segunda-feira, 10 de abril de 2006

A propósito da crítica literária, publicou João Pedro George um excelente texto no seu blogue, numa perspectiva essencialmente dinâmica e funcional. De realçar que as três categorias de instância crítica aí enunciadas, a saber, jornalística, ensaística e académica, correspondem, grosso modo, às três espécies por mim aqui consideradas, respectivamente os provadores, os tribunos e os guardiães.

domingo, 9 de abril de 2006

Imagens da Revolução Espanhola (8)


ESTA BOMBA NÃO REBENTARÁ

(história baseada num episódio relatado em A Esperança, de André Malraux)

Verão de 1938. Campos de Talavera, Espanha.
Decidia-se, na frente do Tejo, o apocalipse da jovem república espanhola.
Milicianos, colunas da F.A.I., (Federacion Anarquista Ibérica), membros da U.H.P. (Union de Hermanos Proletarios), oficiais, voluntários da XI Brigada, guardas de assalto, soldados do 5º Regimento de Lister, sindicalistas da C.N.T... Tal era o saldo das forças que cercavam Toledo há duas semanas.
Os rebeldes eram comandados pelo general Moscardó, à frente dos elementos da Guardia Civil, das tropas amotinadas e dos civis armados pelos nacionalistas. Entrincheirados no Alcazar e tomando como reféns muitos habitantes de Toledo, resistiam ferozmente ao assalto dos republicanos. Ficou conhecido este cerco como um dos episódios mais trágicos da Guerra Civil Espanhola.
I
De Burgos levantavam, prenhes de bombas, Savóias e Junkers, mensageiros de aço, recortes negros por cima das oliveiras, dos penhascos, dos montes aloirados, do caudal de sangue do Tejo, do vento, das barricadas, dos jogos de cartas, dos altifalantes espalhando pelo ar a Internacional e a Cavalgada das Valquírias, intrusos nesta paisagem austera, imensa, castigada pelo sol e pelo tempo. A morte descia, lenta e ágil, como as figuras de El Greco, escorria pelas valas comuns, pelos canais de irrigação, pelas trincheiras, pelo casario branco bordejando o rio. A morte era uma carícia de aço fumegante, bolas-relâmpagos de granito róseo que caíam aos milhares do céu azul, azul como que indiferente ao labor eterno da Criação.
II
Manuel atravessava os corredores do Alcazar, juncados de destroços e corpos queimados pelo lança-chamas.
Há pouco, tinha invertido uma dessas mangueiras de fogo contra o fascista que a empunhava. Porém, a sua coragem esbarrou no olhar do outro, "não é possível queimares vivo um homem que te olhe de frente", dissera-lhe um dia um companheiro da FAI, em Barcelona, após a tomada do Hotel Colón.
Dois segundos de hesitação ser-lhe-iam fatais. Não fora a intervenção rápida de um miliciano, seria a sua vez de ser consumido implacavelmente. Ouviram-se três tiros - o carrasco, procurando o vazio com os braços, caiu para trás com um baque surdo. As paredes do subterrâneo ficaram caiadas de sangue quente. Foi então que sentiu uma dor lancinante na mão direita. Olhou - a pele havia ficado colada ao cano em brasa.
Seguiam, um pouco atrás, alguns milicianos, absortos no abismo do seu ódio. Crispavam os dedos nas espingardas. "Talvez muitos deles tenham a mulher ou os filhos presos como reféns, lá em cima na torre", pensou.
"Deus pode esperar... como poderá esta gente pensar nele, depois de ver as igrejas repletas de oiro e os padres desculpando os assassinos no massacre dos mineiros asturianos, há quatro anos em Oviedo?"
Lá fora, o ribombar contínuo das explosões cessara. Ouviam-se, aqui e acolá, sons de metralha e gritos de comando. Subiu. Um luar de Verão, como só há no coração de Castela. Gradualmente, iam-se desenhando por entre as sombras os vultos no campo de batalha. Ao longe, as paredes desmoronadas e a torre sobranceira do Alcazar, a arena onde outrora os reis de Espanha assistiam aos torneios medievais. Porém, o cenário era já outro: um aglomerado trágico e disforme de terra levantada pelos obuses, no que antes fora uma mancha de trigo. Era se como por ali tivesse passado um arado gigantesco.
O pequeno grupo caminhava, aos tropeções, através dos destroços. " Ao menos teriam os dinamitadores de Pepe feito recuar os tanques dos marroquinos?". "Talvez sejam menos importantes os motivos porque os homens se matam do que os meios de que dispõem para matar os inimigos", teria por certo acrescentado Garcia, chefe do Servício de Investigacion Militar, envolto pelo fumo do seu cachimbo. Mas agora havia que encontrar, a todo o custo, Lopez, que coordenava a instalação das minas no sector avançado das posições defendidas pelos falangistas, no lado oposto da colina.
Na Primavera de 1934, durante a greve dos operários de Saragoça ( a maior e mais longa até então registada em Espanha), Manuel havia dirigido, com Durruti e Puig, um assalto aos camiões que transportavam o ouro do Banco de Espanha, em Gigon, para auxiliar os grevistas e suas famílias. A sabotagem dos eléctricos de Barcelona ficou igualmente célebre... Eram os tempos do Solidariedad, da Livraria Anarquista e do café Tranquilidad. " A tudo renunciaremos excepto à vitória", costumava dizer Durruti.
Uma barricada, "Quem manda aqui?", "todos e ninguém... porquê?", respondeu-lhe uma voz com sotaque mexicano. Continuou. Sucediam-se os gritos dos agonizantes, o brilho vago das lâmpadas dos delegados de secção, pedaços de metal retorcido, canhões desmantelados... "a organização do caos", dir-se-ia.
Subitamente, entre duas oliveiras apinhadas junto a um muro esburacado, distinguiu uns reflexos esverdeados, provenientes de um objecto metálico. Abeirou-se. Era afinal uma bomba que não tinha explodido. Pediu ao miliciano que segurava a lâmpada que se aproximasse. Cuidadosamente, pegou no obus, desmontou o percussor e extraiu do invólucro um papel amarelecido. " Fábricas de Toledo?" Olhou novamente o papel. Surpreendentemente, deu conta de uns caracteres impressos numa das faces. Foi então que pode ler, em português, a seguinte mensagem: " CAMARADAS, ESTA BOMBA NÃO REBENTARÁ. É TUDO POR AGORA ".
O novo dia ganhava contornos no horizonte. Suavizavam-se as sombras na terra revolvida. " A tudo renunciaremos e Deus esperará por nós..." Manuel sorria agora, ajoelhado ainda sobre a raiz esventrada de uma oliveira.

