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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Tragédia em um só acto

Sendo "normal" a vitória de Cavaco Silva nas presidenciais de Dezembro, sem dúvida que Fernando Nobre foi o seu grande protagonista. Pelo capital de esperança que reuniu, pela extraordinária mobilização alcançada, pelo score, por ter "secado" o candidato oficial da esquerda. Mas também pela sensação que ficou a pairar de que a luta iria continuar. Luta em prol de novas formas de intervenção política, para lá dos partidos. Luta pela colocação da solidariedade e da coesão social como motivos centrais na política. Luta para que a cidadania fosse encarada não só como participação passiva, também como uma espécie de direito natural, irredutível, pessoal e exequível por si próprio. A extraordinária novela Michael Kohlhaas, de Heinrich von Kleist (1777-1811), ilustra perfeitamente esta ideia. Todavia, ao aceitar o convite do PSD para cabeça de lista em Lisboa, eis que FN sucumbiu às armadilhas de um sistema que ele tanto criticou. E se o gesto foi um erro colossal, a forma como o tem gerido é absolutamente trágica, cavando para si uma capitis diminutio sem remédio e sem glória. Por várias razões: 
1º Logo à cabeça, nunca explicou devidamente aos seus apoiantes a sua inflexão. Ao ter encorajado, no pós eleições, a criação de uma rede informal de cidadania,  revelou, ao invés, surpreendentes tiques autistas e um enorme desprezo por quem nele acreditou; 
2º Ao envolver-se na vida partidária, hipotecou, de forma inexorável, as hipóteses de sair vencedor nas próximas eleições presidenciais, cuja preparação e "estágio de maturação" deveria ser a sua 1ª prioridade;
3º  Materializou-se um receio que já havia pressentido durante a campanha. Ou seja, detectei alguns tiques de culto da personalidade e de um messianismo próximo da irracionalidade de seita. Situações a que sou particularmente sensível e adverso. É certo que, em grande medida, a responsabilidade não foi de FN, mas da sua mensagem por vezes um pouco vácua, proselitista e, por isso, dada ao populismo. Que atraiu esse género de seguidismo quase religioso por uma boa parte dos apoiantes. O que não encaro de forma alguma com leviandade ou censura. A questão é que Nobre não soube estar à altura deste conjunto diversificado de enormes expectativas que muitos depositaram nele. Com esta sua recente deriva, levou a que quem continue a acreditar nele o faça por razões de fé e não como uma opção racional, livre e esclarecida.
4º A desastrosa declaração de que a sua eleição como deputado seria uma simples formalidade para ser nomeado como Presidente da AR. Descartando assim essa qualidade se não for eleito 2ª figura do Estado. Pior a emenda do que o soneto. E que revela várias coisas, igualmente preocupantes: passar por cima dos mecanismos de representação democrática e da sua génese; querer alcançar pela porta do cavalo o que não atingiu numa eleição; desconhecimento total da natureza do cargo que pretende assumir e dos consensos necessários para a designação; não ter em conta os anti-corpos que criou na classe política durante a campanha eleitoral; dar de barato que "os fins justificam os meios", mas esquecendo-se de que, não havendo fins, a não ser a possível nomeação para um estéril cargo regimental, os meios se justificam a si próprios. Da pior maneira possível, como soe fizer-se. Espero bem que a causa da "vida política para além dos partidos" tenha, no futuro, líderes mais nobres.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Uma vitória a sério, várias a brincar e uma promessa

