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sábado, 19 de junho de 2010

A hora da verdade

Saramago, o antigo aparatchik, distinguido no capítulo dos saneamentos políticos no DN durante o Verão Quente de 75, anda a fazer pela vida. Desta vez, lançou uns mind games promocionais, assim mais teosóficos, acerca do Antigo Testamento. Logo transformados no centro do debate na esquálida "praça pública" da Nação. Afinal, o homem não disse mais do que outros já disseram sobre o tema. Só que se trata de um nobelizado, um intelectual "progressista", apreciado por muita gente com a escolaridade obrigatória. No entanto, Saramago é talvez o maior equívoco da literatura nacional do séc. XX. Escreve bem, o que é discutível, mas nunca foi um bom escritor. Vale mais uma só obra de José Cardoso Pires do que toda a sua litania prosélita, que alguns confundem com literatura. Como cidadão, a arrogância e o ressentimento social precedem-no à légua. Porém, a sua prestação mediática é-me absolutamente indiferente. Entretanto, a criatura lá vai parindo uns volumes, tentando imitar os sul americanos. Desta vez, para aumentar as vendas de "Caim", nada como uns bons soundbites, em registo agitprop. Um tique que lhe ficou dos tempos leninistas. Mas cuja eficácia, em termos de marketing, tem chegado e sobrado. Portanto, temos um escritor medíocre, esganiçando-se na tasca a dizer "mal da padralhada". Ou seja, um pregão tonitruante que anuncia os seus serviços... Esquecendo-se que barafustar "contra a padralhada" é uma espécie de socialismo para idiotas.
Nota: escrevi este texto há uns meses atrás, na altura em que o escritor lançou a sua última polémica e o  seu último livro. Nunca apreciei a criatura nem os da sua laia. Porém, ao contrário de muitos, que agora lhe tecem loas na  hora da morte, retomo a opinião de sempre. Mas saberei naturalmente respeitar a sua memória e dimensão.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Keirósz veio ver a neve

Já antes não tinha qualquer razão para apoiar o grupo recreativo da federação portuguesa de futebol, escolhido pelo clarividente Keirósz, para satisfazer as clientelas clubistas do costume. Todavia, agora veio o toque de Midas final: o grupo foi estagiar para a Covilhã. E querem saber porquê? Pasmem: o excelso ar de montanha e a altitude. Então e esses atributos não existem com maior abundância aqui pela Guarda? E não há cá um excelente estádio e bons hotéis? Enfim, muitos interesses se devem ter movido para que este grupo de ilustres desconhecidos (com excepção dos consagrados, é claro) tenha escolhido tão "altas" paragens para o seu tirocínio.

PS: já tenho bandeiras da Argentina, do Brasil A, do Uruguai, da Holanda e, agora, também da Espanha. Neste caso, conhecidas anteontem as escolhas de Del Bosque, vamos ter no torneio uma equipa de sonho. Onde jogam, imaginem... os melhores do seu país.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O mobbing dos remediados - 3

Escrever um artigo, depois de algum labor investigador, deixando de lado as feromonas e insistindo num certo depuramento opinativo. Ter tudo pronto, corrigido e revisto. Porém, no último momento, carregar na tecla errada. E eis o desastre a acontecer, numa fracção de segundo. Ou seja, ocorreu o pior pesadelo, o écran branco, sem remissão. Aconteceu-me outro dia, após ter escrito uma crítica ao último documentário de Jorge Pelicano, "Pare, escute e olhe", sobre o qual tenho muitas reservas, para editar aqui no blogue. Um dia destes reconstituí-lo-ei, pois a memória não perdoa.
A propósito, recentemente escrevi um comentário noutro blogue, a propósito do mesmo filme, onde expus as minhas razões. Logo a seguir, veio o comentário de um anónimo, destes que pululam nas caixas de comentários como se chafurdassem no seu elemento natural, o curral. O patusco disse que eu era "fassista", saudoso de uma primavera que não percebi bem qual e imputando-me uma linhagem nobilitante que, para minha estupefacção, me foi até hoje sonegada. E que incluía Telles, com dois lês, entre outros. O desespero de não ter um único argumento, ou sequer uma ideia, foi assim compensado com a "valentia" de um ataque sem rosto. Quem o faz, sabe melhor do que ninguém porque se esconde. Nada de novo, é claro. Já disse aqui e aqui, o que penso sobre esta fauna suína das caixas de comentários. O que significa que não me vou sequer repetir. Mas neste caso quis ir mais longe. Analisei detalhadamente as características morfológicas e ortográficas da escrita, bem como os pontos de fervura mais recorrentes, os enlaces ideológicos, as idiossincrasias, os lapsos, de dois ou três comentadores habitués desse blogue. Sobraram dois. Um é um ilustre comediógrafo e cronista com ligações à Guarda, notabilizado pela irracionalidade e pelo ressentimento. A obesidade correspondente da eminência decerto esconde a dimensão liliputiana do seu talento, mais em baixo. Sobretudo do próprio. O outro é um obscuro ambientalista, de que me ocuparei noutro post, dedicado aos insectos voadores. Há ainda a forte possibilidade de o comentário resultar de um personagem multi identitário, um fenómeno conhecido da blogosfera. Seja como for, neste episódio os meus objectivos foram plenamente conseguidos. Ao torpedear o unanimismo e o pensamento único, realidades que imperam em certos meios, na Guarda e fora dela, veio imediatamente o troco. A virulência da reacção, só suplantada pela sua indigência, demonstrou que toquei na ferida.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Elogio de Fausto


