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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Outro

Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos"

sábado, 25 de abril de 2009

E também...

Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errónea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

Fernando Pessoa, "Poesias Inéditas" (1930-1935), ed. Ática, 1955

segunda-feira, 29 de maio de 2006

Lido

Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações.



Fernando Pessoa/Bernardo Soares, O Livro do Desassossego