valor, claro está. Ou de humilde aproximação à caótica e evanescente trepidação da vida. Ou como um encontro a que não se pode fugir. Esses são atributos da arte sem aspas. O auto proclamado "artista" resume a arte a um espectáculo onde a estridência (a sua) faz as honras da casa. À sanha onde toma a outra arte, a autêntica, como um terreno de luta pela sua afirmação pessoal. Ou seja, uma continuação da política exactamente pelos mesmos meios. Porém, com um subtil toque de Midas: vendida como coisa diferente, certificada, prestigiante. Mas se assim é, o "artista" pode tardar a assumir abertamente o seu verdadeiro animus dominii - o exercício alucinado de um pequeno poder num círculo blindado - mascarando-o, provisória, mas eficientemente, com a inimputabilidade da sua condição de "artista". Desta forma, porque não diz ao que vem, o seu mérito artístico nunca chega a ser escrutinado, porque encarado como simples labor político. Porém, no fundo, o "artista" narcísico vive cercado pelo medo: da escassez do aplauso, da isenção de quem pensa fora da matilha, da usura do tempo. E, sobretudo, desdenha a liberdade do criador que sabe onde está o verdadeiro poder. Ou seja, precisamente na ignorância, na disponibilidade incondicional para a brincadeira. O multi-artista, pelo contrário, leva-se totalmente a sério. O aplauso é o múnus dos que o cercam. Não sabe que, na verdadeira arte, o oficiante deixa-se morrer um bocadinho. Na condição de simples agente de um fulgor que não é seu, mas que todavia faz brotar. Nada de novo, portanto. Os pequenos totalitarismos só diferem dos grandes pelo número de caracteres que lhe dedicam os compêndios de história.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
A sagração
Ontem assisti ao filme "Coco Chanel e Igor Stravinsky", de Jan Kounen. Um registo competente e seguro quanto baste. Mas não é para uma apreciação crítica genérica do filme, do seu enredo romanesco, que aqui venho. Traz-me simplesmente a sequência inicial, relativa à estreia do ballet "Le Sacre du Printemps", no Théatre des Champs-Elysées, em Maio de 1913. Ou seja, da obra mais emblemática de Stravinsky, coreografada na ocasião por Nijinski. Tratou-se de um célebre espectáculo, que provocou um enorme tumulto na assistência, maioritariamente indignada. E que requereu mesmo a intervenção da polícia, pois o cenário na plateia estava a parecer-se perigosamente com uma épica rixa de saloon. Só dez anos depois a obra foi devidamente apreciada pelo público, após apresentação no mesmo local. A gorada estreia suscitou-me um sem número de reflexões. Sobretudo porque vivemos num tempo que consagrou a cultura de massas, a confusão fatal ente cultura e lazer, num território simbólico fundamental, onde a noção de consumo já não faz sentido, mas o "devir com". A indiferença "normalizada" perante os produtos saídos da indústria cultural, assim como a relativa banalização do gesto criativo, diante da auto-complacência e de uma subsidiação pública sem critérios consistentes, compõe o resto do quadro. Hoje em dia, ninguém iria patear uma obra que considerasse ultrajante ou fora do cânone. Diria simplesmente que foi "interessante", depois de abandonar a sala a meio, com medo de parecer um bota de elástico. Mas sendo este relativismo acrítico uma doença contemporânea, limitou-se, no fundo, a substituir outras, igualmente nocivas, embora mais compreensíveis, porque relapsas ao "deixa andar". O que aconteceu naquele dia de Maio de 1913 foi prodigioso! O séc. XIX e o séc. XX encontraram-se pela primeira vez cara a cara, sem subterfúgios. Com as suas linguagens inconciliáveis. O caos a irromper pela estabilidade anafada de um mundo que iria ruir no conflito que se seguiria, um ano depois. Não consigo imaginar, por muito que tente, o choque que provocou naqueles cavalheiros vitorianos da Belle Époque aquela energia vital selvagem, nitzschiana, aquela trepidação ciclotímica das figuras animadas pela música de Stravinsky. Que inauguraram, nesse preciso momento e de pleno direito, a modernidade plena. O que se passou foi como que o encontro, nada pacífico, de dois mundos. E ao contrário de outros, mais amistosos, nem sequer teve a pena de um Pero Vaz de Caminha para o imortalizar. Creio, porém, que o filme veio colmatar essa lacuna. Não sei se a expressão terá aqui inteiro cabimento, mas vou arriscar: "e nada mais seria como dantes"...