Recentemente, passou na RTP um documentário sobre aquilo a que se convencionou chamar de "música de intervenção". Com especial destaque, naturalmente, para os seus intérpretes maiores. A propósito do tema, apeteceu-me lançar uma pequena provocação ao auditório. Que nada tem a ver com a estafada discussão sobre a bondade da designação "intervenção". A qual, confesso, já cheira mal. Não, aqui o propósito é outro. E tem como pano de fundo as razões de uma escolha. As quais vêm já a seguir, à desfilada.
Existem cantores/intérpretes/autores cujo lugar não é, pura e simplesmente, questionável, ou sujeito à subjectividade desgovernada. JOSÉ AFONSO e ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA são os nomes mais óbvios. O último será lembrado mais pela imensa generosidade e combatividade, do que pela música, à excepção de alguns hinos. O primeiro é, simplesmente, o compositor de música popular portuguesa mais importante do séc. XX. E que sobreviverá, mesmo apesar da acção nefasta de alguns epígonos, muitos prosélitos e certos maus divulgadores.
VITORINO é outra figura à parte. E cuja veia criativa parece ter esgotado. Mas que, todavia, não integra a minha playlist actual, sobretudo por duas razões: os temas mais antigos já não consigo ouvir, devido a nostalgite aguda, e os mais recentes não me interessam.
SÉRGIO GODINHO é um caso mais complexo, mas simultaneamente mais simples de explicar: só gosto e só ouço o que fez até meados dos anos 80. Depois disso, prefiro o Serge Gainsbourg no original, embora reconheça o mérito artístico de alguns temas.
Outro problema é JOSÉ MÁRIO BRANCO. O qual mais facilmente me disporei a escutar "ao vivo" do que noutra qualquer situação. Talvez porque a sua música, hoje em dia, inspira mais do que ilumina.
Há alguns nomes cuja lembrança menos pesa. É o caso, por exemplo, de PEDRO BARROSO. Ao ouvir as sua baladas campestres, ocorre-me imediatamente o queijo "tipo" serra. Ou seja, um produto que se faz passar por aquilo que não é: música tradicional. É uma sonoridade que combina bem com uma feijoada acompanhada de um carrascão ribatejano. Seguida de uns versos flatulentos, dedilhados à guitarra e dedicados às moçoilas da região.
Resta então FAUSTO, para incluir na tal minha playlist multiusos. Onde permanece, de pedra e cal. E porquê? Para já, é o único que nunca atou a pedra da ideologia àquilo que se impunha que flutuasse: a sua arte. E foi por causa disto que alguém duvidou do seu posicionamento político? Por outro lado, Fausto assemelha-se mais a um herdeiro da tradição dos jograis e de entremezes, da tradição pícara ibérica. O seu registo vocal é o oposto daquele que se usaria num comício. Denotando uma elegância e uma ironia que escasseiam noutros. Onde coexiste a intensidade artística e o distanciamento. Fausto nunca utilizou a música como suporte para fins proselitistas. Nunca teve preconceitos em usar temas que outros considerariam pouco dignos. Nunca confundiu a solidez da mensagem com a crispação de uma "língua de trapos". Evidenciou um profundo conhecimento da cultura e da história nacionais. E compôs a opus magnum da música popular portuguesa da década de 80: "Por este rio acima". Cada disco seu é diferente de todos os outros, mas nenhum exclui os anteriores. Fausto é o único cujo nome não evoca mecanicamente nenhum adjectivo, sendo ele próprio um. Algo que não é, decididamente, para todos. Em suma, com Fausto sabemos sempre que "Grande, grande é a viagem"...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Tábua de marés (8)


