Uma das características mais irritantes e empobrecedoras dos portugueses é o seu secreto fascínio pelo mando e por quem o exerce. Que cria uma original desigualdade na apreciação de um mesmo comportamento, consoante quem o pratica. Reparem que falo em mando e não em poder. Essa tendência anda de mãos dadas com episódicos actos de barbárie, mais próprios da turbamulta descontrolada. Como exemplo maior, temos o fascínio pelos autos de fé, ou o tristemente célebre massacre de judeus em Lisboa, em 1503, por instigação de um cristianíssimo frade dominicano. Essa bipolaridade, na forma como são encarados os vilões consoante o seu poderio, é só aparente. Ou seja, esse fascínio que mencionei revela-se por vezes das formas mais caricatas. Veja-se o que se passa com a "descoberta" do buraco orçamental da Madeira. É claro que o régulo Jardim se limitou a reproduzir os tiques despesistas e os modelos de desenvolvimeto dos seus émulos políticos do continente. Começando, por exemplo, em Cavaco Silva. Refiro-me, obviamente ao que nos foi vendido de há 25 anos para cá: "desenvolvimento" baseado no betão e na despesa pública descontrolada que o dinheiro fácil da UE tornou possível. Todavia, essa venalidade paga por todos adquiriu aí uma dimensão terceiro-mundista, num território onde não funcionam os mecanismos tipicamente democráticos de controlo, fiscalização e alteridade do poder. Exposta perante a opinião pública esta gestão danosa dos dinheiros públicos, a reacção não se fez esperar: Jardim passou a bode expiatório de todas as trapalhadas onde andamos metidos. Quando na verdade o homem é simplesmente um bom aprendiz de feiticeiro. O mesmo que tirou partido da conjuntura favorável, das lealdades partidárias, dos votos "vendidos" na AR, de ter prosperado numa coutada por si criada, onde a democracia foi "suspensa" ad eternum e, sobretudo, da vista grossa de quem já há muito deveria ter denunciado o regabofe. É isto que é preciso ser dito. Responsabilizando-o politica e, sendo o caso, criminalmente, pela "façanha". Voltemos agora ao início desta reflexão. Perante essa exigência da saúde democrática do regime que é apear Jardim e sua clique, apareceram logo as consciências de aluguer do costume: comentadores avulso (do programa "contraditório" da Antena 1, por exemplo) que não "alinham no coro das críticas" a Jardim, uma "excelente pessoa", acrescentam; políticos menores, que não perdem uma oportunidade de ter um microfone estendido (Morais Sarmento, por exemplo, critica o "linchamento público" do rei do Carnaval madeirense). E a que se deve esta originalidade desculpadora? Em minha opinião, precisamente ao tal fascínio pelo mando e por quem o exerce. Se se descobrisse que um simples cidadão tinha feito umas habilidades com dinheiros públicos, ninguém poria a mão no fogo por ele, nem nenhuma instância ou comentador levantaria o princípio sagrado do in dubio pro reu. É precisamente esse mesmo fascínio que leva, a quem por ele é tomado, a passar por cima de normas básicas de comportamento. A justificar nos outros a afirmação do "triunfo", do "sucesso". A buscar nos outros um poder alucinado, demencial. Apagando em si o que resta da empatia e da vitalidade indispensáveis ao amor. Afinal, o verdadeiro poder.
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quarta-feira, 28 de setembro de 2011
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Ajuda à Madeira
A hora é de sarar as feridas e de reconstrução. A vida não pára e é bom não esquecer que as forças da natureza também não. Aqui ficam duas sugestões para quem quiser dar o seu contributo.1. Informações sobre donativos, necessidades e contactos;
2. Ligar para o número 760 100 999.
Trata-se de uma campanha dos sites IOL e da Media Capital. É este o número que precisa de marcar para contribuir. Cada chamada custa 0,60 euros, mais IVA. Por cada chamada, 0,50 euros, mais IVA, serão destinados ao apoio à Madeira. A diferença de valor representa os custos das operadoras.
