terça-feira, 5 de agosto de 2008

Pouca música para tanto mundo

O Festival Músicas do Mundo de Sines alcançou este ano a 10ª edição. Não estive nos anteriores, embora esteja informado dos grupos que lá passaram. Assisti pois aos espectáculos dos dois últimos dias, ou seja, 25 e 26 de Julho. Aqui vai um breve comentário:
1. Dia 25: abriu com os paquistaneses FAIZ ALI FAIZ. Música de carácter ritual, mostrando um forte pendor repetitivo, extático, o que não admira, pois é largamente inspirada na mística dos sufis. Curiosamente, o apresentador classificou-os de "sofistas"!!! Confesso que a imagem de uns barbudos cínicos, com túnicas, desancados por Sócrates na ágora de Atenas, de repente tele transportados para o palco, foi de tal forma hilariante que só consegui parar de rir a meio da primeira música. Adiante. Como se esperava, o som encantatório dos paquistaneses dominou a assistência e deixou-me sem mais palavras. Seguiu-se um grupo finlandês chamado KTO. Uma espécie de caldo gótico, folkadelic e funk de feira, com alguns momentos a fazer lembrar os saudosos Hedningarna, em versão rasca. A estrela principal da companhia era um acordeonista semi acrobata, que fez questão de mostrar o rabo ao baterista, arrotou algumas postas de humor escandinavo versão pimba, mas denotando, infelizmente, um talento musical escasso. Seguiu-se umm inacreditável chinês chamado CUI JIAN. Apresentado como "o pai do rock chinês", pelo patusco apresentador. Foi banido, por razões políticas, na altura dos acontecimentos de Tianamen, tendo sido "reintegrado" há uns anos pelo "simpático" regime chinês. Pela música abaixo de cão que apresentou no castelo de Sines percebe-se porquê. Alguém nessa noite e que residiu em Macau nos anos 80 informou-me que, nessa altura, o Cui era a pop star mais fulgurante do momento. E que, pelos vistos, continua a imitar as suas próprias imitações de standards do pop-rock ocidental. Horrível. Com um pai destes, nem a mãe **** nem os filhos almoçam.
2. Dia 26: Começaram os KOBI ISRAELITE. Um grupo de fusão. Já cheguei tarde, pois não resisti a uma escapadela à praia do Alvolião, na Zambujeira e a um vinho branco, partilhado com uns amigos numa certa tasca no Brejão, acompanhado de uma salada de polvo. O som desta formação pareceu-me banal, nada trazendo de novo em termos de música tradicional. Seguiu-se a cantora ROKIA TRAORÉ, do Mali. Fazendo-se acompanhar de um excelente naipe de músicos, mostrou como se pode fazer uma leitura dinâmica da raiz tradicional, sem a adulterar. Incluindo alguns instrumentos, como a cora. Um grande momento musical. Fechou em grupo heterogéneo, composto por músicos originários da Irlanda, da Suiça e dos EUA. Que interpretaram como ninguém aquilo que parece ter sido a tónica deste festival: uma cacofonia electrónica, de feira, onde a música de raiz tradicional só aparece a espaços.
3. Conclusão: a música enquanto factor de identidade, enquanto marca étnica, é a razão de ser destes festivais. São já demasiadas as concessões ao gosto hegemónico, ao caldeirão da massificação, para se poder falar em Festival de Músicas do Mundo. Nem que mais não seja, porque se trata de publicidade enganosa. Por isso, não partilho da visão acrítica do Victor Afonso sobre os espectáculos que presenciou. Fora do programa oficial, salvou-se o resto, como seria de esperar: a festa "cá fora", pela noite dentro, junto ao castelo e, sobretudo, ao longo da marginal, junto ao palco aí instalado, onde se apresentaram bandas até "às tantas", as manifestações das tribos neo-psicadélicas, o artesanato, os aromas no ar e uma alegria irresistível e irresponsável.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Stalker

O mistério da feira do livro desaparecida

Antes de partir para o Festival Intercéltico de Sendim, na sexta-feira, andei à procura da IV Festa do Livro, promovida pelo jornal "O Interior", incluída no arraial pimba também designado por Festas da Cidade da Guarda. Nem que mais não fosse só para observar in loco no que se tornou o desenvolvimento de uma ideia em cuja primeira concretização fui parte activa, em 2002, na qualidade de Presidente do Aquilo Teatro. Pois bem, iniciei a busca e deparei com umas barracas de comes e bebes, das quais se desprendia o característico perfume a carne e sardinha assada. O fantasma de Fernando Pessoa, evocado no dia anterior, deveria deliciar-se com o ambiente. Depois os stands institucionais do costume, ali plantados por mera marcação de território. Em pânico, devido à eventualidade de cair no raio de acção de uns altifalantes debitando o último êxito de Luís Filipe Reis, avancei com passos largos. Já basta residir nas imediações e, apesar de fugir da coisa a sete pés, não evitar estar presente um dia ou dois e apanhar com os decibéis do costume, sem que a Câmara envie uma cartinha aos moradores das redondezas pedindo desculpa pelo incómodo, como se faz em lugares civilizados. Mais à frente, cruzei-me com umas barracas onde os artesãos residentes tomaram essa qualidade à letra e lá iam dormindo a sesta ou davam a entender que faziam algo. Uma mostra de licores lá safou a má impressão recolhida. Só que Feira do Livro, nem vê-la. Seria afinal uma feira virtual, uma ciberfeira com ebooks? A ideia até parece boa, boa demais até. Seria brincadeira? Procurei bem, olhando para o relógio, pois não queria perder um acontecimento cultural a sério. Até fui perguntar à senhora dos gelados. Népia. Será que, à última da hora, mudou de local? Será que estava muito calor e foi tudo para banhos? Será que os livros derreteram com a canícula? Ignoro. Para o ano, contrato uma agência de detectives para ir à frente.