sábado, 8 de abril de 2006

VINCÈNS

para Van Gogh,
algures em Saintes-Maries


Há uma flandres inteira
de campinas rasas,
uma flor suicida
entre o céu e a neve
entre lábios e vésperas de sol

há uma meda de palha
esmagada
sob o ar tenso de Agosto.

mesmo errante nas colinas
olhando-se nas ravinas
uma lua, pobre louca,
num capricho de reflexos

não é ainda a agonia,
o demónio ainda não ruge,
o portal abre-se ainda
e a loucura passa além.

vai: os altos dragões de rocha,
atentos a todos os voos,
já previram desde há muito
a paz para esta noite.

sobre as suas negras chamas,
do grande céu verás chover
os fogos, frutos coloridos
que fazem estalar os ciprestes.

e se gira, gira, gira
o teu céu, é que ele suscita
a abundância, é que ele agita
a paisagem onde é sempre meio-dia.

in Labirintos

terça-feira, 4 de abril de 2006

A Memória das Coisas -9

VILA SOEIRO – Ervas
Ela pôs-se a atirar tudo pela janela. Depois começou a falar muito, depressa, sem cessar, até parar. Um dia, puseram-lhe nas mãos lápis de cores e colocaram diante dela uma folha de papel. Inerte, ela traça, distraída, alguns pontos e riscos, e depois, sem parar, flores, flores sem suporte. Flores de corolas simples, flores oferendas, flores de nascimento, flores tingidas de inocência. Muitas, muitas. Palavras, nenhumas, nunca mais. Flores é a sua única resposta. Flores, flores, flores.

