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domingo, 3 de agosto de 2008

Obstáculo


"Falaram-me de um restaurante de luxo onde há as mais diversas iguarias. Há lá suportes de pratos com música, garrafas de dois gargalos, copos de pé e uma magnifica porta de entrada.
— As portas mais magnificas são essas em que por detrás se lê: "Abram em nome da lei".
— Prefiro, a esses dramas, o voo silencioso das abetardas e a tragédia familiar: o filho que parte para as colónias, a mãe que chora e a irmãzinha que pensa no colar que o irmão lhe há-de trazer. Quanto ao pai, regozija-se sem o mostrar, pois pensa que o filho acaba de se deparar com uma boa situação.

— Fui protegido, desde a mais tenra idade, por um animal doméstico, e no entanto sempre preferi uma daquelas historietas de antanho ao bafo quente da sua língua junto às minhas bochechas.

— Pode-se beber este licor verde com a ponta dos beiços, mas é mais conveniente encomendar um tónico.

— Os forçados esforçam-se imenso a fim de manterem a seriedade. Não lhes fale desses raptos sobrenaturais; a rapariguinha ainda trás o cabelo pelas costas.

— Por conseguinte, só há, para favorecer as evasões, esses carros cinzentos. Todos os dias, pelo meio-dia, alguém se escapa.

— Que ele tenha cuidado com essas escadas que são atiradas horizontalmente sobre as avenidas e que são, todas elas, de todos os. Agarre-a!
— Ele ri-se. Ora veja, aqui tem você um indivíduo que se aproxima de nós a correr.
Nem um só grito sairá dos nossos lábios. Ele corre mais depressa que as palavras."

André Breton e Philippe Soupault [dadaphone (nº7), Paris, Março de 1920]
in "Pravda 2", Fenda, 1983

domingo, 18 de março de 2007

Máquina de escrever Dadá

Desde que viemos ao mundo, alguns preguiçosos tentaram fazer-nos crer que a arte existia. Hoje, nós que somos mais preguiçosos ainda, gritamos: “A Arte, não é nada”. Não há nada. Quando todos os nossos contemporâneos terão aceitado por vontade ou por força o que nós lhes dizemos, esquecerão depressa a imensa farsa que tem por nome a arte.
Por que se obstinar.
Não há nada:
Nunca houve nada.
Vocês podem gritar e arremessar-nos na cabeça tudo o que lhes cair nas mãos, vocês sabem muito bem que nós temos razão.
Quem me dirá o que é que é a Arte?
Quem ousará pretender conhecer o Belo?
Tenho à disposição dos meus auditores esta definição da Arte, do Belo e todo o resto:
A Arte e o Belo = NADA.
Vocês naturalmente ainda vão gritar ou rir.
Escutem-me
Um dia, há alguns anos, alguém chamado Jesus Cristo curava os cegos e os surdos. Ninguém lhe prestava atenção. Os médicos, inquietos, reuniram-se. Depois, alguns foram falar com o ministro da higiene e condecorou-se o chamado Jesus Cristo com palmas académicas.
Da minha parte, eu quero abrir-lhes os olhos e vocês riem.
Vocês jamais sereis sérios.

Philippe Soupault (1897-1990)

Sobre o autor:
Poeta francês, amigo de
André Breton e Louis Aragon. Tal como eles, participou na aventura Dada, que considerou como uma « tábua rasa necessária». Para em seguida se voltar para o surrealismo, de que foi um dos fundadores (Vd. Les champs magnétiques). Foi excluído do movimento em 1926, com a alegação de «demasiada literatura» (sic.), numa altura em que o surrealismo se comprometia com a causa comunista. Permaneceu fiel, à sua maneira, à escrita automática. Soupault foi também jornalista, crítico, produtor de rádio e autor de vários romances.

domingo, 17 de setembro de 2006

Sonho de outra noite de Verão

As lâmpadas estátuas saem do fundo do mar e gritam viva DADÁ para saldar os transatlânticos que passam e os presidentes dadá o dadá a dadá os dadás uma dada um dadá e três coelhos à nanquim por arp dadaísta em porcelana de bicicleta estriada nós partiremos para Londres no aquário real perguntem em todas as farmácias os dadaístas de rasputin do tzar e do papa que só valem por duas horas e meia.
As lâmpadas estátuas saem do fundo do mar e gritam viva DADÁ para saldar os transatlânticos que passam e os presidentes dadá o dadá a dadá os dadás uma dada um dadá e três coelhos à nanquim por arp dadaísta em porcelana de bicicleta estriada nós partiremos para Londres no aquário real perguntem em todas as farmácias os dadaístas de rasputin do tzar e do papa que só valem por duas horas e meia.
As lâmpadas estátuas saem do fundo do mar e gritam viva DADÁ para saldar os transatlânticos que passam e os presidentes dadá o dadá a dadá os dadás uma dada um dadá e três coelhos à nanquim por arp dadaísta em porcelana de bicicleta estriada nós partiremos para Londres no aquário real perguntem em todas as farmácias os dadaístas de rasputin do tzar e do papa que só valem por duas horas e meia.

Hans Arp