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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O dia 0


Gostei de ouvir o discurso de Obama, na sua tomada de posse. É curioso que, em relação ao seu projecto político, passei das muitas reticências para um entusiasmo moderado. O que me agradou no seu discurso foi a densidade, a divisão clara entre o que é ou não negociável, a visão clara das responsabilidades da América no xadrez mundial, o enfoque na crise financeira, a firmeza em relação aos inimigos da liberdade, a retoma dos princípios que fundaram o sistema político americano, mas pondo-os ao serviço da visão estratégica do novo presidente. Que soube hoje ser o intérprete, o visionário, o construtor e o garante do accountability do seu mandato.

sábado, 25 de outubro de 2008

O grande equívoco

O mundo vai ficar muito mais incerto e perigoso se este homem for eleito como próximo presidente dos EUA. Sem qualquer experiência governativa, com um discurso vago, mas exaltante, este homem irá certamente ignorar a Europa. Um tele evangelista com a tenda montada tem conseguido ludibriar parte da América e quase toda a Europa bem pensante. Um escândalo. Eu bem sei que as pessoas precisam de ídolos. Mas que diabo, podiam fingir um bocado, ou começar a ler Arno Gruen. Os sinais de favoritismo já começaram: ao que parece, se Obama for eleito, ao que tudo indica, pretende nomear como embaixadora em Londres Oprah Winfrey, sua apoiante da primeira hora e uma espécie de Teresa Guilherme americana. Futuro? Esperança? Depois não digam que não avisei.

PS: à medida que a campanha avança, os alinhamentos dos opinion makers da casa nesta eleição vão confirmando a minha aversão em relação a Obama. Agora foi a vez de Júdice, - esse tarefeiro multiusos do regime, exemplo de coerência e honestidade intelectual, para quem Portugal "é um país de merdosos" (sic) - vir tecer loas ao candidato democrata. Há momentos em que as escolhas se tornam escandalosamente simples: se Júdice gosta, então eu não gosto. Ponto.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Os Capitalistas

Eles comem tudo…chamam-lhes os „takers“, os que „levam“, tudo, nos mares do Sul. E não são os ricos, pois ricos e pobres haverá até ao fim dos tempos. São aqueles que vivem do consumir, do ter mais, do competir, dum novo poder a seguir a outro poder. Até os ditos anti-capitalistas, os de Esquerda, que gostam também de consumir e de Poder, gostam sobretudo de consumir a vingança e, quando põem em prática as suas teorias, à custa de muito fuzilamento e massacre, electrificam o céu, queimam os lagos e matam as florestas, põem todos a marchar, escravizam-nos até morrerem de exaustão. Ah, deixem a pobre macaca, gritar desolada com o seu filhinho morto no regaço, deixem o pobre infeliz com a sua grandeza à beira do penhasco.Por isso tenho tanta esperança em Obama. Levará um tiro como o doente Kennedy? É mais justo interromper uma campanha para ver a avó doente que por causa da crise das bolsas. Fossem todos os especuladores ver a avó e não estaríamos assim! Eu sei que não haverá Justiça no Mundo para os desafortunados, mas de vez em quando há Esperança que é o Domingo dos pobres. E gosto deste homem, frágil e bonito, que abre as mãos grandes como quem vai lançar uma bola de basquetebol, que vem dum meio pobre de vãos de escadas e pretas gordas, de soldados rasos do Iraque, de gente sem raiz, nem origem, de gente descartável, gosto da sua magreza frágil e do seu rigor emocional. Como um iluminado de Alá na África pelada, dos griots e dos sadus, com o seu nome de Hussein que morreu a proteger o filhinho, com a sua legitimidade de Príncipe, na batalha de Kerbala contra islâmicos mais espertos que ele. E gosto do seu nome Barack, que quer dizer “abençoado” em hebreu. Ôba!, Ôba!, Abba, Abba (Pai!Pai!), como cantam os filhos dos escravos na suas procissões de Sol, do outro lado do mar, onde foram naufragar. Preto e índio sou eu, preto do Mundo, índio do Mar, agora que vem o general vodu, disfarçado de preto, para apontar o cano dos senhores das armas ao crânio gentil e frágil de Obama. Esperança, sim, do povo “Jah” de chegar à Sião de ouro onde as forças do mal não têm força porque até Maomé disse que Deus deu à gente do Preste João 9 décimos da coragem do Mundo. Talvez tu, Malcom X, tenhas agora paz, que bem a merecias e nunca a tiveste. Oxalá!

