domingo, 14 de junho de 2009

O Naufrágio do «Titanic» num avião

E se a queda do avião no Atlântico fosse o naufrágio do Titanic da nossa civilização? A última sobrevivente do Titanic morreu nesse mesmo dia, a 1 de Junho, salva de um naufrágio por excesso de velocidade. Quando foi salva era um bebé. E, nas 228 pessoas que morreram agora, ia um único bebé. O acidente ocorreu no dia 1-6 de 2009, em que os algarismos somados dão todos 9, no voo 447, que somado dá 6, num modelo A-330, que dá soma 6, sendo que a soma dos passageiros dá três. Temos, portanto, um nove, ou seis invertido, ao lado de dois seis quando se precipita um conjunto de inocentes que é três, o número de Deus. O número da besta, cabriolando, ao lado do número de Deus. Bom! Tudo isto podem ser lucubrações de uma mente que não gosta de andar de avião, «o meio de transporte mais seguro do Mundo», como a Energia atómica é a «mais segura» ou a Democracia «o menos mau dos regimes» mas o que se sabe do acidente é que ele foi fundamentalmente devido às insuficiências da técnica face a uma Natureza que temos sistematicamente ferido e provocado com a nossa ganância. A Primeira Guerra Mundial rebentou três anos depois do Titanic e os EUA entraram na Guerra depois dos alemães lhe afundarem o navio de passageiros «Lusitânia». O que estava em causa era fazer do Atlântico uma mar pacífico de comércio, unificar o hemisfério Norte e, por isso, os EUA entraram na Guerra. Por outro lado, se a Primeira Guerra foi também precedida de orgias dos sentidos, a Segunda Guerra Mundial foi precedida de movimentos de massas, de eleições, de partidos e Frentes que levaram os Bolcheviques, mas também Hitler e Mussolini ao poder. As eleições como forma de legitimação nem sequer eram utilizadas pela pequena democracia elitista de Atenas, que decidia as coisas muitas vezes ao acaso entre iguais, os quais se substituíam no comando e era isso o que queria dizer «sufrágio», ou seja uma pedrinha com uma marca pessoal que se metia num chapéu e se tirava à sorte. É claro que Ahmedinejad venceu, por muito que os jovens modernos de Teerão não queiram. O outro candidato tinha histórias de pouca seriedade e quem vota no Irão, desde que Khomeini implementou o sufrágio universal, são milhões de pessoas rurais e muito pobres que sofreram a pior guerra regional do Séc.XX, imposta por um Iraque armado pelo Ocidente. E Chávez vencerá e Evo Morales também! A Democracia realmente tornou-se universal e as pessoas ressentidas, sedentas de vingança querem o poder da maioria. Nós não imaginamos ainda o mal que os neo-conservadores norte-americanos, com o seu elitismo judaico, aliados à Esquerda bem alimentada na Europa, fizeram ao equilíbrio da Humanidade. Manifestando a mais completa Loucura ou uma dissimulação criminosa, deixaram-nos a ideia de que a Guerra é justa quando se destina a implementar os Direitos Humanos. Ora não há Direitos quando dispersamos os nosso deveres de ajudar, na Bolsa e em carros caros, ou desperdiçamos o nosso tempo em jogos de computador e shows de Televisão. Será que a parte obstinada e macabra da Loucura humana nos está a preparar uma Guerra? Há 2.500 anos, Sun Tzu, general, dizia:« A Guerra é o assunto mais grave do Estado. É assunto de vida e de morte». Repito: o assunto mais importante de um Estado não é a Liberdade. É a Vida e a Morte.

André

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Jazz nas alturas

A edição deste ano do Festival de Jazz promovido pelo TMG começou este dia 9. E da melhor maneira, note-se. Um espectáculo com uma formação simples: Stephen Gauci no saxofone e Michael Bisio no contrabaixo. Uma sonoridade minimalista e tributária do free jazz. A mostra prossegue na sexta-feira, com a apresentação dos Biel Ballester Trio, associados ao gipsy jazz. A minha expectativa em relação a estes espanhóis é moderada, pois cultivam um género criativamente esgotado. Por sua vez, no sábado irá subir ao palco do Grande Auditório o cabeça de cartaz do Festival: o trompetista Jeremy Pelt com o seu quinteto.
Uma vez mais realço que, na Guarda, é impossível ouvir jazz, mesmo que circunstancialmente, em estabelecimentos abertos ao público. Existem resmas de bares nocturnos a passarem diariamente o mesmo techno de feira e as mesmas playlists de supermercado. As excepções só confirmam a regra. Uma razão mais para rejubilar com este Festival. Consultar aqui toda a informação.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A Democracia como um furto

