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quarta-feira, 2 de maio de 2007
sexta-feira, 13 de abril de 2007
domingo, 10 de dezembro de 2006
Borat veio à Serra
Esta é a chamada época alta do turismo de montanha. Observar os forasteiros que visitam a Guarda neste período proporciona uma série de registos deveras interessantes.
Desde logo, ressalta o aparato algo excessivo dos veículos "todo o terreno", equipados como se participassem numa expedição ao Ártico. O mesmo se diga do vestuário. Excessivo para o verdadeiro rigor do clima. Que justifica um agasalho suplementar, é claro, mas não uma autêntica mostra das últimas novidades das lojas da especialidade. É como se o desconforto que se adivinha no rosto dos forasteiros exigisse uma diferenciação "normalizada", defensiva. Aquela de quem está perto dos centros de decisão e consumo, face ao exotismo inóspito de um lugar que se calcorreia, mas não se escuta. Como um descargo de consciência sazonal, dos ricos em relação aos pobres, da agitação em relação ao silêncio, tanto mais episódico quanto mais se pressente que a matéria esmaga e é infinitamente exigente de tempo e de mistério. No fundo, vêm reivindicar uma imagem que já lhes foi vendida. E por nada deste mundo abdicariam dela. "A percepção é a realidade", dizem os gurus do marketing. Nem mais.
Desde logo, ressalta o aparato algo excessivo dos veículos "todo o terreno", equipados como se participassem numa expedição ao Ártico. O mesmo se diga do vestuário. Excessivo para o verdadeiro rigor do clima. Que justifica um agasalho suplementar, é claro, mas não uma autêntica mostra das últimas novidades das lojas da especialidade. É como se o desconforto que se adivinha no rosto dos forasteiros exigisse uma diferenciação "normalizada", defensiva. Aquela de quem está perto dos centros de decisão e consumo, face ao exotismo inóspito de um lugar que se calcorreia, mas não se escuta. Como um descargo de consciência sazonal, dos ricos em relação aos pobres, da agitação em relação ao silêncio, tanto mais episódico quanto mais se pressente que a matéria esmaga e é infinitamente exigente de tempo e de mistério. No fundo, vêm reivindicar uma imagem que já lhes foi vendida. E por nada deste mundo abdicariam dela. "A percepção é a realidade", dizem os gurus do marketing. Nem mais.
Publicado no jornal "O Interior"
domingo, 17 de setembro de 2006
Incursões - 1
Ontem à tarde andei pela Serra. Escolho cirurgicamente os momentos para lá ir. Sem as sazonais avalanches turísticas, em dias luminosos, com o ar agreste a espreitar logo ao fim da tarde. A escolha foi, desta vez, especialmente feliz. Ao longo do tempo, tenho mantido com a Serra uma relação de um imenso respeito. Aliás, não digo isto por acaso: experimentem um dia ser apanhados no meio de uma trovoada no Covão da Ametade. Saberão então do que falo. Retomando a narrativa, gosto de ir descobrindo a Serra aos poucos, saboreando cada nova perspectiva como um triunfo, ou como uma dádiva de um santuário onde a naturalidade esmaga um artíficio que praticamente não existe. Ontem, descobri um troço rural alternativo à estrada principal, no vale glaciar do Zêzere. Para além de ter percorrido, pela segunda vez, o fantástico trilho da Rua dos Mercadores, junto ao Cântaro Magro.
Não resisti, mais uma vez, ao circo glaciário do Covão da Ametade. É um local mágico, onde o silêncio tem uma qualidade especial, cristalina. Uma espessura que nos recorda a nossa insignificância e, graças a ela, a nossa imensidão. O seu peso é tal que qualquer ruído ganha uma amplitude como em nenhum outro lado encontrei. Decidi que iria até lá acampar dois dias durante esta semana. E subir mais uma vez ao Covão Cimeiro. Mas sobretudo fazer o percurso deslumbrante até à Lagoa dos Cântaros - cuja forma é a de um coração - pelo caminho sinalizado com pedras sobrepostas. Chegado lá, só ouvirei decerto as rãs e o vento. E TUDO, mas mesmo tudo, parecerá um sortilégio distante em que é difícil acreditar.
Não resisti, mais uma vez, ao circo glaciário do Covão da Ametade. É um local mágico, onde o silêncio tem uma qualidade especial, cristalina. Uma espessura que nos recorda a nossa insignificância e, graças a ela, a nossa imensidão. O seu peso é tal que qualquer ruído ganha uma amplitude como em nenhum outro lado encontrei. Decidi que iria até lá acampar dois dias durante esta semana. E subir mais uma vez ao Covão Cimeiro. Mas sobretudo fazer o percurso deslumbrante até à Lagoa dos Cântaros - cuja forma é a de um coração - pelo caminho sinalizado com pedras sobrepostas. Chegado lá, só ouvirei decerto as rãs e o vento. E TUDO, mas mesmo tudo, parecerá um sortilégio distante em que é difícil acreditar.
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