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segunda-feira, 14 de abril de 2008

O saltimbanco

Espero bem que o "Volta a Portugal", o périplo de Luís Filipe Menezes pelo país, contemple igualmente umas visitas relâmpago a Linhela, Lebução, Tronco, Pinelo, Coelhosa, A-do-Barriga, Algoso, Urros, Labruja, Bico, Cabração, Oldrões, Chazendo, Sobral de Casegas, Farroupa, Alfrivida, Folgas, Souto, Capelins, Funcheira, Sáfara, Brinches, Trevões, Prova, Freixedo, Besselga, Avelãs de Cima, Bajancos, Fármio, Chão de Vã, Lentiscais, A-do-Alho, Soalheira, Ciladas, Gafanhoeira, Tojais, Peladinho, Picota, Currais de Boeiros, Vaqueiros, Cães de Cima, Darei, Cassurães, Cunha Alta, Anais, Relíquias, Dossãos, Lações, Chorense e A-de-Parceira. Pode bem acontecer que o ar sadio do campo e a sageza das pequenas comunidades induza o líder do PSD a dizer menos disparates por cada cm3 de discurso. Vou estar atento.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Crónicas da paróquia (1)

O PSD da Guarda votou recentemente contra o Plano e Orçamento da Culturguarda, na reunião de Câmara em que o mesmo foi aprovado, graças ao voto de qualidade do vice-presidente da autarquia. O documento é equilibrado e toma em linha de conta a recuperação do défice e a estabilização financeira do TMG, durante o ano de 2007. Surpreendentemente, ou talvez não, a vereadora Ana Manso vem justificar aquela posição com a prioridade a "uma gestão equilibrada" da autarquia, compreendendo "as necessidades básicas da população". E só depois destas, no fim da lista, então "é que podemos aumentar as transferências para a cultura". A tese é exemplificada com umas manilhas de saneamento em Dominga Feia. O que permite concluir, de imediato, o seguinte: 1º a cultura deveria ser um luxo, um adorno tolerado; 2º as necessidades básicas ainda se agitam como bandeira numa agenda política paupérrima; 3º depois do lamentável episódio do aproveitamento da morte de uma criança numa ambulância na Régua, o PSD actual prossegue na senda da demagogia sem escrúpulos. Não obstante, o episódio é notável, pela sua nitidez. Daria um belo epitáfio para o PSD da Guarda, em particular, e para os políticos que enxameiam o país com semelhante "modus operandi", seja qual for a sua cor partidária. Comecemos pelo princípio: falar do ADN do PSD local é um tropismo, mas que não deixa de ser útil. O que dizer então de um grupo de saudosos não assumidos da velha ordem, que misturam os preconceitos da patética burguesia de província com um tom seminarista que fica a matar, de "empresários" que mais não são do que capatazes com jeito para o negócio, que levam à letra a detestável máxima local "quanto pior melhor" (que a contrario quer dizer "venham os incompetentes para os podermos criticar, mas cuidado com quem mostra trabalho, pois esses são para abater"), de néscios que ignoram as novas tendências ao nível da gestão, que fogem a sete pés do verdadeiro e profícuo debate ideológico na direita e ao centro, que pensam pequenino, que correm como hobbits, que actuam por impulsos de clã, nunca por convicções, exímios representantes do poder de veludo local, de que falava Pacheco Pereira, de sindicalistas da inércia, de populistas de vão de escada, de pobres títeres de papelão, de enxertos de um novo-riquismo cada vez mais paroquial, sem uma ideia, um rasgo, um projecto agregador do bem comum, nada que ultrapasse a defesa dos seus negócios, dos seus todo-o-terreno, do seu estatuto, das suas vistas curtas, do seu umbigo, bem no centro do portugal dos pequeninos? Pois bem, aí têm o PSD guardense. E como não há regra sem excepção, é justo apontá-la: a saudosa lista de Carlos Andrade, concorrente à Câmara nos anos 80. O que se disse significa então que as declarações de Ana Manso em nada me surpreenderam. Revelam a génese demagógica e ressabiada da tal escola de virtudes. Incapaz de reconhecer um bom desempenho onde ele existe. Incapaz de uma visão prospectiva da cidade. Incapaz de resistir ao mais torpe eleitoralismo. Mas, para além do pathos, há ainda um elemento novo: uma profunda ignorância sobre o significado estratégico do apoio público às actividades culturais. Uma matéria onde a vereadora deveria escutar com atenção alguns colegas do seu partido, maxime Vasco Rato. Ou ler a revista "Atlântico", por exemplo. Ou viajar pela Europa, ver in loco a importância crescente, cada vez mais consensual, do investimento público na Cultura e no património. Por todo o lado, como aqui expliquei, já se percebeu que quanto maior o volume de recursos afectos á actividade cultural, menores são os custos da sua manutenção. Esta matéria, pela sua sensibilidade, pelo carácter inconspícuo do que coloca em jogo, é pasto abundante para o populismo fácil e imediato. Aquele que prefere coliseus a teatros, salões de festas a foruns artísticos, rebanhos a cidadãos, quinquilharia urbana a bibliotecas, emissários a jornalistas, gente que obedeça a gente que crie. A luta continua. Pois.