A expressão é um factor de vida e de alívio. Em circunstâncias de medo ou de destruição da personalidade, a expressão é diminuída ao mínimo e adiada para um momento obscuro. Uma olhada pelas banquetas do mercado e há frutos de todo o lado, com as suas virtudes medicinais embora a velha medicina chinesa nos aconselhe a comer o que dá o lugar onde estamos e na época do ano que passa. Uma olhada por um resumo de notícias e convivem em fracções de segundo cadáveres de um acidente, com euforias eleitorais, com notícias financeiras e transferências de jogadores. Uma olhada pela política e é a mesma coisa: convivem as coisas todas num momento presente. Como noutros tempos aconteceu com outras palavras, a palavra «Democracia» serve para franquear estas formas de expressão todas. Um dia, quando examinarem os restos arqueológicos da Democracia, como hoje fazemos com a democracia ateniense, veremos todas as monstruosidades que a palavra branqueava. E será sem surpresas, porque tudo o que é antigo, é muitas vezes arcaico e rude. Está visto que a Democracia comporta um excesso de expressão, em que a ideologia da competição constante lá faz o seu caminho, gerando também uma certa composição. Nesta opressão dos sentidos é claro que é difícil convencer uma pessoa eufórica de que poderá, a seguir, cair na mais profunda das depressões. O espantoso destas eleições é que, quanto mais pequena participação tiverem, mais euforia geram pois quem não votou não tem expressão, e sobretudo no rescaldo das eleições. No fundo, as eleições geram um momento de competição para empregos interessantes e bem pagos, e tal ocupa tanto a nossa mente como um bom show de televisão ou um concurso. Sabemos que as situações mais deprimidas economicamente florescem em jogos e casinos. Portanto, as eleições e a Democracia-ladra poderão continuar por muito tempo, como o banditismo ou a pirataria. Mas o que é que me leva a chamar «ladra» à Democracia? A Democracia rouba as nossas esferas privadas e põe-nas à votação, põe-nas no mercado e na Bolsa. Quem não trabalha, não está. Em vez do movimento de rotação e de translação da terra, a Democracia quer gerar a sua própria cosmogonia, os seus solstícios e equinócios, o seu próprio calendário. Um dia se compreenderá que um Ditador como Saddam Hussein também tinha os seus direitos, como o de partir para o exílio. Que um Tirano é também culpa de um Povo, de uma História vivida conscientemente. Que, muitas vezes não é apenas um que oprime, mas muitos, ou que a opressão de um nasceu como reacção à opressão de muitos. Um dia se compreenderá que o verdadeiro significado de Liberdade permitirá o convívio e a tolerância de formas de existência política que se não medem, nem podem medir, pela mesma malha, onde o caduco e o sonhador, enterrarão a escravatura. Um dia compreenderemos que alguns fascistas que pereceram heroicamente e alguns anarquistas que caíram do mesmo modo, apesar de inimigos, contribuíram com a sua derrota muito mais para a nossa Paz do que pensamos. Compreenderemos porque é que milhões de pessoas abandonadas pelo desleixo de uns ou exploradas pela arrogância de outros, pegam em armas em nome de Deus e preferem morrer em pé do que viver de joelhos. E a virtude desta crise horrível, desta época de perseguição é a de nos obrigar, como Humanidade, a gerar forças espirituais, para construir um Mundo em que o Rei antigo destituído, ou um Príncipe assassinado, ou ainda o selvagem incapaz de vender o seu bosque ou o seu bairro sem pegar em armas, possam todos coexistir. Porque a Vida são as forças todas que resistem à Morte mesmo aquelas que se não expressam.

