quarta-feira, 31 de maio de 2006

6 Variações


INDIFERENÇA
Gostamos de ver o charlot
guerrear com as nossas
estátuas de gelo

ZEN
Gostamos de percorrer
ramo a ramo
o lótus adormecido
nas nossas mãos cegas

SONHO
Gostamos de pintar uma asa
no pó das cavernas profundas

DESEJO
Gostamos de não esperar
o gosto acre do outono,
a dança ímpia da primavera

NAXOS
Perguntam-nos que flor pode ter
o nome de ariadne:
se fulgor de cavalos jovens na neve,
se espelho reflexo de água

NOCTURNO
Chama-te a minha voz
e chama apenas
o teu nome em mim...

in "Labirintos"

terça-feira, 30 de maio de 2006

O Código d´Avintes anda aí a circular nas livrarias e feiras do livro. Broa! Isto é, boa... malha! Simples, ou com manteiga, é do melhor que há. E bibópuorto!

Diário de um Tolo - 2

Variações sim porém não é o antónio mas o sebastião goldberg que o náufrago gould das produções vintage toca como ninguém é o que estou a ouvir mas aposto que isto vos interessa tanto como o número exacto de virgens que o imperador heliogábalo mandou desfilar em roma depois da conquista da síria montadas em elefantes ao som dos címbalos e dos cânticos das vestais eis que vivemos num tempo impossivel para a loucura e para a doce crueldade o gajo toca mesmo ah pacheco luiz que agora convives com os mortos anunciados e proibidos nesta coisa clean e jovial são encomendas que urge despachar quanto antes o que interessa é o perfil apresentável e dinâmico não é verdade ó emproados que não sabeis apreciar uma vinha em setembro ou uma criança grande que parte copos demasiado frágeis para a sua alegria e o seu amor deserto porque nada é igual a isto nada nem a morte a morte na luz desesperante na queda de uma parte de deus no centro de um círculo ilusório e como que ponto vivo das palavras de elsinore as do país da magia do abandono da nudez da modificação e do despojamento talvez o destino insensato do viajante no deserto não é verdade ó enfatuados preâmbulos de coisa nenhuma superlativos rançosos da opevê da vidinha entre o job a domus e o poema que jamais esperará por vós sim vós que nem sequer sabeis olhar para a vossa escolhida como uma aparição diária vós angariadores do tempo mas não de um tempo o tempo de bach que agora escuto vós os apressados inúteis na bestial tarefa de prescrutar a vossa inutilidade patética bach ilumina-me joyce vem também o meu ódio cresce tanto como a urgência do amor a neve continua a cair conheço-lhe o sabor tal como o de um relâmpago estendido à beira do outono e cujas forças experimento sem saber porquê risível transporte patética fantasia imprudente erudição venal condescendência
afinal a neve não existe
só aves cegas rodopiando em busca de terra

quella sí lontana sorrise e poi si tronò all'eterna
fontana
depois só ficará a minha lágrima de ray que ainda não parou de me enganar
tão
docemente.

Nota de rodapé, em jeito de legenda: a Guarda em Fevereiro, vista de casa.

O Guronsan

AAAAAAAGGGGGGHHHEEEE!
(Acordo)
HUGA, HUGA. TRÂNSITO KABUNGA?
(Pergunta a locutora na rádio, num debate incompreensível)
PPPPRRRRREEEEE...EEE....PFFFF.
(Respondem-lhe os meus intestinos com mestria)
XXNEQUE...SCAFE...PLIMMMM...PUNGGGG...
(A mão tacteia à procura do Guronsan)
UUUFFFFFFHHHH!
(Suspiro de alívio ao encontrar o Guronsan)
RRGGGGGEEEE...CRICC...RRRRAL...
(Range a cama quando me levanto)
KKTRIIIIMPLASHHH....
(Lá se foi um vaso de estimação da minha avó antes de chegar à cozinha...)
TTCCCCHHUUUFFFFFFH...PLIC
(Encho um copo de água)
PLOCHE...PLIC...PLIC...
(O Guronsan cai no copo e saltam duas gotas de H2O)
FFFSSSSSSSHHHHHHHHEEE...
(O Guronsan dissolve-se)
GLUP, GLUP, GLUP...
(Bebo o líquido efervescente)
BLHAC!
(Vai tu!)
AAAARRRRRG!
(Arroto)

Como já dizia Rimbaud: "Je est un autre"

segunda-feira, 29 de maio de 2006

Lido

Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações.



