quinta-feira, 10 de agosto de 2006

Imagens de Portugal romântico - 6

Nazaré
Sintra

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Faz-me festas

No domingo estive no Festival Andanças, em Carvalhais, S. Pedro do Sul. Incluo aqui essa referência não para publicitar o meu roteiro turístico, mas como pretexto para um apontamento comparativo sobre Festas populares, agora que as pindéricas Festas da Cidade da Guarda chegaram ao fim.
Era gente nova, menos nova, gente de cá, gente de toda a parte, para quem a vida é mais do que o tracinho na lápide. Era gente a musicar, a trocar, a inventar, a amar sem limites, a dançar pelo mundo inteiro em seis palcos diferentes. Uma festa. De verão. De sempre. Organização atenta e impecável.
Passemos então às tais Festas da Cidade. Houve uma comissão das ditas: os patuscos moços de recados da Câmara, isto é, aqueles a quem os caciques deram tacho há anos ou aqueles que esperam alcançá-lo. Os outros, os boys veteranos instalados, 'tão caladinhos que nem ratos. Ora, estes maduros, apoiados pela maresia neoliberal que sopra dos lados do IPG e de algumas redacções, resolveram dar então ao povo lo que lhe gusta, isto é, assegurar um segundo mandato ao Valente. Resultado: uma festarola novo-rica, onde só faltou o foguetório. Uma completa descoordenação entre o serviço nas barracas e a organização, tendo muita gente que sair do parque logo depois de lhe ser servido o jantar, nos dias de espectáculo. O palco mal concebido, de tal modo que a plateia reservada aos vips teve que ser enchida à pressão na noite dos GNR, depois de uma observação bem a propósito do Rui Reininho. Não houve rasgo, nem capacidade para atrair outros públicos senão aqueles que iriam a qualquer coisa. Já aqui referi outras razões. E expliquei porque este modelo de festas não serve para nada, a não ser para os parolos ficarem contentinhos consigo, a Guarda ficar fora do mapa e os eternos beija-mão ganharem mais uns cobres, ou notoriedade. Mas caramba, 25.ooo visitantes, anunciados pelos jornais locais espaciais fenomenais transversais comensais... (desculpem esta deriva dadaísta) é obra! Como se chegou a esse valor? Será que puseram gente nos locais a recensear o público? O mistério estatístico permanece.
Mas embalados por estes números fictícios, apareceram uma série de comentadores clamando vitória contra os subdesenvolvidos elitistas. São os mesmos que dizem que o Estado não devia subsidiar a actividade cultural. Que os contribuintes não têm que andar a pagar os caprichos de meia dúzia de iluminados. No entanto, apoiaram entusiasticamente um acontecimento de feição claramente institucional e pago integralmente pela Câmara. Então e o divino mercado, meus senhores? Ai essa coerência, deixa muito a desejar! Esta discussão arrasta-se há muito e raramente tem sido séria. Mas como diz Tiago Mendes em "A Mão Invisível" (um blogue liberal, atente-se), num excelente post sobre a intervenção do Estado na cultura: "a aplicação da lógica de mercado a esferas onde ela deve ser importante mas não EXCLUSIVA é não só errada mas, estrategicamente - ainda que não intencionalmente - faz com que a liberalização da sociedade se atrase." Mais à frente cita Vasco Rato - outro liberal: “Em cultura, não podemos dar apenas o que o povo quer. O gosto da Estética é moldável, evoluível. Nós sabemos que não há mercado para certos fenómenos culturais: bailados, óperas, (...). O estado tem um papel essencial nalgumas áreas, entre as quais a cultural. Não para impor gostos, mas para proporcionar alternativas.” (sublinhados meus). Ficamos entendidos?
Por outro lado, na mesma imprensa anunciam-se algumas correcções para o ano que vem. O palavreado do costume. O objectivo é estampar 30 000 nas primeiras páginas. Os merceeiros adoram. Alguns vereadores também! É que números redondos ficam sempre bem! Não é tão ternurento?

*Um destes dias, tive que mostrar o BI às simpáticas girls que o pedem na recepção da Câmara. Talvez pensem que o instante de um sorriso possa comprar a minha condescendência com a ineficácia e a incompetência que me esperam lá dentro. Lamento, queridas, mas não compra.
No tempo dos eufemismos por tudo e por nada, eis como "tudo vai pelo melhor", nas sábias palavras do Doutor Pangloss.

*Obrigado a Kaplan, um amigo galego, cujo blogue recomendo. Aqui

terça-feira, 8 de agosto de 2006

De novo os Poetas Silenciosos

Seis anos após o lançamento de "To Come", os Silent Poets mostram "SUN". O disco desvenda o que se pensa ser, de início, o som de uma poesia silenciosa: melodias poderosas, elegantes e temperadas com orquestrações emotivas, reunidas numa sólida base atmosférica e de r&b. Nota especial para as experimentações dub e eletrónicas. Michiharu Shimoda foi buscar as participações de Shawn Lee e DJ Yellow, que condicionam fortemente o trabalho final.
Uma paisagem musical exaltante, com audição recomendada em ambiente calmo, para se poder desfrutar da riqueza dos arranjos e da emotividade que proporcionam.
Eis o que de melhor se faz actualmente em sonoridades trip-hop e downbeat.