André

terça-feira, 9 de junho de 2009

O tiro pela culatra


No rescaldo das eleições europeias, algumas leituras se podem desde já avançar:

1º Em todos os países governados por partidos socialistas/sociais-democratas, estes foram severamente castigados nas urnas (Espanha, Reino Unido, Holanda). Ao contrário daqueles onde forças políticas da área conservadora/liberal estão no poder. Portugal não foi assim excepção, no contexto da UE, onde a crise pesa a todos. O que significa que, embora a nova/velha cartilha da esquerda "histórica" tenha fustigado vigorosamente as forças "tenebrosas" do capitalismo e diabolizado os "neoliberais" como os novos dráculas - numa espécie de anti-semitismo não declarado, com bodes expiatórios e tudo - o eleitorado, que é quem decide, acabou por desmentir tais profecias agoirentas. Ou seja, a esquerda está a precisar urgentemente de rumo, de competência e de estratégia.
2º O rumo seguido por Manuela Ferreira Leite deu os seus frutos, numa altura em que as pessoas estão um bocado saturadas da política-espectáculo e de novo-riquismo tecnológico. Apesar do situacionismo na comunicação social e do clima de asfixia e atordoamento promovido pelas agências de comunicação ao serviço do governo. A propósito, registe-se o completo despropósito da SIC, durante a noite eleitoral, ao ter difundido um "estudo" da Eurosondagem, efectuado quatro dias antes, onde o PS aparecia como ganhador, no caso de as eleições serem legislativas. Bem fez António Barreto, ao não considerar a "sondagem" como motivo sério de debate.
3º A escolha de Vital Moreira como cabeça de lista revelou-se desastrosa para o PS, devendo os seus dirigentes retirar as respectivas conclusões.
4º Com menos de um milhão de votos, o PS obteve o seu pior score eleitoral de sempre.
5º Registaram-se cerca de 165 000 votos em branco, representando 4,64% dos sufrágios expressos. Ou seja, a sexta força política. Foram eleitores que não ficaram em casa, não foram à praia, não se demitiram, não se alhearam, nem sequer fizeram como o Georges Brassens, quando cantava que gostava de ficar na cama especialmente no feriado nacional. Quiseram expressar a sua descrença de forma lapidar. Não deixaram de, com toda a clareza, afirmar que não querem nenhum prato do ménu. "Deste" ménu partidário, entenda-se. Ao fim ao cabo, foi este o verdadeiro voto de protesto. Para o qual os políticos - com excepção de venerandas figuras como Almeida Santos e Ana Gomes, que já nada aprenderão - deveriam prestar a máxima atenção.
6º O crescimento do BE, devido sobretudo a razões circunstanciais e de oportunismo político. O que coloca algumas perplexidades quanto à futura governabilidade do país e ao número de deputados freaks no PE. Numa altura que a estratégia do padre Louçã irá ser a da "respeitabilidade" e da seriedade, acompanhando a condição de putativos comparsas do PS...
7º Embora Sócrates diga que não, mais parecendo que tudo isto não passou de um brainstormig destinado à reafirmação da "luta", o primeiro ministro está cada vez mais a prazo. E na corrida que aí vem, o tempo tornou-se para si um bem precioso. Não é a liderança partidária que saiu enfraquecida, mas a margem de manobra do seu Governo. Cuja legitimidade não se põe, naturalmente, em causa, mesmo com este voto de censura do eleitorado. Todavia, nada será como dantes.
8º A derrota clamorosa das empresas de sondagens perante a verdadeira sondagem: a ida ás urnas. Patético.