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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
O fio
Hoje às 18.00 horas, na BMEL, na Guarda, serão lançados, de uma assentada, 5 novos cadernos da colecção "O Fio da Memória". Eis um título particularmente feliz, como já tive ocasião de aqui afirmar. Que remete para a compressão dos vários planos de uma narrativa, como que "apanhados" por uma teleobjectiva que nos puxa para o fundo, para o abismo, para o poço do tempo. Porém, simultaneamente, homenageia as infinitas circunvalações desse mesmo tempo, convida a determo-nos nelas, a tratá-las com desvelo, frágeis pontes que unem margens que mais nada conseguirá aproximar. Voltemos porém à quíntupla apresentação. Sendo co-autor de dois cadernos - "Julgamento e Morte do Galo do Entrudo - 2009" e "Aquilo Teatro" - irei estar na mesa. O primeiro serviu de base para o espectáculo de Carnaval que percorreu este ano as ruas da cidade. O segundo resulta de um convite feito por aquela instituição para um relato acerca da experiência pessoal no grupo. Neste caso, a empresa foi algo complicada, dadas as memórias conflituantes. É que, apesar do percurso épico dos cadernos de poesia, de uma profícua cumplicidade pessoal e artística, de um ano à frente da Direcção, em 2004 veio a separação das águas. Após mais um ano na direcção, onde procurei adiar o inevitável, com enormes custos pessoais, acabei por sair do grupo em 2007. Estou curioso em saber se, na publicação hoje apresentada, haverá um relato verdadeiramente corajoso e honesto por parte de alguns. É que o percurso da memória também está cheio de becos e sinuosidades de conveniência.
Nota: teria preferido que me convidassem para escrever o caderno sobre a icónica "Taberna do Benfica", apesar de a respectiva autora ter sido naturalmente a escolha acertada para o efeito.
Nota: teria preferido que me convidassem para escrever o caderno sobre a icónica "Taberna do Benfica", apesar de a respectiva autora ter sido naturalmente a escolha acertada para o efeito.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
A idade dos porquês - 7
Porque é que se criou a ideia de que os habitantes das pequenas e médias povoações têm que gostar obrigatoriamente de tudo o que é produzido localmente? Falo especialmente da oferta cultural, mas poderia referir-me também a queijos, ou a cobertores, ou a jornais. É claro que as "coisas da terra" despertam sempre uma natural curiosidade, do tipo benevolente, uma atenção particular, um orgulho magnânimo. Mas é fundamental ir para lá das armadilhas da auto-complacência, atravessar o simples brio paroquial. De modo a perceber que um espectador de Barcelona, de Praga ou de Nova Iorque deveria aplaudir a mesma criação cultural tal como o tal habitante local o faria.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
A idade dos porquês - 6
Porque é que, para além da complacência, a criação cultural tem outro inimigo de peso: o amiguismo? O amiguismo, em versão low tech, resume-se a uma troca acrítica de favores, cumplicidades, apreciações invariavelmente positivas, em circuito fechado, sem qualquer distanciamento, aos unanimismos paroquiais, às clássicas palamadinhas nas costas e que mais tarde são cobradas com juros... Eis o cardápio dos piores cancros da cultura e um alarmante sintoma de provincianismo...
