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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Uma vitória a sério, várias a brincar e uma promessa

Remexendo no rescaldo eleitoral, algumas breves conclusões:
a) no Facebook e nas televisões, seguindo o "bom povo da esquerda", através dos seus porta-vozes opinativos, a vitória moral foi obviamente sua. Evidência amparada por várias conjunções adversativas e advérbios relativizadores. Que intercalam amíude os apelos milenaristas costumeiros, com destaque para o anunciado fim do estado social e do ensino público, entre outros delírios. b) o expediente catastrofista, se já foi razoavelmente útil nos idos de 80, pelos vistos, não convenceu ninguém durante esta campanha eleitoral e nem uma pedra comoverá neste cenário pós-coital. c) de resto, todos tiveram direito à sua vitoriazinha, mesmo os entusiásticos comunistas, graças à habitual sofística aritmético-compulsiva, muito esforçada nestas alturas. d) o sinistro Louçã envolvendo o cabisbaixo Alegre num abraço mefistofélico: uma imagem para a posteridade. e) a “proeza” do candidato-poeta em arrecadar menos votos do que em 2006; f) os números da abstenção, que nada decidiram, mas que devem ser motivo de reflexão; g) a vergonhosa inoperância dos serviços da CNE, o que impossibilitou muitos cidadãos de votarem por razões burocráticas; h) ah, já agora, ganhou Cavaco à primeira volta! i) Fora isso, o único verdadeiro acontecimento foi a brecha aberta por Nobre na vida política nacional, o “cavalo” em que apostei nesta corrida. Esse caminho, só agora iniciado, será árduo, mas profundamente apaixonante e crucial para o país. Juntará a urgência e a maturação de um saber num referencial inclusivo e proactivo. Que reunirá, à margem dos partidos, o que a sociedade portuguesa possui de mais dinâmico, audacioso, íntegro e esclarecido. Mas que, por enquanto, se considera sub-representado no actual sistema político-partidário. Em suma, o desafio nacional desta década.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Lido

O chorão Sampaio foi, de viva voz, apoiar Alegre. Andou para ali a jogar com os termos "solidário" e "solitário" para concluir, dirigindo-se ao segundo na segunda pessoa do singular ("tu"), que o dito cujo é "solidário". A comissão de honra é uma lástima mas, sobre isso, não sou eu quem vai atirar a primeira pedra. Sampaio vem de um "mundo" político e de uma geração - que já incluia Alegre pelo lado "externo" - que sempre olhou para a solidariedade como um valor retórico, componente indispensável do "manual" do bom burguês esquerdista, nada e criado na classe média alta desafecta (ou mesmo afecta) ao regime. E que acha que aqueles que não tiveram o privilégio de classe a amparar-lhes os delíquios "solidários" são, por definição, reaccionários e "poderosos". O raio que os parta.

João Gonçalves, no "Portugal dos Pequeninos"

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Nobre versus novilíngua

Começaram anteontem os debates a dois, nas várias televisões, entre os  candidatos às eleições presidenciais. Para abrir a sequência, o país pode assistir ao round que opôs Fernando Nobre e Francisco Lopes. Percebeu~se claramente que Nobre não teve dificuldade em encostar o comunista às boxes. O último vinha bem preparado, com a habitual cábula minimal repetitiva. Para além dos soundbites habituais do discurso dos comunistas portugueses (e dos admiradores de Enver Hoxa), onde 1+1 é sempre igual a 1, avançou com uma naipe de acusações a Nobre. Assim tentando "demonstrar" a sua incoerência, a volubilidade da sua candidatura, confrontando-o ad nausem com a sua alegada posição contraditória face ao OGE. Ao mesmo tempo, tentava-o associar à real politik, por via de alguns comprometimentos no passado, apontados a dedo e retirados dos arquivos bolorentos da Soeiro Pereira Gomes. Nobre não precisou de muito para "desmontar o boneco". Afinal, quem aceita ser candidato a Chefe do Estado devido a uma decisão de um sinistro Comité Central, conseguida, imagino, pelo sistema de sorteio, bola branca bola preta, não merece grande consideração. E demonstra estar tão mergulhado no sistema como as forças do mal que os seus acólitos tanto diabolizam. E certamente Lopes nunca conseguiu criar um único emprego, como lhe apontou Nobre. Todavia, aposto que já conseguiu destruir muitos, devido à conhecida intransigência negocial dos sindicatos controlados pelos comunistas. Em suma, limitou-se, ao longo do debate, a blindar o seu eleitorado e pouco mais. Nobre fez o que lhe competia e o que sabe sem esforço: ser compassivo, inclusivo, transversal, universalista. Por outro lado, percebi com clareza, se dúvidas houvessem, a natureza do discurso estereotipado e autista dos comunistas. E de como constitui uma afronta à inteligência. Viu-se perfeitamente que o funcionário do PCP, a quem entregaram a "gloriosa" tarefa de se candidatar, não está habituado a este tipo de interlocutores. O PCP vive no mundo da fantasia, onde as palavras substituem as coisas, as profecias valem como objectivos, os conceitos ocultam a realidade e a esquizofrenia anula o mais ténue vestígio de honestidade intelectual. Ter pela frente um verdadeiro lutador, como Fernando Nobre, um homem cujo palco privilegiado tem sido afrontar uma realidade de que as estatísticas não falam, onde há que decidir depressa e sem esperar recompensas, é pedir demasiado a gente tão limitada. E o que é pior, rebater um discurso que, por não ser politizado, é terrivelmente político, que escapa à lógica comezinha e totalitária da novilíngua orweliana dos comunistas, deve ter sido aterrador para o zelota Lopes.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O vento que passa


Nas últimas eleições presidenciais, apoiei activamente a candidatura de Manuel Alegre. Para que conste. No entanto, desde cedo percebi o que os seus 1 200 000 votos representavam. Ou seja, pouco mais do que um capital de risco à mercê da voragem dos partidos e do pequenos e médios entertainers da política. Ou então, dito de outra forma, uma semi-vitória de Pirro. Que incomodou muita gente, é certo, mas incompatível com qualquer arranjo contabilístico a posteriori, ou qualquer apropriação para outros fins que não aqueles onde se esgotou. Alegre até deu uma mãozinha a este cenário. Não rompeu com o PS, como lhe competiria, nem abriu mão de qualquer nova alternativa política. As razões até são fáceis de explicar. A mais óbvia de todas é a sua "institucionalização" no interior do PS. O termo designa, precisamente, a incapacidade protagonizada por um prisioneiro de longa data em organizar a sua vida no exterior da prisão. A razão mais simples é o trivial esgotamento do seu discurso e do seu projecto político. Entretanto, o BE lançou uma OPA gigantesca tendo Alegre como objecto. A qual foi aceite, tendo como palco o célebre comício conjunto no Teatro da Trindade. Na prática, Alegre é hoje pouco mais do que um refém de luxo do BE. A sua validade política expirou quando optou pela evolução na continuidade. É um genuíno produto de um partido político, em modo parlamentar, mas que tenta desesperadamente camuflar o seu percurso. Aparecendo então como um candidato da "sociedade civil" e dos "cidadãos". Por todas as razões apontadas, e porque as diferenças saltam à vista, a minha atenção vai agora para a candidatura de Fernando Nobre. Muito em breve analisarei aqui mais em pormenor o seu significado.