quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Lembrete
Um ar sem ácaros

quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Esquerda e Direita
Esquerdo-Direito, soa nas minhas memórias, boas, da tropa. Marcha, soldado/cabeça de papel/se não marchares bem/vais preso pr’ó quartel. E, lá no ritmo contente dos magalas em Paz, se perde a sequência Esquerda-Direita na memória dourada da minha juventude.
Fica a Esquerda, fica a Direita. Mussolini era de Esquerda ou de Direita? Hitler era assim tão diferente de Lénine? Obama é tão diferente de McCain? O que eu vejo, é uma data de oportunistas que fizeram das divisões granulares do Mundo, uma bela oportunidade. E há outras para lucrar: Homem/Mulher, Velho/Jovem, etc.Vejo discursos ritmados, levados pelas palavras, que, depois dão numa prática muito patusca. Tasca da KGB, Bordel das SS. Devíamos ver com mais cuidado aqueles múltiplos personagens mutantes que dão muito mau nome à Esquerda/Direita dos nossos ódios. E, isto sem pôr em causa que, numa Democracia decente (sendo que muita decência não é democrática) Esquerda e Direita são duas posições aceitáveis de ir pondo um pé à frente do outro, na História. Dá cá uma ajuda, D. Quixote: se não virmos mais do que os nossos olhos vêem, o Mundo não passaria de uma taberna. Há tempo de Cognac, há tempo de Trabalho. Um tempo para viver, um tempo para morrer. O Juíz Baltazar Gárzon conformou por intimação judiciária, que Franco morreu e deixou a tarefa da abertura das fossas da Guerra Civil, às autarquias. A intimação judiciária para saber se Hitler morreu, por causa dos bombardeamentos da Legião Condor, ainda anda aí pelas secretarias e parece que foi expedida agora para um lugar chamado El Murcón, na Argentina, onde um índio chiquito disse que viu um jerico com um bigode curto a fugir para Sudeste. A carta de intimação para D. Sebastião se apresentar num dia de Sol, ainda está ser considerada. Garzón, do alto da sua água de colónia, disse-nos que, se fosse ele, o Tribunal de Nuremberga nunca devia ter existido. Era o mesmo que ele. Garcia Lorca, o vermelho e maricas, disse aos tipos que o iam executar depois de o arrancarem à família falangista que lutava desesperadamente por o esconder: “Não me mateis que eu acredito na Virgem”. Desgraçado de quem não o quis ouvir.
Mas eu vou ouvir Garcia Lorca: verde, te quero verde/como o cavalo na montanha. E vou ouvir um fado. E vou ouvir o coro do Exército Vermelho a cantar “No Don ficou só uma árvore em pé”. E vou ouvir aquela canção que os oficiais alemães no belo filme “Casablanca” cantavam, que falava da beleza do Reno e da saudade da Pátria. E, no fim, vou ouvir o Requiem de Mozart que diz: malditos, suspirai! Benditos, exultai!
André
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Gavotte (5)

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Até agora, a análise de "As Benevolentes", de Jonathan Littel cingiu-se ao universo da narrativa, ao enredo, às perplexidades de um tempo e de um regime: o nacional-socialismo. Faltava ainda colocar a pergunta fundamental: como foi possível "aquilo" no país que amava Schubert e idolatrava Goethe? O que levou a que a Bildung, ou seja, a seriedade e o radicalismo espiritual da cultura alemã, a sua modernidade, tenham conduzido à barbárie? Para tentar responder, necessário se torna tomar algumas precauções. É que uma coisa é falar do colapso moral de Auschwitz e outra, bem distinta é descrever uma tradição literária e moral que desaguou em Auschwitz. Mas que podia ter originado outra experiência, menos radicalizada do que o fantasma totalitário que se apoderou da Europa durante os anos 30 do século passado. Da Europa e não só da Alemanha, é bom repetir. As conexões entre causa e efeito colocam sempre uma questão muito delicada na construção do relato histórico. Em primeiro lugar, porque tendem a introduzir um elemento de necessidade onde impera, se não a liberdade, pelo menos o acaso. Depois, porque levam a que todo um processo apareça retroactivamente sobrevalorizado por um facto que essa sobrevalorização encara como fatalidade. O excesso de telos retrospectivamente reconstruído distorce o sentido típico, aleatório, polivalente, dos fenómenos que o presente vai produzindo. Convertendo essa vastidão numa imensa flecha que converge num único lugar: o grande centro de gravidade que se apodera do relato e, quiçá, da sua própria veracidade. É um trabalho de grande perspicácia aquele que se exige ao historiador: distinguir entre as causas realmente relacionadas, os elementos contingentes e os elementos completamente livres que configuram a base das suas hipóteses. Salvando-se assim do poder de atracção que certos factos exercem sobre esse material. Não há fatalismos na História. As tendências anteriores aos factos devem ser interpretadas com muita cautela. Sobretudo se essas tendências implicam uma leitura tendenciosa. Talvez seja desta tentação que a obra nos pretende prevenir. Usando de uma suprema elegância romanesca. Auschwitz e o nazismo funcionam, sem dúvida, como um campo magnético, capaz de condicionar muitas leituras. Mas é esse precisamente o triunfo póstumo dos nazis. Sobre o qual haverá que reflectir sem preconceitos. Não porque, de facto, se trate de uma vitória póstuma, mas porque é de acolher a possibilidade de que uma coisa - a cultura literária e moral alemã dos séculos XVIII e XIX - não tenha nada a ver com outra - o holocausto, o totalitarismo e a guerra de extermínio. E aqui convém distinguir: uma coisa é a afirmação de Adorno acerca da impossibilidade da poesia depois de Auschwitz e outra, bem diferente, é a obscuridade que Auschwitz projecta antes de si, retroactivamente. Transformando a construção da modernidade cultural na Alemanha como um caminho até ao holocausto. Essa sobredeterminação dos factos em função de um fim, tão monstruoso quanto ilógico, converte-os em algo que participa dessa irracionalidade, em algo inútil do ponto de vista da visão da Bildung alemã como um processo com potencial civilizador. Na verdade, esta não tinha esse propósito, no sentido pacificador, pluralista e democrático a que tendemos a associar a ideia de civilização. Uma ideia supostamente francesa, que aparece contraposta a um conceito bem alemão: a Kultur. Ora, a função desta não era tornar as pessoas melhores, satisfazer a utopia de uma cultura emancipadora, humanista, mas sim tentar evitar que algumas delas não soçobrassem no processo de individuação e socialização. (continuação)