Remexendo no rescaldo eleitoral, algumas breves conclusões:
a) no Facebook e nas televisões, seguindo o "bom povo da esquerda", através dos seus porta-vozes opinativos, a vitória moral foi obviamente sua. Evidência amparada por várias conjunções adversativas e advérbios relativizadores. Que intercalam amíude os apelos milenaristas costumeiros, com destaque para o anunciado fim do estado social e do ensino público, entre outros delírios. b) o expediente catastrofista, se já foi razoavelmente útil nos idos de 80, pelos vistos, não convenceu ninguém durante esta campanha eleitoral e nem uma pedra comoverá neste cenário pós-coital. c) de resto, todos tiveram direito à sua vitoriazinha, mesmo os entusiásticos comunistas, graças à habitual sofística aritmético-compulsiva, muito esforçada nestas alturas. d) o sinistro Louçã envolvendo o cabisbaixo Alegre num abraço mefistofélico: uma imagem para a posteridade. e) a “proeza” do candidato-poeta em arrecadar menos votos do que em 2006; f) os números da abstenção, que nada decidiram, mas que devem ser motivo de reflexão; g) a vergonhosa inoperância dos serviços da CNE, o que impossibilitou muitos cidadãos de votarem por razões burocráticas; h) ah, já agora, ganhou Cavaco à primeira volta! i) Fora isso, o único verdadeiro acontecimento foi a brecha aberta por Nobre na vida política nacional, o “cavalo” em que apostei nesta corrida. Esse caminho, só agora iniciado, será árduo, mas profundamente apaixonante e crucial para o país. Juntará a urgência e a maturação de um saber num referencial inclusivo e proactivo. Que reunirá, à margem dos partidos, o que a sociedade portuguesa possui de mais dinâmico, audacioso, íntegro e esclarecido. Mas que, por enquanto, se considera sub-representado no actual sistema político-partidário. Em suma, o desafio nacional desta década.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Nobre versus novilíngua

Começaram anteontem os debates a dois, nas várias televisões, entre os  candidatos às eleições presidenciais. Para abrir a sequência, o país pode assistir ao round que opôs Fernando Nobre e Francisco Lopes. Percebeu~se claramente que Nobre não teve dificuldade em encostar o comunista às boxes. O último vinha bem preparado, com a habitual cábula minimal repetitiva. Para além dos soundbites habituais do discurso dos comunistas portugueses (e dos admiradores de Enver Hoxa), onde 1+1 é sempre igual a 1, avançou com uma naipe de acusações a Nobre. Assim tentando "demonstrar" a sua incoerência, a volubilidade da sua candidatura, confrontando-o ad nausem com a sua alegada posição contraditória face ao OGE. Ao mesmo tempo, tentava-o associar à real politik, por via de alguns comprometimentos no passado, apontados a dedo e retirados dos arquivos bolorentos da Soeiro Pereira Gomes. Nobre não precisou de muito para "desmontar o boneco". Afinal, quem aceita ser candidato a Chefe do Estado devido a uma decisão de um sinistro Comité Central, conseguida, imagino, pelo sistema de sorteio, bola branca bola preta, não merece grande consideração. E demonstra estar tão mergulhado no sistema como as forças do mal que os seus acólitos tanto diabolizam. E certamente Lopes nunca conseguiu criar um único emprego, como lhe apontou Nobre. Todavia, aposto que já conseguiu destruir muitos, devido à conhecida intransigência negocial dos sindicatos controlados pelos comunistas. Em suma, limitou-se, ao longo do debate, a blindar o seu eleitorado e pouco mais. Nobre fez o que lhe competia e o que sabe sem esforço: ser compassivo, inclusivo, transversal, universalista. Por outro lado, percebi com clareza, se dúvidas houvessem, a natureza do discurso estereotipado e autista dos comunistas. E de como constitui uma afronta à inteligência. Viu-se perfeitamente que o funcionário do PCP, a quem entregaram a "gloriosa" tarefa de se candidatar, não está habituado a este tipo de interlocutores. O PCP vive no mundo da fantasia, onde as palavras substituem as coisas, as profecias valem como objectivos, os conceitos ocultam a realidade e a esquizofrenia anula o mais ténue vestígio de honestidade intelectual. Ter pela frente um verdadeiro lutador, como Fernando Nobre, um homem cujo palco privilegiado tem sido afrontar uma realidade de que as estatísticas não falam, onde há que decidir depressa e sem esperar recompensas, é pedir demasiado a gente tão limitada. E o que é pior, rebater um discurso que, por não ser politizado, é terrivelmente político, que escapa à lógica comezinha e totalitária da novilíngua orweliana dos comunistas, deve ter sido aterrador para o zelota Lopes.