segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Viagens

Aspectos do Holland Park, em Londres (e Kyoto Garden), ontem de manhã, durante um passeio memorável. Recorde-se que este magnífico espaço, situado na zona abastada de Kensington, foi celebrizado também por dois motivos. Por um lado, esta era uma área frequentada por espiões durante o período da guerra fria. Um cenário que decerto inspirou escritores e viajantes. E foi neste parque que foi rodada a célebre sequência do suposto homicídio visionado pelo fotógrafo e protagonista no filme "Blow up", de Antonioni. Obra essa que já aqui comentei.



Tábua de marés (18)

Ar da Guarda
Exposição colectiva de artistas do concelho da Guarda
Organização: CMG - NAC
Galeria do Paço da Cultura
Entre 17 de Novembro e 3 de Janeiro de 2009


Em Dezembro de 2004, era editado, pelos mesmos organizadores deste evento, um caderno colectivo intitulado "Ar Livro", contendo textos e imagens, e no qual também colaborei. Nessa publicação, num texto a propósito intitulado "Ares da Guarda", escreveu Eduardo Lourenço o seguinte: vendê-los, em casa, imitar como podíamos os eternos Davos-Platz dos outros, oferecê-los aos que sofriam do "mal" de um século em vias de urbanização acelerada, lavar-lhes os pulmões nesse ar ainda não poluído da nossa provincial "montanha mágica". (...) A Guarda não se converteu na cidade onde se vinha a ares. Mas tomou consciência, e a tradição dura até hoje, que os seus "ares" eram, para quem os procurava, uma aposta de vida. Precisamente: encarar, em grande medida, a Guarda como um destino espiritual, uma finisterra purificadora. Sendo o bem mais precioso - o ar – o elemento central deste conceito. E onde os objectivos imediatos, associados às virtudes desse elemento – terapêuticos, turísticos, desportivos, científicos, a ausência de ácaros, segundo me disseram - mais não seriam do que meios para esse objectivo último e que atrás mencionei.
A tentação de classificar o “Ar da Guarda” como marca registada já passou pela cabeça de muita gente. A representação é apelativa, diga-se de passagem. É claro que estamos em presença de um bem que não é escasso, até ver. O que significa que só metaforicamente se chegará à consciência, não tanto dos seus benefícios, pois esses conhecidos sobejamente, mas das suas aplicações, numa visão ampla de longo prazo. Aquilo a que chamaria “Ar da Guarda 2.0”. A imagem de marca para uma verdadeira aposta de vida. Acontece que, nesse sentido, a primeira acção pública e as subsequentes deveriam ter como suporte mais idóneo a arte, ou, mais propriamente, o manifesto artístico. E seria a sua força expressiva que teria que ser usada na linha da frente. E foi exactamente isso que foi feito. A propósito das excelsas virtudes terapêuticas da atmosfera guardense, lembro-me de uma acção conduzida há uns anos pelo NAC, numa das exposições da série "A Memória das coisas", e que consistia basicamente na criação e exibição de pequenos boiões contendo ar da Guarda. Com rotulagem criada para o efeito. Eis um feliz exemplo de arte pop, ao serviço de uma ideia com todas as condições para vingar. E que constitui o antecedente directo da exposição agora patente.
A primeira constatação é de que esta reúne artistas de várias gerações, sensibilidades e dimensão curricular. O que, desde já, me parece a aposta certa, em função dos resultados artísticos desejados. Começando pelo catálogo, tornou-se evidente que cumpriu o que lhe competia. De realçar a qualidade superlativa das fotografias de algumas das obras expostas, as quais francamente favorecem. Relativamente aos critérios seguidos na instalação das obras e sua interacção com o espaço, notei algumas falhas. A mais grave tem a ver com a arrumação das três esculturas na mesma sala. Acontece que qualquer uma delas pressupõe que sejam exibidas de forma personalizada, sem elementos externos que possas perturbar o seu desfrute. Neste caso, a notável instalação de Rui Miragaia obedece a uma lógica diversa das outras obras presentes. E, sobretudo, a iluminação intermitente diminui a percepção destas. Justificava-se, portanto, a sua mostra num espaço individualizado. Por outro lado, notei uma qualidade desigual nos trabalhos expostos. E uma fidelidade também desigual de cada artista àquilo a que habituou o público. Havendo, nalguns casos, uma linha de continuidade e noutros uma ruptura. Por outro lado, se na maioria das obras (incluindo algumas criadas especialmente para a mostra) se nota a dedicação exclusiva ao tema proposto, noutras já isso não é tão claro. O que empobrece, de alguma forma, o resultado final. Por último, e como nota informal, cabe ainda destacar, pela positiva, os trabalhos de alguns dos artistas representados: Carlos Adaixo, Teresa Oliveira, Kim Prisu e, noutro registo, José Vieira, Pedro Renca e Rui Miragaia.

