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quarta-feira, 6 de junho de 2007

A Ira Nunca é Súbita

A ira nunca é súbita. Nasce de um longo roer precedente, que ulcerou o espírito e nele acumulou a força reactiva necessária para a explosão. Daqui resulta que um belo acesso de cólera não é, de forma alguma, sinal de uma índole franca e directa. É, pelo contrário, revelação involuntária de uma tendência para nutrir dentro de si o rancor - isto é, de um temperamento fechado, invejoso, e de um complexo de inferioridade.
O conselho de «estar em guarda contra quem nunca se irrita», significa, portanto, que - todos os homens, acumulando inevitavelmente ódio - convém ter especial cuidado com os que nunca se traem por acessos de ira. Quanto a ti, não fazes mal em ser insicero no teu remoer interior, mas em te traíres na explosão.

Cesare Pavese, in 'O Ofício de Viver'

domingo, 27 de maio de 2007

In the morning you always come back

A fresta da madrugada
respira pela tua boca
ao fundo das ruas desertas.
Luz gris os teus olhos,
doces gotas da madrugada
nas colinas escuras.
O teu passo e o teu hálito
como o vento da madrugada
submergem as casas.
A cidade arrepia-se,

exalam cheiro as pedras –
és a vida, o despertar.

Estrela perdida
na luz da madrugada,
brisa que zune,
calidez, hálito -
a noite chegou ao fim.

És a luz e a manhã.


Cesare Pavese, in “Trabalhar Cansa”, Edições Cotovia, trad. Carlos Leite

Agimos Sempre no Sentido do Destino

No fundo, a sabedoria do destino é a nossa própria. Porque a acompanhamos com uma consciência incessante daquilo que, no fundo, nos é permitido fazer. Podemos estar sujeitos a algumas tentações mas nunca nos enganamos. Agimos sempre no sentido do destino. As duas coisas formam uma só.
Quem se engana é porque ainda não compreende o seu destino. Quer dizer, não compreende qual a resultante de todo o seu passado - o qual lhe indica o futuro. Mas quer o compreenda ou não, indica-lho à mesma. Cada vida é aquilo que devia ser.

Cesare Pavese, in 'O Ofício de Viver'

O Autor nasceu em Santo Stefano Belbo, Itália, em 1908, tendo-se mudado ainda em criança para Turim. Licenciou-se em filologia inglesa na Universidade de Turim, com uma tese sobre Walt Whitman, após o que se dedicou à tradução de escritores de língua inglesa. Passou um ano na prisão em Barcaleone, por razões políticas. Por essa altura publicou a sua primeira recolha de poemas: Trabalhar Cansa (1936), editado em Portugal pela Cotovia. Trabalhou como conselheiro editorial de Einaudi. Suicidou-se num hotel de Turim, no dia 27 de Agosto de 1950. Deixou-nos, publicado postumamente, um dos mais belos diários alguma vez escritos: O Ofício de Viver (1935-1950), ( Relógio d'água, 2004, trad. Alfredo Amorim).