terça-feira, 25 de novembro de 2008

Encontro de titãs


Vai decorrer hoje, pelas 14h30, na Sala da Assembleia Municipal da Guarda, o Colóquio intitulado "Ficção e Realidade". Intervirão como conferencistas Eduardo Lourenço, José Gil, Angel Marcos de Dios, Fernando Catroga e Pedro Pita. Um acontecimento a não perder. Ups, eu já me inscrevi! Os retardatários poderão ainda fazê-lo através do website do Centro de Estudos Ibéricos. Onde está disponível mais informação sobre este notável encontro.

O after day after

A apresentação do espectáculo "Guarda: rádio memória", durante três dias no TMG, como se esperava, decorreu sem sobressaltos. Na óptica de quem participou no processo de produção, o sentimento que me invadiu foi o orgulho e a gratidão pelo esforço incansável de todos os que tornaram esta construção possível. "Palavras de circunstância", alvitrarão alguns leitores. Talvez. Até porque só circunstâncias especiais as fazem germinar com sinceridade. Um desafio colectivamente realizado em que acreditemos faz-nos quase sempre abdicar de alguma coisa e encontrar outras que, de outra forma, não conheceríamos. Para mais, as contrariedades surgidas ao longo do percurso estão lá precisamente para isso. E pronto, depois deste derrame holístico-sentimental, ainda queria dizer algo mais. Espero que acontecimentos como este dêem sinais claros às forças vivas da cidade, à opinião pública, que não existirá desenvolvimento sério sem uma actividade cultural dinâmica e audaz. Infelizmente, não estou muito certo que isso aconteça para já. Em relação ao espectáculo propriamente dito, ao produto, dele farei uma apreciação crítica na crónica que mantenho num jornal da cidade e que, como habitualmente, será depois aqui editada.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Tábua de marés (14)


"Vamos desenhar cogumelos – passeio, almoço e sessão de desenho orientada por Maria Lino”
Organização: Associação Luzlinar
Aldeia do Feital, Trancoso, 5 de Novembro

Esta actividade aparece no seguimento de outras sessões dedicadas ao tema. Este ano teve um figurino um pouco diferente, com a inserção de uma sessão de desenho. No ano passado, por exemplo, o evento centrou-se mais no âmbito didáctico, com a presença de uma bióloga. Este é o tipo de sessões para que esta associação está naturalmente vocacionada. Demonstrando, mais uma vez, que se pode aliar o conhecimento da natureza, a actividade física, a gastronomia e a criatividade de forma harmónica a atractiva para vários públicos, do ponto de vista social e geográfico. Durante a manhã, percorreu-se parte da serra do Feital, recolhendo-se vários exemplares de fungos. Simultaneamente, desfrutava-se a paisagem e o convívio. Entre os cogumelos apanhados, destaco alguns míscaros e vários amanita muscaria, conhecidos pela sua toxicidade e rara beleza. Por outro lado, os boletos primaram pela ausência. Devida, em grande medida, às condições climatéricas. Seguiu-se o almoço. Devo dizer que, este ano, fiquei um pouco desiludido. Talvez porque a expectativa era alta, atendendo à excelência do ano anterior. O creme de boletos e as sobremesas estiveram à altura do que a arte de António Lino nos habituou. Já o prato principal e acompanhamentos desapontaram ligeiramente. Veio então a componente criativa da actividade: desenhar os espécimes recolhidos. Sob a inspiração da artista, os participantes deitaram mãos à obra. Pela minha parte, lá consegui rabiscar qualquer coisa. Muito colorida, para disfarçar… Porém, o panorama geral foi animador… Explicando, por sua vez, cada artista de ocasião, o porquê da sua obra. E adeus, até para o ano. Numa apreciação geral, eis mais um evento interessante, que suscitou uma adesão notável, o que é de realçar num país tradicionalmente micófobo. No entanto, em próximas sessões, e para enriquecer o tema, poderia desenvolver-se um pouco mais as características, papel desempenhado no ecossistema, cuidados a ter na sua recolha e preservação e práticas culturais associados aos fungos ao longo da história.

