Finalmente, a Torre de Menagem da Guarda vai ser requalificada, segundo anunciou a Câmara Municipal. O objectivo é tornar a área a futura "sala de visitas " da cidade. Precisamente no seu ponto mais alto (1056 m). As obras deverão estar concluídas até Setembro deste ano e irão custar cerca de um milhão de euros. O projecto é co-financiado pela União Europeia através do Programa Operacional da Cultura. A zona necessitava urgentemente de atenção, de modo a alargar o âmbito do centro histórico da Guarda, pois outrora a Torre de Menagem encontrava-se integrada na Alcáçova (estrutura militar) da cidade. Segundo a arquitecta autora do projecto - Margarida Carvalho - a Torre de Menagem "funcionará como ponto de partida para uma visita a todo o concelho", garantindo que está a ser realizada "uma intervenção muito minimalista de forma a não ferir muito o monumento". Será também criada uma "uma rede de percursos na paisagem" com miradouros, zonas de estadia, contemplação e repouso. No futuro centro de recepção, os visitantes poderão visualizar uma exposição permanente referente ao património histórico, cultural e natural do concelho, numa sala de exposição com vitrinas interactivas. Os três pisos do interior do monumento também serão intervencionados. No primeiro andar irá ser feita a apresentação do foral da cidade através de um sistema de projecção. No âmbito das obras, também está prevista a abertura do terraço, de onde se pode ver toda a cidade e região envolvente. No piso térreo será criado um pequeno auditório, onde será projectado continuamente um pequeno filme acerca da evolução da malha urbana da Guarda "ao longo dos mais de oito séculos de história". Ver aqui notícia detalhada.
Mostrar mensagens com a etiqueta turismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta turismo. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 19 de março de 2008
O novo belvedere
Finalmente, a Torre de Menagem da Guarda vai ser requalificada, segundo anunciou a Câmara Municipal. O objectivo é tornar a área a futura "sala de visitas " da cidade. Precisamente no seu ponto mais alto (1056 m). As obras deverão estar concluídas até Setembro deste ano e irão custar cerca de um milhão de euros. O projecto é co-financiado pela União Europeia através do Programa Operacional da Cultura. A zona necessitava urgentemente de atenção, de modo a alargar o âmbito do centro histórico da Guarda, pois outrora a Torre de Menagem encontrava-se integrada na Alcáçova (estrutura militar) da cidade. Segundo a arquitecta autora do projecto - Margarida Carvalho - a Torre de Menagem "funcionará como ponto de partida para uma visita a todo o concelho", garantindo que está a ser realizada "uma intervenção muito minimalista de forma a não ferir muito o monumento". Será também criada uma "uma rede de percursos na paisagem" com miradouros, zonas de estadia, contemplação e repouso. No futuro centro de recepção, os visitantes poderão visualizar uma exposição permanente referente ao património histórico, cultural e natural do concelho, numa sala de exposição com vitrinas interactivas. Os três pisos do interior do monumento também serão intervencionados. No primeiro andar irá ser feita a apresentação do foral da cidade através de um sistema de projecção. No âmbito das obras, também está prevista a abertura do terraço, de onde se pode ver toda a cidade e região envolvente. No piso térreo será criado um pequeno auditório, onde será projectado continuamente um pequeno filme acerca da evolução da malha urbana da Guarda "ao longo dos mais de oito séculos de história". Ver aqui notícia detalhada.
Etiquetas:
Guarda,
património,
turismo
terça-feira, 23 de outubro de 2007
Contas de somar
Os representantes das habituais capelinhas locais andam apavorados com o recente anúncio da criação de uma Região de Turismo do Centro. A medida, prevista na Lei-quadro do sector, pretende reordenar as 19 regiões existentes e reduzi-las a 5. Ver aqui a notícia completa. A Câmara da Guarda já se pronunciou desfavoravelmente, indo ao encontro das posições do incrível presidente vitalício da RTSE. A Vereadora do Turismo destaca mesmo a "criação de novos produtos turístico" em favor do status quo. Por outro lado, Luís Celínio, presidente do clube Escape Livre, vem acrescentar que a Serra da Estrela terá que ter um "tratamento especial" no novo mapa do turismo nacional. Comecemos então a juntar as parcelas. Um dos "produtos inovadores" criados foi precisamente o "BMW X Experience/Serra da Estrela 2007", uma iniciativa promovida pelo Escape Livre. Sabem no que consistia, grosso modo? Uma série de veículos todo o terreno galgando a pista da estância de ski, em pleno maciço central!!! Supostamente com a complacência do Parque Natural e o natural contentamento da Turistrela. Entidade que, de mãos dadas com a RTSE, encara a Serra como uma coutada privada, onde tudo é possível, desde que as negociatas se mantenham. E pronto, contas feitas, conclusões à vista. Perceberam agora porque é que estes senhores querem manter a situação?
