sábado, 12 de maio de 2007

Detalhes


Os livros são países, confidencia o leitor errante. Descobertos, não conquistados; percorrendo atalhos, não vias cartografadas; por vagamundos, não por plenimundos. Escrever é uma anabase, uma viagem em direcção ao interior de um país que nasce no risco do esquecimento. Ler é seguir o rasto de quem escreve - mas quem lê, inevitavelmente, perde-se, transvia-se, desvia-se da linha traçada, treslê, despista-se nas curvas da letra, escreve outro percurso, lê outro país. Continua o leitor errante: conheci um explorador genuíno (mas nada conquistou e nada tinha que fosse seu); sobre a leitura disse:
Os livros são chatos de ler. Não há neles livre circulação. Somos convidados a seguir. O caminho está traçado, único. Muito diferente é o quadro, total. À esquerda, também à direita, em profundidade, sem peias. Nele não há trajecto, há mil trajectos, e as pausas não são indicadas. Mal a gente o deseje, de novo o quadro todo, por inteiro. Num instante está ali tudo. Tudo, mas nada ainda é conhecido. É aqui que se deve começar a ler.
O livro é, não obstante as limitações da memória, como um quadro: no momento em que se acaba a leitura, tem paisagens, vales, dobras sombrias, cor, corografia. Dos seus picos (cobertos com a neve dos sublinhados) os pobres espremem citações, os sábios erigem torres académicas e os vagabundos visionam panoramas de intensidade, medo e fascínio. Há também um ambiente, nos livros, uma luz do lugar, um sopro, às vezes um odor, único, que atravessa o país desvelado pela primeira leitura. No fim do livro é que começo a ler. Na revisita é que apreendo esse espírito que une leitor e escritor na mesma aflição, a aflição que impele à escrita e à leitura, conclui o leitor errante.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Preces atendidas - 7

