domingo, 25 de janeiro de 2009

Tábua de marés (23)

“Fay Grim” (2006)

Argumento e realização: Hal Hartley

Duração: 118 m

Apresentação: Cineclube da Guarda

Pequeno Auditório do TMG, 14 de Janeiro

Desde que assisti a “Uma Questão de Confiança” (1990), a segunda longa-metragem de Hartley, percebi que estava na presença de um dos realizadores mais interessantes do cinema independente americano. O filme em análise é basicamente uma comédia de acasos, no tom desconcertante a que o autor habituou o seu público. Desta vez alcança um pendor político, satirizando os filmes de espionagem. Neste sentido, observa uma regra de ouro do género, isto é, deve-se dar importância a tudo, porque tudo pode e deve ser decifrado. A obra constitui a continuação de uma comédia anterior, “As Confissões de Henry Fool” (1997), que consagrou o autor no panorama do cinema alternativo. Porém, inicia uma história independente que apenas faz alusão ao passado das personagens no anterior filme. Em Fay Grim, Hartley é também autor do argumento e da banda sonora – omnipresente ao longo do filme, de tal forma que parece ser mais um personagem. Em relação à linguagem, permanece como uma espécie de neo-godardiano, sobretudo nos diálogos. E utiliza, de forma quase exclusiva, as tomadas pelo chamado ângulo oblíquo, que dá uma maior amplitude à fotografia. Observem-se, por exemplo, as cenas de aeroporto e a da saída das personagens do Ministério do Interior, em Paris. Mas é também aqui que o estilo de Hartley se revela inconfundível: uma história entrelaçada com várias outras, personagens nervosas e que falam muito rapidamente, muita coisa a acontecer em simultâneo. Com a utilização de um humor muito inteligente e um constante tom irónico, o filme troça dos filmes de espionagem e conspiração internacional a que estamos habituados no cinema americano, num ritmo da realização estonteante. Peca pela sua duração (quase 2 horas), porque muito do que foi dito e feito podia ter sido tratado em menos tempo. A história é a de Fay Grim (Parker Posey), mãe solteira, de Queens, Nova York. Preocupada com a educação do filho, Ned Grim (Liam Aiken), de 14 anos, Fay acredita que o desaparecimento do pai, Henry Fool (Thomas Jay Ryan), após ter cometido um assassínio, pode influenciar o filho no sentido da marginalidade. No seu lugar quer ver o seu irmão, Simon Grim (James Urbanak), poeta prestigiado. Só que este encontra-se a cumprir pena, por haver auxiliado a fuga de Fool. Ned, por sua vez, acaba de ser expulso da escola, por ter mostrado aos colegas um brinquedo (do tipo caleidoscópio), com imagens pornográficas. Ao voltar a casa, Fay é interpelada por dois agentes da CIA, que a aguardavam. Um deles, Fulbright, diz que os cadernos manuscritos deixados por Fool, em poder do governo francês, continham segredos de Estado codificados, que lhe pedem para resgatar. Fay concorda, desde que a CIA liberte o seu irmão, para cuidar do filho. Ao ser solto, porém, Simon verifica que, por trás das figuras mostradas no brinquedo de Ned, havia uma inscrição, num idioma desconhecido. E começa aqui a saga, com encontros e enigmas apropriados ao género. À medida que a trama se desenrola, Fay avança em busca dos tais cadernos, mas compreende que jamais soubera nada sobre a vida que levava Henry Fool. Por sua vez o espectador percebe aos poucos que o perfil que se vai desenhando deste, pelos extraordinários comentários que se ouvem dele, cada vez mais o aproximam, em semelhança de atitude, de Robert Baert, ex-agente da CIA, protagonista de “Syriana”, de Stephen Gaghen, um dos melhores filmes políticos americanos mais recentes. Os actores são quase todos “reincidentes” de outras películas de Hartley. E apresentam, no conjunto, um trabalho primoroso de interpretação, com destaque, naturalmente, para Parker Posey.

