domingo, 4 de março de 2007

A morte em Veneza

Certa tarde em que vagueava junto ao mar, não há muito tempo, entendeu-se sobre o meu olhar o fluxo de uma corrente, dando aos meus pensamentos uma direcção irreversível. Senti que podia avançar por essa estrada sem fim. Onde o fundo azul e luminoso me recolhesse, recuando sempre. E que tivesse ainda de alcançá-lo, segurando-o com os olhos. Pesava a lembrança de um silêncio estranhamente hirto, nas cores amortecidas de muitos crepúsculos. Alternando com a inquietação cálida de uma tarde de verão. Que tantas vezes correu sobre a superfície da minha alma, ardente como os pés ágeis de um bando esquivo de aves regressando a casa. Tão distante, tão risível esse anseio louco de uma palavra inocente e esclarecedora. Fornecida por um inventor qualquer, mas que ameaçasse libertar-se a qualquer momento da sua estranheza. Como se a habitual explicação simples e natural para tudo nada mais fosse do que uma casca externa, que parecia abrir-se sem desnudar o interior. E que agora via rebrilhar, à maneira de uma outra presença. Empurrava-me o pressentimento de uma perplexidade estéril. Da inutilidade de uma trama fremente, perturbadora, mas que será sempre uma linha paralela. Da inevitabilidade das felizes tardes tristes sem dizer coisa alguma. E de que nada serve contar a dor nem abrir a boca com o coração cheio.

Perdições




Há uns anos atrás, tive ocasião de assistir, por três vezes seguidas, ao esplendoroso filme " O Olhar de Ulisses", de Theo Angelopoulos. É claro que a autora da banda sonora - Eleni Karaindrou - não me passou desapercebida. Mas só recentemente consegui reunir uma parte significativa da sua obra. Onde brilha a sua mais recente gravação "Elegi of the Uprooting". Este seria concerteza um dos dez discos que levaria para a tal ilha deserta. Sobre a autora e discografia: página no last.fm; catálogo da ECM

sábado, 3 de março de 2007

Os malefícios do tabaco - 2

O Governo acaba de aprovar uma proposta de lei anti-tabaco que, a ser aprovada no Parlamento, porá um ponto final na matéria. O país ficou pois a saber que o Ministro da Saúde tem desta uma noção próxima de "normalização sanitária", ou pior. Mas veja-se melhor o conteúdo da lei. Desde logo, concordo que se interdite a venda de tabaco a menores e o seu consumo nas escolas. Só que, a versão primitiva da proposta - que proíbe o consumo em qualquer estabelecimento de restauração ou diversão e dispensa os centros de saúde terem consultas para quem quer deixar de fumar - foi aquela que veio a ser aprovada. Ao contrário do que se esperaria, após o recuo do Ministro nesse ponto o ano passado. Já aqui tive ocasião de criticar este caminho agora formalizado pelo Governo. Com argumentos para os quais remeto. Temos então um novo Volstead Act (mais conhecida como Lei Seca) para o tabaco. Sob pressão dos sectores mais fundamentalistas e histéricos. Onde pontuam um ou dois médicos e ruidosos activistas. Que gostam de aparecer na TV com um discurso neo-pidesco em relação ao que o cidadão deve ou não fazer para combater o seu deficit sanitário. Até vir a ser higienicamente perfeito, genitalmente irrepreensível, civicamente insuspeito, doce serventuário do novo eugenismo em marcha... Algo que nem o próprio Willheim Reich nos seus piores pesadelos poderia prever. E com uma postura digna de uma Florence Nightingale tratando dos estropiados do tabagismo. Desconhecem todos que a verdadeira saúde è cosa mentale. O Estado vem pois reforçar o controle de comportamentos por definição privados e a limitar a liberdade de circulação de quem fuma. Para quem defende que os poderes públicos se devem abster de se intrometer naquilo que os indivíduos consomem ou deixam de consumir, como vivem, com quem, etc., como é o caso do escriba, esta lei proibicionista é intolerável. Para além de vir a afectar significativamente a indústria hoteleira. Pelo que, tudo farei para ir preso da próxima vez que puxar de uma cigarrilha "Cohiba", no final de um jantar memorável num dos meus restaurantes preferidos. A defesa da liberdade pode passar por este caminho. A questão é séria e não pode ser deixada a incompetentes e a demagogos. É altura de os sinos tocarem a rebate.