Terapia para intelectuais subdesenvolvidos - 2

(Via "Abrupto)
Atente-se à necessidade de evitar a propaganda errónea, as más leituras e os espectáculos imorais. Recomenda-se a quem detectar sintomas de subdesenvolvimento, ou para um melhor esclarecimento, que se dirija imediatamente a um posto de atendimento do G8 guardense. Trata-se de um grupo de intelectuais com bons índices de desenvolvimento, professores de banda larga do IPG, jornaleiros de serviço e cortesãos do paço ducal. Tudo gente avançada, que trabalha em prol do bom povo em regime de voluntariado, de modo a que a Guarda se torne, a curto prazo, na capital nacional do "Levanta-te e Ri".
Segundo informações chegadas há instantes, foi incluída uma adenda na listagem supra. Assim, quem não foi visto nas inúmeras esplanadas da cidade a ver jogos do mundial de futebol com uma bandeira na mão e um cachecol na testa, é passível de ser considerado atrasado mental e inimigo do povo. Recebem-se denúncias individuais ou por lista. A bem da animação!

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

Dêem-lhe crédito que o gajo amansa


Percorrendo a blogosfera, percebe-se que grande parte dos blogantes activos está de férias. Supõe-se que para destinos paradisíacos. A crédito ou a descoberto. Como pertenço à classe dos novos pobres e, como tal, indetectável pela publicidade, neste inenarrável mês de Agosto limito-me a dar umas escapadelas até uns concertos e festivais de verão, tomar uns banhos no Mondego, meter conversa com umas camones, evitar sítios com emigras, ir ver a exposição de arte sacra "Las Edades del Hombre", em Ciudad Rodrigo, rebolar no chão a rir depois de consultar o Diário da República II série na parte das nomeações, acabar de ler as "Cartas a Lucílio" do Séneca, acabar de escrever o guião para a peça de teatro, rever alguns amigos de outras odisseias que regressam à Itaca de montanha no Verão, ouvir a banda sonora do Paris Texas com possíveis lágrimas em anexo, fazer um percurso pedestre na Serra, talvez colocar aquele produto milagroso para couros na minha colecção de botas, mas sobretudo preparar calmamente a grande viagem ao Tibete, desejar ficar por lá e nunca mais voltar a esta merda. No entanto, sou um viajante nato. Quando parto penso sempre no regresso, mas nunca sei quando será. Será?

Os malefícios do tabaco

Os Waffen SS sanitários andam por aí, como o Santana Lopes, mas estes zelando sem descanso pela nossa saúde. Agora chegou-se ao cúmulo de não se ser admitido em determinados empregos por se ser fumador. Já assistimos, desde o triunfo da cultura de massas juvenil nos anos 60, a uma discriminação insidiosa e não reconhecida como tal: a discriminação etária. Depois vieram as cruzadas contra o autoritarismo escolástico nas escolas. Sim senhor. Só que se caiu no trágico desvario corporativo que se conhece, promovido pelos pedagogos formados precisamente nos loucos anos 60. Resultado: tendencialmente, hoje em dia um aluno que conclui o 11º ano padece de iliteracia funcional, ao contrário de quem fez o liceu nos finais dos anos 70, como é o meu caso. Não é que me esteja a armar aos cucos, mas toda a gente de boa fé sabe que é assim.
Todavia, faltava e última cruzada moralizadora: o antitabagismo. Escutando os argumentos do Ministério da Saúde e dos vigilantes de serviço, não resisto a estabelecer um paralelo: os trabalhos preparatórios da célebre Lei Seca, conduzidos por uma comissão nomeada pelo Senado americano em 1918, presidida pelo reverendo W.S Crafts. Era o culminar dos esforços dispendidos pelos lobbies proibicionistas, como o Prohibition Party, a Sociedade para a Supressão do Vício e a Anti-Saloon League, bem como por alguns propagandistas avulso. Essa comissão legitimou a aprovação da mais desastrosa medida legislativa da história americana - o Volstead Act, conhecido como Lei Seca: cinco milhões de vítimas e nascimento da criminalidade organizada. Já antes, em 1914, havia sido promulgada a igualmente célebre Lei Harrison, que interditou o consumo de estupefacientes, a que se seguiu a proibição do tabaco em vários estados. Era a aliança do puritanismo e do terapeutismo no seu esplendor. Significativamente, podia ler-se, num apelo à Lei Seca de Benjamim Rush: "No futuro será assunto do médico salvar a humanidade do vício, tanto como até agora o foi do sacerdote". O episódio é relatado em História Elementar das Drogas, de Antonio Escohotado, ed. Antígona, 2004.
O governo prepara-se pois para proibir, a partir de Outubro, o consumo de tabaco em todos os estabelecimentos públicos. Vai ser uma hecatombe para a indústria hoteleira. Mas os SS do politicamente correcto vão rejubilar. Agora pergunto: porque é que pura e simplesmente não é proibida a venda de tabaco? Isso sim, seria uma medida abslolutamente coerente. Que só não foi considerada porque assim o Estado perderia uma fonte de receita considerável, por via dos impostos que arrecada com a comercialização do tabaco.
Sobre estes neo fundamentalistas, veja-se este excelente texto em "Quarta República".