Fernando Pessoa/Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

O Circo democrático

O primata da Atlântida tem um acordo tácito com este país e que, valha a verdade, tem cumprido escrupulosamente: para gáudio da plateia e para combater a proverbial tendência depressiva da nação, aparece periodicamente no galho mais alto, perdão, nos media e, aclamado pela assembleia, dá início ao seu one monkey show (perdoem o trocadilho fácil, mas não resisti). Depois de distribuir mais umas bananas pelo clã, debita então uns soundbytes que vai tirando da cartola - que usa como sinal distintivo da sua preponderância - enquanto bate furiosamente na barriga, apontando para leste, terra dos macacos grandes que, supostamente, querem disputar a ilha da sua tribo e roubar-lhe a comida. Cada gesto mais expressivo, ou cada onomatopeia mais desafiadora, são imediatamente reproduzidos pelos macacos dos galhos inferiores, numa sintonia unânime e típica, temendo que, se não o fizerem, ficarão excluídos na próxima distribuição de bananas. Entretanto, e enquanto duram estes rituais, os humanos da ilha, não dispondo ainda de meios para a criação de uma reserva natural para fixação dos símios, vivem aterrorizados e amordaçados de todas as formas e feitios.
A história é sobejamente conhecida, tendo-se tornado mesmo objecto de estudo por paleontólogos e pseudólogos (pseudologia, ciência do quimérico, do falacioso). Há até quem afirme que Platão, em A República, deveria ter previsto mais esta modalidade de perversão totalitária, criada e alimentada pela democracia, algures na Atlântida.
Mas veja-se com maior detalhe a última homilia do celebrante macaco-chefe: desta vez exige a criação de um sistema judicial "regional", uma espécie de foro privado convenientemente inspirado por costumes locais e formado por macacos às ordens do chefe. Deste modo, a distribuição de bananas permaneceria intocada, os macacos do continente já não poderiam vir pedir contas e os macacos de todo o mundo teriam ali uma zona franca para poder trocar todo o tipo de bananas, sem que ninguém colocasse questões incómodas. Bravo! É de mestre! Atenção pseudólogos! Mesmo os piratas e flibusteiros de antanho, quando criaram uma rede global de "redistribuição" da riqueza, ao arrepio de todas as leis conhecidas, nunca deixaram de criar as suas, para uso interno: simples, cruéis e de uma lógica desconcertante. Em todo o caso, essas regras eram escrupulosamente aplicadas. Sem excepções. Ora, no nosso exemplo, a ideia seria desmantelar a última forma independente de controlo das tropelias simiescas do chefe y sus muchachos, visto que o controlo e a responsabilização por via política já deixaram de existir há muito. As portas ficariam abertas para o último passo: um regime de excepção, apto a assegurar a inimputabilidade permanente e vitalícia do seu líder.
Mas azar dos azares, as plateias menos desatentas já deixaram de se impressionar com estas macacadas. E já aprenderam que o show off esconde o medo e a insidiosa chantagem. E que esta mais não é do que a preclara antecipação de mais umas dotações extra para financiar a bananada local. Enviadas por correio expresso pelos macacos do continente, num assomo magnânimo e liberal. Como uma mesada que um pai desiludido já deixou de fazer acompanhar de prosélitas recomendações de bom comportamento, mas que, sem dúvida, ainda aliviavam a consciência de assim estar a alimentar a irresponsabilidade e o desvario. Até ver.

Publicado no jornal "O Interior"

domingo, 28 de maio de 2006

PÓS - POEMA (2)

passam os rios
como deuses
e as mãos revelam-se
no seu refúgio de areia.

passam os deuses
como sombras iluminadas
e logo se desenham nos álamos
bocas caiadas de verão.

passam os dias
como flâmulas cinzentas,
batalhas, frutos, searas

e um torpor longínquo
e amante nasce

uma insaciedade humana
cresce como o ganges
nas nossas veias
e torna-se imensa
como os deuses
como os rios

in "Labirintos"