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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Tábua de marés (44)

"Deus, Pátria, Autoridade". Trata-se de um documentário de Rui Simões, produzido em 1975 a partir de imagens de arquivo. E que pretende ilustrar a marcha da história no Portugal do séc. XX, especialmente a partir do declínio do Estado Novo. O título advém da invocação da célebre trilogia durante um discurso de Salazar, em 1936. Este registo constitui uma pérola da propaganda difundida por círculos ligados ao PCP, durante o PREC. O conteúdo programático não deixa lugar a dúvidas. Lê-se como um livro aberto. A ganga marxista está lá toda: a luta de classes, onde o "povo" aparece sob a forma de anjos imaculados arrotando palavras de ordem e palitando os dentes depois de uma sande de coiratos; a "burguesia" como uma galeria de personagens sinistras, fúteis, sádicas, que vivem para explorar o "bom selvagem" proletário. Os mesmos que detêm os "meios de produção" e tomaram conta da superestrutura política e ideológica (o Estado Novo e o "façismo"). Os mesmo que sustentaram uma guerra colonial destinada a assegurar os "lucros" de meia dúzia de exploradores e colonialistas sanguinários (neste ponto é curioso estabelecer uma comparação entre o rigor e a competência do documentário "A Guerra", de Joaquim Furtado e esta peça propagandística). Uma fábula onde só há os "bons" e os "maus". E com um final feliz, para sossego das consciências: a "evidência" da superação do materialismo dialéctico, o créme de la créme da vulgata marxista. Como? Pois bem, através do "fim da luta de classes", da marcha inexorável da história, conduzida na altura pela V Divisão, os governos do General Vasco Gonçalves e um vasto lumpen ululante, devidamente pastoreado pelos factotum comunistas. Era este o cenário que se perfilava no momento. Uma peça para um único personagem, "o povo escolhido", isto é, o proletariado. Formado pelo operariado fabril, intelectuais "progressistas", camponeses pobres", assalariados rurais e alguns burgueses transviados, depois de feito o indispensável acto de contrição. Neste ponto, a pequena-burguesia foi convenientemente silenciada, pois esperava-se que fosse a reboque dos actores privilegiados da História. Também a saga reivindicativa que hoje subsiste nos meios ligados ao PCP: os culpados são sempre os outros, o ressabiamento, a menoridade cívica, a endogamia. Para os comunistas, o uso das capacidades próprias e a iniciativa individual como factores de criação de riqueza são olhadas com desprezo; a essência dos indivíduos é determinada pela sua existência social, enquanto actores colectivos, convenientemente ensaiados para um só palco, a História pré-determinada e finalista. Depois, há pormenores deliciosos, como a desconfiança perante a autogestão, vista como um perigoso desvio pela ortodoxia pró-soviética. Ou os momentos em que é dada a voz ao bom povo, que papagueia um guião tosco e "normalizado", generosamente fornecido pelos agentes do aparelho comunista e engages avulso em voga na altura. O expediente mais não é do que uma forma insidiosa de paternalismo, ideologicamente orientado. Por último, a ira de um agricultor ribatejano, depois de lhe terem tirado a posse da sua terra, após uma questão judicial. Se a equipa de realização estivesse mais atenta, daria conta de que os desabafos perante as câmaras deste João Semana têm a ver unicamente com uma disputa de propriedade, cujo direito ele invoca urbi et orbi. Ora, segundo os comunistas, a propriedade é um roubo, uma indignidade. Enfim, distracções... Esta obra é, digamos, um poderoso registo acerca da cartilha marxista-leninista aplicada com fervor à revolução em curso em 1975. Está lá tudo o que é preciso saber sobre uma doutrina e uma prática política que quase triunfaram em Portugal. Não sem alguma ironia, um filme com propósitos documentais acabou por ser o melhor testemunho do ambiente político e ideológico que o determinou.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Leituras

Na minha modesta opinião, "Manual dos Inquisidores" é o último grande livro de Lobo Antunes. O que veio depois assemelha-se, digamos, a um exercício de austeridade monástica para enganar a morte. Refiro-me à ficção, é claro. Pois que as crónicas são outra conversa. É precisamente aí, na incursão ágil e intensa, na concisão fotográfica, que o autor melhor se revela. Mostrando-nos assim o seu portefólio particular ainda "em tosco". Envolvendo-nos numa cumplicidade onde reinam a empatia e a comoção. É por isso que recomendo sem restrições a leitura da sua última crónica, publicada ontem na revista "Visão". Chama-se "Vacilantes rostos do passado" e está aqui.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O palhaço

O palhaço compra empresas de alta tecnologia em Puerto Rico por milhões, vende-as em Marrocos por uma caixa de robalos e fica com o troco. E diz que não fez nada. O palhaço compra acções não cotadas e num ano consegue que rendam 147,5 por cento. E acha bem.
O palhaço escuta as conversas dos outros e diz que está a ser escutado. O palhaço é um mentiroso. O palhaço quer sempre maiorias. Absolutas. O palhaço é absoluto. O palhaço é quem nos faz abster. Ou votar em branco. Ou escrever no boletim de voto que não gostamos de palhaços. O palhaço coloca notícias nos jornais. O palhaço torna-nos descrentes. Um palhaço é igual a outro palhaço. E a outro. E são iguais entre si. O palhaço mete medo. Porque está em todo o lado. E ataca sempre que pode. E ataca sempre que o mandam. Sempre às escondidas. Seja a dar pontapés nas costas de agricultores de milho transgénico seja a desviar as atenções para os ruídos de fundo. Seja a instaurar processos. Seja a arquivar processos. Porque o palhaço é só ruído de fundo. Pagam-lhe para ser isso com fundos públicos. E ele vende-se por isso. Por qualquer preço. O palhaço é cobarde. É um cobarde impiedoso. É sempre desalmado quando espuma ofensas ou quando tapa a cara e ataca agricultores. Depois diz que não fez nada. Ou pede desculpa. O palhaço não tem vergonha. O palhaço está em comissões que tiram conclusões. Depois diz que não concluiu. E esconde-se atrás dos outros vociferando insultos. O palhaço porta-se como um labrego no Parlamento, como um boçal nos conselhos de administração e é grosseiro nas entrevistas. O palhaço está nas escolas a ensinar palhaçadas. E nos tribunais. Também. O palhaço não tem género. Por isso, para ele, o género não conta. Tem o género que o mandam ter. Ou que lhe convém. Por isso pode casar com qualquer género. E fingir que tem género. Ou que não o tem. O palhaço faz mal orçamentos. E depois rectifica-os. E diz que não dá dinheiro para desvarios. E depois dá. Porque o mandaram dar. E o palhaço cumpre. E o palhaço nacionaliza bancos e fica com o dinheiro dos depositantes. Mas deixa depositantes na rua. Sem dinheiro. A fazerem figura de palhaços pobres. O palhaço rouba. Dinheiro público. E quando se vê que roubou, quer que se diga que não roubou. Quer que se finja que não se viu nada.
Depois diz que quem viu o insulta. Porque viu o que não devia ver.
O palhaço é ruído de fundo que há-de acabar como todo o mal. Mas antes ainda vai viabilizar orçamentos e centros comerciais em cima de reservas da natureza, ocupar bancos e construir comboios que ninguém quer. Vai destruir estádios que construiu e que afinal ninguém queria. E vai fazer muito barulho com as suas pandeiretas digitais saracoteando-se em palhaçadas por comissões parlamentares, comarcas, ordens, jornais, gabinetes e presidências, conselhos e igrejas, escolas e asilos, roubando e violando porque acha que o pode fazer. Porque acha que é regimental e normal agredir violar e roubar.
E com isto o palhaço tem vindo a crescer e a ocupar espaço e a perder cada vez mais vergonha. O palhaço é inimputável. Porque não lhe tem acontecido nada desde que conseguiu uma passagem administrativa ou aprendeu o inglês dos técnicos e se tornou político. Este é o país do palhaço. Nós é que estamos a mais. E continuaremos a mais enquanto o deixarmos cá estar. A escolha é simples.
Ou nós, ou o palhaço.