Publicado no jornal "O Interior", em 22 de Janeiro

Ver anterior

Momentos Zen - 53

No instante em que nos iluminamos por dentro, atravessamos o vazio de um mundo que nos enfrenta

Ver anterior

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Violência doméstica

O caso passou-se em Ponta Delgada. Um "valentino" rejeitado pela namorada resolveu ir a casa dela. "A arrastar a asa?", perguntarão vocês. Desiludam-se. O inconsolável foi ter com ela, isso é certo. Mas para lhe ministrar umas valentes marteladas. Após o que a deixou em estado tal que senhora veio a falecer. Entretanto, o nosso herói dirigiu-se a casa da ex, munido de um garrafão com gasolina e, como é natural, umas acendalhas. Depois, tá-se mesmo a ver. Pega fogo à casa e pira-se para bem longe. É de supor que o pirómano de ocasião estivesse sob a influência de uma conhecida sequência de "A Lei do Desejo", do 1º Almodovar. Adiante. O julgamento decorreu na passada semana. E soube-se agora a pena decretada na sentença: 4 anos e meio de prisão efectiva! Pois bem, o Tribunal de Ponta delgada considerou, no acordão, que o valentão demonstrou um "sério arrependimento". Leram bem? E perante tal contrição de circunstância, o colectivo de juízes deve ter sido possuído por um assomo lacrimejante. Esquecendo-se que não são pagos para ser magnânimos, mas para fazer Justiça. Perante isto, o Oliveira caladinho que nem um rato. Claro, andar a lamber o rabo aos radicais palestinianos é mais reconfortante...

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O cluster


Este novíssimo velho, nascido para a vida política por via de um longo e extenuante tirocínio da carne assada, num desses aviários de mediocridade que dão pelo nome de juventudes partidárias, tem funcionado recentemente, no PSD, como a reserva moral que busca a respeitabilidade, a réplica "xóven" de um acácio queiroziano que abrilhanta os salões e emudece os basbaques. Para Sócrates, este personagem que é oposição (dentro do PSD) mas afinal não é, que pisca o olho aos liberais, mas afinal gosta de grandes investimentos públicos, que está mas não está, que vai passeando a sua irrelevância intelectual pelos lustres e pelas ribaltas oferecidas pelo jornalismo "oficial", veio a revelar-se de uma enorme utilidade. No fundo, tiveram ambos o mesmo percurso: os anos de "formação" nas respectivas juventudes partidárias, a existência televisiva, umas golpadas aparelhísticas aqui e acolá, umas sinecuras nos entretantos. Com uma diferença: mesmo tendo frequentado a mesma escola e participado nas mesmas brincadeiras, Sócrates vem da pequena-burguesia da província; por sua vez, Coelho vem da burguesia da linha. Uma diferença considerável. Mas que não deixa de incentivar os cruzamentos, as confluências, as afinidades comuns, o gosto por soundbites vazios. O último, veio agora a saber-se, é apologista do TGV, mas defende a criação de um "cluster". Um "cluster"? A coisa aconteceu num jantar promovido pelo "Economist". Ver aqui a notícia. Embora diga que não, Coelho assume-se pois como contraditor qualificado da líder do PSD. Mesmo defendendo uma insanidade como a construção de um TGV num momento de recessão como o que vivemos.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A mochila e o chapéu do gajo

O dia 0


Gostei de ouvir o discurso de Obama, na sua tomada de posse. É curioso que, em relação ao seu projecto político, passei das muitas reticências para um entusiasmo moderado. O que me agradou no seu discurso foi a densidade, a divisão clara entre o que é ou não negociável, a visão clara das responsabilidades da América no xadrez mundial, o enfoque na crise financeira, a firmeza em relação aos inimigos da liberdade, a retoma dos princípios que fundaram o sistema político americano, mas pondo-os ao serviço da visão estratégica do novo presidente. Que soube hoje ser o intérprete, o visionário, o construtor e o garante do accountability do seu mandato.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

O malhor do mundo em descurço direto

Intrevista do Crestiano Reinaldo à RTP:

1. sabia de entre mão
2. é legitimidade pensarem
3. as drogas não é bom
4. eu até considero um condutor bom, na minha opinião
5. não é só eu
6. admiro muito eles
7. para quem saba bem do que estou a falar.

...and soi on and soi on (incluindo a sovaqueira húmida)