Publicado no jornal "O Interior", em 20 de Novembro

Tábua de marés (13)


Casa do Mundo Rural
Prados, Celorico da Beira
Inaugurada em 15 de Novembro

Há várias formas de tratar museológica e artisticamente o acervo cultural, material ou não, associado directamente a pequenas comunidades. A primeira é a restauração etnográfica pura e simples de uma realidade cultural engolida pela História. Trata-se, sobretudo, de uma reconstituição cénica. Embora útil, se rigorosa, deverá ser encarada como um meio e não um fim em si. Onde uma finalidade lúdica pode e deve amparar propósitos científicos, ou até mesmo ambientais. Mas esta opção deverá ser encarada com alguma reserva. É que a recriação de um etnicismo inócuo pode ser uma ficção estratégica ao serviço do poder. Porque aquilo que realmente se pretende é construir um modelo ideal, um arquétipo do qual as contradições e o quadro social são convenientemente expurgados. Por outro lado, aparece a reconstituição diferida, tipicamente museológica. Aqui, poder-se-á falar de uma reconstituição cenográfica, onde a identidade cultural se fixa por via da catalogação, do registo. Já não se procura uma identidade à custa de um passado salvífico, mas o recurso a símbolos identitários com fins pedagógicos e, quiçá, turísticos. Mas há ainda uma outra via, esta sem dúvida a mais ousada e exigente: a recriação da tradição. Pode combinar as duas anteriores, mas em vez de um restauro, encara as tradições do mundo rural como ponto de apoio, como inspiração para uma nova linguagem, um novo fôlego criativo. Neste ponto, poder-se-ia afirmar que a tradição já não seria o que era, mas outra coisa que talvez nunca foi. Com o benefício da dúvida, é claro.
No caso presente, a criação de uma instalação deste tipo obedece a propósitos claros: por um lado, edificar um centro agregador de uma requalificação da aldeia. O que inclui a sua memória e a sua especificidade; por outro lado, criar um pólo de atracção turística. Este projecto é constituído por dois equipamentos: o telheiro, uma edificação construída de raiz, com um piso superior onde é guardada a palha e outros produtos agrícolas e um inferior onde estão expostos vários objectos (carroças, arados, etc.); a casa propriamente dita, um edifício totalmente restaurado, composto por dois pisos, onde se dispõem dois quartos, uma cozinha, uma despensa, uma sala e um armazém multiusos. As várias divisões estão devidamente decoradas com os utensílios, o mobiliário e o vestuário próprios de uma “casa rural”, tal como seria até há 50 anos. No exterior, foi instalado um poço com um picanço, uma eira, uma pequena horta e duas levadas. É claro que várias interrogações se podem colocar face à concreta utilização que o espaço terá no futuro. Funcionará em rede com outros equipamentos do concelho, ou da área do PNSE? Terá algum tipo de animação associado? Haverá protocolos com escolas? Será disponibilizado algum tipo de folheto informativo?

Publicado no jornal "O Interior", em 20 de Novembro

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Momentos Zen - 50

Não são as nossas preferências que criam problemas, mas sim o nosso apego a elas.

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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Guarda, memória e tudo

A.G.
E pronto! É hoje a estreia de "Guarda: rádio memória", mais uma grande produção teatral que, em tempo de aniversário (809 invernos), celebra a memória e as gentes da Guarda. Desta vez, em formato de epopeia radiofónica, com personagens e situações surpreendentes. Tal como em "Guarda, Paixão e Utopia", este espectáculo é uma co-produção do Teatro Municipal e do Trigo Limpo Teatro ACERT para a Câmara Municipal da Guarda. Tem a coordenação geral de Américo Rodrigues, a dramaturgia de Américo Rodrigues e José Rui Martins, a partir de textos de Américo Rodrigues, António Godinho, Helder Sequeira, Honorato Esteves, José Rui Martins, Norberto Gonçalves, Osório de Andrade e Rui Isidro. Encenação de José Rui Martins, direcção musical de César Prata e cenografia da autoria de Marta Fernandes da Silva e Pedro Santos. Hoje, Sexta-feira, às 21h30 no Grande Auditório do TMG. Até domingo. Para mais informações, ver aqui, ou aqui.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Gavotte (6)