Mário Crespo, no Jornal de Notícias

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Tábua de marés (43)


Não há que abusar dos adjectivos, bem o sei, da mesma forma que não se deveria abusar da comida ou do álcool. Todavia, o mundo está cheio de obesos e dipsómanos. Verdad? Ora, não é exactamente a esta adição gramatical que me refreia. Quando os adjectivos me dominarem, farei uma cura de desintoxicação e poderei esquecer-me para sempre deles. Entretanto, vou flutuando sem esforço de maior, rodeado de uma campina aprazível, que faz lembrar a Toscânia no seu melhor. Entre um mergulho e outro, comento mentalmente a sessão cinematográfica da noite anterior. Depois de um opíparo jantar nas cercanias. Trata-de de Slumdog Millionaire (Quem quer ser Milionário?), a oscarizada película inglesa passada na Índia. Paul Eluard, o poeta francês amante da simplicidade, o mesmo que soube descrever numa única estrofe toda a ambiguidade do mau estudante, esse que "diz não com a cabeça, mas sim com o coração" (ou era ao contrário?), escreveu também algures que "há decerto outros mundos, mas estão neste". É uma frase tão concisa e clara que, há alguns anos, foi utilizada na publicidade televisiva, onde aparecia uma piscina privada ainda mais convidativa do que aquela em que me encontrava. É que a câmara lenta tem um poder subjugador, hipnótico: embeleza até os tarantinianos tiros na cabeça com abundantes salpicos de sangue e miolos. É claro que tinha ficado bastante impressionado com o filme do concursante hindu; talvez porque conhecia muito bem dois dos mais recorrentes métodos de tortura argentinos: a imersão sem escafandro e os choques eléctricos. Neste caso, além da cegueira com uma colher de pau, novo para mim, e o mergulho na merda humana, toda uma metáfora, a película de Danny Boyle ensina-nos como se pode sair de toda essa desgraça. Precisamente com a ajuda de um golpe de sorte que nos faça milionários e a companhia de um amor "que te cuide, que te cuide". Love is a magnificent thing, já se sabe, sabêmo-lo todos, e graças a ele, ao maravilhoso, angélico amor, um documental de ritmo acelerado sobre a miséria actual nas grandes urbes pode converter-se num conto de fadas com Happy End, ao estilo Bollywood. Suponho que para pagar de alguma forma tanto aprazível, apiscinado prazer burguês, decidi ver no dia seguinte outro blockbuster de forte conteúdo social: Gomorra. Não vou por-me a criticar agora a redundância de certas cenas, nem a confusão que produz um casting de actores secundários, supostamente não profissionais com rostos familiares, nem sempre diferenciáveis. O filme é certamente digno e não oferece possíveis finais felizes: os corruptos sê-lo-ão ainda mais, os que pretendam um percurso autónomo despertarão convertidos em cadáveres crivados de balas. Os resíduos tóxicos cobrirão o mundo, temperando com cianeto os nossos melões, e uma Grande Camorra Globalizada acabará por dirigir cada segundo das nossas vidas, através da ambição, da necessidade, da ignorância e, sobretudo, do medo. Ainda que a minha já manifesta adição aos adjectivos possa levar a mais equívocos, queria ainda referir outro filme maior, The Cooler (Má sorte, 2003), com Maria Bello, Alec Baldwin y William H. Macy como cabeças de cartaz. Azar, dinheiro, máfias e finalmente amor; novamente um grande amor que tudo vai mudar. Las Vegas é um lugar iluminado em excesso, onde se passeiam um punhado de pessoas com demasiada ambição e pouco discernimento. À margem, tentando não cair ruidosamente do tapete, encontram-se os perdedores de sempre. Interpretados com algum brilhantismo por Macy e Bello, estas duas personagens quase normais merecem melhor sorte. De tal forma que o guionista e realizador, Wayne Kramer, um bom tipo, criativo, audaz e inteligente, decide então presenteá-las, permitindo-lhes escapar do círculo infernal onde se haviam encontrado. Pela minha parte, depois de farejar, graças ao cinema, estes outros mundos não tão distantes, decidi que o lugar onde estou, o meu pequeno universo quotidiano, não se parece demasiado com esses infernos. De sorte que ainda não me atrevo ainda a chamá-lo de paraíso. Mesmo não tendo, para já, relação alguma com o conhecido tecno-purgatório de Huxley.

Tábua de marés (42)


Sonho que vou morrer. É quase uma fatalidade, depois de tanta necrologia ambiente. Como se trata de um sonho, não faço o trajecto descansado. Para mim, para "nós", esse longo túnel de que muitos falam acabava em algum lugar da História - assim, com maiúsculas - algo que não me interessou demasiado. Se não houvesse em mim uma pretensão de distanciada elegância cortesã, poderia no entanto ser mais importante dizer que esse particular momento histórico "não me interessou um c......". Não perguntem sequer de que lugar ou de que século estou a falar. Não tenho a mais pequena ideia. Pelo contrário, sei muito bem que nada faria para além de assomar o nariz, pois o que cheirei não me agradou particularmente. Uma paisagem vazia e desolada, desprovida de encanto; sem árvores, animais, gente.
"É isto a morte?", perguntei a mim próprio no sonho. Helas! Prefiro esquecê-la como possibilidade de transcendência, continuar a acreditar na minha versão particular, definitivamente mais simples: fechas os olhos, deixas-te ir com suavidade e já não te inteiras de nada. Posso sentir como a minha alma se estende e relaxa da mesma maneira que o faz o meu corpo no final de uma sessão de yoga. Se o paraíso não é um lugar ilimitado, com todas as infinitas possibilidades da nossa fantasia, prefiro ficar como estou agora. Ao menos aqui posso estender-me num sofá qualquer para ver um filme de 1943, Criss Cross, onde Burt Lancaster mostra todos as suas qualidades, muitas das quais continuaram quase intactas até ao fim dos seus dias. Na obra aparece também o sempre ambíguo Tony Curtis, com os seus momentos de anjo perverso. E fá-lo como extra absoluto, sem sequer um crédito, dançando mambo latino com Ivonne de Carlo num suposto bar de Los Angeles. Se por essas coisas da canícula quero algo mais à la page, posso devorar essa iguaria feita com estranhos ingredientes que se chama Breaksfast on Pluto. Onde aparece Brian Ferry como sedutor sádico -bigode tipo "anchova" de vilão antiquado e com um imprevisível fio assassino entre as mãos - sabendo-se então a dimensão da "merda" por que passa um travestido irlandês algo boémio e que, logo ao nascer, foi logo rejeitado pelo pai, um charmoso pároco, e pela mãe, uma ruiva a que muitos acham parecida com Mitzi Gaynor, actriz deliciosa dos anos cinquenta e que agora quase ninguém recorda. Com menos tremendismo que em Jogo de lágrimas e um fundo quase constante de pegajosas canções da época, dirigiu-a o sempre resvaladiço Neil Jordan. Para terminar este post algo ecléctico, uma breve citação. Não está assinada por uma figura ilustre como Goethe, Duras, Deleuze ou Nietzche, mas por um médico italiano de cinquenta anos, Mario Melazzini, arquejado de uma enfermidade degenerativa irreversível. Li-a hoje enquanto tomava o pequeno-almoço e deixo-a para vós agora, como uma pequena e refrescante oferenda, neste último dia de verão:
"SER AUTÊNTICO SIMPLIFICA ENORMEMENTE A VIDA"

domingo, 20 de setembro de 2009

Tábua de marés (41)


