sábado, 31 de março de 2007

em tempo de narcisos

(xviii)

em tempo de narcisos (que sabem
o sentido da vida é crescer)
esquecendo porquê, recorda como

em tempo de lilases que proclamam
o desígnio da vigília é sonhar,
recorda assim (esquecendo parece)

em tempo de rosas (que assombram
o nosso agora e aqui com o paraíso)
esquecendo se, recorda sim

em tempo de todas as doçuras para além
do que quer que a mente possa entender,
recorda busca (esquecendo acha)

e num mistério a haver
(quando o tempo do tempo nos livrar)
esquecendo-me, recorda-me

e.e. cummimgs, "xix poemas", trad. Jorge Fazenda lourenço, Assírio & Alvim, 1991

Sobre o autor:
Edward Eastlin Cummings, que literariamente sempre assinou e. e. cummings ( em caixa baixa), nasceu em 14 de outrubro de 1894, em Cambridge, Massachusetts. Estudou em Harvard, de 1911 a 1915, especializando-se em literatura grega. Um autêntico homem sem profissão, Cummings viveu por toda a sua vida dos parcos ganhos de poeta e pintor, a princípio ajudado pelos seus pais e avós, depois pela mulher, Marion, modelo e fotógrafa. Amigo de John dos Passos e de Erza Pound. Convidado para proferir conferências em Harvard, de 1952 a 1953, escreveu seis palestras, que intitulou i: six nonlectures(eu:seis não-conferências), com as quais, descobrindo em si próprio uma extraordinária vocação para a leitura de poemas, percorreu com grande êxito de audiência colégios e universidades. Cummings morreu em 3 de setembro de 1962.
Bibliografia: Tulips and Chimneys (1923), &(And) (1925), XLI Poems (1925), Is 5 (1926), W (ViVa) (1931), No Thanks (1935), "Neu Poems" from Collected Poems (1938), 50 Poems (1940), 1 x 1 (1944), XAIPE (1950), Poems 1923-1954 (1954), 95 Poems (1958), 73 Poems (1963).

O engenheiro

A recente investigação jornalística, conduzida pelo "Público", acerca da forma como Sócrates obteve a sua licenciatura em Engenharia Civil na Universidade Independente, já mereceu vários desenvolvimentos políticos e comentários na blogosfera. Inclusivamente, suscitou uma reacção algo despropositada do Primeiro Ministro. O processo é realmente confuso. E com vários rabos de palha pelo meio. No mesmo sentido deste post, creio que, havendo realmente razões para pôr em causa a forma como o grau académico foi obtido, o jornal deveria ter ido até às últimas consequências. Isto é, demonstrar que houve irregularidades, sem medo e sem aligeirar responsabilidades. No entanto, não creio que haja por detrás desta investigação qualquer propósito ad hominem em relação a Sócrates, mas tão só o apuramento de eventuais irregularidades na licenciatura que obteve. No fundo, é irrelevante o seu título, mas já não a forma como o conseguiu, pois ninguém está acima da lei. Ponto. Mas esta questão, pelas sequelas que já teve e ainda poderá ter, revela muito acerca da realidade do país:
Em primeiro lugar, é claro que Portugal é a coutada dos doutores. A evidência - queirosiana - retira-se desde a forma acintosa como os autores de "As Farpas" (essa "chrónica" fantástica) se referiram ao assunto, até um episódio patético - que presenciei - em que um aluno finalista do politécnico da cidade onde vivo pouco faltou para agredir um funcionário bancário, só porque o seu "título" académico - supõe-se que o "dr" da ordem - tinha sido omitido no cartão de débito. A prosápia balofa e uma espécie de afectação provinciana do "doutor" só existem porque a subserviência perante a pose, a ostentação e o "poder" ainda são realidades profundas no nosso país. Seja nas grandes cidades ou na província. Nas primeiras, o "doutor" é mais sofisticado,oculta melhor a sua arrogância e anda quase sempre próximo da enxúrdia da burocracia ou de bolsas de influência. Na segunda é genuinamente patético e não raro aprumando-se atrás de uma erudição saloia e alvesambrosiana (private joke). Chegado aqui, devo dizer que possuo uma licenciatura. Ora, uma licenciatura representa, em rigor, o quê? Creio que é simplesmente a certificação de uma aptidão, de um saber. Não qualifica o seu titular, mas o conhecimento que supostamente possui. Que o habilita ao exercício de determinadas profissões. E onde a autonomia alcançada não significa auto-suficiência, mas um "dever" de curiosidade,à maneira dos Renascentistas.
Por outro lado, este caso revela a forma como a esmagadora maioria dos políticos efectua a sua trajectória pessoal na res publica. Fazem-no quase sempre dentro dos aparelhos partidários, onde começam por agitar umas bandeiras e carregar uns pianos. De underdogs chegam a responsáveis por qualquer coisa, depois delegados a um Congresso, depois elegíveis, depois eleitos, depois gerindo influências, depois nomeados para um cargo governamental. Em qualquer caso, sempre surdos, sempre à sombra do útero partidário, sempre à margem das misérias e grandezas do cidadão comum. Sócrates não é excepção. Mesmo aplaudindo o seu magistério governativo, não se pode esquecer que, tal como os demais, foi embalado na estufa partidária antes de dar à luz. Ora, não é difícil adivinhar que uma licenciatura para apagar o estigma do "engenheiro técnico" veio mesmo a calhar. O glamour académico no papel da miraculosa pomada (placeba) dos feirantes e do TV Shop. Pois.

sexta-feira, 30 de março de 2007

Preces atendidas - 4

Liv Ullmann

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Blogossário - 4

Blegging - solicitar assistência técnica a outros bloguistas, utilizando o próprio blogue.