André

domingo, 5 de outubro de 2008

Palin strikes again

As eleições americanas deixaram de me interessar a partir do momento em que Hillary ficou de fora na corrida. O que significa que nenhum dos dois candidatos me entusiasma particularmente. Mc Cain, do mal o menos, mas o estilo não satisfaz. Obama porque desconfio de tele evangelistas e porque o Daniel Oliveira gosta dele. Todavia, não deixarei nunca de estar atento àquilo que se debate e de que forma. O cenário estava assim montado, até que apareceu Sarah Palin. O desassombro com que esta mulher desempenha as suas funções de mestre-escola anti-aborto, contra os "homenssexuais e coijas axim", saída da América profunda, dos valores restauracionistas, é matéria de um filme de David Lynch. Por outro lado, o seu estilo faz lembrar aquelas donas de casa da publicidade dos anos 50, sempre perto de um frigorífico ou de uma televisão, e com um rancho de criancinhas rechonchudas à volta. Mais cedo ou mais tarde vai-se despedir do marido à porta, também sorridente. Que traz consigo uma pasta, entra no carro, e ala que sa faz tarde, rumo à downtown. O conservadorismo de Palin tem uma matriz novecentista, puritana. O meu, paradoxalmente, tem uma génese anarquista. Mas deixemo-nos de efabulações. Palin acaba de se estender ao comprido. Ao acusar Obama de "manter relações amistosas com terroristas", durante uma acção de campanha no Colorado. Estas declarações têm invariavelmente um efeito de ricochete. Os republicanos deveriam antes tentar demonstrar que Obama não tem soluções políticas credíveis para lidar com o terrorismo. Este tipo de soundbites é que não ajuda nada. A campanha está ao rubro.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Mr. Shankly


O tele-evangelista Obama vai ser o candidato democrata nos EUA. Que assim perderam a oportunidade de eleger uma excelente Presidente: Hillary Clinton. Os democratas sensatos e que não ligam muito ao politicamente correcto que nela votaram sabem porquê. Só espero, agora, que Mc Cain consiga uma vitória esmagadora. Ao menos, tem alguma experiência na vida real.

domingo, 25 de maio de 2008

Lido

Barak Obama parece finalmente às portas da nomeação. Mas o homem que está a chegar à meta não é o mesmo que vimos à partida. Devia ter ganho com entusiasmo – e vai ganhar matematicamente. Não devia haver a mínima dúvida acerca da sua vitória sobre um advogado da guerra no Iraque – e há. Nada o impede de ascender muito alto. Mas já percebemos que quanto mais subir, mais pequeno há-de parecer.

