A operadora de telemóvel que utilizo acaba de me mandar um sms, lembrando-me das n mensagens grátis que posso utilizar no dia de S. Valentim, especificando-se o radioso destino: a "cara-metade". Foi a gota d'água. Já não bastava o marketing ter adoptado mais uma tradição bastarda para estimular o negócio, expandir o consumismo, com as montras entupidas de souvenirs, as redes sociais na net oferecendo todo o tipo de serviços hi tech, o brain storming publicitário. Faltavam ainda os pacotes de sms para se reenviarem as mensagens "muita giras" recebidas nos anos anteriores, ou sacadas nos serviços de valor acrescentado que disponibizam aos valentinos e às valentinas todo o tipo de lirismo de ocasião. Repare-se que, de acordo com a correcção totalitária em curso, nem se fala em namorado ou namorada, mas "cara-metade". Um asséptico e abrangente eufemismo que nada significa. E porque não à amante? À acompanhante das férias? Mas que merda é esta? Cara-metade? E a inocência, fausta e magnífica? E os corpos nus indissociáveis? E os pequenos gato ávidos, que partilham o pão, o sol e a morte? ? E o sabor a sal, depois de termos nadado no mar como focas? E as nossas corridas no bosque, como raposas, quando rolávamos no chão? E quando não sabia onde nenhum de nós começava ou acabava, casal de serpentes entrelaçadas? Cara metade? Até onde nos querem reduzir?
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
sábado, 9 de fevereiro de 2008
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Branco
Continua a leitura de "As Benevolentes", de Jonathan Littel (ed. D. Quixote, 2007, trad. Miguel Serras Pereira). Desde o "Viagem ao fim da noite", a opus magnum de Céline, que a leitura de um livro não tinha, para mim, o significado exacto de uma experiência absoluta. O protagonista, recém promovido a SS-Hauptsturmführer (posto correspondente, grosso modo, a capitão) ao serviço da SD (unidade especial afecta ao policiamento e segurança nas zonas ocupadas) acaba de chegar a Kharkov, na Ucrânia, cidade que havia sido tomada há pouco pelos alemães. Como retaliação das explosões provocadas por dispositivos retardados que o Exército vermelho tinha deixado para trás, foram enforcados inúmeros civis. A execução eram públicas e os corpos ficavam pendurados nos edifícios mais altos como aviso. Perante tal visão, o narrador prova porque é que a curiosidade e a sede do absoluto são as razões que o levam cada vez mais fundo nesta epopeia do horror:
"Começava enfim a entrever que, fosse qual fosse o número de mortos que viesse a ver, nunca conseguiria captar a morte, esse momento preciso, no seu próprio momento. Das duas, uma: ou se está morto, e então não há de qualquer modo seja o que for a compreender, ou não se está morto ainda e, nesse caso, a própria espingarda sobre a nuca ou a corda ao pescoço é uma coisa que continua a ser incompreensível, uma pura abstracção, essa ideia absurda de que eu, o único ser vivo no mundo, possa desaparecer. Moribundos, talvez já estejamos mortos, mas nunca morremos, esse momento nunca chega, ou antes, nunca pára de chegar, ei-lo, está a chegar, e depois continua a estar a chegar, e depois já passou, sem nunca ter chegado."
Nota: sobre a obra, recomendo a leitura de um excelente artigo de Mario Vargas Llosa.
"Começava enfim a entrever que, fosse qual fosse o número de mortos que viesse a ver, nunca conseguiria captar a morte, esse momento preciso, no seu próprio momento. Das duas, uma: ou se está morto, e então não há de qualquer modo seja o que for a compreender, ou não se está morto ainda e, nesse caso, a própria espingarda sobre a nuca ou a corda ao pescoço é uma coisa que continua a ser incompreensível, uma pura abstracção, essa ideia absurda de que eu, o único ser vivo no mundo, possa desaparecer. Moribundos, talvez já estejamos mortos, mas nunca morremos, esse momento nunca chega, ou antes, nunca pára de chegar, ei-lo, está a chegar, e depois continua a estar a chegar, e depois já passou, sem nunca ter chegado."
Nota: sobre a obra, recomendo a leitura de um excelente artigo de Mario Vargas Llosa.
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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Imagens da noite do Entrudo (1)
Decorreu na segunda-feira à noite o esperado "Julgamento e Morte do Galo do Entrudo", que tomou conta das ruas da Guarda. O evento, com produção da Culturguarda, envolveu cerca de 300 participantes activos, inúmeras colectividades locais e grupos espanhóis. Eis algumas imagens registadas durante o espectáculo, da autoria de Pedro Caetano.