NOTA: para uma melhor apreciação da "actividade", veja-se esta postagem no "Estrela no seu Melhor", que oportunamente denunciou a situação.
NOTA: para uma melhor apreciação da "actividade", veja-se esta postagem no "Estrela no seu Melhor", que oportunamente denunciou a situação.
Etiquetas:
ambiente,
serra da estrela,
turismo
domingo, 18 de março de 2007
O ar da Guarda
Já há algum tempo que não comentava a movida social e política da Guarda. É que o silêncio é de oiro. Especialmente quando já se sabe que, por aqui, a célebre máxima* de "O Leopardo" é conta-corrente. O mesmo é dizer: "An Ancient Tale is told"... De resto, os jornais locais têm alimentado copiosamente algumas das telenovelas mais excitantes da paróquia: se a maternidade fica ou não, as eleições na Associação Comercial, o último lance florentino na direcção do Politécnico e por aí fora.
Li recentemente no "Terras da Beira" que uma série de notáveis está indignada com a ausência de um programa de comemorações dos 100 anos da inauguração do Sanatório. Pasmo, senhores, pasmo perante tal leviandade! Hei-se crer que, também para vós, perdere verba leve est? Que jornalismo é este que não procura onde deveria fazê-lo? E mais não digo. Por agora. Na mesma reportagem, a propósito das excelsas virtudes terapêuticas da atmosfera guardense, era referida uma acção conduzida há uns anos pelo NAC, numa das exposições da série "A Memória das coisas", e que consistia basicamente na criação e exibição de pequenos boiões contendo ar da Guarda.** Eis um feliz exemplo de arte pop. Mas cujo aproveitamento para outros fins requer uma estratégia de imagem para a cidade que simplesmente não existe.
Exemplo disto foram as declarações da Vereadora do Turismo, questionada sobre o assunto. Já aqui se falou com algum acinte sobre esta senhora. Relembro aos mais distraídos que a sua aparição triunfal na Câmara Municipal deveria ser evocada pelos poetas como o suave poisar de um anjo saído de um quadro pré-rafaelita: fallaci nimium ne crede lucernae. Ups! O devaneio, embora apropriado, cedo perece diante de nova mensagem, trazida por Mercúrio, apelando à razão: abundans cautela non nocet.
Retomando o fio à meada, ou seja, ao ar da Guarda, a Vereadora faz uma revelação espantosa: a tal ideia, para ser retomada, carecia de uma "remodelação". Como se as boas ideias não valessem por si, especialmente no domínio do marketing! Logo a seguir, en passant, confessa, num arremedo lapalissiano, que "precisamos (suponho que na Câmara) de uma coisa mais pequenina ou maior". Entenderam? Rematou então que "a discussão do assunto ainda não está agendada". Qual assunto? Será o relativo a uma verdadeira promoção da cidade e região, que passa por um conjunto de decisões políticas concertadas e audazes? Será a criação de uma imagem de marca, suficientemente impressiva, distintiva, vendável, que realmente induza nos agentes do mercado, nas instituições e no público em geral uma percepção atractiva da cidade, suportada por elevados índices de qualidade? Ou não será antes que tal "assunto" se tem limitado ao merchandising pindérico com t-shirts, pacotes de açúcar e chocolates?
* É preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma...
** Celebrado, um ano depois, em Dezembro de 2004, com a edição de um caderno colectivo intitulado "Ar Livro" e no qual colaborei. Nessa publicação, num texto a propósito intitulado "Ares da Guarda", escreveu Eduardo Lourenço o seguinte: vendê-los, em casa, imitar como podíamos os eternos Davos-Platz dos outros, oferecê-los aos que sofriam do "mal" de um século em vias de urbanização acelerada, lavar-lhes os pulmões nesse ar ainda não poluído da nossa provincial "montanha mágica". (...) A Guarda não se converteu na cidade onde se vinha a ares. Mas tomou consciência, e a tradição dura até hoje, que os seus "ares" eram, para quem os procurava, uma aposta de vida. Sobre este acontecimento editorial, nem uma linha na referida reportagem.