O farol na noite escura

O escritor russo Alexandr Solzhenitsin acaba de nos deixar. Tinha 89 anos. Ler aqui notícia na íntegra. Após uma vida atribulada, foi expulso da União Soviética em 1969, tendo-lhe sido atribuído o Prémio Nobel 1 ano depois. Foi graças a duas obras suas que a extensão e o modo de funcionamento da enorme colónia penal em que o estalinismo transformou o país se tornaram conhecidos do Ocidente: "Um Dia na Vida de Ivan Denisovitch" (1962) e, sobretudo, "Arquipélago Gulag" (1973-78), a sua opus magum. O autor veio a tornar-se o símbolo por excelência da resistência ao regime soviético. Reconhecido como tal mesmo por aqueles que colocam algumas reservas em relação ao seu mérito literário. Pela parte que me toca, nunca li nenhum livro seu. Em grande parte porque a leitura de "O Zero e o Infinito", de Arthur Koestler - que relata as inacreditáveis confissões dos acusados nos processos estalinistas - me deixou definitivamente elucidado acerca da natureza monstruosa da máquina repressiva às ordens de Estaline. Seja como for, vale a pena ler este excelente comentário em "A Natureza do Mal". Até porque, como aí se conclui, "Que o seu nome seja lembrado, de cada vez que alguém receba uma convocatória de uma polícia infame."

domingo, 3 de agosto de 2008

Instalar


“Koto-no-Owari”, instalação com 6 monitores de TV, de Noritoshi Hirakawa, 1995.

Obstáculo


"— Falaram-me de um restaurante de luxo onde há as mais diversas iguarias. Há lá suportes de pratos com música, garrafas de dois gargalos, copos de pé e uma magnifica porta de entrada.
— As portas mais magnificas são essas em que por detrás se lê: "Abram em nome da lei".
— Prefiro, a esses dramas, o voo silencioso das abetardas e a tragédia familiar: o filho que parte para as colónias, a mãe que chora e a irmãzinha que pensa no colar que o irmão lhe há-de trazer. Quanto ao pai, regozija-se sem o mostrar, pois pensa que o filho acaba de se deparar com uma boa situação.

— Fui protegido, desde a mais tenra idade, por um animal doméstico, e no entanto sempre preferi uma daquelas historietas de antanho ao bafo quente da sua língua junto às minhas bochechas.

— Pode-se beber este licor verde com a ponta dos beiços, mas é mais conveniente encomendar um tónico.

— Os forçados esforçam-se imenso a fim de manterem a seriedade. Não lhes fale desses raptos sobrenaturais; a rapariguinha ainda trás o cabelo pelas costas.

— Por conseguinte, só há, para favorecer as evasões, esses carros cinzentos. Todos os dias, pelo meio-dia, alguém se escapa.

— Que ele tenha cuidado com essas escadas que são atiradas horizontalmente sobre as avenidas e que são, todas elas, de todos os. Agarre-a!
— Ele ri-se. Ora veja, aqui tem você um indivíduo que se aproxima de nós a correr.
Nem um só grito sairá dos nossos lábios. Ele corre mais depressa que as palavras."

André Breton e Philippe Soupault [dadaphone (nº7), Paris, Março de 1920]
in "Pravda 2", Fenda, 1983

Que ler para ler?


Eis algumas ideias para projectos que poderiam preencher a lacuna que a ausência de imprensa escrita especializada vai tornando maior:
1. A Abril poderia criar uma mini-Bravo em edição Lusa, mantendo o mesmo estilo que mistura um musculado sentido comercial com sofisticação gráfica e editorial. Terá a Abril coragem de arriscar num projecto deste cariz neste confuso rectângulo lusofalante?.(já pararam de rir?)
2. Será preciso lembrar que tanto a Review of Books de Nova Iorque como a de Londres surgiram como resposta a períodos de crise na imprensa escrita? Se o fim de suplementos e o emagrecimento de secções culturais por esses jornais de referência significar um aumento de críticos e cronistas aptos, ávidos e sem emprego, porque não fazer o que outros fizeram antes e com sucesso? As editoras teriam todo o interesse em pagar com publicidade a existência de um projecto independente de interesses de monolíticos grupos de media.
3. Um mercado editorial como o nosso precisa de, no mínimo, 2 revistas concorrentes e activas. Se ao fim destes anos, o esforço nacional não conseguiu produzir mais do que uma revista mensal e uma revista-que-agora-se-diz-anual, está na hora de os espanhóis ou os franceses entrarem na liça. Se a edição portuguesa do Courrier International parece estar a caminhar bem, porque não uma Ler que seja de facto para ler todos os meses, ou uma Que Leer? que se junte à festa e crie concorrência?
4. Se eles já cá estão a investir no mercado editorial, se os agentes deles levam a fatia mais gorda dos advances e dos royalties pagos por editoras portuguesas, e se está provado que os seus jornais de referência sabem dar valor aos suplementos, porque não esperar ter, por exemplo, um Babelia Portugal aos Sábados, nem que seja com 4 páginas (as mesmas, ao fim e ao cabo, do Ipsilon para os livros)?