publicado no jornal "O Interior"

sexta-feira, 2 de março de 2007

Cafeína

Há dias recebi uma daquelas chamadas telefónicas a que quase todos já nos habituámos: alguém nos quer vender um produto ou serviço, ou então, em jargão publicitário, mais uma "prospecção de mercado". Do outro lado, uma menina assaz simpática e nada impaciente questionava os meus hábitos quanto ao consumo de café e, acessoriamente, de chá. A insistência era posta no hipotético conhecimento da existência de milagrosas "pastilhas" de café colocadas na máquina expresso caseira. Percebi logo que se tratava de uma campanha de "desnatagem": um produto inovador, que requer uma desabituação de modelos aceites pela esmagadora maioria dos consumidores, necessita de um halo de simpatia ou prestígio para persuadir um número considerado razoável, para ser considerada a aposta decisiva do lançamento massivo no mercado. Pois a "entrevista" estava a correr muito bem até ao momento em que, depois de fornecer alguns dados pessoais - deles excluído o nome, é claro - a tal menina me questionou acerca do número de pessoas do agregado familiar. Aí é que foi do caraças... "Agora é uma pessoa que são muitas", lancei. "Agora? Muitas?", "Sim, mas as outras estão sempre presentes..." Juro que, nesta altura, se a menina achasse que eu era um epígono de Fernando Pessoa, compraria as simpáticas pastilhas até ao fim da vida. "Mas que outras, quantas?" "Todas de quem gosto. Algumas já viveram há dois mil e quinhentos anos..." "Bom, quer responder ou não?" "Sabe, isto é sazonal. Na primavera prefiro umas e no Inverno outras". Nesta altura, a menina devia estar a pensar mudar de emprego. Atirou então, num lance decisivo, onde se adivinhava uma ânsia desesperada de "normalização"e de "senso": "Mas é solteiro ou casado?" Perante um assunto civil de tal magnitude, acorreu a prudência, a tal que é boa conselheira, conhecem? Mas logo a mandei para trás, em parte por causa do insuportável ar beato com que se apresentou. E então, veio o fulgor da recusa magestática do tempo, só ao alcance de um pirata ou de um louco. Que perpassou como um véu no meu espírito:
"Sabe, nunca tinha pensado nisso. Se as pastilhas puderem ajudar..."

publicado no jornal "O Interior"

quinta-feira, 1 de março de 2007

Na colónia penal - 3

Está a seguir o processo? O Mestre está a começar a escrever; quando acaba de fazer o primeiro rascunho da frase nas costas, a cama da de algodão começa a rolar e, lentamente, vai virando o corpo para abrir espaço ao Ancinho para escrever. Entretanto a parte lacerada que estava a ser escrita, fica em contacto com o algodão, que foi especialmente concebido para estancar a hemorragia, e assim fica pronta para receber uma nova passagem mais profunda das letras. Então estes dentes na extremidade do Ancinho, à medida que o corpo vai sendo virado, retiram o algodão das feridas e projectam-no para a vala e o Ancinho entra novamente em acção. E lá vai cravando cada vez mais fundo as letras, ininterruptamente, durante as próximas doze horas.