Rui Ramos, artigo do Público de 14 de Maio

Ler na íntegra no blogue Atlântico

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Columbine foi há 9 anos

Ontem, completaram-se nove anos do massacre do Liceu de Columbine: os alunos Eric Harris e Dylan Klebold, com 18 e 17 anos, entraram armados na escola e mataram doze colegas. Em seguida, suicidaram-se, deixando uma nota que mais parece um tenebroso "disclaimer": "não culpem ninguém pelos nossos actos. É desta forma que queremos partir". Com base neste trágico acontecimento, Michael Moore realizou aquele que, para mim, é o seu mais brilhante documentário: "Bowling for Columbine".
Coincidência ou não, o pré-candidato democrata Barack Obama afirmou recentemente, durante a campanha para as primárias na Pensilvânia, que o uso das armas é um símbolo de uma cultura arcaica, associada ao fanatismo religioso e à xenofobia. Segundo as sondagens, estas declarações caíram mal no eleitorado rural branco daquele Estado, que irá penalizá-lo fortemente na consulta. Saindo a ganhar Hillary Clinton. Desde o início do processo eleitoral das presidenciais norte-americanas, tenho aqui manifestado a minha simpatia pela candidatura desta. Pelas razões que já apontei, mas, sobretudo, porque vários sinais no programa de Obama apontam para um messianismo perigoso e, a nível externo, algum isolacionismo, a eliminação de referências à Europa como parceiro estratégico indispensável. Ao contrário de Mc Cain, por exemplo. Todavia, estas suas declarações, a propósito do uso de armas, sem restrições, não podiam ser mais apropriadas e justas.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

O evangelista

"Obama é o candidato democrata que, ideologicamente, menos se identifica com a esquerda europeia e é aquele que dá menos importância à relação transatlântica, e mesmo assim é o candidato ‘europeu’. Estão assim identificadas as razões que levam a maioria dos europeus a preferir Obama. O apoio a Obama mostra, antes de mais, que a ideologia é cada vez menos importante para a maioria dos europeus. A imagem conta muito mais do que a substância. Os europeus gostam da imagem de Obama, mas ligam pouco às suas propostas políticas. Em segundo lugar, para a maioria dos cidadãos europeus, muito mais do que o lugar da relação transatlântica nas prioridades do próximo inquilino da Casa Branca, o que conta é que ganhe o candidato que pareça ser o mais ‘anti-Bush’. Desconfio que estão completamente enganados. A guerra no Iraque, a ligação à religião e a recusa em assinar um regime global de luta contra as alterações climáticas são os três pecados maiores de Bush. É verdade que Obama foi contra a guerra. Todavia, não foi por ser um pacifista, mas sim devido aos seus instintos mais isolacionistas. De resto, é o candidato mais influenciado pela religião e o que menos fala de um regime internacional pós-Kyoto. Com as devidas diferenças, Obama faz parte de ‘mesma América’ que Bush. Uma América para a qual o internacionalismo multilateral e a relação especial com a Europa pouco conta e a fé religiosa tem uma ligação muito próxima com os valores políticos. Não deixa de ser interessante que a maioria dos europeus apoie o candidato, culturalmente, mais próximo de Bush."

João Marques de Almeida, no "Diário Económico"

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

A corrida segue dentro de momentos


Uma noite de insónia deu nisto: acompanhar a emissão especial da CNN dedicada às eleições primárias nos EUA e em especial aos resultados que iam chegando da Super Terça Feira. Centrei-me no campo democrata, onde está tudo em aberto - diferença de 20 delegados - embora Hillary, em vantagem, tenha todas as condições para embalar para a nomeação. Já há muito tinha percebido que Hillary Clinton seria a melhor escolha para a próxima presidência. Ontem, essa posição ganhou uma consistência definitiva. Em primeiro lugar, porque em relação a Obama criou-se a ideia de associar a sua pertença a determinada etnia e a possibilidade de ser eleito a uma espécie de revolução inimaginável. Um erro crasso. Ontem apercebi-me do seu tipo de discurso: justicialista, centrado nas desigualdades sociais, em especial de base étnica. Uma mensagem para o seu eleitorado-alvo, os negros. Abundam as palavras "change" e "hope", numa espécie de homilia próxima de Martin Luther King. Obama vê-se a si próprio como o catalizador de uma missão redentora, extirpadora dos vícios dos políticos de Washington e do "sistema" em geral. Criou um "movimento", um programa político que funciona por agregação e não pela busca de denominadores-comuns, pela abdicação do intervencionismo na esfera externa e pela concentração de recursos nas políticas sociais. Um discurso sedutor, como se adivinha. Mas muito deficitário quando se trata de lidar com as variáveis macro-económicas internas, a globalização e as potencias económicas emergentes. A Obama falta a experiência que sobra a Hillary. Talvez daqui a oito anos desse um bom Presidente. Por outro lado, aquela não precisa de grandes tiradas messiânicas para demonstrar o seu know how, o seu conhecimento e, acima de tudo, as suas qualidades intrínsecas para o desempenho das funções a que se candidata: capaz de reformar sem rupturas, de encontrar uma solução política para o Iraque sem demagogias. Mas tem ainda um longo caminho pela frente, pois luta contra um movimento cada vez mais étnico e populista. De qualquer modo, em caso de empate triunfará o bom-senso, uma vez que a maioria dos chamados super-delegados, personalidades afectas a cada um dos partidos e não comprometidos com o candidato por quem foram eleitos, não deixarão de apoiar Hillary.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