sábado, 6 de junho de 2009

Pó e botas velhas

Chang Kwai Caine deu-me a ideia, quando era mais novo, que, na violência da vida, há formas não violentas de resolver uma existência cheia de angústias. Mas a não-violência não é um impulso, uma coisa fácil, ou um entusiasmo. Implica esforço, renúncia, muita ajuda de fora de nós e de fora do nosso Pensamento. Assim, lembro-me de duas cenas do filme «Kung Fu», com o qual a personalidade de David Carradine se confundiu: uma em que ensina os pacifistas Mormon, que renunciaram a pegar em qualquer tipo de armas, a tirarem as armas aos agressores e outra em que, sentindo um desejo de carinho e companhia de uma mulher casada e sozinha, esse homem solitário e perseguido que Carradine representava, passando uma noite de insónia num estábulo, renuncia humildemente e conforma-se com o seu longo caminho de peregrino, despedindo-se na manhã seguinte, dessa mulher, com um gesto de paz, em que ambos sabem que têm de renunciar, deixando, ainda assim, mais um gesto de paz entre dois seres que são a Humanidade inteira. E lembro-me neste mundo do espectáculo e da expressão, em que nos esquecemos tantas vezes que as palavras se movem e ondulam como o nosso corpo, do sorriso sempre bonito de Cat Stevens, agora no rosto do velho Yussuf Islam, algures num disco que editou e onde repete muitas vezes «dust and boots, boots and dust».
E quando ouço alguém arriscar tanto numa Universidade do Cairo, vejo os limites das palavras. Todos as vêem mas, entre elas, como umas pedras do chão, algumas hão-de servir para construir uma barreirita contra o vento, ou para fazer um fogo na noite fria e não apenas para atirar à cabeça duma pobre somali, que, uma vez tendo sido violada por homens armados quando ia visitar a mãe, se queixou à polícia e foi acusada de adultério. E hão-de servir, para perceber que não somos todos iguais e que o nosso tempo nesta terra é como o trajecto de uma avião que não teve sorte, e que nem todos gostam de andar nus e talvez se sintam melhor com um lenço na cabeça que escolheram de uma longa tradição em que confiaram. É que a liberdade não me pode ser imposta, como uma não-violência violenta, que cada um tem o seu tempo e o seu caminho e que, como posso ser livre, se não confio naquilo que escolho e faço meu? E sei também que os que tentam conciliar interpretações de Deus tão diferentes, dum mesmo Deus que serve de desculpa para tantos entusiasmos violentos, se arrisca, com o seu bom coração, a tê-lo atravessado por uma bala, sem que nada tivesse mudado entretanto e o amor egoísta da multidão o esqueça depressa, trocando-o por um outro amor qualquer, em permanente excitação. Pelo que, depressa aquele que esteve no topo, entre palmas e foguetes, uma noite escura ficará sozinho e pedirá a Deus «Pai, afasta de mim este cálice… Mas se é essa a Tua vontade…». E, então, o avião Airbus, apesar da sua perfeição técnica, não se conseguirá mais levantar. Na noite escura, tão escura «qui nem é bom fálá», o meu coração duvida de Deus e o meu coração junta-se àqueles que, não crendo em Deus, são tocados pela loucura e pelo desespero, sendo guiados por um grito mudo ao Céu. Algures numa paisagem cheia de poeira onde «Kung fu» Caine volta a partir sozinho e perplexo, olho as minhas botas caminhando pelo pó. Yussuf Islam, Cat Stevens…reza por mim esta noite.

André

Stalker

sexta-feira, 5 de junho de 2009

A carne é fraca

Como é habitual às sextas-feiras, hoje fui almoçar a um local, em Celorico da Beira, que funciona em regime de cantina. E onde só há, invariavelmente, dois pratos: carne e peixe. O sítio á agradável, come-se bem, é rápido e é económico. Pois bem, hoje a ementa era bitoque e carapau assado. Evidentemente que optei por dois sólidos espécimes do Trachurus trachurus, com molho à espanhola, umas batatinhas cozinhas und ein grosse grosse Salat. Quando me sentei, olhei em redor. Pois acreditem que, em toda a sala, era o único que tinha optado pelos carapaus! Tudo o resto era vê-los a deglutir o seu taralhoque com ovo e batatas fritas. Às tantas, já havia mesmo olhares suspeitos na minha direcção. O vinho (branco) tanbém não ajudava nada! Razões mais do que suficientes para me sentir um autêntico ET em horário de almoço. Até me apeteceu começar a fazer sinais esquisitos e emitir onomatopeias do outro mundo. Qual país de marinheiros, qual quê!? E o MEC a escrever livros sobre "a arte de bem cozinhar peixe em toda a banca"! Para quem, pá? Havias de estar hoje comigo a apreciar o panorama. Qual cozinha saudável e mediterrânica!!! Tretas para turistas!!! Qual nação de intrépidos nadegadores e bacalhoeiros!!! Dêem-nos mas é o bitoque e deixem-se de fantasias trendy!!!