“Uma lentidão que parece velocidade”
Coreografia e interpretação: Tânia Carvalho

Música: “Sonata para Piano kvk545”, de Mozart

Pequeno Auditório do TMG, 23 de Outubro de 2008, 21h30

Eis mais uma apresentação integrada no Festival Y#6, uma co-produção da Quarta Parede e TMG. O espectáculo foi produzido no âmbito da “Bomba Suicida” – associação de que a artista é co-fundadora - e estreou no Theatro Circo de Braga, em 2007. Tânia Carvalho tem um vasto curriculum na área da dança contemporânea, tanto a nível interpretativo como criativo. Integrou o Fórum Dança. Coreografou as peças “Explodir em Silêncio Nunca Chega a ser Perturbador”, “Na Direcção Oposta”, “Um Privilégio Característico” e “Newtan”. Desta vez, baseou-se numa frase de Jean Cocteau para dar o título a este espectáculo.
A autora começa por executar a composição para piano de Mozart. Os movimentos estilizados e o desenho do figurino conjugados criam uma atmosfera intimista e onírica. Por momentos, julguei ver um samurai com a sua espada desembainhada. Mas cedo se percebe o intento da coreógrafa: a superação dos limites da partitura musical, que há momentos fora iniciada. Segue-se uma sequência de linguagens diversas, através das quais Tânia Carvalho busca a destruição e recriação do tema musical. Ao fim ao cabo, a dialéctica criadora por definição. E para isso não olha a meios. Recorre então a um texto de Patrícia Caldeira, que utiliza para compor um dos grandes momentos poéticos do espectáculo. Depois da voz, assiste-se a uma sequência de movimentos de dança que aceleram a derrisão, a hecatombe poética e sonora. Por momentos, ouve-se o som do piano como se este tocasse sozinho. Não é do caos que se trata, bem entendido. Mas antes de uma subtil vigor, de uma irreprimível urgência. Diluídos numa composição artística rendida à geometria dos gestos, às convulsões de um corpo que se desdobra incessantemente. Mas parecendo fazê-lo para além dos limites que lhe estavam destinados por uma partitura que já se transmutou noutra paisagem. Afinal, tratou-se simplesmente das várias metamorfoses de uma rendição à música. À sua geometria e à sua perenidade. Afirmou um dia a autora acerca do significado profundo que para si tem a dança: “Gosto desta confusão que é de lhe sentir a essência, mas de não conseguir agarrá-la”. Nada mais apropriado para este singular espectáculo.

Publicado no jornal "O Interior" em 30 de Outubro

Tábua de marés (7)


"Em Construção" (2007)
Realizador: Zhenchen Liu (http://zhenchen.free.fr)
Duração: 09:55
Vencedor do Cine'Eco 2008

Este documentário acaba de acrescentar mais um triunfo no seu palmarés, ao ser declarado vencedor do XIV Festival Internacional de Cinema de Ambiente de Seia, que decorreu nesta cidade entre 18 e 25 de Outubro. Uma mostra cuja longevidade comprova a sua afirmação no panorama cinematográfico nacional. Sobretudo numa área tão específica e tão interventiva. O autor, Zhenchen Liu, é originário de Xangai, onde situa o cenário das suas obras mais significativas. Actualmente, a sua actividade centrou-se em França, país onde o documentário foi produzido. Não é a primeira vez que esta obra está presente a competir no nosso país. Assim, no ano passado integrou o Fike 2007 – Festival Internacional de Curtas-metragens de Évora. No entanto, passou relativamente desapercebido.
Depois de “Shanghai Express”(2005) e de “Shanghai” (2006), “Em Construção” é o último vértice de uma trilogia onde Liu dá conta das mudanças trazidas pela globalização na sua cidade, colocando-se em diferentes pontos de vista. O filme conduz o espectador numa viagem pelas ruínas de uma antiga zona habitacional de Xangai, após a sua demolição para fins imobiliários. Frames isoladas são animadas em pequenas sequências, de modo a que a câmara parece pairar por cima dos escombros da cidade, flutuar livremente através de paredes e janelas. Por vezes assomam espectros no meio do entulho, lembrando-nos que as ruínas conservaram a vida que aí floresceu. Os antigos habitantes têm aí a oportunidade de contar as suas histórias e dramas pessoais. Através deste documentário, Liu retrata as mudanças vertiginosas produzidas nas grandes metrópoles chinesas, sob a pressão da globalização, onde a modernização acarreta a necessidade de deixar para trás a tradição. Neste registo, Liu utiliza material documental sujeito a um processo de fragmentação, através da aceleração das imagens, digitalização e animação computorizada. Para além de uma pretendida objectividade na descrição do cenário, o autor consegue criar linhas narrativas surpreendentemente intimistas e planos quase pictóricos. É nesses momentos em que utiliza as imagens para contar uma história diferente que melhor se identifica a síntese feliz entre a fotografia, o vídeo e a animação computorizada. O resultado tridimensional dá ao espectador a impressão de se encontrar dentro das imagens produzidas.