O regresso das trevas

Há dias passou na RTP 2 um excelente documentário sobre as seitas fundamentalistas cristãs que proliferam nos EUA. Assumem-se como a consciência moral da América. Fazem coincidir, ad nauseum, os valores que defendem (ao fim ao cabo, um programa político ultra-conservador) com os pilares básicos da Nação. Incluindo, porventura, não permitirem a entrada nos seus templos a homossexuais e a mulheres que praticaram aborto. Um cristianismo de fino recorte, como se nota. Mas os cabecilhas não dormem em serviço. Ao pé deles, a tropa de choque da Igreja Católica - a Opus Dei - parece constituída por escuteiros:
são lobistas legítimos em Washington, onde organizam campanhas impressionantes sempre que está em causa a discussão de legislação "sensível", assumindo-se como bloco eleitoral de facto. Durante as campanhas eleitorais, distribuem panfletos pelos crentes, aconselhando o voto nos candidatos com perfil cristão. Invariavelmente republicanos, está bom de ver (ficou assim a conhecer-se a verdadeira razão por que Bush ganhou as últimas presidenciais). Organizam assembleias religiosas que parecem um misto de estúdio televisivo em hora de reality show, sessão de brainstorming intensivo e campanha de marketing agressivo e pseudo-espiritual. Assustador. A verdadeira espiritualidade está ausente, é claro. Substituída por uma transcendência de supermercado, a que democraticamente todos podem aceder, sem demasiadas perguntas. Para a juventude, organizam uns concertos "tipo MTV" onde, a páginas tantas, um assanhado grupo rapper se transforma num coro de querubins trazendo a boa nova. Os líderes têm invariavelmente um ar gorduroso, repelente, com reminiscências pedófilas. E contas bancárias recheadas, com toda a certeza.
Esta ultradireita religiosa chegou a colaborar na propagação do terror, no pós 11 de Setembro, através do envio de cartas contaminadas com antrax. Mas a "coisa" vende. Progride nos Estados do Sul e do Midwest. Pode tornar-se um sério embaraço num país que, embora invocando sempre Deus, criou o estado secular e o primado da lei. Estes "cristãos" descendem directamente do Arcebispo Cirilo de Alexandria. O tal que, em 415, incitou os seus monges e a chusma a matarem a derradeira cientista pagã da Biblioteca de Alexandria, Hipátia. Cirilo foi santificado, é claro. E aposto que Hipátia foi massacrada não por ser pagã, mas por ser mulher da ciência. São epígonos de Ireneu (130-202), um padre da Igreja que proclamava que os gnósticos e os pagãos tinham sido identificados como agentes de Satanás e que praticavam actos de canibalismo. O clima é o mesmo, sendo as nuances determinadas pelas diferentes possibilidades trazidas pela tecnologia: impor as ideias ao próximo por amor (Vd. Arno Gruen, Falsos Ídolos). Este fim justificava e continua a justificar o emprego de todo o tipo de violência. É a génese do espírito inquisitorial, do medo e das trevas. Com Deus fora do baralho.

Nota: sobre o tema, embora centrado na questão artística, recomendo a leitura de um excelente artigo de Camille Paglia, Religion and the Arts in America. Brevemente editarei uma postagem sobre a autora.