sábado, 27 de fevereiro de 2010

Sócrates em queda

São apenas 29,4% os portugueses que têm de José Sócrates uma imagem positiva. O resultado foi obtido este mês, contra os 40,3% registados em Janeiro. O estudo é da Marktest, para a TSF.
As razões para este estranhíssimo caso podem ser encontradas aqui. Por sinal, grande parte delas divulgadas hoje no semanário "Sol". Ou então, para quem gosta de estudos comparados, numa visita ao país de Hugo Chavez. Boas notícias, apesar de tudo. Seja como for, depois de se saber agora de onde partiu a fuga de informação que permitiu aos visados nas escutas saberem que estavam a ser investigados, o país não tem quaisquer razões para confiar em Pinto Monteiro. Um PGR que, em vez de garante da legalidade, aparece como um simpático moço de recados da pandilha socrática.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O raid berlinense

A partir de domingo e durante 4 dias estarei em Berlim. Do programa de festas, para além do circuito obrigatório, consta uma visita à Filmhaus, um complexo que alberga o Museu do Cinema e da TV e o Arquivo Nacional do Filme (Deutsche Kinematek). O qual oferece, entre outras iguarias, exibições contínuas numa permanente retrospectiva dos grandes momentos da cinematografia alemã, de Robert Wiene à diva Dietrich, da produção menos conhecida durante a república de Weimar (1918-33) até aos ícones de Riefenstahl. O créme de la créme será uma visita à exposição "The complete Metropolis", um making-off fotográfico e pictórico desta opus magnum de Fritz Lang. Pena é que a 60ª edição do Berlinale (Festival de Cinema) tenha acabado no dia 21. Enfim, não se pode ter tudo...
Outra cartada na manga é um percurso de bicicleta, organizado e com guia, acompanhando durante vários kilómetros o traçado original do Muro, com passagem pelos locais mais emblemáticos. Entretanto, fiquei hoje a saber que me esperam duas (?) festas de boas vindas em casa de pessoal amigo onde vou ficar. No desiderato, já não vou levar o cachecol do Glorioso, pois tal seria encarado como manobra provocatória...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

The power of love


René e Georgette Magritte, Junho de 1922

Quando deparei com esta imagem no Musée Magritte, em Bruxelas, no Verão passado, percebi imediatamente estar perante um sinal inequívoco do verdadeiro amor, tão louco que nem se dá por ele...

Lida da casa

Acho graça aos crónicos apontadores da verdade, a marca intangível do seu umbigo, mobilizadores do deserto povoado com figuras de Chirico, os vozeadores aconchegantes, muezins do faz de conta, sem que ninguém suspeite, moralizadores da paróquia, mas que nunca se comprometem, os inquilinos das sombras, onde as rugas nascem da rigidez mascarada de prafrentice desinibida, culturalóide, ares de, olhómeu, ignorância faustosa e ao abrigo da mais ténue questão.

Os números da sorte


Mauro Cerqueira, Galeria Graça Brandão, Lisboa

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Ajuda à Madeira

A hora é de sarar as feridas e de reconstrução. A vida não pára e é bom não esquecer que as forças da natureza também não. Aqui ficam duas sugestões para quem quiser dar o seu contributo.

1. Informações sobre donativos, necessidades e contactos;

2. Ligar para o número 760 100 999.
Trata-se de uma campanha dos sites IOL e da Media Capital. É este o número que precisa de marcar para contribuir. Cada chamada custa 0,60 euros, mais IVA. Por cada chamada, 0,50 euros, mais IVA, serão destinados ao apoio à Madeira. A diferença de valor representa os custos das operadoras.

Entretanto, deixo-vos com um relato em discurso directo por quem viveu de perto a catástrofe.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Filmes para uma vida (2)


Os Filhos da Noite ("They Live by Night", 1948, 95'), de Nicholas Ray

Com: Cathy O'Donnell, Farley Granger, Howard Da Silva, Jay C. Flippen, Helen Craig, Will Wright, Ian Wolfe; Argumento: Charles Schnee e Nicholas Ray, segundo o romance "Thieves Like Us" de Edward Anderson; Produção: RKO Radio Pictures.

Comentário: Bowie (Farley Granger) é um jovem que acaba de fugir da cadeia com mais dois comparsas. Juntos dedicam-se a assaltar bancos no Midwest. No entanto, Bowie nada tem a ver com os outros, violentos e sem escrúpulos. Numa das casas "seguras" onde o bando se refugia, oferece a Keechie (Cathy O'Donnell) um relógio. Começa assim uma das uniões mais ternas do Cinema americano da década de 40. Mesmo sabendo que será dificil provar a sua "normalidade", já que o sensacionalismo dos media e a desenfreada caça ao homem criou uma histeria colectiva, Bowie mantém ainda a sua inocência. Mesmo depois de ter passado os seus últimos (e adolescentes) anos fechado numa prisão. A presença da também tímida Keechie faz-lhe crescer uma esperança de redenção, em contraste com a hostilidade que os cerca. Perante a qual só podem opor a grandeza dos sentimentos e a fuga. Uma história de amor tão intensa quanto trágica. Fazendo lembrar, em certos momentos, o cenário de "Palmeiras Bravas", a obra inesquecível de Faulkner, de pedra e cal no meu top 10 literário.

Com esta obra estreante, Ray tornou-se imediatamente notado no panorama cinematográfico da época. Num dos trabalhos mais notáveis de sempre do Cinema americano, cria um espantoso retrato de uma 'America Interior', de pulsões estranhas e primárias, pouco mostradas até então no Cinema. Sendo considerado um film noir, as personagens não se refugiam nas sombras das grandes cidades, mas sim na quietude das pequenas cidades rurais, aspirando um dia conseguir um lugar ao sol.
Ray parece aqui obcecado com a questão da justeza dos meios para as duas personagens atingirem a liberdade, ao colocá-los em permanente inquietação e sobressalto. Com isto, o realizador parece simultaneamente querer denunciar algum desmazelo social pelos mais desprotegidos. Mas não deixa de assim alimentar o mito do criminoso romantizado, melodramático, tradição prosseguida através dos road movies do género (de que Bonnie and Clyde é o exemplo maior) da qual Ray se torna aqui um feliz precursor.
They Live by Night mantém-se ainda hoje como um dos mais pujantes filmes da década de 40, anunciando já a beat generation e os adolescentes rebeldes sem causa (não será Granger o modelo de Dean, Brando ou Newman?) e o realismo dos anos 50. Como se tal não bastasse, a sua influência imergiu em obras contemporâneas, desde os delírios de Oliver Stone em Natural Born Killers, até a objectos cinematográficos mais sérios, como Wild at Heart. Simplesmente fundamental.

Ver anterior