NOTA: Ver aqui slideshow do portfolio
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A corrida segue dentro de momentos

Uma noite de insónia deu nisto: acompanhar a emissão especial da CNN dedicada às eleições primárias nos EUA e em especial aos resultados que iam chegando da Super Terça Feira. Centrei-me no campo democrata, onde está tudo em aberto - diferença de 20 delegados - embora Hillary, em vantagem, tenha todas as condições para embalar para a nomeação. Já há muito tinha percebido que Hillary Clinton seria a melhor escolha para a próxima presidência. Ontem, essa posição ganhou uma consistência definitiva. Em primeiro lugar, porque em relação a Obama criou-se a ideia de associar a sua pertença a determinada etnia e a possibilidade de ser eleito a uma espécie de revolução inimaginável. Um erro crasso. Ontem apercebi-me do seu tipo de discurso: justicialista, centrado nas desigualdades sociais, em especial de base étnica. Uma mensagem para o seu eleitorado-alvo, os negros. Abundam as palavras "change" e "hope", numa espécie de homilia próxima de Martin Luther King. Obama vê-se a si próprio como o catalizador de uma missão redentora, extirpadora dos vícios dos políticos de Washington e do "sistema" em geral. Criou um "movimento", um programa político que funciona por agregação e não pela busca de denominadores-comuns, pela abdicação do intervencionismo na esfera externa e pela concentração de recursos nas políticas sociais. Um discurso sedutor, como se adivinha. Mas muito deficitário quando se trata de lidar com as variáveis macro-económicas internas, a globalização e as potencias económicas emergentes. A Obama falta a experiência que sobra a Hillary. Talvez daqui a oito anos desse um bom Presidente. Por outro lado, aquela não precisa de grandes tiradas messiânicas para demonstrar o seu know how, o seu conhecimento e, acima de tudo, as suas qualidades intrínsecas para o desempenho das funções a que se candidata: capaz de reformar sem rupturas, de encontrar uma solução política para o Iraque sem demagogias. Mas tem ainda um longo caminho pela frente, pois luta contra um movimento cada vez mais étnico e populista. De qualquer modo, em caso de empate triunfará o bom-senso, uma vez que a maioria dos chamados super-delegados, personalidades afectas a cada um dos partidos e não comprometidos com o candidato por quem foram eleitos, não deixarão de apoiar Hillary.
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As casas de Sócrates - 2
Eis mais algumas réplicas possíveis de edificações "desenhadas" pelo Eng. Pinto de Sousa, em nome dos seus amigos da Câmara da Guarda, alguns dos quais ainda cá trabalham. Repare-se que o primeiro-ministro poderia perfeitamente ter reconhecido o que fez. Provavelmente já nem se falava do assunto. Mas não: auto-vitimizou-se, lançou o anátema a quem investigou, fez-se de virgem ofendida. Saindo, mais uma vez, muito mal na fotografia.

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terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
O truque
Ontem, ao representar para uma assembleia composta por uns bons milhares de pessoas, na Praça Velha, percebi a verdadeira perversidade do episódio mais emblemático de "O Perfume", de Patrick Süskind, (vd. adaptação cinematográfica de Tom Tykwer). Como se recordam, o protagonista, Jean-Baptiste, provoca um delírio colectivo na assistência, durante a gorada cerimónia pública da sua execução. Uma espécie de deliquescência erótica, uma possessão orgiástica que tomou conta de todos. Todavia, a imagem do amor que ele personificava e que contagiou o que estava em volta, era afinal uma composição metafísica, um truque. O quintessência de uma depuração gradual da necessidade, do tempo, da contingência. O resultado de uma vampirização acumulada da matéria para chegar ao espírito. Aparentemente, tudo se passou como se o brilho arrebatador que emanava do herói encontrasse eco nas pequenas chamas em redor, despertasse um sopro adormecido, o sopro da alma. O momento único em que a metáfora de desejo é também uma forma de revelação do sagrado. A fascinação é mais do que óbvia. No entanto, falta ainda um ponto essencial: a inexorável solidão do protagonista, a devoção canibalesca que suscita e que acaba por vitimá-lo. Volto ao ponto de partida, deixando de parte interpretações mais rebuscadas. Percebi o que há muito suspeitava: a verdadeira força não nasce da blindagem do ego, mas do despojamento. Não de uma alucinação mas de uma empatia. É aí que se encontra o amor sem truques. É aí que nos visita a solidão essencial. A que inspira, e já não assusta. A que nos devolve ao centro. É aí a forja onde se tempera o mais rijo aço e a mais delicada magia.
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