terça-feira, 6 de outubro de 2009
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Gavotte (5)

Até agora, a análise da obra cingiu-se ao universo da narrativa, ao enredo, às perplexidades de um tempo e de um regime: o nacional-socialismo. Faltava ainda colocar a pergunta fundamental: como foi possível "aquilo" no país que amava Schubert e idolatrava Goethe? O que levou a que a Bildung, ou seja, a seriedade e o radicalismo espiritual da cultura alemã, a sua modernidade, tenham conduzido à barbárie? Para tentar responder, necessário se torna tomar algumas precauções. É que uma coisa é falar do colapso moral de Auschwitz e outra, bem distinta é descrever uma tradição literária e moral que desaguou em Auschwitz. Mas que podia ter originado outra experiência, menos radicalizada do que o fantasma totalitário que se apoderou da Europa durante os anos 30 do século passado. Da Europa e não só da Alemanha, é bom repetir. As conexões entre causa e efeito colocam sempre uma questão muito delicada na construção do relato histórico. Em primeiro lugar, porque tendem a introduzir um elemento de necessidade onde impera, se não a liberdade, pelo menos o acaso. Depois, porque levam a que todo um processo apareça retroactivamente sobrevalorizado por um facto que essa sobrevalorização encara como fatalidade. O excesso de telos retrospectivamente reconstruído distorce o sentido típico, aleatório, polivalente, dos fenómenos que o presente vai produzindo. Convertendo essa vastidão numa imensa flecha que converge num único lugar: o grande centro de gravidade que se apodera do relato e, quiçá, da sua própria veracidade. É um trabalho de grande perspicácia aquele que se exige ao historiador: distinguir entre as causas realmente relacionadas, os elementos contingentes e os elementos completamente livres que configuram a base das suas hipóteses. Salvando-se assim do poder de atracção que certos factos exercem sobre esse material. Não há fatalismos na História. As tendências anteriores aos factos devem ser interpretadas com muita cautela. Sobretudo se essas tendências implicam uma leitura tendenciosa. Talvez seja desta tentação que a obra nos pretende prevenir. Usando de uma suprema elegância romanesca. Auschwitz e o nazismo funcionam, sem dúvida, como um campo magnético, capaz de condicionar muitas leituras. Mas é esse precisamente o triunfo póstumo dos nazis. Sobre o qual haverá que reflectir sem preconceitos. Não porque, de facto, se trate de uma vitória póstuma, mas porque é de acolher a possibilidade de que uma coisa - a cultura literária e moral alemã dos séculos XVIII e XIX - não tenha nada a ver com outra - o holocausto, o totalitarismo e a guerra de extermínio. E aqui convém distinguir: uma coisa é a afirmação de Adorno acerca da impossibilidade da poesia depois de Auschwitz e outra, bem diferente, é a obscuridade que Auschwitz projecta antes de si, retroactivamente. Transformando a construção da modernidade cultural na Alemanha como um caminho até ao holocausto. Essa sobredeterminação dos factos em função de um fim, tão monstruoso quanto ilógico, converte-os em algo que participa dessa irracionalidade, em algo inútil do ponto de vista da visão da Bildung alemã como um processo com potencial civilizador. Na verdade, esta não tinha esse propósito, no sentido pacificador, pluralista e democrático a que tendemos a associar a ideia de civilização. Uma ideia supostamente francesa, que aparece contraposta a um conceito bem alemão: a Kultur. Ora, a função desta não era tornar as pessoas melhores, satisfazer a utopia de uma cultura emancipadora, humanista, mas sim tentar evitar que algumas delas não soçobrassem no processo de individuação e socialização.
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Gavotte (6)

Ainda e sempre a propósito de "As Benevolentes", cabe desenvolver um pouco mais e concluir a análise do significado particular da Bildung alemã.