Publicado no jornal "O Interior" em 30 de Outubro

Ver anterior

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Tábua de marés (6)


Quadrar a Roda
Concepção, encenação e interpretação: Jens Altheimer (http://leocartouche.com)
Pequeno Auditório do TMG, 17 de Outubro de 2008, 21h30

O espectáculo veio encerrar a edição deste ano do Festival de Teatro Acto Seguinte, que decorreu no TMG. O seu criador, Jens Altheimer, aliás, Leo Cartouche, começou a sua carreira artística como malabarista, no início dos anos 80. Altura em que também se iniciou no teatro de rua. E não foi impunemente. Mais tarde haveria de reunir estas duas formas de expressão artística num único conceito de espectáculo. Em 1987, fixa-se em Portugal, onde é professor no Chapitô e pioneiro do Novo Circo, de que a criação da “Sem Rede - Rede Nacional de Programação de Novo Circo” é um exemplo. O denominador comum das suas propostas é, como se disse, a busca de uma linguagem onde as técnicas do circo e do teatro se fundam, dando origem a espectáculos estimulantes. Na sua última produção, “Survivor”, fixou-se num único tema: um concurso televisivo. Nesse trabalho carregado de humor negro e irreverente, ao mesmo tempo trágico e cómico, consegue criar uma sátira às relações sociais baseadas nos níveis de rendimento dos indivíduos. Que, por sua vez, encaram os programas televisivos como o que é recriado na peça como referências supremas, relativamente à sua vida quotidiana. Pois bem, em “Quadrar a Roda” o autor reincide no objecto narrativo. Pretende igualmente promover uma crítica bem-humorada à arbitrariedade e ao absurdo, num universo onde as relações humanas estão cada vez mais mediatizadas por máquinas e sistemas telemáticos. Aqui, depois de várias peripécias, o protagonista entra numa área de acesso reservado, mas que também poderia ser a sua casa. E é imediatamente compelido a participar num jogo/concurso com várias fases e onde o grau de dificuldade vai aumentando progressivamente. Todavia, o herói consegue desenvencilhar-se sempre das dificuldades. Recorrendo, inevitavelmente, a uma habilidades operadas com maquinismos singulares, surpreendentes. Construídos a partir de vários materiais reciclados para a sua nova função. E onde o herói nunca deixa de ser uma espécie de Mac Gyver clownesco. Com uma solução pronta e engenhosa para cada novo desafio. Talvez o autor tenha querido ridicularizar o espectáculo na sua dimensão política. Os sinais estavam lá. Mas seria preciso mais. Porém, conseguiu atingir um objectivo artístico: Colocar em evidência a forma como a máquina atirou os indivíduos para fora do espaço natural onde constroem a sua humanidade. Como se deixassem de ser actores do seu próprio destino e de poder ler os objectos e maquinismos à sua volta, dos quais dependem. E assim ficassem diminuídos, padecendo de uma espécie de iliteracia técnica. Mas o autor mostrar que esse processo pode ser reversível. Graças ao seu engenho reciclador, a uma capacidade de improvisação que tem tanto de teatral como os artifícios expressivos têm de circense, Altheimer conseguiu repor o homem no centro. Afim de poder dominar os instrumentos de que se serve para viver. E para se divertir. Até porque tudo o que constitui o espaço cénico, maquinismos fixos e móveis, está lá literalmente para que ele se sirva deles. Num processo de reconstrução mútua. Noutro plano, já mais no que diz respeito à interpretação, pareceu-me que, por vezes, o autor abusou do circo e esqueceu-se do teatro. Nomeadamente, no prolongamento excessivo do malabarismo com as bolas. O que retirou algum ritmo ao espectáculo, mesmo que os danos fossem mínimos. Juntando malabarismo e manipulação de objectos ao movimento e interacção com o público, Altheimer abre a porta a um universo estranho e bizarro, e também muito pessoal, onde reinam o perigo, amor, ambição e riso, grandes falhas e pequenos triunfos. Sobre este trabalho, poderia concluir desta forma: Vamos ao circo? Claro! Vamos ao teatro? Também. E ninguém se enganaria.