Li recentemente no "Terras da Beira" que uma série de notáveis está indignada com a ausência de um programa de comemorações dos 100 anos da inauguração do Sanatório. Pasmo, senhores, pasmo perante tal leviandade! Hei-se crer que, também para vós, perdere verba leve est? Que jornalismo é este que não procura onde deveria fazê-lo? E mais não digo. Por agora. Na mesma reportagem, a propósito das excelsas virtudes terapêuticas da atmosfera guardense, era referida uma acção conduzida há uns anos pelo NAC, numa das exposições da série "A Memória das coisas", e que consistia basicamente na criação e exibição de pequenos boiões contendo ar da Guarda.** Eis um feliz exemplo de arte pop. Mas cujo aproveitamento para outros fins requer uma estratégia de imagem para a cidade que simplesmente não existe.
Exemplo disto foram as declarações da Vereadora do Turismo, questionada sobre o assunto. Já aqui se falou com algum acinte sobre esta senhora. Relembro aos mais distraídos que a sua aparição triunfal na Câmara Municipal deveria ser evocada pelos poetas como o suave poisar de um anjo saído de um quadro pré-rafaelita: fallaci nimium ne crede lucernae. Ups! O devaneio, embora apropriado, cedo perece diante de nova mensagem, trazida por Mercúrio, apelando à razão: abundans cautela non nocet.
Retomando o fio à meada, ou seja, ao ar da Guarda, a Vereadora faz uma revelação espantosa: a tal ideia, para ser retomada, carecia de uma "remodelação". Como se as boas ideias não valessem por si, especialmente no domínio do marketing! Logo a seguir, en passant, confessa, num arremedo lapalissiano, que "precisamos (suponho que na Câmara) de uma coisa mais pequenina ou maior". Entenderam? Rematou então que "a discussão do assunto ainda não está agendada". Qual assunto? Será o relativo a uma verdadeira promoção da cidade e região, que passa por um conjunto de decisões políticas concertadas e audazes? Será a criação de uma imagem de marca, suficientemente impressiva, distintiva, vendável, que realmente induza nos agentes do mercado, nas instituições e no público em geral uma percepção atractiva da cidade, suportada por elevados índices de qualidade? Ou não será antes que tal "assunto" se tem limitado ao merchandising pindérico com t-shirts, pacotes de açúcar e chocolates?
* É preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma...
** Celebrado, um ano depois, em Dezembro de 2004, com a edição de um caderno colectivo intitulado "Ar Livro" e no qual colaborei. Nessa publicação, num texto a propósito intitulado "Ares da Guarda", escreveu Eduardo Lourenço o seguinte: vendê-los, em casa, imitar como podíamos os eternos Davos-Platz dos outros, oferecê-los aos que sofriam do "mal" de um século em vias de urbanização acelerada, lavar-lhes os pulmões nesse ar ainda não poluído da nossa provincial "montanha mágica". (...) A Guarda não se converteu na cidade onde se vinha a ares. Mas tomou consciência, e a tradição dura até hoje, que os seus "ares" eram, para quem os procurava, uma aposta de vida. Sobre este acontecimento editorial, nem uma linha na referida reportagem.
domingo, 10 de dezembro de 2006
Borat veio à Serra
Esta é a chamada época alta do turismo de montanha. Observar os forasteiros que visitam a Guarda neste período proporciona uma série de registos deveras interessantes.
Desde logo, ressalta o aparato algo excessivo dos veículos "todo o terreno", equipados como se participassem numa expedição ao Ártico. O mesmo se diga do vestuário. Excessivo para o verdadeiro rigor do clima. Que justifica um agasalho suplementar, é claro, mas não uma autêntica mostra das últimas novidades das lojas da especialidade. É como se o desconforto que se adivinha no rosto dos forasteiros exigisse uma diferenciação "normalizada", defensiva. Aquela de quem está perto dos centros de decisão e consumo, face ao exotismo inóspito de um lugar que se calcorreia, mas não se escuta. Como um descargo de consciência sazonal, dos ricos em relação aos pobres, da agitação em relação ao silêncio, tanto mais episódico quanto mais se pressente que a matéria esmaga e é infinitamente exigente de tempo e de mistério. No fundo, vêm reivindicar uma imagem que já lhes foi vendida. E por nada deste mundo abdicariam dela. "A percepção é a realidade", dizem os gurus do marketing. Nem mais.
Desde logo, ressalta o aparato algo excessivo dos veículos "todo o terreno", equipados como se participassem numa expedição ao Ártico. O mesmo se diga do vestuário. Excessivo para o verdadeiro rigor do clima. Que justifica um agasalho suplementar, é claro, mas não uma autêntica mostra das últimas novidades das lojas da especialidade. É como se o desconforto que se adivinha no rosto dos forasteiros exigisse uma diferenciação "normalizada", defensiva. Aquela de quem está perto dos centros de decisão e consumo, face ao exotismo inóspito de um lugar que se calcorreia, mas não se escuta. Como um descargo de consciência sazonal, dos ricos em relação aos pobres, da agitação em relação ao silêncio, tanto mais episódico quanto mais se pressente que a matéria esmaga e é infinitamente exigente de tempo e de mistério. No fundo, vêm reivindicar uma imagem que já lhes foi vendida. E por nada deste mundo abdicariam dela. "A percepção é a realidade", dizem os gurus do marketing. Nem mais.