O que posso dizer da película "argentina" de Coppola, apresentada no último Festival de Cannes? Que é praticamente horrível? Que desde há muito não via algo tão mau num écran de cinema? Ambas seriam apreciações demasiado superficiais, sínteses algo simplificadoras das desagradáveis sensações que deixaram no meu corpo, no meu cérebro, na minha sensibilidade e - mesmo desejando que não houvesse chegado até aí, posso receá-lo - no meu já suficientemente açoitado inconsciente, as duas horas de sacrificada ingestão deste pudim indigesto chamado Tetro. Estava ansioso por ver o filme, reconheço. Tanto mais que criado por um realizador que admiro desde há muito e que agora decide ter como cenário um país tão estonteante e complexo. Mas vamos já já ao que interessa. Para que não pensem que sou assim tão negativo, tentarei salvar alguma coisa deste titânico naufrágio. Aqui vai pois uma pequena lista de salvados:
1) O jovem actor de nome impronunciável: Alden Ehrenreich. Quase um clone de Leonardo DiCaprio, conserva uma ambígua e terna ingenuidade infantil, actua com elegante naturalidade, apesar do estranho enxame de desengonçados que o rodeiam durante todo a longa, inacabável, metragem do filme.
2) A fotografia a preto e branco: clássica nos seus claros/escuros, sempre expressiva, por momentos magnífica.
3) A música, tão bela como redundante, misturando sons reconhecíveis do tango e o folclore argentino. Em muitos momentos é utilizada para destacar situações supérfluas que, supostamente, deveriam dotar o filme desse carácter porteño que Coppola encontra na rádio Colifata - é-lhe dedicada uma longa sequência quase documental dentro do filme- ou no mate amargo que a fotogénica e sempre algo distante Maribel Verdú oferece ao seu jovem cunhado.
Haveria que resgatar algo mais? Talvez o rostro impenetrável, cinematograficamente imprescindível, de Vincent Gallo. É melhor esquecer a patética aparição de Carmen Maura, num arremedo exasperante, óculos com armação de massa branca pelo meio, da escritora Victoria Ocampo. Como teria sido este personagem interpretado por Javier Bardem? Cego, talvez?
Mais perguntas: o que pretendeu Coppola com este, segundo ele, seu filme mais pessoal? Fartar-se para sempre? Visitar essa Argentina decadente, acelerada, superficial, orgiástica, soberbamente felliniana? Tudo faz crer que nunca recuperou o guião que lhe furtaram da sua casa do bairro de Palermo. E, com a produção já em marcha, teve que inventar este montão de absurdos enredos familiares no mais puro estilo Soap, à medida que ia filmando. É triste observar como o criador de O padrinho e One from the heart, o homem bigger than life, que arriscou várias vezes a sua fortuna pessoal para fazer o cinema que desejava fazer, se vende agora por um simples prato de lentilhas ao falso luxo de Swarovski, rapina nos coutos privados de outros realizadores - o último Leonardo Favio, Wong Kar Wai e Almodóvar entre os mais notáveis - e passeia-se com um olhar irónico e superficial pelas vastas pampas argentinas. Pouco mais que um cenário onde ele e a sua filha se fazem retratar para poderem vender-nos, também, as icónicas maletas de monsieur Louis Vuitton.

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quinta-feira, 9 de abril de 2009

Tábua de marés (40)

"Um bando de passarinhos” (2008)
Argumento, realização, produção e montagem: Zigud
Ante-estreia, com duração de 20’
Pequeno Auditório do TMG, 24 de Março

Como já li algures, a propósito deste registo, estamos na presença de uma curta-metragem poética. A designação é absolutamente acertada, uma vez que a poesia é a matriz deste filme. Por detrás de cada frame, em cada plano, em cada sequência, existe um propósito poético. Para o qual, os textos de Américo Rodrigues, aqui ditos pelo próprio, dão o mote. A história que deu origem ao filme é conhecida: um pastor da Quinta da Taberna, em pleno Parque Natural da Serra da Estrela, concelho da Guarda, registou, ao longo do tempo, uma série de inscrições nas paredes da sua casa. Fazendo-o de forma aleatória, embora com um propósito cronológico, diarístico. Onde cabem acontecimentos, impressões, listas de tarefas ou simples estados de espírito. Sinais “riscados” na parede e únicos testemunhos de um tempo. Ora, esse memorando grafitado foi recolhido e recriado por Américo Rodrigues. Dando origem a um caderno da colecção “O Fio da Memória” (edição NAC, 2004), em co-autoria com Ana Leonor Silva, intitulado “As pedras escritas – O pastor escrevinhador da quinta da taberna”. Creio ser neste registo que os textos que integram o filme têm a sua origem.
A obra tem assim uma marca espácio-temporal precisa. Todavia, desenganem-se os curiosos que esperariam ver nesta curta-metragem uma simples digressão documental. Ou uma surtida voyerista, do tipo televisivo, como já se viu em aclamados equívocos do tipo bucólico-pastoril. Como já se disse, este filme encerra uma evocação poética. Uma evocação onde o enredo está ausente, embora já não a narrativa. E que tipo de narrativa? A do tempo, seria a resposta mais óbvia. Um tempo encravado num espaço físico, cujos sentidos se convulsionam e se perdem em nostalgia. Onde cabem as memórias cruzadas dos intervenientes, a sua desenvoltura na paisagem, da qual são únicos actores possíveis. Uma paisagem aqui tornada cenário. Sem manipulações forçadas, mas como espaço intemporal cuja respiração se ausculta. E cuja força, neste caso, não chega nunca a esmagar, mas antes a encher de presságios, de refracções. Uma paisagem cuja quietude não inspira estados de alma, nem digressões românticas. Ou muito menos ilustra as inscrições do pastor, ou os poemas “sonoros” de A.R., mas instala-os, simplesmente. Por sua vez, as figuras tão depressa surgem, animadas pelas memórias que relatam, como se dissolvem no som de uma flauta, numa ramagem mais espessa, ou na curva do caminho, como numa sequência espantosa na parte final. Parecendo que carregam consigo uma missão prometaica, cujas elipses a câmara se encarrega de acentuar e iluminar, mas nunca forçando uma proximidade indesejada. As aparições do pastor-escrevinhador, na primeira pessoa, são igualmente comedidas quanto baste. O desenho do personagem é feito sobretudo pelas memórias dos outros, pelos seus relatos dispersos. No entanto, percebe-se que o pastor é a figura central da obra. Todavia, aparece, digamos, nas vestes de um demiurgo, de uma imagem fotográfica soprada pelo vento, logo no início. Mas nunca o vemos, volto a frisar, como um objecto de curiosidade etnológica. E é precisamente esta elegância, o jogo permanente entre a ocultação e a luminosidade, o rigor da montagem, aquilo que torna este filme uma obra singular e enternecedora. A qual, tanto quanto sei, é a obra de estreia do autor. Duas notas finais. Gostaria de, para além dos textos, de que já falei, fazer uma menção para as eficazes paisagens sonoras criadas por César Prata. Por último, a inclusão de separadores de texto no meio do filme, se bem que graficamente interessantes, torna-os elementos perturbadores que podem induzir o espectador em erro.

Publicado no jornal "O Interior", em 2 de Abril

Tábua de marés (39)

Ice Concert
Percussão: Terje Isungset (http://home.online.no/~isungz/)
Voz: Lena Nymark
Pequeno Auditório do TMG, 27 de Março

No início da carreira deste músico norueguês vamos encontra-lo como percussionista dos Groupa, uma banda que cultivava uma sonoridade folk, com muita flauta e violino de permeio. Com a gravação de “Reise”, o seu primeiro álbum a solo, Terje inicia uma nova etapa do seu percurso, utilizando instrumentos feitos de gelo. Em 1999 surgiu “Floating Rythms”, uma gravação ao vivo. Em 2002, o registo “Iceman Is” é a obra inaugural da série Icemusic, uma sequência de discos onde as sonoridades obtidas a partir de instrumentos de gelo dominam , mas que também poderia ser encarado como um tipo de música inovador. Seguiram-se mais quatro discos: “Ice Concerts”, “Two moons”, “Hibernation” e “Middle of mist”. Nesse período fundou a editora independente All-Ice Records, em 2005, dedicada a este tipo de música. Mas Terje não faz a coisa por menos. As gravações de originais são efectuadas em iglos transformados em estúdios, obrigatoriamente mantidos a temperaturas inferiores a zero. O jazz glaciar deste músico não deixa ninguém indiferente. O concerto dividiu-se em duas partes distintas. A primeira, o “Ice Concert” propriamente dito, onde o músico pode experimentar de variadas maneiras os diferentes instrumentos, criados exclusivamente para este espectáculo, não é de mais salientar: desde o Tambor de gelo até à trompa, passando pelo “Gelofone”. Uma sonoridade introvertida e que acompanha em pleno a efemeridade da matéria-prima usada, originando um momento elegíaco. Um apelo do inicio dos tempos. Onde a água sólida é como que um bloco criativo, enquanto o som é esculpido e pulverizado, percutido de infinitas maneiras e transportando consigo um murmúrio cristalino, da ordem do êxtase. Ou seja, a intervenção hipnótica do gelo, entre comedidos jogos rítmicos e tons que parecem ficar suspensos num fluxo que ameaça libertar-se, numa estranha irrisão de pureza. As vocalizações de Lena Nymark, por outro lado, asseguram o degelo no meio da litania glaciar. Seguiu-se uma segunda parte, “O Tributo à Natureza”, onde Terje executou vários temas, recorrendo à bateria e um sem número de instrumentos de percussão criados por si. Utilizando também, no último tema, novamente à trompete de gelo. Devido à variedade instrumental, foi visível o virtuosismo do músico e a sua mestria na âmbito daquilo que se convencionou chamar de criação de “paisagens musicais”. Aparecendo como um “Yeti” com propriedades xamânicas no meio das fontes, das folhas das árvores, do crepitar das fogueiras, dos animais em corrida, dos cristais de neve que se descobrem apenas quando observados ao microscópio. Pegadas jurássicas que ficaram, tenho a certeza, marcadas de forma indelével em quem assistiu a este espectáculo memorável.