Publicado no jornal "O Interior", em 23 de Outubro

Tábua de marés (5)


A 23”, Outubro de 2008
Revista trimestral
Director: Ricardo Paulouro
Edição: Associação Cultural A.23, Fundão




Desde o primeiro número que esta publicação me chamou a atenção. Por várias razões, como é costume dizer-se: o excelente grafismo, a variedade dos temas abordados, uma notável coerência editorial, o enfoque nos temas regionais e nas personalidades oriundas da área, mas sem impedir que o grosso da atenção vá para temas culturais nacionais e internacionais, fotojornalismo e reportagem/ensaio. A escolha sempre foi ampla, como se adivinha. Neste número, vários pontos altos poderei realçar. Começo pela notável série de fotografias de Paulo Nunes dos Santos recolhidas na Geórgia durante o recente conflito militar ocorrido naquele país. Imagens pungentes, onde o autor revela uma apreciável maturidade. Em seguida, chamo a atenção para a crónica de Rita Barata Silvério, autora e
blogger, cujos textos já tinha seguido com atenção na saudosa revista “Atlântico”. Este chama-se “Spain is different” e fala-nos da forma como deveríamos recolher ensinamentos da forma como os espanhóis defendem e promovem os seus produtos autóctones diante de Bruxelas. Assinalo também uma interessante reportagem/ensaio intitulada “O país sanitário visto do balcão da taberna”. Um exemplo das potencialidades do chamado jornalismo literário. Trata-se de uma incursão do autor por tabernas e similares do Fundão e arredores, com uma divertida arremetida por Ciudad Rodrigo. Na secção entrevista, aparece-nos Jorge Palma no seu esplendor. Uma peça onde o músico fala de si, sem rodeios, num plano temporal alargado. E onde tomei conhecimento de que, no seu último álbum, incluiu um tema, “A Velhice”, criado para uma sublime peça teatral a que pudemos assistir recentemente do TMG: “Começar e Acabar”, de João Lagarto, a partir de textos de Beckett. Uma nota final para uma reportagem de fundo sobre a história atribulada do Grémio Lisbonense (Jangada de pedra no naufrágio da baixa”) e, já agora, de uma receita de "Bacalhau com Broa". A qual já está, nesta hora, devidamente arquivada…

Publicado no jornal "O Interior", em 23 de Outubro

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Tábua de marés (1)

"Ópera"
Concepção e interpretação: Tiago Guedes e Maria Duarte 
Música: “Dido and Aeneas”, de Henry Purcell, com libreto de Nahum Tate 
Pequeno Auditório do T.M.G., 4 de Outubro de 2008, 21H30

Trata-se da primeira apresentação no âmbito do festival Y #6, uma co-produção Quarta Parede/TMG. Esta proposta caracteriza-se essencialmente pelo seu ecletismo. No texto de apresentação fala-se mesmo em “espectáculo total”, embora o termo se refira com mais acerto à combinação equilibrada de linguagens – teatro, música operática e dança – do que a uma intensidade especial de uma delas. Mais o efectivo diálogo e conjugação entre diferentes noções de representação num mesmo espaço do que a uma arrumação pré-definida. O espectáculo é a adaptação coreográfica de "Dido e Eneias", de Henry Purcell, uma ópera barroca em três actos, a partir de uma ideia original de Tiago Guedes. Estreou em 24 de Julho de 2007, no espaço Negócio/ZDB, em Lisboa. A história do libreto conta-se em poucas palavras: retirada da Eneida, de Virgílio, relata os amores entre Dido, rainha de Cartago e o troiano Eneias, após este ter naufragado junto aquela cidade. No entanto, Eneias teve de partir, afim de fundar Roma, para grande desgosto de Dido, que se limitou a aguardar a morte. A música é pois um elemento omnipresente. A releitura das convenções barrocas não apagou algumas das suas marcas: os actores olham quase sempre para um plano superior, onde se situaria a corte. Nesses momentos, o seu rosto funciona como uma câmara fotográfica e um espelho: regista a luz e devolve-a, transfigurada. Umas vezes ausente, outras ganhando uma expressividade quase infantil. O acompanhamento mimético do canto é propositadamente exagerado, realçando a artificialidade da situação. No texto de apresentação, fala-se precisamente de “sucessão e sobreposição de artifícios”. Efectivamente assim é. Mas também não podia ser de outra maneira, uma vez que a estética de base – o barroco – se caracteriza precisamente pelo artifício. Basta pensarmos na solução híbrida, mas reconhecível, encontrada para os figurinos. Por outro lado, os actores raramente trocam os olhares entre si, mas quando o fazem é como se houvesse um curto-circuito momentâneo, após o que o interlocutor passa a ser o vazio. Daí ter-me ocorrido, por várias vezes, o desconcerto de algumas coreografias de Pina Bausch, a sua dilaceração irresolúvel. Creio que o ponto alto deste espectáculo é precisamente a sua ambição, bem sucedida, da superação das várias convenções associadas ás várias linguagens que reúne. Um só pormenor de encenação me desagradou: a presença excessiva da vendedora, supostamente sinalizando um intervalo, mas cortando o ritmo do espectáculo. Para o efeito pretendido, bastaria uma passagem pelo fundo do palco, com iluminação adequada.