Publicado no jornal "O Interior"
sábado, 3 de junho de 2006
Ay nós coitados...

A Guarda é uma das cidades portuguesas com melhores condições naturais para ser "vendida" como um sítio apelativo. Pela sua especificidade, pela memória, pelo património natural e edificado, pela posição estratégica, pelas capacidades instaladas, pela condição de finis terra. Matéria consensual, ao que parece.
Recentemente, fiquei a saber que a Câmara Municipal, através da Vereadora do Ambiente - logo colocada em alta na comunicação social local sem se saber muito bem porquê - veio anunciar uma série de intenções avulsas no domínio do marketing, englobadas num programa de promoção turística da cidade.
Após ter colocado um aparelho para surdos e uns óculos para ver em 3D, utensílios que os guardenses costumam envergar quando deparam com, ou ouvem falar um político local - invariavelmente recrutado na III Divisão política e cívica, com algumas excepções, é certo... - percebi que a autarca tinha mandado imprimir umas T Shirts com a célebre cantiga de amigo atribuída a D. Sancho, exaltando os seus amores pela judia Ribeirinha. Fiquei mais descansado. Pensei que a inscrição dizia respeito às inúmeras mulheres desempregadas ou vítimas de maus tratos domésticos que, no concelho, naturalmente vivem "en gran cuidado" pelo seu futuro ou pelo seu benemérito "amigo". Mas, no amor, todos os cuidados são poucos, ou então, deliciosamente risíveis, como se sabe.
A Vereadora, num impulso digno de nota, corre para "vender" a imagem da Guarda ao exterior. Não obstante, antes de qualquer planeamento, antes de qualquer estratégia a seguir, é fundamental que o debate se alargue e nele participem e dêm o seu contributo o maior número de cidadãos, empresas e instituições, guardenses ou não.
Ora, o critério decisivo a preencher nesta questão será o de responder a duas simples perguntas: quais as vantagens comparadas com que a Guarda se pode afirmar junto do público, isto é, que produtos irão integrar a "marca" Guarda? Qual a imagem distintiva que irá dar-lhe visibilidade, poder de atracção? Para responder a essas questões, proponho um exercício prévio. Sem pensarem muito, respondam sem medo e honestamente ao seguinte: o que tem realmente a Guarda para oferecer? Pensem bem antes de responder. Pensem no que vos levaria a deslocar muitos kilómetros para visitar uma cidade em muitos aspectos atrasada e provinciana no pior sentido possível. Pensem bem. Seriam os versos do Rei Povoador? Seria a magnitude incompreendida e ignorada da Sé? Seria uma restauração medíocre, com duas ou três excepções dignas de nota? Seria uma vida nocturna em ascensão, mas com uma oferta pouco segmentada e onde a música difundida é de uma previsibilidade bocejante? Seria a observação in loco do homem beirão, um Sísifo voluntário, como disse Miguel Torga, que ambiciona o poder e o mando, truísmo já assinalado por Gil Vicente - olhai vós bem que este sam eu, diz o Juiz da Beira. Nada de confusões ou familiaridades apressadas, portanto - características temperadas, valha a verdade, por um irredutível desejo de liberdade e sua defesa, ou por uma radical mundividência? Seria um comércio que não se modernizou, desajustado à procura e com preços incrivelmente altos? Seria o apelo da montanha, a piedosa grandeza do granito, a limpidez do ar, um paradigma que já foi medicinal mas que agora poderá ser de um inconformado meneio espiritual, ou de um irrequieta pulsão desportiva? Seria a mais que razoável oferta cultural, no entanto desacompanhada de soluções urbanísticas que a prolonguem e potencializem? Seria para simplesmente ver confirmado o insólito: não existe, numa cidade de montanha, um único circuito pedonal na zona envolvente, ou sequer uma ciclovia, nem uma programação pública e regular de actividades que promovam a ligação e a descoberta do património natural? Seria a crua imagem de uma terra ingrata e austera, quase imóvel, mas onde a naturalidade ainda pesa mais do que o artifício? Seria a louca e pueril persistência dos que decidiram ficar, certificando-se no espelho de que o seu encontro com a cidade não foi uma ilusão, e cuja puerilidade alucinada se transformou numa espécie de mistério, poeira oculta, movimento encerrado num espaço sem tempo?