Lauren Bacall

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O neo fascismo - 2

(continuação)
Diz-se que esta nova lei anti-tabágica tem dois objectivos primordiais: persuadir os fumadores a deixarem de o fazer e proteger os não fumadores, impedindo-os de ser fumadores passivos. Os fins são estimáveis, é claro. E confesso que estou rendido ao argumentário dos higienistas e dos fautores do politicamente correcto. Nesta perspectiva, eis alguns dos cenários que se avizinham:
1. Vou passar a não frequentar restaurantes, bares e discotecas. Vendo bem, até se poupam umas coroas. Mas não será por isso que deixarei de conviver, pois parece ser esse um dos objectivos ocultos desta Lei: remeter as pessoas para o isolamento, para a normalização sanitária, pois assim são mais facilmente controláveis. Estão a ver a analogia com "O Admirável Mundo Novo"?
2 Mesmo que vá, por necessidade imperiosa, jantar com uns amigos, o cenário poderia ser este: durante um bom bocado, o convívio processa-se normalmente. Na altura das sobremesas, nota-se uma estranha inquietação, uma ausência bloqueadora que ninguém ousa nomear. Sob pena de o dono telefonar à polícia e sermos daí a nada escoltados por meia dúzia de cabos-de-esquadra, só por alguém ter soletrado a palavra proibida. Vem o café e aí a angústia torna-se insuportável. Até que o mais afoito, tentando reproduzir a aproximação de um comando aliado a uma praia normanda no dia D, chega-se à porta. Cá fora, a uns bons 10 metros, não vá aparecer o Tiago Mendes com um apito, puxa do "coiso" e acende-o. Já agora, aqui na Guarda e no Inverno, esta saída "higiénica" poderia significar uma semana de gripe. Mas adiante. Encorajados por este lance de coragem, os outros imitam-lhe os passos. Nesta altura, o dono já está a começar a desconfiar de uma golpada. Por essa razão, as saídas são rotativas. Nas mesas ao lado, o processo é idêntico. A certa altura, grande parte dos clientes e até dois empregados já estavam "cá fora". Pela nossa parte, o ambiente estava irremediavelmente inquinado. Nem um digestivo se pode saborear. Nem a tal conversa animada chegou sequer aos preliminares. Nem a tal anedota se chegou a contar. Nem aquele olhar meio enevoado que eu ia lançar à X, como uma radiosa promessa para a noite. Nada. No final, cada um para sua casa. Carregando uma espécie de culpa sem culpado. Autênticos personagens saídos de uma novela de Kafka.
3. Se puxar de um cigarro numa praia, cairão em cima de mim trinta polícias marítimos, assessorados por dez membros do Exército de Salvação e um taxista em férias que ia a passar por ali a coçar os tomates, murmurando que "é prexijo pôr esta malandraje na ordem! olhem qu'esta!".
4. Se resolver mesmo acender uma cigarrilha de topo num café, durante a tarde, vejamos os desenvolvimentos mais óbvios: vem o empregado com uma máscara de cirurgião e envia-me provisoriamente de quarentena para uma sala contígua, destinada ao efeito. Entretanto, o dono já telefonou às "autoridades" e, passados quinze minutos, estacionam à porta do café: uma carrinha com um pelotão de polícias anti-motim equipados a rigor; um carro de baixa cilindrada conduzido pelo pároco local, munido de um manual prático para exorcismos; a carrinha da ala psiquiátrica do Hospital, com dois enfermeiros empunhando um colete de forças; dois elementos do SIS; um clone do Dr. Gentil Martins; uma carrinha dos Bombeiros para o que desse e viesse; o fantasma do Harry Truman - o Presidente americano que deu a ordem para o lançamento das duas bombas atómicas e cuja frase preferida era mens sana in corpore sano; por fim, talvez mesmo o Homem Aranha. Entretanto, nas mesas em redor, um cocainómano a inalar uma fila, um admirador de Mao Tsé Tung e um executivo debruçado num laptop - lançando ordens de compra e venda de acções, que viriam a colocar no desemprego centenas de pessoas num país obscuro da Ásia - estavam visivelmente solidários com as forças da ordem e incomodados com a impertinência do pestífero smoking- serial- killer encarcerado na sala ao lado.

A prósito desta cruzada anti-tabagista, que prenuncia outras que aí vêm, é fundamental ler duas obras:
1. "O Admirável Mundo Novo", de Huxley. O fundamentalismo sanitário, a instauração da "Soma" (a droga única) e o paternalismo assistencial, inimigo da lucidez e da propriedade plena sobre o corpo, já lá estão. É só comparar com a situação criada com esta lei. Descubram as diferenças.
2. Para outros vôos, sobretudo para os amantes da liberdade e do conhecimento obtido através de diferentes estados de consciência, recomendo "Drogas, Embriaguez e Outros Temas", de Ernst Jünger.

O neo fascismo - 1

Cinco razões determinaram, noblesse oblige, que voltasse à carga contra a recente lei anti-tabágica, que determina, entre outras coisas, a proibição de fumar em locais públicos fechados. São elas:
1. Esta notícia, segundo a qual a proposta poderá obrigar os proprietários dos cafés e restaurantes com menos de cem metros quadrados a denunciar os clientes fumadores. Caberá ao proprietário do estabelecimento "chamar as autoridades administrativas ou policiais, as quais devem lavrar o respectivo auto de notícia.
2. Este post de Fernanda Câncio, a favor, que reproduz um texto de Tiago Mendes, versão revista de uma outra postagem no "Cinco Dias", com abundantes comentários.
3. Este texto pró-legislação de Vasco Barreto, em "A Memória Inventada"
4. O comentário crítico de João Miranda, no "Blasfémias".
5. A evocação de "O Admirável Mundo Novo", de Huxley.