Correio dos Leitores
  • Então e não fala da inacreditável e mesquinha campanha do PSD contra a Culturguarda, a propósito do espectáculo do Entrudo? Tanto ressabiamento com o êxito da produção mais parece uma encomenda particular. (Luís Ramos)
  • Caro leitor, não perde pela demora.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

O novo Fausto

É sabido que o exercício da actividade política pressupõe a aceitação de uma elasticidade que não é exigível ao cidadão comum. Há que saber, em suma, deixar actuar nas doses certas determinadas propriedades, como a velocidade e a leveza, por sinal duas das propostas de Italo Calvino para o próximo milénio. Mas tudo tem limites. A figura patética que Marques Mendes se prestou a fazer na recente visita à Madeira, autêntico beija-mão ao soba Jardim, não me surpreendeu pela exemplaridade, mas pela submissão da razão à barbárie. São conhecidas as imagens. Elas falam por si. No meu caso e, creio que na mente de muitos portugueses, decaiu definitivamente qualquer empatia com o líder do PSD. De uma assentada, negou os grandes princípios éticos por que tem conduzido a sua acção política, agachando-se atrás de um populismo terceiro-mundista. O mesmo que tanto combateu o caciquismo nas autarquias, vem agora caucionar o terrorismo insular à la Jardim, com os olhos postos na contabilidade eleitoral. Tornando-se assim no novo Fausto da vida pública nacional.

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

Populismos

Quando se refere a existência de populismos na cultura, colocam-se imediatamente algumas questões prévias, cuja ausência de esclarecimento dificilmente permitirá ir-se mais longe.
Em primeiro lugar, partindo do princípio de que vivemos na sociedade do espectáculo e usando a terminologia de Guy Debord, dir-se-á que o populismo apresenta caractrísticas radicalmente diferentes, consoante o espectáculo fôr concentrado ou difuso. No primeiro caso, refere-se a sociedades fortemente hierarquizadas, onde o mercado é ainda incipiente, ou a regimes autoritários ou totalitários, caso em que a fabricação de uma identidade e de uma estética próprias determina uma concentração de meios e uma visibilidade propagandeada dos resultados sem paralelo. Por outro lado, o espectáculo difuso é próprio das actuais sociedades democráticas onde predomina a economia de mercado. Paradoxalmente, é aí que um pensamento hegemónico e uma formatação da actividade criadora e da fruição da cultura têm melhores condições para triunfar.
Em segundo lugar, há populismos à esquerda e à direita. A forma como se encara a actividade cultural, a identidade e o património tem menos a ver com posicionamentos ideológicos do que com a própria estruturação da personalidade de quem intervem decisivamente neste campo. Se é valorizada a empatia e a defesa da vitalidade interior, a pluralidade efectiva ao nível da produção e oferta ficarão assegurados. Se o poder for ocupado enquanto forma de domínio e o aproveitamento da desresponsabilização de vastas maiorias pelos poderes públicos fôr a tónica, então seguramente o populismo levará dianteira.
Por último, refira-se que há casos de políticas culturais equilibradas e audazes em autarquias por parte de representantes afectos a forças que cobrem todo o espectro político. Assim como o contrário. Ora, em termos de oferta cultural, uma entidade pública tem responsabilidades diversas de uma empresa privada, nomeadamente assegurar a pluralidade e a diversidade. É aí que muitas vezes as câmaras pecam. Quando organizam eventos de massas, não entendo que estejam a manifestar uma determinada preferência ao nível do gosto, mas a promover a sua dissolução, ocupando o seu lugar preocupações exclusivamente eleitoralistas. É a popularidade dos conteúdos que interessa, domesticando-se a vitalidade própria da arte e assegurando o ciclo completo de uma lealdade renovada e estável, à margem de qualquer integração no interior anímico.

Publicado no jornal "O Interior"