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Ainda e sempre a propósito de "As Benevolentes", de Jonathan Littel, cabe desenvolver um pouco mais e concluir a análise do significado particular da Bildung alemã.
Antoine Berman, em Bildung et Bildungsroman, ("Formação cultural e romance de formação"), fornece as pistas. Segundo ele, "A palavra alemã Bildung significa, genericamente, "cultura" e pode ser considerado o duplo germânico da palavra Kultur, de origem latina. Porém, Bildung remete para vários outros registos. Utilizamos Bildung para falar no grau de "formação" de um indivíduo, um povo, uma língua, uma arte: e é a partir do horizonte da arte que se determina, mais das vezes, Bildung. A palavra alemã tem uma forte conotação pedagógica e designa a formação como processo. Por exemplo, os anos de juventude de Wilhelm Meister, no romance de Goethe, são seus Lehrjahre, onde ele aprende somente uma coisa, sem dúvida decisiva: aprende a formar-se (sich bilden)". Nem de propósito, o processo de formação intelectual e moral de Max, até um certo ponto, parece decalcada da obra de Goethe. A vastidão do seu conhecimento é surpreendente, como mais atrás referi. Todavia, a Bildung aparece igualmente associada à noção de trabalho. No sentido que, mais tarde, Hannah Arendt deu à palavra labor. Ou seja, a acção prática. Como salienta o autor citado, " Enquanto trabalho, Bildung é formação prática, formação de si pela formação das coisas. No famoso capítulo da Fenomenologia do espírito de Hegel, a dialética do Senhor e do Escravo, a consciência escrava liberta-se por um processo de formação: à medida que a consciência trabalha formando as coisas em seu redor, ela forma-se a si mesma."
Retomando o tema central, não creio que seria apropriado apelar ao wagnerianismo de Hitler. Mas se prescindirmos desse tópico, poderia sempre pensar-se que Hitler não viu nas óperas de Wagner o que há realmente nelas. Que o seu olhar empobrecido pelo anti semitismo - esse "socialismo para idiotas", como alguém lhe chamou - não captou tudo o que Wagner colocava nelas. O espantoso caso alemão consiste, porventura, em forçar a perplexidade humanista até convertê-la numa espécie de argumento para uma narrativa histórica. Como é possível que os alemães, tão cultos, incorressem na barbárie e no extermínio de milhões de pessoas? Essa continua a ser a pergunta básica desta análise. Todavia, ela encerra um pressuposto perverso: se a cultura implica (ou deveria fazê-lo) elevação moral, então poderíamos considerar todas as pessoas incultas como moralmente irresponsáveis, ou inferiores, ou simplesmente incapazes. A cultura e a moral são variáveis que não têm necessariamente que justificar-se entre si. E nem sequer são realidades que tenham que cruzar-se. Todos os que estranham que se faça um link de Schubert a Auschwitz pensam provavelmente que alguém inculto seja mais apropriado para fazer de algoz. Devem então escandalizar-nos menos as matanças do Ruanda, em 1993, do que a "solução final", só porque foram praticadas por gente sem a Bildung ocidental e humanista? Esse é um caminho muito perigoso, que permite o regresso de fórmulas racistas, encapotadas de boa consciência. É como se assumíssemos que é próprio de bárbaros ser bárbaros. Mas nós, que somos tão civilizados, como pudemos chegar a "isto"? Simplesmente porque a lógica cultural acompanha a barbárie, mas não a pode impedir. O que impede a barbárie é outra coisa. A bondade e a generosidade não passam por Schubert. Claro que este não as exclui. Todavia, não as consegue garantir. Os juízos morais não dependem, nem se nutrem, da sensibilidade estética. Respondem a outra ordem de coisas, não direi mais complexa, mas substancialmente diferente. Portanto, o assombro não é como se parte de Beethoven e se chega a Auschwitz, mas por alma de quem se há-de concluir que o facto de alguém gostar de Beethoven ou de Novalis deveria torná-lo melhor pessoa! Hannah Arendt, num artigo intitulado precisamente "A crise da cultura" explica muito bem a história do filisteísmo cultural. A certo passo, refere que o grande erro de uma burguesia cultivada foi crer que, realmente, a poesia, o teatro, a filosofia, a música, a poderia tornar melhor do que era. A anti-arte, preconizada pelo dadaísmo em 1917, fora já um aviso de que essa cultura filisteia só havia ensinado melhor aos burgueses a morrer e a matar em massa. O nacional-socialismo veio dar-lhes toda a razão, da forma trágica que se conhece. E se é verdade que Hitler disse nos seus últimos dias que "o povo alemão demonstrou não ser digno de mim", então pode afirmar-se que o síndrome do artista incompreendido derramou o seu último fulgor, de uma aberrante e profunda coerência, bem no centro da devastação produzida pelo seu pior sonho: o Estado como obra de arte totalitária.