quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Ainda a massa ou a falta dela

Neste autêntico manifesto, Américo Rodrigues aponta um dos grandes males da Guarda: a ausência de massa crítica. Evidentemente, com outros nomes se poderia qualificar a mesma realidade: défice de cosmopolitismo, falta de visão projectiva, falta de ambição intelectual (sim, é preciso não ter medo dos nomes), paroquialismo, excesso de auto-complacência, provincianismo, ausência de debate de ideias e projectos, receio daqueles que sabem e sonham serem ignorados por aqueles que nem uma coisa nem outra, mas aparecem demasiado. Não é só uma questão de know how. Nem educacional. Nem social. É a cultura, meus amigos, sempre a cultura. Ela tem aqui um peso esmagador, sente-se o quanto ela pode ou não tornar-nos mais humanos, mais livres. Mas de pouco vale, se escassearem determinadas qualidades humanas que a façam brilhar, que lhe dêem uma razão de ser: a coragem, a elegância, a leveza, a velocidade, a exigência, o acesso a uma vitalidade que não cede perante a repressão. As cidades fortes são aquelas que acreditam em si próprias. Não de uma forma provinciana, ou apropriando-se de um passado e de símbolos que não são os seus, como já vi aqui bem perto. Depois há a questão das elites. Um termo que assusta muita gente, mas sem qualquer razão. Veja-se a História. A existência de uma élite sempre foi determinante para a sobrevivência e o desenvolvimento de comunidades, países, civilizações. A diferença entre uma oligarquia e uma élite é que a primeira exerce o poder em benefício próprio. As segundas encaram o poder como uma realidade inconspícua e pretendem criar valor de que todos possam usufruir. Embora não seja um fenómeno local, vejo algumas pessoas na Guarda manifestarem-se publicamente contra as elites. Como se pressentissem na sua existência uma ameaça, uma afronta, um rebaixamento. Sem nunca perceberem que é graças precisamente à acção cívica dessas elites que um dia todos poderão distinguir, premiar, incentivar os melhores, só porque são os melhores. Sem azedume, sem mais ou menos, porque todos lucrarão com isso. Nas sociedades onde a meritocracia está enraizada enquanto valor inquestionável, não há elites auto-proclamadas, mas reconhecidas enquanto tal pela comunidade. Pelo contrário, onde existe com abundância a falta de humildade e uma erudição de lapela, é quase certo que aí a tirania há-de prosperar.

A viagem

O corpo discente

Recebi hoje um email promocional que assim rezava:

O primeiro site pornográfico legal em Portugal com enorme volume de vídeo pornográfico e com raparigas patrióticas. Alunas portuguesas únicas no género. Diferentes tipos de pornografia. http://sexygirlschool.com *
Uma panóplia de interrogações e comentários, uns pertinentes, outros mais brejeiros, se poderiam já avançar. Vou-me ficar pela extraordinária visão de raparigas patrióticas, expondo as cristianíssimas carnes, usando uma tatuagem com as cores nacionais e trauteando o hino nacional a espaços. São alunas portuguesas, com certeza. E únicas. Já agora, por falar em temas escolares, imaginei logo a seguinte situação: duas "alunas" disputam um telemóvel numa sala de aula. Às tantas, a luta pelo bem escasso adquire contornos, digamos, mais envolventes. E o telemóvel ganha uma inesperada função, a juntar às 2771 que já possuía de origem. Para acalmar os ânimos, junta-se uma professora, fazendo valer os seus predicados patrióticos. Lá mais para a frente, entra em cena um contínuo, que não se faz rogado e tenta desempenhar, com a equidade possível, uma espécie de saudável função moderadora. Por sinal, o poder com o mesmo nome desapareceu, com o advento da República, na Constituição de 1911. Segundo muitos, um texto mesmo nada patriótico. Pois.