O regresso dos mortos-vivos

A Associação Fonográfica Portuguesa, em conluio com as multinacionais da indústria discográfica, representadas na poderosa IFPI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica), acaba de processar 28 cidadãos por, alegadamente, terem descarregado ficheiros de música na Internet, em programas de peer to peer. Trata-se de 28 perigosos meliantes, a maioria jovens, a que estes senhores decidiram dar o adequado correctivo. Para que os restantes milhões que utilizam este meio para aceder àquilo de que gostam – música – pensem duas vezes ou mais antes de prosseguirem a sua actividade “criminosa”.
É evidente que as multinacionais do ramo estão apavoradas com a descida dos lucros, na ordem dos 45%. De tal modo que a sua estratégia, anunciada com pompa e circunstância, inclui a vinda ao nosso país do presidente da IFPI, de nome John Kennedy (juro que é verdade, mas sempre é melhor que John Smith), para dar uma mãozinha aos seus amiguinhos nacionais. A figura é sinistra. Numa manobra de puro marketing, multiplicou-se em entrevistas aos jornais da praça, destinadas a intimidar os indígenas. O senhor diz coisas surpreendentes, capazes de fazer estremecer La Palisse: “a indústria da música sofre terrivelmente” (snif); “estes infractores estão a ROUBAR (?) os artistas – que deixam de ter a possibilidade de viver do seu trabalho”; “a questão do preço é uma desculpa esfarrapada, utilizada frequentemente pelos infractores que roubam música” (em que século vive este senhor?)…”as pessoas devem olhar para esses 99 cêntimos (das descargas “legais”) e pensar no que podem comprar. Um café? Uma lata de coca-cola? Um bilhete de autocarro?”. Mas as verdadeiras pérolas vêm a seguir: “Quem rouba música não pode ser um verdadeiro amante da música”; “O preço de um CD em Portugal é muito inferior ao preço de um concerto ou de uma peça de teatro”. Chega? Vamos por partes:
1. Direitos de autor: o pano de fundo e justificação da repressão, é realmente um tigre de papel. Senão vejamos: será que a indústria estará mesmo preocupada com o não pagamento dos direitos aos criadores, sabendo-se que estes representam um percentagem ínfima do preço final?
2. Preço. Em Portugal os CDs e DVDs - à venda por 18 e 22 Euros, como valores de referência - custam praticamente o dobro dos EUA. Em vez de se queixarem da quebra de facturação, que tal baixarem significativamente o preço, aproximando o PVP do custo real do produto?
3. Multiplicação de fontes de registo. Sabendo-se que a simples menção da palavra MP3 cria logo convulsões no estômago a estes senhores, esquecem-se que existem outras fontes sonoras no ciberespaço, igualmente passíveis de captação e registo, como as rádios e TVs em streaming? Quem o faz está igualmente a defraudar a lei?
4. Melomanias. Quem gosta realmente de música, e ao contrário do que a IFPI apregoa, não se contenta, antes pelo contrário, com o mainstream que inunda o mercado. Tem que ir onde a indústria não chega. Então porque não tomam a sério uma política de reedição de fundos de catálogo, de modo a fazer circular no mercado obras de difícil acesso, não se limitando a editar o costumeiro lixo de três minutos?
5. Partilha versus contrafacção. Partilhar músicas, livros, bens culturais é uma prática que existe desde sempre. Faz-se entre quem comunga de mesmo gosto. Falo de uma domínio que é, por definição, pessoal e transmissível. Fazê-lo na Internet é uma conquista civilizacional com vantagens consideráveis. Outra coisa é tirar partido dessa disponibilização, para com isso obter vantagens económicas. O que sem dúvida constitui um ilícito, devidamente tipificado na lei penal. E só ai se deveria centrar a atenção de quem se sentir lesado.
Em conclusão, esta postura repressiva da indústria não poderá colher junto dos tribunais, nem muito menos na opinião pública. É bom não esquecer que a Constituição, no seu artigo 78º, garante o acesso à fruição e criação culturais, incumbindo o Estado de promover “uma maior circulação das obras e dos bens culturais”. Se a indústria quisesse realmente enfrentar o problema, numa estratégia prospectiva e não repressiva, deveria adequar a oferta à procura, a lógica do mercado à diversidade das preferências dos consumidores e às liberdades individuais
Graças às medidas propostas, as descargas a partir de programas de partilha de ficheiros baixariam como que por milagre. Para já, preferem fazer de cada cidadão um potencial personagem kafkiano, ignorando as novas modalidades de divulgação, consumo e fruição musicais.
Publicado no jornal "O Interior"

sábado, 1 de abril de 2006

Nkonsonkonson

era verde verde
o rio quebrado
na minha garganta

nas vagas um rodopio
de incêndios amantes

na proa o sinal
para o princípio dos ventos,
quando o princípio
era o mar


melhor seria
chamarem-me as navegações
para o mistério das marés:

na voz
um porto ausente

nos flancos
um leme partido

no mármore, mais ao sul,
um só horizonte
de bússolas salgadas
à espera de movimento.


in "Labirintos"

Imagens da Revolução Espanhola (7)