quarta-feira, 6 de junho de 2007

A Ira Nunca é Súbita

A ira nunca é súbita. Nasce de um longo roer precedente, que ulcerou o espírito e nele acumulou a força reactiva necessária para a explosão. Daqui resulta que um belo acesso de cólera não é, de forma alguma, sinal de uma índole franca e directa. É, pelo contrário, revelação involuntária de uma tendência para nutrir dentro de si o rancor - isto é, de um temperamento fechado, invejoso, e de um complexo de inferioridade.
O conselho de «estar em guarda contra quem nunca se irrita», significa, portanto, que - todos os homens, acumulando inevitavelmente ódio - convém ter especial cuidado com os que nunca se traem por acessos de ira. Quanto a ti, não fazes mal em ser insicero no teu remoer interior, mas em te traíres na explosão.

Cesare Pavese, in 'O Ofício de Viver'

terça-feira, 5 de junho de 2007

Lido

"Sócrates visitava Moscovo (29-5-2007) e recriminou como "lições irresponsáveis"(!...) a insistência ocidental na defesa dos direitos humanos das minorias. Nesse preciso dia, o ministro da Defesa russo informava que a Rússia tinha realizado com sucesso um novo teste de um míssel intercontinental com múltiplas ogivas capazes de romper o escudo de defesa da OTAN... Irresponsável talvez seja antes o desconhecimento das lições da história: agachar-se demasiado descobre a retaguarda.
O senhor primeiro-ministro José Sócrates não está à altura do cargo de presidente do Conselho Europeu que vai ocupar por um semestre a partir do próximo mês. Tal como José Pacheco Pereira nota a inconsistência da arrogância e pobreza discursiva do primeiro-ministro nas relações internacionais. Quer brincar com o fogo, mas acaba chamuscado na feira da sua vaidade pessoal vazia. Montado nessa arrogância e sem sentido do Estado que representa, numa declaração paternalista, em Viena no dia 3-6-2007, àcerca da poderosa França que fundou a União Europeia, o primeiro-ministro de Portugal ousou proclamar "France is back!", para nossa vergonha, ironia de governantes e risota do público saudoso da prosápia de Mohammed Saeed al-Sahaf. Sócrates vai passar um mau bocado como presidente da União - talvez lhe valha a companhia do primeiro-ministro irlandês, Bertie Ahern..."


segunda-feira, 4 de junho de 2007

Imagens de Portugal romântico - 20

Lisboa, Largo do Pelourinho

Porto

Lisboa, Estrela

Ver anterior

Spin doctor

Um contínuo upgrade vocabular no mercado dos anglicismos é um exercício fascinante. Não porque evoque hábitos recolectores ou uma indisfarçada vaidade em estar... up to date. Antes fosse. A questão é esta: expressões novas que são postas a circular na teia global referem-se, quase sempre, a realidades cuja apresentação verbal dispensa grandes análises semióticas. Mas cujo apelo ao sincretismo e ao poder sugestivo de uma imagem forte faz milagres. Veja-se o caso do termo "spin doctor". Alude, basicamente, ao profissional da área do marketing político. A expressão tem-se difundido em velocidade de cruzeiro. Até hoje, ignorava o seu significado. Entretanto, encontrei-a nos mais diversos suportes. O número suficiente de vezes para que a placeba ignorância se sentisse finalmente diminuída perante a curiosidade. E compreender como nas democracias modernas os políticos mais facilmente dispensam os votos do que o retoque da sua imagem.
Para quem quiser saber mais acerca do termo e da actividade em alta que designa, recomendo a leitura
deste texto.

domingo, 3 de junho de 2007

A blogosfera em 3D

Ver aqui mais informação.

sábado, 2 de junho de 2007

O eduquês

"Os critérios de avaliação do nosso 9º ano não passam de um sintoma de uma realidade maior e mais triste: o lento "regresso" do Ocidente a uma nova espécie de barbárie. Nunca se gastou tanto dinheiro em "cultura" e nunca a cultura foi tão universalmente desprezada.(...) A linguagem pública (religiosa, política, jornalística, musical, literária, cinematográfica, universitária) empobrece dia a dia. A conversa, como arte, morreu, porque as pessoas não têm interesse em dizer e muito menos interesse em ouvir. O Estado anda a educar as nossas queridas criancinhas para este mundo. Que outra coisa seria de esperar?"

Vasco Pulido Valente, no "Público" de ontem

NOTA: Na coluna dos leitores do mesmo jornal, vociferava outro dia uma professora contra a intolerável "ingerência" da sociedade e da opinião pública em relação aos critérios de avaliação da prova de Português do 9º ano. "A Educação aos professores"! Bramia ruidosamente, em tom de slogan de manifestação, na linha de "A Terra a quem a trabalha" e sucedâneos. Ficamos a saber que a docente teve um elevado índice de participação em RGA s e manifs, quem sabe se na altura do PREC; que provavelmente utiliza o eduquês hermético para analfabetizar os jovens, as vítimas dos infindáveis sistemas pedagógicos - onde proliferam maravilhas como "competências", "capacidade crítica", "valências", "aprender é fácil", etc. Aquilo que
iluminados pedagogos do ME gostam de "implementar" sazonalmente. Vamos pagar muito muito caro este delírio.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

A miragem

Ontem estive na celebérrima Margem Sul, mais concretamente em Al Mahd. Claro que me preparei devidamente para a proeza: uma túnica, aluguei dois camelos, água com fartura, um antídoto para escorpiões, óculos especiais, um dicionário de Árabe e protector solar. Foi uma desilusão total: em vez da areia, asfalto; o vernáculo era ainda o português; os automóveis abundavam; pessoas, aos magotes. E pensava eu que os nossos governantes eram pessoas sérias! Não há direito!