Cavaco apelou à Nação para umas feriazinhas caseiras, durante a silly season. O Ministro Vieira da Silva veio logo contrapor que, se todos os chefes de Estado fizessem o mesmo pedido, voltávamos à autarcia global. Posições respeitáveis, ora essa! Mas que todavia só me interessam pelo que revelam nos entrefolhos. Cavaco seguiu a sua intuição particular de olhar para a realidade segundo uma vertente económica. Inatacável na perspectiva do acentuar do défice da balança comercial. Vieira da Silva, por sua vez, quis ser cauteloso. No caso, para espetar uma farpinha no PR, comprando uma mini guerra do alecrim e da manjerona em nome do seu amigalhaço Alegre. Cavaco parece acreditar num esforço patriótico colectivo, que ultrapasse a simples colocação das bandeiras nacionais nas varandas. Quer uma abdicação do hedonismo provinciano que nos caracteriza, na sua área mais sensível: o lazer. Em troca de quê? Da austeridade de um gesto amplo, liberal e magnânimo. Por seu turno, Vieira da Silva não renega a sua tradição esquerdista dos direitos adquiridos. Um desiderato de que a firme recusa na devolução de territórios anexados pela ex União Soviética é a feliz tradução na real politik. O Ministro quis ser mais deste mundo: "aproveitem enquanto há, pois a sopa dos pobres da UE está quase a fechar!" Quis ser modernaço, arauto de uma versão de cosmopolitismo muito querido em certos meios, do tipo esbanjador e auto-complacente. Mas o seu erro foi simultaneamente a virtude de Cavaco. Passo a explicar. O Presidente não ignora que este tipo de apelo é mais fácil e com maiores garantias de êxito, se efectuado em Portugal e em tempo de vacas magras. A grande maioria dos portugueses vai deitar contas à vida e perceber que, nesta matéria, só vai quem pode. E agora, até mesmo fazer de conta que se pode vai custar os olhos da cara. O efeito do pedido foi por isso pouco mais do que placebo. Valeu pela oportunidade política. Por outro lado, se fosse a chanceler Merkl a fazer apelo semelhante aos seus concidadãos, o risco seria bem maior. Os alemães, por norma, acatam um desígnio colectivo de âmbito nacional com maior acuidade do que os portugueses. Pelo que, em meu entender, nada teremos a temer: os cidadãos do norte da Europa continuarão a buscar tranquilamente as paragens cálidas do meio dia para seu veraneio. E os viajantes portugueses, os que não escolhem época nem pedem licença, irão continuar a partir. E porventura a chegar.
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sexta-feira, 11 de junho de 2010
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Que pedra!
A Capadócia fica bem no centro da Turquia e a região mais parece um cenário de filme de ficção científica. Com formações rochosas sem fim, centenas e centenas de casas foram construídas escavando-se as encostas ao longo dos séculos. Cidades inteiras, que lembram verdadeiros formigueiros, aparecem e se escondem sob o chão. Dentro de cavernas, muitas e muitas igrejas cristãs ainda guardam frescos bizantinos. O Yunak Evleri Cappadocia Cave Hotel fica em Urgrup (na imagem) e é um complexo que inclui seis casas escavadas na montanha nos séculos V e VI e uma mansão grega construída no século XIX. O lugar além de ser perfeito para alojamento, serve de base para incursões nas cidades subterrâneas e igrejas centenárias existentes nas proximidades. Devo dizer que muitos santos andaram por estas paragens. Um deles foi o S. Simão Estilita. Construiu uma coluna para isolar-se no topo. Desse púlpito improvisado falou a imperadores, reis, religiosos, e converteu muitos pagãos. Buñuel imortalizou-o no celulóide. Olha que bela solução para umas férias sem mar azul turquesa a palmeiras! Consultar aqui.segunda-feira, 7 de agosto de 2006
Dêem-lhe crédito que o gajo amansa

Percorrendo a blogosfera, percebe-se que grande parte dos blogantes activos está de férias. Supõe-se que para destinos paradisíacos. A crédito ou a descoberto. Como pertenço à classe dos novos pobres e, como tal, indetectável pela publicidade, neste inenarrável mês de Agosto limito-me a dar umas escapadelas até uns concertos e festivais de verão, tomar uns banhos no Mondego, meter conversa com umas camones, evitar sítios com emigras, ir ver a exposição de arte sacra "Las Edades del Hombre", em Ciudad Rodrigo, rebolar no chão a rir depois de consultar o Diário da República II série na parte das nomeações, acabar de ler as "Cartas a Lucílio" do Séneca, acabar de escrever o guião para a peça de teatro, rever alguns amigos de outras odisseias que regressam à Itaca de montanha no Verão, ouvir a banda sonora do Paris Texas com possíveis lágrimas em anexo, fazer um percurso pedestre na Serra, talvez colocar aquele produto milagroso para couros na minha colecção de botas, mas sobretudo preparar calmamente a grande viagem ao Tibete, desejar ficar por lá e nunca mais voltar a esta merda. No entanto, sou um viajante nato. Quando parto penso sempre no regresso, mas nunca sei quando será. Será?
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