Publicado no jornal "O Interior", em 2 de Abril

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quinta-feira, 26 de março de 2009

Tábua de marés (38)

The Bob Sands Big Band (http://www.bobsands.es/)
“Seia Jazz & Blues” - V Festival Internacional de Jazz e Blues
Cine-Teatro da casa Municipal da Cultura
7 de Março, pelas 21:45 Horas

A edição do Festival este ano encerrou as suas portas da melhor maneira. O público português não está, regra geral, muito habituado a assistir a espectáculos com “orquestras” de Jazz. Com efeito, as apresentações de grandes bandas são raras e reservadas para grandes festivais ou programadas para grandes casas de espectáculos. Conseguir trazer uma banda desta dimensão – lembro que nela participam 21 elementos – é já por si um acontecimento. Só possível, segundo a organização, devido ao facto do líder e restantes músicos estarem radicados em Madrid. Foi portanto a proximidade que facilitou a empresa. Por onde começar? Bob Sands é nova-iorquino. Segundo a sua página oficial, cedo se dedicou ao saxofone. Depois de um vasto currículo e de uma carreira com algumas distinções pelo meio, em 1992 radica-se em Madrid, onde ainda vive e trabalha. Tocou com: Lionel Hampton, The Glenn Miller Orchestra, Dizzy Gillespie, Paquito D'Rivera, Gerry Mulligan, Mel Lewis, Gary Smulyan, Clark Terry, Mark Murphy, Dee Dee Bridgewater, Ron McClure, George Mraz, Kurt Weiss and J.J. Johnson, entre outros. Como curiosidade, já tocou também com Bernardo Sasseti. Em 1998 gravou o seu primeiro disco em Espanha para a editora Fresh Sound New Talent, onde participou, entre outros, o nosso conhecido Carlos Barreto. Actualmente, trabalha como líder de vários projectos, com destaque para o seu trio, quarteto e esta "The Bob Sands Big Band". Lecciona também na "Musikene" em San Sebastian. Por último, como prova da sua heterodoxia, regista algumas participações noutras áreas musicais. Uma carreira prometedora, sem margem para dúvidas. Foi pois com uma enorme curiosidade que corri a assistir a este concerto. Como já anteriormente tinha dado conta, esta sala apresenta algumas deficiências no que toca à qualidade sonora. Não sei se devido à sua concepção, ou se o sistema de som não estava devidamente configurado nos espectáculos a que assisti. Essa dúvida manteve-se no caso presente. Tanto mais que uma intensidade e diversidade sonora como a daquela noite exigia cuidados especiais. No entanto, ao longo da prestação, por via certamente de ajustamentos, o som melhorou francamente. Sobre o espectáculo em si, foi simplesmente memorável. O acerto aliado ao virtuosismo proporcionou à assistência grandes momentos de jazz. Embora correndo o risco de ser injusto, destaco a prestação do trompetista Raul Gil. Cujo particular fulgor, com acentos de um límpido lirismo, encheu a sala. Foram passados em revista alguns standards, como “Groovin Hard”, ou “Love for Sale”, de Buddy Rich. Seguiu-se um vendaval de jazz orquestral de primeira água, O que incluiu alguns temas clássicos, que soaram na sala como se tivessem sido compostos no dia anterior: de Kenny Dorham a Count Basie, de Sammy Nestico a Frank Foster. A forte presença dos metais apoiada por uma poderosa secção rítmica, não impediu, contudo, aqui e além, soberbas intervenções, protagonizadas por alguns dos solistas “de serviço”. No fundo, oportunidades para a orquestra ganhar fôlego até ao próximo “ataque” que se seguiria. Em resumo, acerca deste espectáculo, só caberia acrescentar: pelo que foi referido e por tudo aquilo que não se conseguiu expressar, sem dúvida que Seia foi merecidamente a capital, por um dia, do Jazz em Portugal.

Publicado no Jornal “O Interior”, em 19 de Março

Tábua de marés (37)

Ana Free
http://www.anafree.homepage.t-online.de/84301/home.html
Teatro-Cine de Gouveia
14 de Março, 21.30h

A cantora é um caso sério de popularidade, a julgar pelas audiências. Ana Free é luso-inglesa e vive actualmente na pérfida Albion. A sua ascensão no mundo do espectáculo deveu-se, segundo rezam as crónicas, ao uso intensivo das novas ferramentas de comunicação da Web 2.0. A partir das quais deu a conhecer a sua música. Com especial destaque para o famigerado You Tube, onde colocou os seus vídeos caseiros, usando a sua voz uma omnipresente guitarra. Interpretava canções originais e algumas versões de standards famosos, dos Rolling Stones a Ben Harper. Pouco depois, esses clips já contavam com mais de seiscentas mil visualizações A coisa, claro está, deu que falar. E certamente os convites para gravações e espectáculos não tardariam a chegar. Pois bem, ao que parece, o seu primeiro e, até agora, único single, “In my Place!”, é um dos temas mais passados nas rádios nacionais de referência. O mediatismo deveu-se, em grande medida, à utilização do tema num anúncio publicitário de uma conhecida operadora móvel. E assim, em questão de meses, nasceu um fenómeno musical com repercussões internacionais. Os números realmente impressionam: 7,8 milhões de visitas aos seus vídeos; mais de 25.000 subscritores; number one do top português no Itunes; 62 vídeos da sua autoria no You Tube; o motor de busca do Google devolve mais de seis milhões de entradas com o seu nome! Ups! Pena é que a sua página do Twitter seja de uma pobreza franciscana. É certo que este jovem não é caso único, no que diz respeito a um semi-estrelato tão fulgurante como incompreensível. Possível graças à Web, como já se referiu. O problema está na vulgaridade musical evidenciada pela compositora/intérprete. Com possibilidade de progredir, é certo. Mas creio não vir a passar de um epifenómeno, incubado no ciberespaço e rapidamente engolido pela voragem mediática. Uma espécie de Floribela baladeira. Poderia ser diferente? Talvez, mas espero sinceramente não estar enganado, pois criações destas acontecem todos os dias. Mesmo que as inevitáveis e rebuscadas comparações com Sheryl Crow comecem a aparecer. O concerto, como se esperava, foi um delírio para os incondicionais e uma oportunidade para a rendição dos fãs de última hora. Apesar do profissionalismo e à vontade demonstrados por Ana Free. Pela minha parte, só confirmei o que já esperava.