Franz Kafka, Na Colónia Penal, Trad. Susana Gabirro, Tempus Editores, Lisboa,1995

Um dos aspectos mais importantes da obra de Franz Kafka (1883-1924) é a sua crítica implacável dos fundamentos do Estado moderno, à mecanização da vida contemporânea e ao surgimento de uma elite administrativa altamente burocrática, hierarquizada e despótica. É indubitável que a crítica kafkiana de uma modernidade opressiva e desumana se tenha constituído, até hoje, na questão que mais interessou os estudiosos da obra do escritor checo.
Na Colónia Penal é talvez o texto de Kafka em que o absurdo da autoridade é apresentado da maneira mais brutal e desumana. Um soldado detido numa colónia francesa é condenado à morte por indisciplina. A sua sentença é executada por uma máquina de tortura que, por intermédio de um sistema de agulhas, escreve repetidas vezes no seu corpo a seguinte inscrição: “Honra os teus superiores”. Todavia, o personagem principal deste pesadelo não é nem o Visitante, que é convidado para assistir ao suplício, nem tampouco o Oficial, o Condenado ou mesmo o Comandante. O protagonista é, sem dúvida, a Máquina. Neste contexto, a autoridade atinge o culminar da abstracção: ela já não é mais fruto da acção humana, mas de uma instância mecânica que se emancipou, estabelecendo o seu primado. “Ao longo da explicação do Oficial, a Máquina aparece progressivamente como sendo um fim em si”, descreve Lowy. O prisioneiro é oferecido à Máquina, para que esta possa levar a cabo a sua obra-prima. O próprio Oficial não passa de um servidor da máquina, sacrificando-se, no final do texto, a “esse insaciável Moloch”. Para Lowy, a autoridade aparece no conto “na sua vertente mais alienada, mais reificada, enquanto mecânica ‘objectiva’: fetiche produzido pelos homens, acaba por os subjugar, dominar e destruir”. Nesta parábola onde a culpa paira à procura de um culpado, (W. Benjamin), Kafka faz jus ao seu estilo sóbrio, sereno e desconcertante, para exprimir a sua profunda desconfiança em relação à sociedade industrial. Que desumaniza o indivíduo, mecaniza a sua existência, reduz os espaços da sua interioridade e dissolve a condição humana numa massa de reflexos indistintos da própria máquina. O texto, escrito pouco antes da I Guerra Mundial, ainda que publicado após o seu fim, é uma advertência macabra sobre as consequências, na estrutura social e nas relações de poder por ela entretecidas, de um processo de industrialização e mecanização acelerado, que diviniza a máquina e o progresso em detrimento das aspirações tradicionais do homem. Eficiência, eis a nova palavra de ordem, que substitui os anseios por liberdade e justiça. A conclusão do conto é a afirmação cabal do carácter negativo da crítica de Kafka, uma afirmação trágica da impotência do homem diante dos novos monstros gerados pelo sonho da razão.

Na colónia penal - 2

Foto: Tiago Rodrigues (website)

Prosseguem os ensaios da ópera "Na Colónia Penal". O cenário natural, austero, cinzento e frio, integra na perfeição os objectivos desta proposta artística única. Ao explicar ao visitante o propósito da execução eminente do condenado, diz o Oficial que chefia a colónia: "O princípio sobre o qual baseio as minhas decisões é que por trás da dúvida existe sempre a culpa". O universo profético e concentracionário de Na Colónia Penal (1919) põe em cena uma máquina que inscreve até à morte no corpo do prevaricador o preceito a que desobedeceu. O oficial que explica ao inspector visitante o seu funcionamento admirável acabará por também ele querer experimentar o mecanismo. Na sua pele, ficará escrito: “Sê justo!”.

Na colónia Penal - 1

Apresentação no sub-palco do Grande Auditório do TMG, em estreia nacional. Mais informação sobre a montagem do espectáculo e seu significado, consultar aqui e aqui. Sobre Philip Glass, ver aqui.

Libretto de Rudolph Wurlitzer
Direcção Musical de Domenico Ricci
Encenação e espaço cénico de Américo Rodrigues
Cenografia e figurinos de Cristina Cutrale
Barítono (oficial): José Corvelo
Tenor (visitante): Sérgio Martins
Com Quarteto de S. Roque + Contrabaixo: Ricardo Tapadinhas
Soldado: António Godinho
Condenado: António Saraiva