Olhar para um texto literário e insepultar a memória. Que programa, ma che cosa!!! Que fatalidade a minha, a da literatura... Percebi isso na homenagem a que hoje assisti ao escritor e jornalista Manuel António Pina, no Sabugal. Bem hajam.
sábado, 4 de abril de 2009
Aqui há livros!
sexta-feira, 3 de abril de 2009
A nova ANP

A réstia de simpatia política que (ainda) tinha por Sócrates desvaneceu-se após o último Congresso norte-coreano dos socialistas. Desde o pós-25 de Abril que não me lembro de ver um primeiro-ministro ameaçando jornalistas em directo, numa tribuna pública. O que revela que Sócrates e a sua nomenklatura se dão muito mal com a liberdade de imprensa, com a independência do poder judicial, e com os famosos checks and balance, a arquitectura fundamental da democracia. A teia tenebrosa que, sob o manto do PS, se constituiu no mundo da Justiça, só agora começou a mostrar do que é capaz. Vejam-se as pressões sobre os magistrados que investigam. Veja-se o percurso do alegado autor dessas pressões, presidente do Eurojust. O tal que fez carreira política no interior do PS, com ligações à inacreditável Fátima Felgueiras, personagem particularmente sinistra, que reúne tudo o que de pior a democracia deu à luz. E cujos cordelinhos bastaram para que alguns artigos da reforma do processo penal fossem redigidos à la carte, claramente para lhe facilitar a vida. Sempre pensei que este assunto do licenciamento do Freeport traria à tona não a eventual responsabilidade criminal dos envolvidos, mas o cheiro nauseabundo da corja, atrás dos bastidores. A qual, vendo-se ameaçada, começou a sair das suas tocas, das suas sinecuras, dos seus limbos de impunidade. Sobre possíveis práticas ilícitas há indícios mais do que suficientes, neste episódio, que justificam uma investigação séria dos factos. Mas há outra coisa que não tem sido muito falada: Sócrates era na altura Ministro do Ambiente. Portanto, do ponto de vista político, o responsável directo pela condução do processo. Alguém lhe apontou responsabilidades a esse nível? Todavia, voltando à magna questão da mexicanização da vida pública nacional, se dúvidas houvessem acerca deste cerco à liberdade de expressão e às garantias de pluralismo e independência da comunicação social, para mim acabaram em definitivo. Um exemplo: por via do Pedro Correia, fiquei a saber que Sócrates acaba de processar João Miguel Tavares, jornalista do DN. Motivo: um artigo de opinião da sua autoria, intitulado justamente "José Sócrates, o cristo da política portuguesa". E que começa da melhor maneira: "Ver José Sócrates apelar à moral na política é tão convincente quanto a defesa da monogamia por parte de Cicciolina." Ou, acabando com um non sequitur, por parte de um mórmon, acrescentaria.
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quinta-feira, 2 de abril de 2009
O fim da poesia?
Nunca percebi porque, para atribuirmos outra respeitabilidade a um escritor, dele dizemos que tem uma visão poética da realidade, do mundo. Ou que a sua prosa não é meramente prosa, mas sobretudo prosa poética. Acaso Paul Celan, poeta, "viu" mais do que Franz Kafka, romancista? Sylvia Plath, Anna Akhmatova, poetisas, alcançaram uma visão superior, uma visão poética que escapou, por exemplo, a Virgínia Woolf, ou Clarice Linspectos, novelistas? E que dizer de Henry James, Robert Walser, Proust, Mann, Joyce, ou Musil? Será que ficaram aquém da mítica e sublime visão poética dos vates da sua época, muitos dos quais nem sequer conhecemos o nome? O mesmo poderíamos dizer dos romancistas russos.
Stendhal, Pound, e sobretudo T.S. Eliot, já tinham intuído que, a partir do século XIX, seria a linguagem da prosa, e não a da poesia, aquilo que assinalaria o caminho da nova visão. Isto é, a visão "em prosa" da realidade haveria de deixar para trás,porque pertencente a outro tempo, a sagrada "visão poética". Pound chegou mesmo a fixar uma data para essa conversão: o nascimento de Stendhal. Dante, poeta, e Shakespeare, dramaturgo em verso e poeta, "vêem" o que nunca poderá ver Cervantes, narrador e mau poeta (segundo alguns)? Acaso Faulkner, como narrador, "vê" menos que Dylan Thomas como poeta? Nesta arrumação, onde cabe Blake? Em suma, de onde provem essa alegada superioridade da “visão poética” sobre a “visão” narrada em prosa? Já agora, recordemos também as “visões em prosa” dos “videntes clássicos”, sempre modernos: Baudelaire, Rimbaud e Lautréamont, três criadores que também “viram” em prosa, sobretudo os dois últimos.
