quinta-feira, 7 de maio de 2009

Post it

Viver é mais fácil do que parece:
Basta sorrir de cor,
Sem sangrar,
Acreditar solarmente no amanhã –mesmo que o advérbio e o dia não existam,
E em Deus nosso senhor que nos protege a todos,
Mesmo que também - triunfalmente - não exista.
Basta não acordar o vento
Ou soltar a memória
(Que é o mesmo).
Basta ser sensato,comedido,
E saber que a dor se grita em voz baixa
Ou se abafa na alegria morna dos dias.

A.M. in "A Imitação dos Dias"

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O passeio

Hoje transferi a caminhada aeróbica quase/diária para a cidade, em vez do parque de Rio Diz. Momento perfeito para reactivar memórias, recolher impressões digitais de um tempo que acabou. O tempo em que a Guarda tinha "rua", tinha uma "proximidade" aconchegante, tinha uma convivialidade natural, espontânea, tinha cafés carismáticos, inspiradores, tinha tertúlias acaloradas, uma irreverência imprescindível, um pulsar colectivo que se sentia, uma leveza que fazia esquecer a solidez e a asfixia do granito. Hoje, infelizmente, a cidade não tem "rua". Funciona como um centro de dia, animada pelos serviços e algum comércio. E nem mesmo os arranjos no "mobiliário" urbano conseguem disfarçar uma urbanidade degradada, bisonha. Seria de esperar que, numa cálida noite de Primavera, se vissem pessoas na rua, disponíveis, com tempo. Que houvesse um "cheirinho" de civitas no ar. Mas não! Nos cafés, todos com os olhos pregados na TV. Imagino que assistindo a mais uma transmissão de futebol. Nas artérias principais, três pessoas a falar ao telemóvel, dois casais com ar de forasteiros e um polícia a torcer o bigode. And that's all, folks. Duas notas finais. Dei conta da existência de uma lavandaria self service, uma novidade absoluta... Por outro lado, na Praça Velha, deparei com várias filas de estudantes do IPG, munidos de um papel. Pareciam as filas para o check in no aeroporto de Lutton, em Londres. Ou uma flash mob de circunstância. Todavia, imaginei que não passasse de mais uma praxe ou coisa que o valha. Segui caminho, para não me desapontar...

Nós, os fundadores...

"Se vivêssemos no tempo do fascismo, eram uma boa carta de de recomendação para integrar os quadros da PIDE". Palavras do líder parlamentar do PCP, Bernardino Soares, respondendo ao deputado socialista Mota Soares. Foi durante o debate sobre as agressões dirigidas a Vital Moreira na manif do 1º de Maio, após aquele ter acusado os comunistas de terem "uma história sobre a calúnia, como têm todos os partidos comunistas do Bloco de Leste" e compreender o «nervosismo» do PCP por ter sido ultrapassado pelo Bloco de Esquerda nas intenções de voto. Bernardino teve depois o seu "momento chavez", digno de figurar na história recente do parlamentarismo em Portugal. Foi quando, depois de negar que o seu partido seja "um bando de arruaceiros", reclama-o, imaginem, como "um PARTIDO FUNDADOR DA DEMOCRACIA"!!! Leram bem, foi mesmo isso que ele disse!!! Então e a multidão ululante, pastoreada por capangas do aparelho e formada por lumpen arregimentado que, durante o "Verão Quente", queria invadir a Assembleia da República e paralisar os trabalhos da Assembleia Constituinte, sob os gritos "abaixo as instituições burguesas", "as eleições são uma farsa" , "viva a ditadura do proletariado" e outras palavras de ordem com o apropriado air du temps? Durante um ano e meio, os portugueses puderam apreciar quanto baste as "virtudes democráticas" desta força obscura, sectária, irresponsável, cada vez mais reduzida a um grupo de fanáticos e desequilibrados.

Stalker

Caminhos

Estou realmente impressionado com a quantidade de peregrinos de Fátima que tenho visto ao longo da EN 17, conhecida como a "estrada da Beira", entre Celorico e Seia. Felizmente que a regra do colete reflector já se generalizou, para segurança de todos. Embora, por vezes, grandes grupos tendam a afunilar a faixa livre para a circulação automóvel. Já estou preparado para que, nestes dias, a situação se mantenha. O episódio recordou-me que, este ano, pelo Verão, talvez em Setembro, vou repetir uma caminhada gloriosa até Santiago de Compostela. Desta feita, em vez de seguir o "caminho português", menos utilizado, a partir de Tuy, seguirei pelo "caminho real francês", mais conhecido e, do ponto de vista patrimonial, mais interessante. E em vez de 100 serão 300 Km! O ponto de partida será em Léon, oportunidade para visitar o novíssimo MUSAC, Museu de Arte Contemporânea de Castilla Y Léon e a fabulosa Igreja românica da Colegiada de Santo Isidoro.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Pour Finkielkraut, internet est une poubelle

Finkielkraut, Alain, é um conhecido filósofo francês. Polémico quanto baste nas suas obras e nas crónicas radiofónicas que mantém na France Culture, intituladas "Répliques". Recordo-me de me ter entusiamado sem moderação por uma obra de que é co-autor, com Pascal Bruckner: "A Nova Desordem Amorosa", (Bertrand, 1981). Recentemente, foi convidado a participar num debate promovido pelo "Arrêt sur images". Trata-se de um canal televisivo temático, cujo site funciona também como um agregador de conteúdos com especial incidência nos media e na web. Nesse programa, respondendo a Guy Birembaum, insurge-se contra a internet, considerando-a um "local de anarquia, pronto a contaminar os media tradicionais mais civilizados". Claro que o autor de "A Derrota do Pensamento" deve saber do que fala. É pena que nunca lhe tenha passado pela cabeça inverter o fluxo contaminador, pois é esse sentido de circulação que realmente devia preocupar a comunidade internauta e não só. Certo é que, Alain dixit, o lugar da world wide web é a mentureira (em bom vernáculo luso). Então que viva a mentureira e que vivam os respigadores e os alquimistas, que por lá praticam uma estranha ecologia global e democrática!...

Film Ist


Este ano, no que diz respeito ao Festival Indie Lisboa, só houve tempo para ver "Film Ist. a girl and a gun", de Gustav Deutsch. Trata-se de um registo singular, a que chamaria, à falta de melhor, uma instalação cinematográfica. Uma narrativa a que o autor preferiu chamar "drama musical". Mas que, pela intensidade e vertigem das sequências, mais parece uma operação mediúnica de reinvenção do mundo, através das imagens. O filme integra a série Film Ist, projecto a que o realizador tem dado seguimento desde 1997. Neste caso, reuniu uma quantidade impressionante de registos visuais de arquivo, nem sempre com origem no cinema, todavia confinados às quatro primeiras décadas do século XX. Os textos utilizados, de autores clássicos gregos, no caso Platão (com "O Banquete"), Safo e Hesíodo, iluminam as cinco partes em que se divide a obra. Que constitui uma operação visual deveras impressiva, onde o artifício não se nota e a força genesíaca do cinema, refeito a partir do seu vigor inicial, se mostra em toda a sua plenitude.

Nota: À semelhança de outros anos, o Festival vai ter oito extensões em várias localidades do país. Este ano serão oito. Só é pena que o TMG não se tenha associado à iniciativa.