Publicado no Jornal “O Interior”, em 19 de Março

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quinta-feira, 19 de março de 2009

Tábua de marés (36)


“Rugas”
Exposição de fotografias de Carlos Pedro (portfólio)
Galeria do Paço da Cultura da Guarda
De 9 de Março a 30 de Abril

Sobretudo na arte (pronto, já disse a palavra), é preciso chegar ao ponto exacto em que não basta a justeza das imagens, mas a evidência de serem lidas como simplesmente imagens. No fundo, uma preocupação de ordem higiénica. Claro que o célebre trocadilho de Godard, só possível na década da inocência, resulta melhor em francês. Mas o alcance da expressão do cineasta resiste bem à alteração do idioma. Até agora, de Carlos Pedro “só” conhecia a sua figura afável, a sua boina sempre presente, a sua música, a sua disponibilidade perante a vida. Quando soube que também se dedicava á fotografia e que alguns dos seus trabalhos iriam ser exposto, só pensei o seguinte: eis uma obra que, por desconhecer em absoluto, de certa forma é impossível decepcionar-me. Pois o que sabia do autor coloca-a acima da dúvida, ou da surpresa. Mas estava longe de imaginar que, neste caso, só em relação à primeira parte estava certo. A surpresa foi tão intensa como espontânea, diante das imagens captadas por Carlos Pedro. As quais, voltando ao início, para lá de simples imagens, são também, imagine-se, igualmente justas…
A mostra está organizada de modo a ocupar as três divisões da galeria. Nas primeiras duas, predomina o retrato individual. O motivo vai desde o clássico – onde “De cabeça erguida”, “Encontro com o tempo” e “O regresso a casa” são os exemplos mais notáveis – até ao retrato em ambiente de trabalho (vd. a notável imagem do produtor artesanal das facas do Verdugal, “O fio da vida”), passando pelo registo iconográfico (“Domingo” e “Fé, em Santa Eufémia”). A última sala foi escolhida para a obra mais temática, privilegiando as manifestações musicais e festivas, numa perspectiva alternadamente colectiva e individual. Neste capítulo, destaque para duas sequências: a dos tocadores / pauliteiros transmontanos e a da “Festa dos Montes”, numa aldeia do concelho de Trancoso. Quer num caso quer no outro, o autor captou muito bem o movimento colectivo, o ritual que transcende os participantes, mas nunca os apaga. Dilui-os sim numa celebração pagã, onde o peso da terra não consegue iludir os esforços para lhe escapar. E onde a qualidade evidenciada por grande parte das imagens garante não só o valor artístico, como o interesse documental. Mas onde estão, afinal, as rugas, essas mesmas que deram o título à exposição? Encontramo-las um pouco por todo o lado. Nos rostos e nas mãos, é claro, nas pedras, nos portais das igrejas, nos sulcos do arado acabados de rasgar, nos alpendres sombrios, nos gravetos que alguém carrega às costas, nas uvas e no pão da peregrina, nas flautas e nos acordeões da festa, na espessura do silêncio, na pedra de amolar, no fio dobado. As rugas são os sinais inescapáveis do tempo, as gelosias por onde espreita uma suprema dignidade. Mas esta mostra memorável diz-nos também algo de novo: que as rugas são também as comissuras onde o tempo se esconde, as guaritas onde, como sentinelas, vigiamos a eternidade.

Publicado no jornal "O Interior", em 12 de Março

Tábua de marés (35)

“Minha Mãe”
Realização: Cristophe Honoré
, a partir do romance homónimo de Georges Bataille
Com Isabelle Huppert, Louis Garrel e Emma De Caunes

França, 2004, 110'


Ciclicamente, o cinema tende a aproximar-se do seu aliado mais óbvio, a literatura. Paradoxalmente, também o mais perigoso e exigente. Sobretudo quando se trata de obras de escritores “malditos”, como Bataille. Poderosa e corajosa, esta segunda longa-metragem de Christophe Honoré, é uma boa surpresa. Bataille, com reputação de inadaptável para o cinema, ganhou vida perante os nossos olhos. O cineasta transpôs a acção do romance para os nossos dias e para as ilhas Canárias, num desses complexos turísticos de massas que florescem em Espanha: uma arquitectura cuja simples visão, inumana, assustadora, basta para desejar mergulhar no inconsciente para se perder. Desde os primeiros planos aos abanões da câmara que sobrevoa estas paisagens de betão, estamos já no centro da história. Pierre e a mãe procuram um absoluto no qual o erotismo é apenas um instrumento. Não é só uma questão de prazer, mas de abjecção, de pureza, de sede, de medo da morte. A mãe não é a santa que Pierre acredita e desde que o pai morre misteriosamente (nunca saberemos porquê, como no livro) ela vai provar-lho. É a verdade que está aqui em causa, a verdade obscura, aquela que cega. A mãe é alcoólica, vive no deboche, entrega-se sem complexos, sem limite. E decide iniciar Pierre no deboche, confiá-lo a outras mulheres que o vão conduzir a jogos cada vez mais perigosos e para os quais não está preparado. Não interessa qualificar estas cenas, porque há palavras estereotipadas que sujam as imagens, que retiram toda a força aos actos, que marginalizam de imediato quem os comete. Sexuais, sim, mas sobretudo transgressoras. E é esse o grande mérito de Honoré: ter conseguido salvaguardar o essencial de Bataille – a transgressão – adaptada para a nossa época (nomeadamente no que diz respeito à ocultação da dimensão cristã de Bataille - mas a morte de Deus não exclui a procura do absoluto). Com imagens que nos transportam para zonas ‘infilmadas’ até hoje num filme. Portanto, a questão do filme pertence muito menos a Bataille e muito mais a Honoré. Não é por acaso que o filme é conseguido sobretudo pelas liberdades que se permitiu face ao texto original. Sobretudo a localização da acção nas ilhas Canárias, destino turístico que vende uma utopia de sexo fácil e céu demasiado azul. Levar o prazer batailliano, inseparável da ideia de transgressão, para um local que é como uma caricatura de uma sociedade que já permitiu tudo, já normalizou tudo, era um grande risco. E o filme sai vitorioso deste risco. O outro risco estava relacionado com a forma de encontrar o erotismo. Poderíamos pensar que o resultado fosse fraco, recusando Honoré a composição de grandes planos explícitos. Percebemos agora que, permanecendo à distância, em plano geral, não suprimiu a carga sexual, mas expandiu-a para todo o plano. Para tanto, serviu-se de um casting tão prestigiado como heterodoxo, em que brilha na primeira linha a grande Isabelle Huppert, escoltada por um jovem actor sobredotado, Louis Garrel, uma actriz que finalmente se afirmou, Emma de Caunes, e um ícone do underground, Joana Preiss, manequim e modelo da fotógrafa Nan Goldin. É o próprio realizador quem o confirma, em entrevista concedida na altura da estreia: “Queria fazer um filme que só devesse à luz, aos actores, à música. Mas esta abordagem era ingénua e infantil. Percebi que o que podia ser interessante no meu cinema é eu ter um pé no cinema e outro na literatura.” A certa altura dois personagens fazem sexo e por trás lê-se num cartaz “Alle Infos hier” (Todas as informações aqui), mas bem que poderia ser “Alle Ninfos hier”. De facto, o espaço é mostrado de forma quase degradante – uma zona turística que fala várias línguas, onde ninguém está em casa. Onde, no limite, se parte para a auto-destruição. Mas é aí precisamente que Bataille nos quereria levar. Ao lugar onde, nas suas palavras: “O riso é mais divino, é mesmo mais indecifrável do que as lágrimas.”