9.10.2008

Nota: dá-se aqui início à edição de textos publicados na coluna "Tábua de Marés", de que sou autor, semanalmente no jornal "O Interior".

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Pouca música para tanto mundo

O Festival Músicas do Mundo de Sines alcançou este ano a 10ª edição. Não estive nos anteriores, embora esteja informado dos grupos que lá passaram. Assisti pois aos espectáculos dos dois últimos dias, ou seja, 25 e 26 de Julho. Aqui vai um breve comentário:
1. Dia 25: abriu com os paquistaneses FAIZ ALI FAIZ. Música de carácter ritual, mostrando um forte pendor repetitivo, extático, o que não admira, pois é largamente inspirada na mística dos sufis. Curiosamente, o apresentador classificou-os de "sofistas"!!! Confesso que a imagem de uns barbudos cínicos, com túnicas, desancados por Sócrates na ágora de Atenas, de repente tele transportados para o palco, foi de tal forma hilariante que só consegui parar de rir a meio da primeira música. Adiante. Como se esperava, o som encantatório dos paquistaneses dominou a assistência e deixou-me sem mais palavras. Seguiu-se um grupo finlandês chamado KTO. Uma espécie de caldo gótico, folkadelic e funk de feira, com alguns momentos a fazer lembrar os saudosos Hedningarna, em versão rasca. A estrela principal da companhia era um acordeonista semi acrobata, que fez questão de mostrar o rabo ao baterista, arrotou algumas postas de humor escandinavo versão pimba, mas denotando, infelizmente, um talento musical escasso. Seguiu-se umm inacreditável chinês chamado CUI JIAN. Apresentado como "o pai do rock chinês", pelo patusco apresentador. Foi banido, por razões políticas, na altura dos acontecimentos de Tianamen, tendo sido "reintegrado" há uns anos pelo "simpático" regime chinês. Pela música abaixo de cão que apresentou no castelo de Sines percebe-se porquê. Alguém nessa noite e que residiu em Macau nos anos 80 informou-me que, nessa altura, o Cui era a pop star mais fulgurante do momento. E que, pelos vistos, continua a imitar as suas próprias imitações de standards do pop-rock ocidental. Horrível. Com um pai destes, nem a mãe **** nem os filhos almoçam.
2. Dia 26: Começaram os KOBI ISRAELITE. Um grupo de fusão. Já cheguei tarde, pois não resisti a uma escapadela à praia do Alvolião, na Zambujeira e a um vinho branco, partilhado com uns amigos numa certa tasca no Brejão, acompanhado de uma salada de polvo. O som desta formação pareceu-me banal, nada trazendo de novo em termos de música tradicional. Seguiu-se a cantora ROKIA TRAORÉ, do Mali. Fazendo-se acompanhar de um excelente naipe de músicos, mostrou como se pode fazer uma leitura dinâmica da raiz tradicional, sem a adulterar. Incluindo alguns instrumentos, como a cora. Um grande momento musical. Fechou em grupo heterogéneo, composto por músicos originários da Irlanda, da Suiça e dos EUA. Que interpretaram como ninguém aquilo que parece ter sido a tónica deste festival: uma cacofonia electrónica, de feira, onde a música de raiz tradicional só aparece a espaços.
3. Conclusão: a música enquanto factor de identidade, enquanto marca étnica, é a razão de ser destes festivais. São já demasiadas as concessões ao gosto hegemónico, ao caldeirão da massificação, para se poder falar em Festival de Músicas do Mundo. Nem que mais não seja, porque se trata de publicidade enganosa. Por isso, não partilho da visão acrítica do Victor Afonso sobre os espectáculos que presenciou. Fora do programa oficial, salvou-se o resto, como seria de esperar: a festa "cá fora", pela noite dentro, junto ao castelo e, sobretudo, ao longo da marginal, junto ao palco aí instalado, onde se apresentaram bandas até "às tantas", as manifestações das tribos neo-psicadélicas, o artesanato, os aromas no ar e uma alegria irresistível e irresponsável.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Manual de sobrevivência a uma peça de Poppe