Entretanto, deixo-vos com um relato em discurso directo por quem viveu de perto a catástrofe.
domingo, 30 de agosto de 2009
A levada (1)
Percurso da levada do Caldeirão Verde, costa norte da Madeira, concelho de Santana.
Extensão: 9 Km
Desnível: 300m
Fantástica caminhada, com grau de dificuldade médio, no meio do cenário luxuriante da floresta laurissilva madeirense. Uma experiência única...Eis algumas imagens obtidas:
Extensão: 9 Km
Desnível: 300m
Fantástica caminhada, com grau de dificuldade médio, no meio do cenário luxuriante da floresta laurissilva madeirense. Uma experiência única...Eis algumas imagens obtidas:
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quarta-feira, 15 de julho de 2009
Intermitências atlânticas
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Sapo, qual sapo?
Os deputados do PSD-Madeira acabam de aprovar a suspensão administrativa de um deputado, seu par, na Assembleia legislativa daquela região autónoma. Ao arrepio da Constituição e do Estatuto respectivo, como já salientaram os especialistas. Entretanto, Cavaco Silva, que tem poder de dissolução sobre aquele órgão, lavou as mãos do assunto, melhor ainda do que Pilatos. A justificação é surrealista. Baseando-se em informações que lhe foram transmitidas pelo representante da República, o qual tem dialogado imenso com o presidente da Assembleia, não hesitou em garantir que que a situação "tende para a normalidade". E que, quanto a uma ameaça ao regular funcionamento de uma instituição, nada pode fazer. Ver aqui a notícia completa. "Extraordinário!", é o que os portugueses que acreditam num estado de direito democrático poderão dizer. Repare-se que a situação "tende". O que significa que, logicamente, este movimento para a normalidade pressupõe uma anormalidade anterior. E que os bons ofícios para essa reposição resultarão necessariamente de uma intervenção divina. Assombroso é assistir a esta tendinite aguda, onde o PR emite declarações de fé sobre um assunto que, pela sua gravidade, só admite a sua intervenção célere e exemplar. Sobre o prestígio do regime estamos conversados. Depois admirem-se de ouvir dizer que no tempo do Salazar é que era bom.
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sexta-feira, 3 de agosto de 2007
O fim da bananada
As palhaçadas do soba Jardim, a quem Hugo Chavez foi buscar grande parte da inspiração, continuam a subir de tom. Desta vez, o Gungunhana (sem ofensa para a memória deste) da Madeira pura e simplesmente recusou a aplicação da Lei do aborto naquela região autónoma. De uma assentada, nega a soberania do povo português, ao ter-se pronunciado favoravelmente quanto à alteração do regime vigente sobre a matéria, nega a soberania da Assembleia da República, nega a Constituição, na parte em que manda aplicar as leis da Republica a todo o território nacional. O ideal seria organizar uma expedição punitiva e encontrar um novo Mouzinho da Silveira. O mínimo dos mínimos é Cavaco Silva deixar de pairar acima das questões terrenas e fazer uso das suas competências, que contemplam a dissolução da Assembleia Legislativa Regional, nos termos do art. 133º, j) da CRP. De que é que está à espera?
*Soube agora que o valor previsto para a aplicação da nova lei pelos serviços de saúde regionais é inferior ao apoio concedido anualmente pelo Governo regional para o rali da Madeira. Mais palavras para quê?
*Soube agora que o valor previsto para a aplicação da nova lei pelos serviços de saúde regionais é inferior ao apoio concedido anualmente pelo Governo regional para o rali da Madeira. Mais palavras para quê?