Publicado no jornal “O Interior”, em 12 de Março

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domingo, 8 de março de 2009

Tábua de marés (34)

“Passos Perdidos”
José Teixeira
Exposição patente na Galeria de Arte do TMG
De 17 de Janeiro a 8 de Março

Só para quem não sabe: José Teixeira licenciou-se em Escultura e realizou o Mestrado em Teorias da Arte na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Local onde lecciona, actualmente, a cadeira de Artes Plásticas. Como escultor expõe regularmente desde 1980, dedicando-se à medalhística a partir de 1995, disciplina onde tem vindo a ser consagrado internacionalmente. Já viveu e estudou na Guarda.
Até agora, da obra do autor só conhecia algumas esculturas, a sua intervenção no Café concerto do TMG, há dois anos, a colaboração gráfica para a revista “Boca de Incêndio” e parte das suas medalhas. Portanto, a minha expectativa em relação a esta mostra era elevada. Todavia, antes da apreciação do evento, é fundamental lançar uma advertência: esta não é uma avaliação especializada nem deverá ser entendida como tal. É uma apreciação crítica, sim, mas ancorada na sensibilidade e no despojamento possíveis de quem a expressa.
Ora, a meu ver, esta exposição enferma de um problema de concepção e de organização do espaço. O que significa isto? A mostra é constituída por quatro blocos distintos: desenhos, esculturas, instalação e uma tapeçaria instalada numa plataforma, reproduzindo um labirinto. Os primeiros estão expostos ao longo da sala. As segundas aparecem à entrada da sala principal, a maioria das quais à esquerda. Com excepção do conjunto “Passagem a” e Passagem z” encostado a cada um dos lados da parede do hall. A instalação está na sala do fundo. Por último, a tapeçaria encontra-se ao fundo da sala grande, encostada à direita. Percorrido o espaço, é notória a descontinuidade entre os vários módulos. Não se trata, claro está, do seu mérito intrínseco, mas do modo como se relacionam, do desequilíbrio criado entre as várias linguagens, da ocupação excessiva do espaço. Portanto, com este acervo, em vez de uma, justificavam-se duas intervenções: a) uma instalação composta por dois módulos distintos, em espaços contíguos, mas individualizados, num a tecelagem e no outro, mantendo-se a instalação “The road to nowhere”; b) uma outra, constituída pelas obras pictóricas e escultóricas. Porquê? Para responder, para além das razões expostas, incluiria mais duas: 1) por um lado, a tapeçaria, pelo seu magnetismo, pela sua completude e pela capacidade evidenciada em criar perspectivas ilusórias, ganharia muito em “respirar” plenamente, sem nada à volta que a perturbasse. De modo que cada um a pudesse percorrer ainda antes de a pisar. Ou ser enganado pelo seu desenho. Ou atraído pelo seu mistério, como se nele repousasse a “forma do seu destino”, nas palavras de Borges, citadas na folha de sala; 2) por outro lado, a densidade e a verticalidade das esculturas aconselharia a uma visibilidade plena, sem objectos estranhos e sem constrangimentos. Portanto, esta exposição parece-me ser um exemplo claro onde a evidente qualidade das obras apresentadas ficou prejudicada pela sua organização e disposição. Aparte este “pormenor”, esta exposição de José Teixeira constitui um grande acontecimento artístico na cidade.

Publicado no jornal "O Interior", em 5 de Março

Tábua de marés (33)


Honeyboy Hickling (http://www.honeyboyhickling.com/)
Com Bob Wilson, Tony Baylis e Tony Stuart

Pequeno Auditório do TMG, 27 de Fevereiro
Quando ouço R&B, seja na rádio ou numa sala de espectáculos, é como se tornasse a acreditar que a máquina do tempo realmente existe. E que, na maioria das vezes, esta se manifesta através da música. Neste caso concreto, é a simplicidade rítmica do género que continua a fascinar. Pelas mesmas razões porque se tornou a matriz do ‘rock’, e não só, a partir dos anos 60. Algo que, só por si, no mínimo, justifica uma comparência espaçada a um festim musical onde a linguagem do R&B é rainha. Sobretudo quando é invocada por intérpretes de eleição. Como é o caso precisamente de Simon ‘Honeyboy’ Hickling, o cantor e tocador de harmónica britânico que fechou a última edição do Festival “Inblues”. O qual, como se sabe, decorreu no último mês no Teatro Municipal da Guarda.
Quem é “Honeyboy”? Trata-se de uma figura destacada no género, com uma já longa carreira artística. A sua técnica única na execução da harmónica e o particular registo vocal granjearam-lhe uma sólida reputação internacional, como virtuoso desse instrumento. Mas Hickling é também compositor de fino recorte. Tem várias gravações no activo. Com a sua banda, lançou já cinco álbuns: “Straight from the Harp” (1994), “Blue it” (1998), “Blowin’ Through Town” (2001), “Bare Tracks”, com Gordon Smith (2002) e o recente “Blowin Thro Town”. A tournée que o músico e a sua banda fazem neste momento pela Europa – “Never Ending Tour” – de que este concerto faz parte, destina-se precisamente à apresentação de temas daquele trabalho, ao lado de composições anteriores e standards do repertório clássico. Foi também chamado a participar em diversas gravações como músico convidado: com Steve Marriott, a partir de 1988, em “Sing the Blues Live”, “Poll Tax Blues” e “Thirty Seconds to Midnight”. Esta colaboração foi o passo decisivo na sua carreira, que até aí se tinha limitado ao roteiro de bares das Midland. Os músicos acabaram por tocar juntos durante três anos, período esse que alguns críticos assinalam como o mais profícuo da sua carreira. Gravou ainda com Bo Diddley, em “I Don't Know Where I've Been” e com Anthony Thistlewaite (ex Waterboy), em “Aesop wrote a Fable”. Integrou igualmente uma memorável tournée, em 2001, intitulada “Nine Bellow Zero”. De um concerto onde participou, no London Astoria, em 2001, foi gravada em CD e DVD uma versão de “Big Train”, um tema de Steve Marriot. Actualmente, é reconhecido internacionalmente como um virtuoso, possuidor de um estilo inconfundível. Entretanto, tem participado nos principais festivais de Blues da Europa.
O espectáculo decorreu em crescendo, mas com a banda a agarrar o público desde a primeira nota. Depois, o profissionalismo dos executantes e a magia da harmónica de Hickling fizeram o resto. Lá para o fim, decidiu brindar a assistência com o hit: “Big Train”, de Marriot. Foi quanto bastou para empolgar os presentes e originar, em meu entender, o momento alto da noite.

Publicado no jornal "O Interior", em 5 de Março

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Tábua de marés (32)

“Mal Nascida”
Realização: João Canijo
Pequeno Auditório do TMG, 11 de Fevereiro

Eis o toque de finados para os brandos costumes, num país que, pelos vistos, deles já prescindiu. Poderia ser este o subtítulo possível desta obra. Que é, antes de mais uma tragédia vivida no Portugal (realmente) profundo, rude, a preto e branco, definitivamente fora das páginas dos jornais e dos estudos de marketing. O tema é aliás recorrente na obra do realizador. Já em “Noite Escura”, filme aclamado aquém e além fronteiras, Canijo recorre à tragédia grega. No caso era “Ifigénia em Aulis”, adptada às desgraças de uma família do submundo português. Agora tenta recriar o mito de Electra, também orfã de seu pai, por sua vez também assassinado às mãos da mulher e seu amante. O autor é justamente considerado um dos cineastas com percurso mais singular e carismático da sua geração.
Neste filme, o motivo é o conhecimento. Um destino recreado para além do que se possa pensar dele. O apelo de uma justiça brutal e de uma fuga improvável aproxima a personagem principal da imponderabilidade e da incerteza. Ao mesmo tempo que a coloca muito para lá da censura ou da condenação. E da culpa. Como se, à semelhança da heroína da tragédia, a única punição que o destino lhe reservou fosse ter sobrevivido. O cenário para esta história onde os mortos pesam mais do que os vivos é numa aldeia dos confins de Trás-os-Montes. A rudeza e a austeridade da paisagem dificilmente “aguentariam” um registo pícaro, mais suave, mais garrido, mais festivo. De que o melhor exemplo é “O meu querido mês de Agosto”, de Miguel Gomes: Este rodado na zona do Pinhal. Aqui não há humanidade. O riso é uma afronta. O lirismo pode tornar-se um sarcasmo. E a morte um detalhe. Por falar nisso, sobressai uma contenção emocional que ameaça explodir a qualquer momento. Sob o peso asfixiante de um passado por resolver. Não são pois os “Contos da Montanha”, em versão cinematográfica, de um reino mágico e, ainda assim, temente a Deus. Aqui são contas de outro rosário. Aqui as histórias que se cruzam são matéria pura, matéria latejante, amor misturado com gordura de frango, sangue com maços de notas, porcos com cortejos fúnebres. A sequência da preparação do morto para a cerimónia é notável. Parece pois que nesta tragédia não há heróis. Mas há. Até por causa do profundo significado da tragédia. Ou seja, a ironia. Esta trata não dos pontos fracos dos protagonistas, mas dos seus méritos. O herói é empurrado sem apelo para a metáfora trágica, não pelos seus defeitos mas pelas suas virtudes.
Esta obra de João Canijo constituiu-se pois como um dos objectos mais insólitos do cinema português contemporâneo.