É hoje a estreia da peça "Os Sobreviventes", no TMG. Trata-se da última produção do Projec~, a partir de texto de Manuel Poppe e com encenação de Américo Rodrigues. A ficha técnica e restante informação poderá ser consultada aqui. Devo dizer que não tenho em grande apreço a escrita teatral de Manuel Poppe. Constituída por textos herméticos, solipsistas, povoados por lugares comuns, sem rasgo, onde os personagens se arrastam sempre atrás das mesmas dilacerações, dos mesmos receios, das mesmas falácias, desconhecendo em absoluto que o vazio é a nossa condição fundamental, que o truque está precisamente na aceitação dessa "dessacralização" que tanto assusta o autor, onde perpassa o choradinho em vez da coragem, ou seja "o conhecimento das coisas que um homem deve temer e daquelas que não deve temer", como dizia Platão. Provavelmente, Poppe leu demasiados autores franceses e pouco anglo-saxónicos. Provavelmente está demasiado refém de uma piedade burguesa, tão condescendente como anacrónica. Todavia, dada a qualidade dos intervenientes, espero ver um grande espectáculo logo à noite.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Lido

"A grande literatura é sempre intrinsecamente marginal, na sua visão do mundo e uso da linguagem. E isso não depende das anedotas biográficas."

Pedro Mexia, em "Da Marginalidade", a propósito de Luiz Pacheco e Gabriela LLansol

Nota: ver aqui uma resenha da polémica que o texto suscitou.

domingo, 29 de outubro de 2006

Êxodus

Fui ver a última produção teatral do Aquilo. A peça chama-se "Êxodo Rural: Rural Industrial", com encenação de Bernhard Bub. Um espectáculo visualmente poderoso, graças a uma complexa estrutura cenográfica, em metal, onde foram acoplados vários maquinismos, instrumentos de percussão e adereços mecânicos. Decerto se pretendeu reproduzir um estaleiro de obra pós-industrial, onde as funcionalidades cénicas se multiplicassem. De realçar igualmente a banda sonora, que conseguiu evocar as ambiências pretendidas.
No entanto, notam-se aspectos menos conseguidos. Desde logo, ao nível da direcção de actores, sendo notório que estes, em alguns momentos, deambulassem de forma errática pelo espaço, numa completa descoordenação de movimentos. Dando a entender que não havia marcações específicas para esses períodos.
Por outro lado, o espectáculo enferma de um problema estrutural que já havia detectado nas últimas produções dos Fura del Baus: uma sucessão de efeitos - espectaculares, é certo - mas sem qualquer fio narrativo que os enquadre, como se o artifício valesse por si próprio. Ora, no teatro, o artifício só é entendível se ao serviço da naturalidade. De outra forma, o actor desaparece, substituído por uma série de automatismos de ordem técnica.
Mas há ainda um equívoco fundamental na arquitectura desta peça: uma ingenuidade tributária de Rousseau, que inquina definitivamente qualquer suposto propósito pedagógico associado. No texto que acompanha o espectáculo pode ler-se: Nós próprios, perante a onda industrial do progresso, temos a sensação que este desenvolvimento nos divide em duas partes e que nos poderá custar as nossas origens, a nossa cultura e até a nossa própria existência. (...) Por entre o barulho da "máquina" os humanos ainda procuram a sua sorte. Como se poderá depreender, este discurso sinaliza um retorno de 200 anos, transportando-nos aos luddites - um movimento nascido da Inglaterra, no início do séc. XIX, contra a mecanização da indústria têxtil e que promovia a destruição pura e simples das máquinas - e ao inefável bom selvagem. Ignora-se completamente a modernidade - com a sua apologia da máquina, a descentralização do objecto artístico, o nihilismo como condição moderna por excelência - propondo-se um retorno a uma naturalidade que a própria peça desmente, enquanto proposta artística.
Dois pormenores ainda.
Em primeiro lugar: a colocação da palavra Pátria, em letras gigantes, no topo da estrutura, como instância repressiva, é de um mau gosto inqualificável. Faria sentido há 30 anos atrás, no contexto da época. Hoje é um simples erro grosseiro de casting. Não é a "Pátria" que oprime, mas a avidez, a impunidade, a mediocridade sufragada, a desresponsabilização generalizada, os micro-medos que tomaram conta de nós, que infantilizam e armadilham o desempenho da cidadania.
Em segundo lugar, e como não podia deixar de ser, o "politicamente correcto" faz a sua aparição triunfal, neste excerto do texto atrás mencionado: Até que um muro de arame farpado cercou a Europa, fingindo a salvação do status quo e impedindo a entrada de outros povos, outras culturas mais pobres. Repare-se que não está só em causa a entrada de "outros povos" , mas também de "culturas mais pobres", assumindo-se um irresponsável e piedoso - embora camuflado - eurocentrismo assistencial, produto da mesma má-consciência que leva a relativizar o terrorismo, por exemplo, ou a desculpabilizar a hostilidade dos tais povos que não admitem a "diferença" da Europa.