Antoine Berman, em Bildung et Bildungsroman, ("Formação cultural e romance de formação"), fornece as pistas. Segundo ele, "A palavra alemã Bildung significa, genericamente, "cultura" e pode ser considerado o duplo germânico da palavra Kultur, de origem latina. Porém, Bildung remete para vários outros registos. Utilizamos Bildung para falar no grau de "formação" de um indivíduo, um povo, uma língua, uma arte. E é a partir do horizonte da arte que ela se determina, a maioria das vezes. A palavra alemã tem uma forte conotação pedagógica e designa a formação como processo. Por exemplo, os anos de juventude de Wilhelm Meister, no romance de Goethe, são os seus Lehrjahre, onde ele aprende somente uma coisa, sem dúvida decisiva: aprende a formar-se (sich bilden)". Nem de propósito, o processo de formação intelectual e moral de Max, até um certo ponto, parece decalcada da obra de Goethe. A vastidão do seu conhecimento é surpreendente, como mais atrás referi. Todavia, a Bildung aparece igualmente associada à noção de trabalho. No sentido que, mais tarde, Hannah Arendt deu à palavra labor. Ou seja, a acção prática. Como salienta o autor citado, " Enquanto trabalho, Bildung é formação prática, formação de si pela formação das coisas. No famoso capítulo da Fenomenologia do espírito de Hegel, a dialética do Senhor e do Escravo, a consciência escrava liberta-se por um processo de formação: à medida que a consciência trabalha formando as coisas em seu redor, ela forma-se a si mesma."
Retomando o tema central, não creio que seria apropriado apelar ao wagnerianismo de Hitler. Mas se prescindirmos desse tópico, poderia sempre pensar-se que Hitler não viu nas óperas de Wagner o que há realmente nelas. Que o seu olhar empobrecido pelo anti semitismo - esse "socialismo para idiotas", como alguém lhe chamou - não captou tudo o que Wagner colocava nelas. O espantoso caso alemão consiste, porventura, em forçar a perplexidade humanista até convertê-la numa espécie de argumento para uma narrativa histórica. Como é possível que os alemães, tão cultos, incorressem na barbárie e no extermínio de milhões de pessoas? Essa continua a ser a pergunta básica desta análise. Todavia, ela encerra um pressuposto perverso: se a cultura implica (ou deveria fazê-lo) elevação moral, então poderíamos considerar todas as pessoas incultas como moralmente irresponsáveis, ou inferiores, ou simplesmente incapazes. A cultura e a moral são variáveis que não têm necessariamente que justificar-se entre si. E nem sequer são realidades que tenham que cruzar-se. Todos os que estranham que se faça um link de Schubert a Auschwitz pensam provavelmente que alguém inculto seja mais apropriado para fazer de algoz. Devem então escandalizar-nos menos as matanças do Ruanda, em 1993, do que a "solução final", só porque foram praticadas por gente sem a Bildung ocidental e humanista? Esse é um caminho muito perigoso, que permite o regresso de fórmulas racistas, encapotadas de boa consciência. É como se assumíssemos que é próprio de bárbaros ser bárbaros. Mas nós, que somos tão civilizados, como pudemos chegar a "isto"? Simplesmente porque a lógica cultural acompanha a barbárie, mas não a pode impedir. O que impede a barbárie é outra coisa. A bondade e a generosidade não passam por Schubert. Claro que este não as exclui. Todavia, não as consegue garantir. Os juízos morais não dependem, nem se nutrem, da sensibilidade estética. Respondem a outra ordem de coisas, não direi mais complexa, mas substancialmente diferente. Portanto, o assombro não é como se parte de Beethoven e se chega a Auschwitz, mas por alma de quem se há-de concluir que o facto de alguém gostar de Beethoven ou de Novalis deveria torná-lo melhor pessoa! Hannah Arendt, num artigo intitulado precisamente "A crise da cultura" explica muito bem a história do filisteísmo cultural. A certo passo, refere que o grande erro de uma burguesia cultivada foi crer que, realmente, a poesia, o teatro, a filosofia, a música, a poderia tornar melhor do que era. A anti-arte, preconizada pelo dadaísmo em 1917, fora já um aviso de que essa cultura filisteia só havia ensinado melhor aos burgueses a morrer e a matar em massa. O nacional-socialismo veio dar-lhes toda a razão, da forma trágica que se conhece. E se é verdade que Hitler disse nos seus últimos dias que "o povo alemão demonstrou não ser digno de mim", então pode afirmar-se que o síndrome do artista incompreendido derramou o seu último fulgor, de uma aberrante e profunda coerência. Bem no centro da devastação produzida pelo seu pior sonho: o Estado como obra de arte totalitária.
