domingo, 4 de março de 2007
A morte em Veneza
Perdições



sábado, 3 de março de 2007
Os malefícios do tabaco - 2
O Governo acaba de aprovar uma proposta de lei anti-tabaco que, a ser aprovada no Parlamento, porá um ponto final na matéria. O país ficou pois a saber que o Ministro da Saúde tem desta uma noção próxima de "normalização sanitária", ou pior. Mas veja-se melhor o conteúdo da lei. Desde logo, concordo que se interdite a venda de tabaco a menores e o seu consumo nas escolas. Só que, a versão primitiva da proposta - que proíbe o consumo em qualquer estabelecimento de restauração ou diversão e dispensa os centros de saúde terem consultas para quem quer deixar de fumar - foi aquela que veio a ser aprovada. Ao contrário do que se esperaria, após o recuo do Ministro nesse ponto o ano passado. Já aqui tive ocasião de criticar este caminho agora formalizado pelo Governo. Com argumentos para os quais remeto. Temos então um novo Volstead Act (mais conhecida como Lei Seca) para o tabaco. Sob pressão dos sectores mais fundamentalistas e histéricos. Onde pontuam um ou dois médicos e ruidosos activistas. Que gostam de aparecer na TV com um discurso neo-pidesco em relação ao que o cidadão deve ou não fazer para combater o seu deficit sanitário. Até vir a ser higienicamente perfeito, genitalmente irrepreensível, civicamente insuspeito, doce serventuário do novo eugenismo em marcha... Algo que nem o próprio Willheim Reich nos seus piores pesadelos poderia prever. E com uma postura digna de uma Florence Nightingale tratando dos estropiados do tabagismo. Desconhecem todos que a verdadeira saúde è cosa mentale. O Estado vem pois reforçar o controle de comportamentos por definição privados e a limitar a liberdade de circulação de quem fuma. Para quem defende que os poderes públicos se devem abster de se intrometer naquilo que os indivíduos consomem ou deixam de consumir, como vivem, com quem, etc., como é o caso do escriba, esta lei proibicionista é intolerável. Para além de vir a afectar significativamente a indústria hoteleira. Pelo que, tudo farei para ir preso da próxima vez que puxar de uma cigarrilha "Cohiba", no final de um jantar memorável num dos meus restaurantes preferidos. A defesa da liberdade pode passar por este caminho. A questão é séria e não pode ser deixada a incompetentes e a demagogos. É altura de os sinos tocarem a rebate.sexta-feira, 2 de março de 2007
Cafeína
"Sabe, nunca tinha pensado nisso. Se as pastilhas puderem ajudar..."
quinta-feira, 1 de março de 2007
Na colónia penal - 3
Está a seguir o processo? O Mestre está a começar a escrever; quando acaba de fazer o primeiro rascunho da frase nas costas, a cama da de algodão começa a rolar e, lentamente, vai virando o corpo para abrir espaço ao Ancinho para escrever. Entretanto a parte lacerada que estava a ser escrita, fica em contacto com o algodão, que foi especialmente concebido para estancar a hemorragia, e assim fica pronta para receber uma nova passagem mais profunda das letras. Então estes dentes na extremidade do Ancinho, à medida que o corpo vai sendo virado, retiram o algodão das feridas e projectam-no para a vala e o Ancinho entra novamente em acção. E lá vai cravando cada vez mais fundo as letras, ininterruptamente, durante as próximas doze horas.
Um dos aspectos mais importantes da obra de Franz Kafka (1883-1924) é a sua crítica implacável dos fundamentos do Estado moderno, à mecanização da vida contemporânea e ao surgimento de uma elite administrativa altamente burocrática, hierarquizada e despótica. É indubitável que a crítica kafkiana de uma modernidade opressiva e desumana se tenha constituído, até hoje, na questão que mais interessou os estudiosos da obra do escritor checo.
Na Colónia Penal é talvez o texto de Kafka em que o absurdo da autoridade é apresentado da maneira mais brutal e desumana. Um soldado detido numa colónia francesa é condenado à morte por indisciplina. A sua sentença é executada por uma máquina de tortura que, por intermédio de um sistema de agulhas, escreve repetidas vezes no seu corpo a seguinte inscrição: “Honra os teus superiores”. Todavia, o personagem principal deste pesadelo não é nem o Visitante, que é convidado para assistir ao suplício, nem tampouco o Oficial, o Condenado ou mesmo o Comandante. O protagonista é, sem dúvida, a Máquina. Neste contexto, a autoridade atinge o culminar da abstracção: ela já não é mais fruto da acção humana, mas de uma instância mecânica que se emancipou, estabelecendo o seu primado. “Ao longo da explicação do Oficial, a Máquina aparece progressivamente como sendo um fim em si”, descreve Lowy. O prisioneiro é oferecido à Máquina, para que esta possa levar a cabo a sua obra-prima. O próprio Oficial não passa de um servidor da máquina, sacrificando-se, no final do texto, a “esse insaciável Moloch”. Para Lowy, a autoridade aparece no conto “na sua vertente mais alienada, mais reificada, enquanto mecânica ‘objectiva’: fetiche produzido pelos homens, acaba por os subjugar, dominar e destruir”. Nesta parábola onde a culpa paira à procura de um culpado, (W. Benjamin), Kafka faz jus ao seu estilo sóbrio, sereno e desconcertante, para exprimir a sua profunda desconfiança em relação à sociedade industrial. Que desumaniza o indivíduo, mecaniza a sua existência, reduz os espaços da sua interioridade e dissolve a condição humana numa massa de reflexos indistintos da própria máquina. O texto, escrito pouco antes da I Guerra Mundial, ainda que publicado após o seu fim, é uma advertência macabra sobre as consequências, na estrutura social e nas relações de poder por ela entretecidas, de um processo de industrialização e mecanização acelerado, que diviniza a máquina e o progresso em detrimento das aspirações tradicionais do homem. Eficiência, eis a nova palavra de ordem, que substitui os anseios por liberdade e justiça. A conclusão do conto é a afirmação cabal do carácter negativo da crítica de Kafka, uma afirmação trágica da impotência do homem diante dos novos monstros gerados pelo sonho da razão.
Na colónia penal - 2
Na colónia Penal - 1
Apresentação no sub-palco do Grande Auditório do TMG, em estreia nacional. Mais informação sobre a montagem do espectáculo e seu significado, consultar aqui e aqui. Sobre Philip Glass, ver aqui.Direcção Musical de Domenico Ricci
Encenação e espaço cénico de Américo Rodrigues
Cenografia e figurinos de Cristina Cutrale
Barítono (oficial): José Corvelo
Tenor (visitante):
Soldado: António Godinho
Condenado: António Saraiva