Publicado no jornal "O Interior", em 4 de Dezembro

Tábua de marés (17)

Melech Mechaya André Santos, Francisco Calado, João Graça, João Sovina, Miguel Veríssimo Café Concerto do TMG, 26 de Novembro, às 22h00

O grupo descreve a sua música como “uma viagem festiva pela música klezmer, abraçando também momentos mais delicados e intimistas. Uma viagem pela tradição judaica, unindo aromas árabes, ritmos ciganos, e momentos de simples “bate-o-pé”, de Hungria a Israel, dos Balcãs a Nova Iorque. Uma enorme festa não aconselhada a quem tem problemas de coração!” Quem já assistiu a algum dos seus concertos decerto se revê nestas palavras. A sua sonoridade é tributária, em grande medida, da música Klezmer. Trata-se de uma tradição musical judaica, nascida na idade Média, nos ghettos da Europa de Leste, onde trovadores judeus, conhecidos como “klezmorim”, tocavam em festas e casamentos. Inspirou-se em melodias seculares, danças populares e liturgia judaica. Em contacto com outros povos e outras tradições musicais, os “klezmorim” adquiriram novos modelos de composição, novos temas, ritmos irregulares, dissonâncias e um toque de improviso que tornaram esta música facilmente reconhecível e apreciada no mundo inteiro. À boleia de uma onda revivalista enquanto música de dança. Como se esperava, o grupo veio para aquecer a audiência, numa noite particularmente fria. E conseguiu-o, em certa medida. Executando cerca de uma vintena de temas, metade dos quais compostos pela banda e outros de origem popular. Pese a tradicional resistência inicial do público local a grandes agitações, lá para o fim viu-se uma adesão notável aos sinais que vinham do palco. Criando-se uma sintonia notável entre os vários actores da sessão musical e proporcionando um ambiente festivo e cúmplice. Que é, ao fim ao cabo, a razão de ser desta sonoridade que não deixa ninguém indiferente.

Publicado no jornal "O Interior", em 4 de Dezembro

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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Stalker

Tábua de marés (16)

Guarda: rádio memória
Coordenação geral e dramaturgia: Américo Rodrigues
Encenação e dramaturgia: José Rui Martins
Direcção musical: César Prata
Cenografia e adereços: Marta Fernandes da Silva e Pedro Santos
Co-produção do Teatro Municipal da Guarda e Trigo Limpo Teatro ACERT
Dias 21, 22 e 23, no Grande Auditório do TMG.

O nome pode induzir em erro. Não se trata de um espectáculo de teatro radiofónico, como seria de supor. E porquê? Desde logo, porque a rádio é claramente o motivo, o suporte dramatúrgico da peça. O seu papel é muito mais significativo do que o do coro grego, por exemplo. Uma vez que, nesse caso, ele é ora o impulsionador, ora o comentador distanciado da acção dramática. Pois aqui a acção passa-se no interior da própria rádio. Que transmite aquilo que é recriado cenicamente. Portanto, a rádio é, nesta peça, o narrador que comanda a acção e a reproduz. Servindo o palco como uma extensão, uma projecção daquilo que se passa no estúdio. Em suma, convidando-nos a olhar para ela como se se tratasse daqueles personagens que Rembrandt incluía em alguns dos seus quadros, olhando para o espectador e tornando-se cúmplice do que ele próprio assiste. Portanto, a rádio funciona aqui de duas formas: como meio de projecção e circulação da mensagem proposta e como instrumento agregador e simplificador no processo dramatúrgico desenvolvido. No segundo caso, resolveu um problema sentido no anterior espectáculo, “Guarda, paixão e utopia”, quanto às transições entre as diversas cenas. O tal fio condutor. No primeiro, abriu possibilidades infinitas no que toca à escolha dos temas. Por outro lado, a dimensão impressionante da ficha técnica pode induzir noutro erro: encarar este espectáculo enquanto produção megalómana. O que aconteceria se o passo pretendido fosse superior às pernas. Ou se o TMG se tivesse transformado num estúdio da Paramount Pictures durante a rodagem de um épico de Cecil B. de Mille. Ironia à parte, o que impediu a passagem da ténue linha para um gigantismo descontrolado não foi a contenção nem a limitação dos meios envolvidos. Mas sobretudo a fidelidade ao conceito original: contar histórias da Guarda, por gente de Guarda e para a Guarda. Celebrar a casa comum. Orquestrar um conjunto polifónico de vozes, ao serviço de um projecto artístico de qualidade e com projecção universal. Instrumentar a memória, sem deixar de questionar o presente. E tudo isto através do teatro e da linguagem teatral. No fundo, o mesmo desenho criado para o espectáculo de há dois anos, já referido, e para o qual vale muito do que aqui se diz. E em relação ao qual posso, no entanto, estabelecer algumas diferenças: o agora apresentado foi menos poético e simbólico; por outro lado, foi notório o acento dado à direcção de cena, em lugar da encenação propriamente dita. No primeiro caso, pese embora o impacto poético da cena 6 (“Pedras Escritas”) e da cena 9, com o diálogo entre Alberto Diniz da Fonseca e D. Quixote, a poesia foi a grande ausente. No segundo caso, privilegiando-se a sucessão de efeitos visuais e os movimentos colectivos, em lugar da representação propriamente dita. O que, se inculcou ritmo televisivo ao espectáculo, fê-lo perder tensão dramática. Compreende-se que o tempo e o espaço eram escassos para “encaixar” tantos recursos humanos. Mas não deixa de ser verdade que a História tem actores. E o teatro não pode prescindir deles. Devo dizer ainda que me desagradou o maniqueísmo redutor de algumas sequências, nomeadamente das cenas 7 e 8, a propósito da fábrica Renault e do 25 de Abril. A roçar o comício puro e simples. O que evidencia uma opção ideológica que, tal como outra qualquer aplicada directamente à arte, faz dela desaparecer o essencial: a pluralidade de sentidos. E tudo reduz a uma mescla de propaganda com correcção política. Em quase tudo o resto, as soluções encontradas revelaram-se perfeitamente ajustadas e equilibradas. Com alguns rasgos verdadeiramente brilhantes. Quanto aos temas elegidos para formar esta epopeia, tal como das obras que hipoteticamente fossem escolhidas e reunidas numa antologia, pouco haverá a dizer. Procurou-se e conseguiu-se que esses temas não repetissem os “clássicos” utilizados na peça anterior. Decerto outros poderiam ter sido considerados, mas essa avaliação pouco interessa agora. Em suma, um grande espectáculo que dignifica a Guarda, a sua memória, a sua criatividade e a sua dinâmica cultural.