Tantas perguntas, senhora Vereadora! Que tardam, e non vemos. Mas o seu ar sorridente, televisivo e asséptico, envergando a singular T shirt decerto vendida na inenarrável Loja do Concelho, seguramente já respondeu às minhas. Teme-se o pior.
Recentemente, fiquei a saber que a Câmara Municipal, através da Vereadora do Ambiente - logo colocada em alta na comunicação social local sem se saber muito bem porquê - veio anunciar uma série de intenções avulsas no domínio do marketing, englobadas num programa de promoção turística da cidade.
Após ter colocado um aparelho para surdos e uns óculos para ver em 3D, utensílios que os guardenses costumam envergar quando deparam com, ou ouvem falar um político local - invariavelmente recrutado na III Divisão política e cívica, com algumas excepções, é certo... - percebi que a autarca tinha mandado imprimir umas T Shirts com a célebre cantiga de amigo atribuída a D. Sancho, exaltando os seus amores pela judia Ribeirinha. Fiquei mais descansado. Pensei que a inscrição dizia respeito às inúmeras mulheres desempregadas ou vítimas de maus tratos domésticos que, no concelho, naturalmente vivem "en gran cuidado" pelo seu futuro ou pelo seu benemérito "amigo". Mas, no amor, todos os cuidados são poucos, ou então, deliciosamente risíveis, como se sabe.
A Vereadora, num impulso digno de nota, corre para "vender" a imagem da Guarda ao exterior. Não obstante, antes de qualquer planeamento, antes de qualquer estratégia a seguir, é fundamental que o debate se alargue e nele participem e dêm o seu contributo o maior número de cidadãos, empresas e instituições, guardenses ou não.
Ora, o critério decisivo a preencher nesta questão será o de responder a duas simples perguntas: quais as vantagens comparadas com que a Guarda se pode afirmar junto do público, isto é, que produtos irão integrar a "marca" Guarda? Qual a imagem distintiva que irá dar-lhe visibilidade, poder de atracção? Para responder a essas questões, proponho um exercício prévio. Sem pensarem muito, respondam sem medo e honestamente ao seguinte: o que tem realmente a Guarda para oferecer? Pensem bem antes de responder. Pensem no que vos levaria a deslocar muitos kilómetros para visitar uma cidade em muitos aspectos atrasada e provinciana no pior sentido possível. Pensem bem. Seriam os versos do Rei Povoador? Seria a magnitude incompreendida e ignorada da Sé? Seria uma restauração medíocre, com duas ou três excepções dignas de nota? Seria uma vida nocturna em ascensão, mas com uma oferta pouco segmentada e onde a música difundida é de uma previsibilidade bocejante? Seria a observação in loco do homem beirão, um Sísifo voluntário, como disse Miguel Torga, que ambiciona o poder e o mando, truísmo já assinalado por Gil Vicente - olhai vós bem que este sam eu, diz o Juiz da Beira. Nada de confusões ou familiaridades apressadas, portanto - características temperadas, valha a verdade, por um irredutível desejo de liberdade e sua defesa, ou por uma radical mundividência? Seria um comércio que não se modernizou, desajustado à procura e com preços incrivelmente altos? Seria o apelo da montanha, a piedosa grandeza do granito, a limpidez do ar, um paradigma que já foi medicinal mas que agora poderá ser de um inconformado meneio espiritual, ou de um irrequieta pulsão desportiva? Seria a mais que razoável oferta cultural, no entanto desacompanhada de soluções urbanísticas que a prolonguem e potencializem? Seria para simplesmente ver confirmado o insólito: não existe, numa cidade de montanha, um único circuito pedonal na zona envolvente, ou sequer uma ciclovia, nem uma programação pública e regular de actividades que promovam a ligação e a descoberta do património natural? Seria a crua imagem de uma terra ingrata e austera, quase imóvel, mas onde a naturalidade ainda pesa mais do que o artifício? Seria a louca e pueril persistência dos que decidiram ficar, certificando-se no espelho de que o seu encontro com a cidade não foi uma ilusão, e cuja puerilidade alucinada se transformou numa espécie de mistério, poeira oculta, movimento encerrado num espaço sem tempo?
Tantas perguntas, senhora Vereadora! Que tardam, e non vemos. Mas o seu ar sorridente, televisivo e asséptico, envergando a singular T shirt decerto vendida na inenarrável Loja do Concelho, seguramente já respondeu às minhas. Teme-se o pior.
Publicado no jornal "O Interior"
Subscrever:
Mensagens (Atom)