Publicado no jornal "O Interior"

segunda-feira, 10 de abril de 2006

A propósito da crítica literária, publicou João Pedro George um excelente texto no seu blogue, numa perspectiva essencialmente dinâmica e funcional. De realçar que as três categorias de instância crítica aí enunciadas, a saber, jornalística, ensaística e académica, correspondem, grosso modo, às três espécies por mim aqui consideradas, respectivamente os provadores, os tribunos e os guardiães.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Sobre os críticos

Contrariamente ao que geralmente se pensa, a crítica não é uma instância mediadora entre o escritor e os leitores. Esse espaço pertence aos editores, cuja função consiste em propor ao público e ao mercado aquelas leituras que, segundo o seu critério, poderão satisfazer as necessidades destes. O crítico analisa e qualifica essas propostas, situando-se o seu trabalho entre a edição e os leitores. Mas a prática é enganosa e tende a fazer-nos pensar que os críticos falam de escritores, quando na realidade se referem às propostas editoriais.
Seria bom que os escritores entendessem que a crítica não tem como objecto as suas obras, enquanto pertencentes à sua privacidade, mas só enquanto passam pela decisão editorial de torná-las públicas. E seria especialmente conveniente que os críticos entendessem que o seu trabalho começa e acaba na instância do público.
Poderiam classificar-se, desde um ponto de vista funcional, três categorias de críticos: os provadores, os guardiães e os tribunos.
Os provadores seriam aqueles que assentam e legitimam os seus juízos no seu próprio gosto ou paladar literário. Gosto disto, não gosto daquilo: os seus argumentos logicamente remetem-nos para as suas sensações e impressões. Para este tipo de críticos, a literatura reduz-se a um simples intercâmbio de privacidades e a sua função reduz-se a estimular ou travar o consumo.
O gosto de estes críticos coincide quase sempre com o gosto dominante. Abundam e sobrevivem bem no mercado, sobretudo se conseguem associar um tom radical à expressão do seu gosto, mas que, ao mesmo tempo, não questione o gosto hegemónico. Podem ser encontrados em todos os tipos de media.
Os guardiães são ao mais raros. A fonte da legitimidade de que se reclamam é a Literatura, um ente quase metafísico, que tendem a identificar com a história da literatura, com o cânone mais ou menos explícito, ou com uma inapreensível qualidade do discurso, que brota para além dos factos e situações sociais em que tem lugar a sua produção e recepção. Numa frase, percebem-se os depositários dessa qualidade, que em seu nome medem, calibram e homologam: guardiães da pureza, o que requer conhecimento da matéria, da história da literatura e uma certa bagagem técnica, para um desempenho à altura da tarefa. A reunião destas qualidades faz que o seu número seja escasso e, ainda que isso os torne desejáveis, os seus conflitos com os media (o seu sentido de exigência parece chocar com a conveniência informativa) podem estar a convertê-los numa espécie em vias de extinção. São facilmente reconhecíveis pelo seu recurso a uma linguagem objectiva, rotunda e categórica, na qual aparecem, como certificados de qualidade, determinadas citações e referências de autores, obras e críticos das mais variadas origens.
A categoria dos tribunos desapareceu do nosso espaço literário. O tribuno sente-se legitimado e responsável ante a polis e, por isso, a sua crítica é uma crítica política. Não quer isto dizer que o tribuno transfira o político para a literatura, mas sim que enquadra os textos literários nesse contexto geral que é a vida em comum. apreciando e julgando a saúde literária das obras que se lhe deparam a partir dessa perspectiva.
Em sociedades complexas como as nossas, onde o bem comum é um conceito disputado, o tribuno opta por um ou outro entendimento e, a partir dessa eleição opera, critica. O perigo reside em menosprezar o que a literatura representa como património de interesse comum, enquanto modo de conhecimento específico. O tribuno precisa que no dinamismo social coexistam, com iguais possibilidades, opções distintas sobre o que possa ser o bem comum. Quando certas instâncias sequestram de modo hegemónico uma determinada ideia sobre o bem comum, ou monopolizam os meios que concorrem para a sua construção, o tribuno não tem espaço, cessam as razões da sua existência. E isso é exactamente o que ocorre nos dias de hoje, em que reina, não tanto o pensamento único, mas sim um pensamento hegemónico, que nega qualquer ideia de bem comum que ultrapasse a mera soma dos bens individuais e em que os meios de criação e expressão deste pensamento quase monopolizam a voz da polis, se é que algo restou dela.
Na prática, estas três categorias nem sempre aparecem com perfis nítidos. Bocados de cada um deles cruzam e descruzam, não faltando exemplos do provador que cita Steiner por dá cá esta palha, nem do guardião que se deixa levar pela exaltação lírica, nem de falsos tribunos que confundem o político com as boas intenções.