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sexta-feira, 10 de julho de 2009
Acabei de efectivar um post sobre a Guarda
Lendo alguns blogues locais e ouvindo algumas opiniões, parece que o exercício da crítica na Guarda se tornou um pecado, digamos, venial. Exigindo-se, implicitamente, uma consensualidade e uma auto-complacência que, normalmente, conduzem ao umbiguismo e ao definhamento adiado. A palavra "parece", que atrás utilizei, não foi por acaso. Claro que ninguém se coíbe de comentar episódios da vida pública. E nem é esse facto que está aqui em causa. O problema está a montante: na desinformação por vezes veiculada pela comunicação social local; na descontinuidade entre a opinião que se tem em privado daquela que, sendo o caso, se tem publicamente (isto porque não existe na Guarda um espaço público plural e esclarecido digno desse nome, prevalecendo a não inscrição de que falava José Gil); a tendência a pessoalizar o debate, onde isso não é de todo aconselhável. Houve uma verdadeira causa em que participei, nos anos da juventude na Guarda, ao lado de muitos outros: a afirmação da modernidade na cidade. Pelos vistos, duas décadas depois, o programa da altura continua a fazer sentido. Podia dar muitos exemplos, mas vou-me cingir a um, por sinal emblemático: o TMG. Na esmagadora maioria das cidades deste país, a existência de uma estrutura daquela qualidade e com uma oferta cultural da envergadura que se sabe, seria motivo de orgulho para todos. Mesmo discordando-se dos padrões dessa oferta. Pois o bom senso e algum brio levariam a concluir que, sem um TMG, a cidade ficaria muito mais pobre e, se calhar, muito mais triste. Na Guarda, infelizmente, não foi isso que sucedeu. Embora dotada de um objecto cosmopolita que a projecta, uma parte dela encara-o com desconfiança. Em parte, graças a uma minoria "qualificada", que o ataca não por razões plausíveis, i.e., discordâncias face ao modelo de programação ou determinado espectáculo, mas como argumento ao serviço da luta política, da concorrência empresarial, ou de simples interesses difusos e agendas pessoais. Ou seja, para alguns cidadãos, sejam eles anónimos ou figuras da vida pública, o TMG ainda não foi internalizado como património da cidade, estabelecendo-se à sua volta um módico de consensualidade e reconhecimento. Outros exemplos poderiam ser dados, como já referi. E todos eles conduziriam ao mesmo diagnóstico. Todavia, existem diferenças entre a forma como o obscurantismo e o ódio à moderninade se estrincheiravam na altura e agora. Se antes o clericalismo e o caciquismo eram alvos certos e cristalinos, agora oa agentes do subdesenvolvimento podem ser encontrados em qualquer lugar. Nuns mais do que noutros, é certo. Só que agora sobrevivem de /e alimentam os pequenos poderes, em lugares-chave, as clientelas renovadas, os sibilinos jogos de influências, as redes de branqueamento e de impunidade. Ou seja, antes actuavam como polícias da moral e agora como agentes de uma administração, de uma economia e de um mérito paralelos. Portanto, nesse acerto da cidade com a contemporaneidade, é caso para dizer: "a luta continua"...
