segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Desafio à ausência

enumero as coisas que me dizem de ti. numa contagem decrescente. hoje é o dia em que todas essas coisas falam. um lírio. um branco de céu onde uma nuvem se desenha em fuga. a luz que se detém numa só gota de orvalho. um pensamento. o melro que lhe debica a polpa. o rumor do mar nas areias da praia. a pele recortada. os arrumos que o tempo encontra em mim. repouso agora num cálice de vinho ao final do dia. olhando as cavernas incandescentes que o lume abre na lareira da sala. palavras e palavras. e tanto silêncio entre elas. há, ainda hoje, um cheiro a pão torrado misturado com o aroma do café com leite e o som de um sino invocando o dever. tudo isso implícito neste sentimento antigo de que o mundo é incapaz de resistir à força do vento que sopra. olho todos os meus livros empilhados por afectos na estante da sala. num calesdoscópio de cores. cheiros. texturas. aí se apertam os pedaços da minha vida. todos eles levam os sublinhados dos meus passos. as personagens do assombro que me habitam. talvez a solidão seja esse vento maior que nós. sabe-se lá porquê acontece-nos. a vida escorre-nos muitas vezes por entre esses momentos de ausência. tanto faz. a eternidade é um só momento. e um nome. um só nome.

Myanmar - 2

Será que um regime de narco-generais, suportado pelo escudo chinês, irá resistir à mobilização popular, encabeçada pela instituição mais respeitada no país, à torrente da opinião pública internacional e à globalização dos foruns de protesto? Já se viu que uma revolução de veludo está fora de causa. Mas como será que uma aberrencagem dos tempos do espectáculo concentrado, nas palavras de Debord, com uma estrutura repressiva, censura e uma sólida estratificação social, do tipo piramidal, irá ceder às reivindicações que a isolam do resto do mundo? Se cair, é possível que arraste consigo as várias tiranias reinantes no Sudeste asiático, como um castelo de cartas.

Myanmar


É interessante, embora nada surpreendente, ver os nossos revolucionários encartados, talvez com excepção do Daniel Oliveira, caladinhos que nem ratos em relação ao clima de repressão que se vive na Birmânia. Mais preocupante ainda é a indiferença manifestada pelos partidos do arco democrático. É que, segundo os analistas, a situação tenderá a piorar, pois a Junta Militar não irá fazer concessões e a onda de protestos tende a alastrar. Ora, pelos vistos não está em causa a instauração de um salvífico e redentor regime socialista, encabeçado pelas vanguardas operários e, ainda mais à frente, por um querido líder asiático tão do gosto dos nossos comunistas, em especial de Bernardino Soares. Trata-se, ao invés, de uma luta onde estão em causa reformas políticas de cariz democrático e o respeito pelos direitos fundamentais. E, ainda por cima, na linha da frente estão uns monges budistas vestidos com túnicas cor de açafrão e Aung San Suu Kyi, militante pacifista, galardoada com o Nobel da Paz. Nada que entusiasme, por um lado, a esquerda folclorico-fracturante, sempre pronta a apoiar qualquer "movimento social", dos eufémicos às paradas gay, desde que os droits de jouissance se enquadrem na respectiva agenda política. Por outro, as forças políticas "da governação" têm mais que fazer. Até porque do lado de lá da fronteira, está o poderoso vizinho chinês, que foge da menção à palavra democracia como gato de água fria. E aí, meus amigos, manda a realpolitik no seu esplendor.

1. Existe uma petição online de repúdio ao regime birmanês.
2. Está em curso uma acção de protesto, na blogosfera, marcada para 4 de Outubro. Aceder aqui
3. Portal Free Burma , com links para páginas que reúnem informações em vários ponto do mundo.

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domingo, 30 de setembro de 2007

Termo incerto

O Manuel acaba de suspender o seu excelente blogue, "Meia Noite todo o Dia". "Por tempo indeterminado", vai adiantando. Na passada, pus-me a cogitar se "por tempo indeterminado" não daria um belo título para um outro blogue. Seja como for, faço figas para que o autor volte ao activo. Até prova em contrário, estar na blogosfera é uma condição intermitente.

A Pergunta



Deus move o jogador e este move a peça.
Que Deus por trás de Deus o jogo começa?

Jorge Luís Borges

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