Publicado no jornal "O Interior", em 19 de Fevereiro

Tábua de marés (31)

Tanya Tagaq
Michael Red: laptop e electrónica
Kenton Loewen:bateria
Pequeno Auditório do TMG, 13 de Fevereiro

Tanya “Tagaq” Gillis é uma throat-singer. “Uma quê?”, já ouço dizer. Será uma cantora “constipada”, por causa da inclemência do clima do árctico? É e não é. O seu instrumento, ao contrário da maioria dos cantores e paradoxalmente, é a sua garganta. Nesta técnica vocal são produzidos, em simultâneo, vários registos. Muitos deles com timbres invulgares, através do uso de uma ressonância produzida na garganta. O recurso fonético não é original da etnia esquimó Inuit, norte do Canadá, de onde provém a cantora. É utilizado, em larga escala, no Tibete, na Mongólia e em Tuva, na Sibéria. Menos conhecido, aparece igualmente nas tradições da tribo Xosa, em África do Sul e na cultura Ainu, no Norte do Japão. O que é original no “Inuit vocal game”, como se percebeu no concerto, é o uso de sons guturais imitando animais e os ritmos dos cânticos de Kataijaq. A artista define esta tradição como um jogo vocal entre duas mulheres, representando uma reconstituição dos sons produzidos na natureza. É um jogo algo complicado, onde são produzidos dois sons que se vão repetindo a alternando. Quem lidera pode mudar a canção para o próximo verso sempre que quiser, pelo que o acompanhante deverá estar pronto a segui-lo. Não é algo emocional, embora possa soar desse modo. É um jogo. Só ris depois.” Portanto, um registo que se poderia definir como uma sinfonia de amostras sonoras captadas na paisagem do Árctico, numa performance, diria, operática. Tudo isto imbuído de uma sonoridade pop, de algum experimentalismo próprio da música improvisada e das vertiginosas manipulações próximas de Jon Hassell e Stina Nordenstam. Uma combinação que atinge a transcendência final graças à sua poderosíssima voz. Tanya trouxe um fulgor renovado ao que chamo o “artista global”, aquele que, partindo de uma tradição, define as suas próprias regras, misturando sonoridades épicas com ritmos tribais e uma pop orquestral. O talento e a singularidade artística de Tanya Tagaq já há muito foram reconhecidos. Participou na gravação do álbum “Medúlia”, de Bjork e integrou espectáculos do “Kronos Quartet”. A cantora deu agora seu segundo espectáculo na Guarda. Desta vez apareceu com uma formação musical diferente da anterior e basicamente veio apresentar o seu último trabalho, Auk (Blood), de 2008. O concerto foi o ponto de partida para uma experiência estética pouco usual. Que se poderia definir como catártica. Após uma ligeira introdução “ambiental”, a cantora iniciou a sua articulação de gritos surdos, como que chamando os ritmos que acompanharam a sua música até ao final. Uma catadupa de sons guturais e explosivos gemidos em staccato começou a invadir a sala, enquanto os intervenientes pareciam ganhar uma cumplicidade também ao nível da linguagem, enquanto Tanya atravessava as trevas, irrompia envolta numa luz majestosa e se recolhia na mais distante intimidade. Percorrendo o palco, ou gesticulando como só a deusa Shiva o saberia fazer, murmurando, transmutava-se de guerreiro para lobo, ou urso, ou caçador, ou criança inocente, ou, por fim, depois de um curto período de silêncio (neste caso, poder-se-ia falar de hibernação) entidade espiritual, introspectiva e plena de sabedoria. Tanya Tagaq trouxe à Guarda, pela segunda vez (e espero que não pela última), um precioso momento musical. Num espectáculo a todos os títulos memorável, para quem teve a felicidade de a ele assistir.

Publicado no jornal "O Interior", em 19 de Fevereiro


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Tábua de marés (30)

Hotel de Província
pelo Teatro das Beiras
Texto: Aleksandr Vampilov (trad. Luís Nogueira)
Encenação: Gil Salgueiro Nave
Pequeno Auditório do TMG, dia 6 de Fevereiro

Alguém sabe o que é um compaginador? A partir desta simples questão, a peça mostra-nos o estrépito do desmoronamento de um edifício complexo e aparentemente imutável: o dos pequenos poderes, exercidos em regime de autocracia, num estabelecimento hoteleiro nos confins da Rússia soviética, pelo respectivo director. O hotel aparece na estrutura dramática como a alegoria de um sistema hierático, asfixiante. Alicerçado em regulamentos absurdos e não menos absurdos sistemas de controlo social: o estalinismo. Ao fim ao cabo, o “local do crime” perfeito, o micro-mundo deveras apetecível para os micro-poderes se imporem, numa espiral de arbítrio e prepotência. Um canto esquecido pela geografia, porém lembrando as virtualidades mais aberrantes do regime. Por sinal, a pesada e labiríntica estratificação da sociedade russa não foi uma invenção do comunismo. Só para dar um exemplo, desde o tempo de Pedro o Grande, os oficiais públicos dividiam-se em 14 patentes e cada nobre poder-se-ia inscrever em 6 registos!
Falar-se em “excesso de zelo”, por parte do funcionário menor que administrava o hotel, é em si mesmo um pleonasmo. É que o zelo pressupõe um permanente equilíbrio na sua condução, um bom senso imanente que nos leva a concluir que a diligência ou existe ou não. O “excesso” de certa forma apaga-o, é já “outra coisa”. Neste caso, transforma-se no delírio persecutório de um “big brother” de província, cuja escala menor não diminui, antes pelo contrário, e seu modus operandi característico. Um delírio que nada respeita, que tudo devassa. Fazendo cumprir uma série de regras kafkianas que se alimentam de si próprias. Que tornam todos os hóspedes reféns de uma contingência ou de um capricho, impostos por um sistema cujo rosto visível é, na circunstância, o do funcionário / administrador. Este, por sua vez, embora detenha o poder supremo no interior do espaço, exerce-o não por si, mas como uma adesão a um conjunto de regras que só de forma caricatural se poderão fazer valer e respeitar. E cuja iniquidade se faz notar particularmente pela subalternidade de quem a executa. Um dia, todo este edifício vai ruir, a partir de uma simples dúvida: a suposta identidade de um hóspede. Quem será? Que poderes representa? Que ameaças pode infligir? O texto original de Vampilov intitulava-se precisamente “Incidente com um compaginador”. O que revela o ênfase dado pelo autor ao caso. E que confere o tom geral de comédia à peça. A partir do nascimento do equívoco, tudo se altera. A incerteza e o medo instalam-se. O funcionário é o seu demiurgo. O tal que chega a renegar o passado e tudo aquilo em que acreditava até aquele momento. Numa sequência alucinante, que mais faz lembrar certas passagens de “A Morte de Ivan Ilitch”, de Tolstoi, do que os dramas de Tchekov, como se anuncia no programa. Significativamente, à medida que o funcionário - aqui “doente imaginário” por empréstimo - tenta salvar a sua alma e colocar-se a salvo de uma hipotética fiscalização promovida pelo “compaginador”, a mentira que ele sustentava acaba por vir ao de cima, numa espécie de catarse mais própria da tragédia.
Sobre o espectáculo, embora de uma indiscutível seriedade, é claro que algumas opções cénicas utilizadas são discutíveis. Na circunstância, fiquei com a impressão de que uma leitura demasiado clássica da peça diminuiu o seu potencial expressivo. Em certos momentos, parecia estar a assistir a uma sessão de teatro de Boulevard fora do contexto, não só devido ao cenário, em contradição com o tema, mas sobretudo por causa do registo da representação. A qual me pareceu bastante desigual e demasiado próxima de tipos, em lugar de personagens. Ou seja, onde se impunha o acentuar do exagero triunfou o tom inexpressivo, e onde a malícia ou a estultícia aconselhariam a versatilidade, imperou o estereótipo.
Em suma, a última produção da Companhia “Teatro das Beiras constitui um momento de teatro bem disposto e competente quanto baste. Mas acaba prejudicado, de alguma forma, pelo registo encontrado.