Blog - a palavra resulta da contracção das palavras web e log. Por causa das constantes inovações tecnológicas, o termo veio a significar diferentes coisas para pessoas diferentes. No entanto, designa basicamente um suporte para edição online que pode ser actualizado regularmente, sendo os registos dispostos por ordem cronológicas. Embora o interface dos blogues esteja em constante mutação, os atributos característicos de um blogue incluem uma página inicial com um número de postagens datadas e dispostas a partir da mais recente, um arquivo de entradas, uma lista de links para outros blogues e marcadores ou tags.

Blog hop - também conhecido como blog hopping, designa a navegação de uns blogues para outros, afim de ler as entradas e/ou deixar comentários.

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Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

Notícias da blogosfera

Há uns dias descobri um blogue do qual não quero deixar de fazer aqui uma referência. Chama-se "Aldeia dos Macacos" e é editado por Justin Time, um curioso pseudónimo para alguém que prefere manter o anonimato. Sabe-se que o autor vive temporariamente na Guarda (Guardosibirsk), da qual já fez alguns retratos, nos quais o elogio fácil e a condescendência andam arredados. Nada melhor do que o olhar dos outros para revermos o nosso. De resto, o blogue é graficamente muito interessante e os conteúdos destacam-se pela sobriedade, irreverência bem humorada (algumas rubricas como"prémios", "aforismos inúteis", "a idade dos porquês" e "frases a evitar num funeral" são brilhantes) e bom gosto. Mas leiam-se os textos sobre a Guarda, aqui e aqui, antes de mais. Não resisto a citar o último. Diz o autor, sobre a cidade:

-Não tem arrumadores de carros. Uma pessoa tem que se desenrasacar sozinha, por vezes tendo que escolher entre vários lugares de estacionamento (e essa é outra...)
-Não tem grafittis, salvo um caso esporádico, e muito artesanal - qualquer coisa como "amo-te Darky"(referência a um alóctone, pois aqui toda a gente é Manuel ou Maria).
- Não tem pessoal "dos sem-abrigo". Como é que uma pessoa se diverte á noite e vem com os copos? Dá pontapés nos caixotes do lixo?
-Não tem agarraditos (pelo menos não se veêm) facto que corrobora a primeira observação.
- Não tem engarrafamentos. Todo povo tem que chegar a casa a horas e levar com a conversa de familia. Tangas..
-Não tem merda de cão nos passeios. O que deixa o pessoal olhar para as montras à vontade e gastar mais do que tem. Um autêntico apelo ao consumismo.
-Tem um restaurante onde a comida é bem confeccionada, com muito boa apresentação, servida com simpatia e que não nos custa os olhos da cara(pelo menos...),fazendo o cliente sentir-se um explorador colonialista...

Pois bem, lamento desiludir o Justin time, mas a Oppidana já tem tudo isso. Todavia, com sinais distintivos próprios:
os arrumadores só aparecem de vez em quando, principalmente junto aos CTT;
é claro que há grafitis, e não só os que refere, bastando circular e olhar com atenção;
para encontrar os "agarraditos", basta parar durante o dia nas imediações do CAT, na Praça Velha e, à noite, em frente à Misericórdia;
é claro que tem engarrafamentos. Mas aqui são "diferentes", pois só acontecem entre as 17-30 e as 18.30, em ruas bem determinadas, ou quando a selecção de futebol ou um dos clubes "grandes" ganham alguma coisa;
quanto à merda de cão, concordo. Até já imaginei um slogan para enviar à senhora vereadora do Turismo: "Guarda: a única cidade sem merda (de cão) nos passeios!";
por último, bons restaurantes é coisa que realmente não abunda na cidade. Contudo, existem alguns que possuem os requisitos que o autor menciona. Só que não vou aqui fazer deles publicidade. Sobre o assunto, ao Justin Time direi: "informa-te melhor e mudarás de ideias
".

quinta-feira, 29 de março de 2007

Nova cara

O Boca de Incêndio tem nova roupagem. Por várias razões. Por um lado, o anterior arranjo gráfico - resultante de uma remodelação do layout efectuada em Maio do ano passado - impedia o recurso a determinadas funcionalidades que a nova versão do blogger tornou possíveis. Mesmo assim, optei por um modelo de template editado em modo clássico. Incompatível, por isso, com os novos recursos de layout do blogger 2. Por outro lado, tornou-se evidente que o grafismo anterior passou a estar aquém dos parâmetros de qualidade e de coerência entre a forma e os conteúdos que gostaria para este espaço. Em resumo, pesou sobretudo a utilidade e o gosto. Mas este blogue, como qualquer outro, é um meio interactivo. Espero pois que a opção feita seja do agrado dos seus leitores, especialmente dos mais assíduos, tanto como o foi do meu.
Chamo ainda a atenção - para quem ainda não se deu conta - do recém criado "Guarda Nocturna". Trata-se de um blogue centrado em temas locais. Ou seja, onde aparecem postagens do presente blogue que tenham uma especial incidência sobre a Guarda e região, ao lado de outras, criadas para o novo espaço.
Por último, criei um blogue de apoio ao "Boca de Incêndio" - "Boca de rodapé" - cuja função exclusiva é servir de suporte para textos extensos e ficheiros de imagem, retirados de outras fontes mas inacessíveis de outro modo, e para os quais direcciono links a partir de postagens do blogue principal.