Publicado no jornal "O Interior", de 27 de Novembro

Tábua de marés (15)

Günter Grass, o artista plástico
Galeria de Arte do Teatro Municipal da Guarda
De 15 de Novembro a 14 de Janeiro de 2009

Para quem tenha visitado recentemente a exposição “Desenhos de Escritores”, que decorreu no CCB e tenha saído um tanto defraudado, como é o meu caso, esta foi uma ocasião soberana para reconsiderar as más impressões aí recolhidas, no que toca à polivalência criativa dos escritores. Com notáveis excepções, claro. Claro que aquela exposição tinha um propósito documental que esta não tem. Sendo apresentada, sem ambiguidades, como parte do acervo artístico de um artista, “por acaso” notabilizado como escritor. O conjunto espanta pela diversidade de meios, materiais e linguagens. Compreende gravuras, desenhos, aguarelas e esculturas em bronze. Num texto notável inserido no catálogo, o autor explica, na primeira pessoa, a convergência entre o desenho e a escrita. Onde afirma, a certa altura: “não é só porque a escrita e a linha figurativa são igualmente gráficas, mas também por razões de plasticização que o desenhar e o escrever existem em recíproca inter-relação”. Antes de se tornar romancista, Grass foi escultor. Aprendiz de entalhador de pedras, dedicou-se também ao estudo das artes gráficas. Mas quiseram as musas que a pena fosse sua principal arma de combate intelectual. Segundo ele, as figuras desenhadas ou esculpidas tomaram forma "em silêncio, à sombra da literatura". Porém, que cada uma é também uma "obra independente", sendo a coexistência de literatura, escultura e pintura “completamente natural”. Há ocasiões inclusive em que passou de um campo para outro a meio de uma obra. Ora, percorrendo a exposição, não só pelos motivos, mas pela intensidade, pelos temas escolhidos e pela sua repetição, nota-se a influência do expressionismo alemão na obra de Grass. Sobretudo nos desenhos e em duas aguarelas. Do conjunto, destaco algumas águas-fortes, logo á entrada, as sanguíneas, a litografia retratando a máquina de escrever de (Heinrich) Böll e toda a obra escultórica.

Publicado no jornal "O Interior", de 27 de Novembro

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Ainda o "Magalhães"

O GOVERNO CONTINUA a distribuir Magalhães, na convicção, fingida ou não, de que com tal gesto está a estimular a alfabetização, a cultura, a curiosidade intelectual, o espírito profissional, a capacidade científica e a criatividade nacional. Será que nas áreas do governo e do partido não há ninguém que explique que isso não acontece assim?
Segundo a OCDE, o abandono escolar na União Europeia foi, em 2007, de cerca de 15 por cento. Portugal, com 36,3 por cento, tem a taxa mais alta. Mais de um terço da população entre 18 e 24 anos não completou a escola e não frequenta cursos de formação profissional. Só 13 por cento da população activa adulta completou o ensino secundário e perto de 57 por cento apenas terminaram o primeiro ciclo do básico.
Ainda segundo a OCDE e um estudo de Susana Jesus Santos (do banco BPI), a distribuição dos tempos de aulas nas escolas, para alunos de 9 a 11 anos, mostra como a juventude portuguesa está orientada. Em Portugal, a leitura (e o português) ocupa 11 por cento do tempo de aulas. Na União Europeia, 25. Em Portugal, a Matemática ocupa 12 por cento. Na União Europeia, 17. Que é que o Magalhães tem a ver com isto? Nada. Absolutamente nada!

António Barreto, no "Público"de 30 de Novembro