Publicado no jornal "O Interior", em 12 de Fevereiro

Tábua de marés (29)

Benjamim Tehoval
Percussão, harmónica, bateria e voz.
Inblues - Festival de Blues da Guarda
Café concerto do TMG, 5 de Fevereiro

Tehoval é um “one man show” francês, capaz de executar quatro instrumentos ao mesmo tempo: a guitarra, a harmónica, percussões e um pedal de bateria. Prossegue assim uma poderosa tradição musical trovadoresca, destinada a animar pequenos espaços e pequenos auditórios. E que, numa linguagem como os blues, tem toda a razão de ser. Todavia, o seu projecto afirmou-se como um dos mais originais na cena internacional do género. O seu virtuosismo permite-lhe alternar, como tivemos ocasião de comprovar neste concerto, entre os clássicos e as suas próprias composições. O seu domínio do palco não passa desapercebido às audiências em geral e ao público especializado do blues, do jazz e do folk.
O músico executa temas que vão desde Robert Johnson e Muddy Waters a Chuck Berry, passando por composições de Bob Dylan, com o feeling e a pose das épocas que assistiram ao apogeu desta música. Conhecido do público de jazz pelas suas aparições no festival "Nancy Jazz Compulsion", Benjamin é um personagem reconhecido igualmente pelo público do rock, devido às suas participações no "L'Echo des Bananes" e em festivais, para além da sua colaboração com Wilco Johnson, ex Dr. Feelgood. O público folk habituou-se a apreciar também as suas interpretações de temas tradicionais, onde intervém uma singular autenticidade. A sua longa e singular carreira converteu-o assim num artista de culto, quer pela sua imagem como multi-instrumentista que soa como uma banda, quer pela forma despretensiosa como compõe e faz chegar a sua música. E foi isso precisamente o que o público deste concerto pode testemunhar, de forma calorosa. Esta edição do “Inblues – Festival de Blues da Guarda começou pois da melhor maneira. Uma prova mais de que o fogo dos blues ainda queima e Benjamin Tehoval é um dos guardiães da chama.

Publicado no jornal "O Interior", em 12 de Fevereiro

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Tábua de marés (28)


Gomorra(Itália, 2008)
Realização: Mateo Garrone
Pequeno Auditório do TMG, 28 de Janeiro


"A ideia de trazer o exército para lutar contra eles é, para mim, superficial. É bom para a imagem do governo italiano, mas não vai fazer nada para corrigir o problema. Você tem que trabalhar a partir de dentro, para criar uma relação entre os cidadãos e as instituições de poder. A Camorra é muito forte, porque eles vivem lá, eles cresceram lá, eles estão perto de pessoas.” Estas são palavras do realizador deste filme icónico, numa entrevista concedida na altura da estreia. Já se está a ver quem são “eles”. E se dúvidas houvessem sobre o tema, esta obra notável acabaria com elas. Baseada na obra homónima do jornalista Roberto Saviano, actualmente com a cabeça a prémio, já foi galardoada com o Prémio Especial do Júri, em Cannes, bem como Melhor Filme Europeu de 2008, Melhor Realizador (Matteo Garrone), Melhor Actor (Toni Servillo), Melhor Argumento e Prémio Carlo di Palma da Melhor Fotografia, durante o Festival da Academia de Cinema Europeu, na sua 21ª edição.
Poder, dinheiro e sangue: esses são os "valores" que os residentes das províncias de Nápoles e Caserta têm de enfrentar todos os dias. Eis então uma radiografia particularmente crua das actividades da Camorra, com direito à escatologia que o tema oferece. Neste cenário são desenvolvidas cinco histórias de personagens, que vivem num mundo aparentemente imaginário, mas profundamente afogado na realidade. Inclui empresários sem escrúpulos, chefes mafiosos, capangas, mas também um contador, um costureiro, uma dona de casa e jovens que apenas procuram o seu lugar no mundo do crime. Mas aqui, ao invés do estereótipo Corleone, com amizades na polícia e no mundo empresarial e da política, os criminosos partem para a acção de um modo brutal, sem uma estratégia. Não se trata, portanto, da tradicional máfia siciliana, ou de suas ramificações, com o seu rígido controle familiar e código de honra peculiar. Com os napolitanos, a guerra é suja e empoeirada, como a própria Nápoles. A narrativa segue esse estilo sangrento. Ao invés da jornada clássica de ascensão e queda, tantas vezes orquestrada com perfeição por Scorsese, ou do personagem pacifista engolido por um mundo selvagem, vemos várias histórias sobrepostas como uma pirâmide num mundo caótico, imundo e que não dá trégua. Nesta perspectiva, a obra evoca melhor Os Infiltrados, ou a Cidade de Deus, do que Era Uma Vez na América ou O Padrinho.
Por outro lado, do ponto de vista formal, mais parece um thriller político de Costa Gavras, director de “Z” (1969), no melhor sentido que esta analogia pode sugerir. A técnica de filmagem é vibrante, lembrando muito o estilo documental e vívido de Paul Greengrass. A câmara de Garrone parece ter o dom da omnipresença, não hesitando em entrar nos locais mais inusitados, para conseguir os melhores enquadramentos (a cena da capa, um plano sequência mostrando um personagem, saindo de uma casa a meio de uma matança, é soberba); vários momentos de silêncio, feitos exclusivamente para incomodar; e uma banda sonora que só aparece em momentos importantes. Ou seja, Garrone filma com extrema sobriedade e um grande distanciamento. Dando assim à sua obra uma marca de documentário, cuja neutralidade assusta mais do que sossega as consciências. Que alinha a vibração de uma epopeia humana, sórdida é certo, mas nem por isso desmerecedora de um portofólio desta dimensão: a galeria aterrorizante de uma sociedade contaminada a todos os níveis pela máfia. Desde os “correios da droga” na base, até aos “empresários” intocáveis no topo. A um outro nível, a fotografia de Marco Onorato é igualmente de registar. Passando pelos cappos de esquina da rua ou do bairro. Por outro lado, o realizador optou por trabalhar apenas com actores com pouquíssima ou nenhuma experiência em cinema, o que traz para os ecrãs uma rara sobriedade gestual nas interpretações.

Publicado no jornal "O Interior", em 5 de Fevereiro

Tábua de marés (27)

"La Farsemanouche" - Gipsy Jazz
(http://www.myspace.com/lapharsemanouche)
Guitarras: Alcides Miranda e Nuno Serra; Contrabaixo: Nuno Fernandes.
Teatro-Cine de Gouveia, 31 de Janeiro

O trio nasceu em 2006, sob a batuta de Alcides Miranda. Desde a primeira hora, assumiu-se como um epígono do mestre Django Reinhardt e como sonoridades inspiradoras a música festiva por ele composta e executada. Numa altura em que o jazz era sobretudo um estilo de vida frenético e de uma incrível modernidade. A música manouche, de origem cigana, já existia muito antes de Django. Mas foi este e Stéphane Grappelli quem lhe inocularam os característicos fraseados jazzisticos e a fixaram como um género de culto. Que originou uma escola de músicos tão notável quanto extensa. Com o virtuosismo da guitarra como marca inconfundível, é claro. Mas a linguagem notabilizou-se também por outras razões. Ao invés de outros tempos, este tipo musical goza de uma quase unanimidade na sua apreciação. As razões do sucesso popular do jazz manouche são múltiplas. Passam obrigatoriamente pelas mãos de uma lenda – o inevitável Reinhardt – mas também pelas qualidades intrínsecas deste género musical: uma ligação forte aos valores tradicionais, o desejo de experimentação de novas linguagens e novas linhas melódicas, a busca de originalidade, a vitalidade transbordante. Swing manouche, jazz manouche, jazz cigano… Tudo designações diferentes para a mesma realidade. Uma realidade que não deixa indiferente quem a escuta. E foi o aconteceu no Auditório de Gouveia. A receita musical trazida pelo trio funcionou às mil maravilhas. Numa sala bem composta e que, desde o primeiro minuto, aderiu à proposta musical deste grupo. Que foi alinhando os temas apresentados quase sem pausas. Numa cadência semelhante à da própria música. Uma sessão que decerto fez render alguns neófitos a esta sonoridade. Porém, quem já a conhecia, não ficou certamente desapontado.

Publicado no jornal "O Interior", em 5 de Fevereiro