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007
O Pântano
O regedor Jardim veio à metrópole, mais concretamente a casa do Sr. Silva, suplicar por eleições antecipadas na Madeira, após se ter demitido das suas funções. É que o Carnaval da sua governação, baseada num despesismo irresponsável e escandaloso, teve os seus dias contados, com a recente aprovação da nova Lei das Finanças Regionais. Acto contínuo, a nomenclatura do arquipélago, habituada a engordar junto à teta do orçamento de estado, e o próprio chefe da macacada, perceberam que teriam que despedir, cortar, retirar mordomias. Vai daí, nada como um plebiscito peronista para repor a normalidade "democrática" na região. E colocar a oposição local em maus lençóis. Especialmente o PS. Que terá de desenvolver uma estratégia corajosa e certeira para ganhar pontos. Numa campanha onde as diferenças em relação ao Carnaval pouco se farão sentir. E para uma eleições cujas consequências serão exclusivamente políticas. Com o semi-existente Marques Mendes à espreita dos louros que poderá colher.
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segunda-feira, 29 de maio de 2006
O Circo democrático
O primata da Atlântida tem um acordo tácito com este país e que, valha a verdade, tem cumprido escrupulosamente: para gáudio da plateia e para combater a proverbial tendência depressiva da nação, aparece periodicamente no galho mais alto, perdão, nos media e, aclamado pela assembleia, dá início ao seu one monkey show (perdoem o trocadilho fácil, mas não resisti). Depois de distribuir mais umas bananas pelo clã, debita então uns soundbytes que vai tirando da cartola - que usa como sinal distintivo da sua preponderância - enquanto bate furiosamente na barriga, apontando para leste, terra dos macacos grandes que, supostamente, querem disputar a ilha da sua tribo e roubar-lhe a comida. Cada gesto mais expressivo, ou cada onomatopeia mais desafiadora, são imediatamente reproduzidos pelos macacos dos galhos inferiores, numa sintonia unânime e típica, temendo que, se não o fizerem, ficarão excluídos na próxima distribuição de bananas. Entretanto, e enquanto duram estes rituais, os humanos da ilha, não dispondo ainda de meios para a criação de uma reserva natural para fixação dos símios, vivem aterrorizados e amordaçados de todas as formas e feitios.A história é sobejamente conhecida, tendo-se tornado mesmo objecto de estudo por paleontólogos e pseudólogos (pseudologia, ciência do quimérico, do falacioso). Há até quem afirme que Platão, em A República, deveria ter previsto mais esta modalidade de perversão totalitária, criada e alimentada pela democracia, algures na Atlântida.
Mas veja-se com maior detalhe a última homilia do celebrante macaco-chefe: desta vez exige a criação de um sistema judicial "regional", uma espécie de foro privado convenientemente inspirado por costumes locais e formado por macacos às ordens do chefe. Deste modo, a distribuição de bananas permaneceria intocada, os macacos do continente já não poderiam vir pedir contas e os macacos de todo o mundo teriam ali uma zona franca para poder trocar todo o tipo de bananas, sem que ninguém colocasse questões incómodas. Bravo! É de mestre! Atenção pseudólogos! Mesmo os piratas e flibusteiros de antanho, quando criaram uma rede global de "redistribuição" da riqueza, ao arrepio de todas as leis conhecidas, nunca deixaram de criar as suas, para uso interno: simples, cruéis e de uma lógica desconcertante. Em todo o caso, essas regras eram escrupulosamente aplicadas. Sem excepções. Ora, no nosso exemplo, a ideia seria desmantelar a última forma independente de controlo das tropelias simiescas do chefe y sus muchachos, visto que o controlo e a responsabilização por via política já deixaram de existir há muito. As portas ficariam abertas para o último passo: um regime de excepção, apto a assegurar a inimputabilidade permanente e vitalícia do seu líder.
Mas azar dos azares, as plateias menos desatentas já deixaram de se impressionar com estas macacadas. E já aprenderam que o show off esconde o medo e a insidiosa chantagem. E que esta mais não é do que a preclara antecipação de mais umas dotações extra para financiar a bananada local. Enviadas por correio expresso pelos macacos do continente, num assomo magnânimo e liberal. Como uma mesada que um pai desiludido já deixou de fazer acompanhar de prosélitas recomendações de bom comportamento, mas que, sem dúvida, ainda aliviavam a consciência de assim estar a alimentar a irresponsabilidade e o desvario. Até ver.
Publicado no jornal "O Interior"
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