A “visão poética” morreu, devido à inanidade da própria poesia, dos seus poetas, incapazes já de enfrentar a complexa realidade do século XXI, que requer quiçá uma linguagem cuja construção seja mais universal, mais aberta, mais disposta a assumir todas e cada uma das novas técnicas, das novas tecnologias, que são também instrumentos de linguagem? Acabou a “visão poética”, em beneficio da "visão em prosa"? Mas quais as causas? Por esgotamento do discurso poético, mais cerrado, carregado de "códigos" antigos, de metáforas gastas, vazías, que já nada significam, uma vez que o seu significado natural, puro, a sua essência, pertence a um mundo antigo, caduco, a uma cultura cujos referentes místico-poético-literários são próprios de outro tempo e de outra linguagem, que já não correspondem às necessidades espirituais e verbais do século XXI?
Eis o dilema aqui proposto: será que a presumível vitalidade da "visão" literária em prosa, diante de uma provavelmente esgotada "visão poética", acabará por a relegar para o limbo do tempo.
Stendhal, Pound, e sobretudo T.S. Eliot, já tinham intuído que, a partir do século XIX, seria a linguagem da prosa, e não a da poesia, aquilo que assinalaria o caminho da nova visão. Isto é, a visão "em prosa" da realidade haveria de deixar para trás,porque pertencente a outro tempo, a sagrada "visão poética". Pound chegou mesmo a fixar uma data para essa conversão: o nascimento de Stendhal. Dante, poeta, e Shakespeare, dramaturgo em verso e poeta, "vêem" o que nunca poderá ver Cervantes, narrador e mau poeta (segundo alguns)? Acaso Faulkner, como narrador, "vê" menos que Dylan Thomas como poeta? Nesta arrumação, onde cabe Blake? Em suma, de onde provem essa alegada superioridade da “visão poética” sobre a “visão” narrada em prosa? Já agora, recordemos também as “visões em prosa” dos “videntes clássicos”, sempre modernos: Baudelaire, Rimbaud e Lautréamont, três criadores que também “viram” em prosa, sobretudo os dois últimos.
A “visão poética” morreu, devido à inanidade da própria poesia, dos seus poetas, incapazes já de enfrentar a complexa realidade do século XXI, que requer quiçá uma linguagem cuja construção seja mais universal, mais aberta, mais disposta a assumir todas e cada uma das novas técnicas, das novas tecnologias, que são também instrumentos de linguagem? Acabou a “visão poética”, em beneficio da "visão em prosa"? Mas quais as causas? Por esgotamento do discurso poético, mais cerrado, carregado de "códigos" antigos, de metáforas gastas, vazías, que já nada significam, uma vez que o seu significado natural, puro, a sua essência, pertence a um mundo antigo, caduco, a uma cultura cujos referentes místico-poético-literários são próprios de outro tempo e de outra linguagem, que já não correspondem às necessidades espirituais e verbais do século XXI?
Eis o dilema aqui proposto: será que a presumível vitalidade da "visão" literária em prosa, diante de uma provavelmente esgotada "visão poética", acabará por a relegar para o limbo do tempo.
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quarta-feira, 1 de abril de 2009
Debaixo do vulcão

E pronto. "Another man's vine". A última biografia "autorizada" do "west coast cowboy" anda por aí. O lançamento em Portugal está previsto para Maio. O autor, Barney Hoskins, tem credenciais firmadas. Fez também parte do juri do último "Fantasporto". O resto vão ver à Wikipédia, pois ainda tenho uma garrafa de "Famous Grouse" para acabar. Já agora, uma das histórias contadas no livro, relatada por quem já teve acesso, é particularmente deliciosa. A páginas tantas,Tom Waits confidencia que em Tijuana havia uma prostituta chamada Fátima. Ups! Pois a moça cobrava um porte adicional aos clientes. Veio-se a saber (isto é, a mulher da limpeza disse á prima do coçador de tomates que frequentava a esquina do cenário de "A sede do Mal", de Wells, um must cinematográfico para os séculos vindouros, que por sua vez avisou o "jefe" de la policia, coçador de bigode e de tequilla, que por sua vez avisou o corpulento "xerife" coçador do seu "colt", um Peter Lorre um pouco mais gordo, que teria avisado a gringa libalinha lá do sítio, dona das meninas, que por nada deste mundo se parecia com a Marlene, era só coincidência, que depois de duas garrafas de mezcal contou finalmente ao biografado) que o suplemento facturado (lembram-se?) se destinava a financiar uma peregrinação a...adivinhem...isso, a Fátima. Só espero que a moça tenha conseguido alcançar o sacro local. Vai uma aposta? Ou tudo não terá passado de uma imaculada decepção?
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