segunda-feira, 29 de junho de 2009
O arraial
Ninguém porá em causa que, na Guarda, existe uma oferta cultural com bastante qualidade. Quer em termos absolutos quer relativos. Mormente aquela que chega por via do TMG. No entanto, apesar de alguma constância ao nível dos públicos, pesa ainda muito o lastro local da relativa ausência de hábitos regulares de fruição cultural e de uma massa crítica participativa e independente. Realidades estruturais que poderão ainda ser vistas sob outros formatos: a inexistência de uma intermediação crítica entre a imprescindível informação, que acompanha os espectáculos e o simples copy/paste dos press release com que os jornais "noticiam" a cultura. Falta pois o meio termo, que neste caso encerra uma virtude inigualável: indicia uma opinião pública descomprometida e esclarecida, mas que não receia sair das torres de cristal onde alguns iluminados se encerram; mostra os sinais de um espaço público dinâmico, sem receio do contraditório, em que várias verdades coexistem e se vão compondo com urbanidade e audácia.
terça-feira, 23 de junho de 2009
O teatro dos sonhos (1)
1. Lusco fusco é um termo bem curioso, hermético e intraduzível quanto baste. Daqueles que põe a cabeça em água a um aprendiz da nossa língua, ou a alguém pouco familiarizado com ela . À primeira vista, assemelha-se mais a uma palavra romena ou, até mesmo, a uma cidade azteca. Tecnicamente, designa o período do crepúsculo nocturno. Todavia, parece prolongá-lo, estendê-lo amorosamente, até ao momento em que o dia se faz noite. Uma transição celebrada por poetas, músicos e entusiastas do sobrenatural. E que, embora seja tradicionalmente associada a um fim épico, também pode evocar o início de um ciclo. Ou seja, uma espécie de "raio verde" da luminosidade, onde o encantamento, o desejo ou a invocação formulada se podem prolongar, ao invés do que acontece no momento em que o último raio solar repousa sobre a terra.
2. A Associação Luzku-Fuzku é uma comunidade que desenvolve acções de ordem ambiental, holístico e inclusivo. Está sedeada na Quinta do Dionísio, junto à povoação dos Trinta, concelho da Guarda. Num local privilegiado, o que é dizer pouco. Ou seja, num recanto verdejante do curso do Mondego superior, a montante do açude do Pateiro, ladeado de catanheiros e choupos. No âmbito do projecto "Ecompanhamento", com início em 2008, promoveu a construção orgânica de um "Teatrinho em Fardos de Palha", para além de várias casas de banho e chuveiros ecológicos, de um Yurt e de um retiro em barro. Ora, esse pequeno teatro foi inaugurado no domingo, recebendo a designação de "Salamandra". O programa incluía um percurso pedestre, lanche, tertúlia e uma sessão musical, a cargo de Gustavo Delgado e João Pedro Delgado nos violinos. A actividade teve o apoio do TMG. O edifício, com cerca de 12 m de comprimento e 3 de largura máxima, foi construído com materiais orgânicos: palha, madeira e barro. As paredes são de palha e, no topo, de ripas de madeira. Logo que o vigamento do telhado esteja assente, a palha será rebocada com uma camada de barro, o que melhorará muito a acústica. No lado que dá para o rio, há várias aberturas que fazem lembrar as vigias de uma embarcação. O tecto, muito parecido com o das pequenas igrejas nórdicas medievais, é formado por placas de madeira sobrepostas. No topo do espaço destinado ao palco há um pequeno vitral. Por sua vez, os espectadores, sentados em fardos de palha com um saco de serapilheira em cima, estão dispostos ao longo das paredes, frente a frente. Embora pensado como teatro, o espaço terá, naturalmente, uma utilização polivalente. Podendo servir, para além de outros espectáculos, como local de reuniões, ateliers, projecção de audiovisuais, etc. Poderão encontrar a seguir algumas das imagens registadas na ocasião.
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