*calma, rapaziada, o link é fictício.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Ambrosivs


Onde pára o Ambrósio da publicidade aos bombons Ferrero Rocher??? Lembram-se? Eis uma questão que me tem atormentado ultimamente. Alguém sabe alguma coisa do paradeiro deste mestre da dissimulação? Se souberem, façam favor de avisar. No meio dos circunlóquios a que esta magna interrogação me obriga, várias hipóteses se materializaram entretanto no meu espírito:
1º foi finalmente viver com a patroa (nunca este termo se aplicou com tanta propriedade);
2º foi comprar tabaco, sendo depois visto a rondar uma escola secundária com uma caixa de bombons;
3º dedicou-se à pesca e usa meias brancas;
4º casou com a criada e corta as unhas à janela, enquanto olha para o decote da vizinha de baixo;
5º tornou-se assessor artístico da patroa e é frequentador de leilões;
6º explora um salão de jogos e tem umas "gaijas" a render.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Magalhães contado às criancinhas e lembrado ao povo

(via "Atlântico")

O golpe do baú


A cadeia identificada com o logotipo da imagem decidiu suprimir o desconto de 10% sobre o preço de capa dos livros que comercializa. A partir de agora, tal privilégio só é concedido aos detentores do cartão FNAC. A empresa justifica a medida, dizendo que a concorrência já adoptou esta oferta promocional, ainda que temporariamente, perdendo-se assim a vantagem competitiva do "benefício". O que está em causa, efectivamente, é uma decisão que, do ponto de vista da gestão comercial, era mais do que previsível: 1º arrasar o mercado, 2º depois de instalada e com uma quota confortável, acabar com as "prendas" e adoptar tiques de posição dominante. Agora, só os "do clube" terão acesso a esta e outras promoções que, não tarda, vão aparecer. Para fidelizar clientelas, consolidar parcerias com a instituição de crédito que gere o cartão e, eventualmente com agentes produtores de espectáculos e outras livrarias aderentes. Pela minha parte, já há algum tempo que o entusiasmo com a FNAC arrefeceu. Falando só dos livros, reparei que a reposição de stocks deixa muito a desejar, a diversidade de títulos é cada vez menor, a aposta nos blockbusters esmaga tudo o resto. Basta dizer que, há uns meses atrás, dirigi-me à loja do Chiado, afim de adquirir várias obras de Tchekov. Qual não é o meu espanto quando o funcionário me respondeu não haver nada de momento do genial dramaturgo russo. Só o adjectivo é meu, infelizmente. Mas a gravidade do caso é por demais evidente. De modo que prefiro ir à Byblos ou à Bulhosa. A primeira pode ser um bocado pirosa. Mas sei que há uma fortíssima probabilidade de lá encontrar o que procuro. Todavia, esta medida pode provocar ainda um efeito dominó no PVP dos livros. É sabido que o desconto antes praticado pela FNAC se deve às condições "impostas" pela sua posição negocial às editoras. Tal como acontece como as cadeias distribuidoras nas grandes superfícies. A maior parte das livrarias não se podia dar a esse luxo, pois as suas margens de comercialização não o permitiam. A não ser em promoções especiais de lançamento e em feiras. Porém, se o cliente insistisse, lá aparecia o descontozinho comercial. O que vai acontecer agora é de escola: aproveitando-se da confusão, as editoras vão ser tentadas a subir os preços de capa, de modo a reflectir-se no preço final. Portanto, vão todos ganhar, menos o consumidor.

domingo, 5 de outubro de 2008

A diferença


«O olhar cosmopolita de [Eduardo] Lourenço fez, desde o princípio, toda a diferença. Não se trata do cosmopolitismo “de aeroporto” hoje tão em voga, mas de uma perspectiva sobre o mundo que combina uma fina atenção à actualidade com uma sólida informação histórica, que já lia o local a partir do global muito antes de se generalizar a globalização. E que, recusando todos os reducionismos, permanentemente valoriza a diversidade, as contradições do mundo e a contingência dos acontecimentos. Foi este olhar cosmopolita que libertou Lourenço do “comentarismo ruminante” que ele tão lucidamente diagnosticou no Portugal de meados do século passado, e que, infelizmente, persiste ainda nalgumas dimensões da vida portuguesa, talvez hoje mais provinciana do que nunca, no seu serôdio deslumbramento de tantas e tão ilusórias “modernidades”!...»

Manuel Maria Carrilho, no "Contingências"