Espantoso. Instalou-se na opinião publicada a seguinte presunção inelidível: in dubeo contra o fumador. Que se tornou, para todos os efeitos, o bode expiatório de serviço. É esse o sentido útil do clima higienista e autoritário que esta Lei vem sufragar. A obrigação de denúncia dos infractores pelos proprietários dos estabelecimentos é tenebrosa. Remete não para a PIDE, como já li, mas para a Inquisição. É que, materialmente, o ilícito tem mais a ver com o dogma sanitário do que com a subversão política. Enfim, lido o libelo dos proibicionistas, apraz dizer o seguinte:

1. Antes de mais, confesso que a classificação feita dos estabelecimentos de restauração e diversão em três tipos me parece rebuscada e não abarca uma série de situações de fronteira. O autor (TM) faz do tipo 1 um autêntico melting pot. Metendo no mesmo saco realidades que nada têm a ver. Por exemplo, confunde restaurantes e casas de pasto - cuja maior frequência se verifica aos almoços - com as "manjedouras" do come em pé, que proliferam na downtown lisboeta e portuense - em que a lógica é "enfardar e sair". Esquece assim a realidade do "restante" país. Onde há tascas e estabelecimentos de referência que são, em muitos casos, marcos insubstituíveis na vida social das comunidades: é lá que se vai petiscar e conviver a qualquer hora; é lá que se vai ter "aquela" conversa, ou fazer "a tal" proposta, é lá que os segredos se tornam caricaturas e a verdade o simulacro de uma mentira adocicada. O que acontecerá em locais desse género, com as "autoridades" a entrar e a sair cada vez que um cidadão acende um cigarro? Será que Tiago Mendes pensou nisto com um mínimo de seriedade intelectual? Às vezes, chego mesmo a pensar que esta lei é só uma brincadeira de mau gosto, promovida por desocupados que confundem modernidade com cegueira.
2. Depois, os fundamentalistas querem ir mais longe, pretendendo a exclusão do tabaco mesmo em locais abertos. Veja-se esta pérola de Tiago Mendes, para melhor compreensão da vulgata higienista em curso: A questão da possibilidade de separação eficaz do fumo é crucial – e muito mais importante que a que alguns fumadores federados apontam. Muitos nem conseguem perceber que por um espaço ser “aberto” isso não invalida que o fumo incomode os outros. Por exemplo, numa paragem de autocarro, como no barco que liga Setúbal a Tróia, mesmo ao ar livre eu serei facilmente incomodado por alguém que fume. O vento, aqui, é quem mais ordena. Em espaços públicos, mesmo que abertos, há que considerar a legitimidade de cada um ao seu espaco. Deve ser permitido fumar apenas se houver uma eficaz separação de fumadores e não fumadores. Nas paragens de autocarro, isso não é possível (só é possível se a pessoa se afastar suficientemente, mas aí deixa de estar na paragem do autocarro). No barco para Tróia, é possível, mas apenas se houver uma barreira física, por exemplo, uma separação de vidro, com 3 ou 4 metros de altura, para parte do barco, e na parte de trás, necessariamente. Não chega fazer da parte de trás do barco uma zona de fumo, porque os não fumadores têm igual direito a apreciar a vista nesse lugar. Portanto, fumar, ao ar livre, em espaços públicos que não a rua, só com uma separação eficaz – e quando digo eficaz, quero dizer mesmo 100% eficaz. Mais palavras para quê? Nem os taliban legislariam melhor.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Momentos Zen - 2

Só poderás encontrar uma verdade com a lógica se já a tiveres encontrado sem ela.

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quarta-feira, 9 de maio de 2007

Perdições

(clicar para ampliar)

Cada década produz três ou quatro discos perfeitos. Não mais. White Mansions é um desses grandes exemplos, que tive a felicidade de conhecer dois anos após o seu lançamento (1978). Imaginada e composta por Paul Kennerly, esta opus magnum é um retrato dos Estados Confederados do Sul. As grandes esperanças e os grandes infortúnios dos povos do Sul representados nas experiências de quatro personagens, cujas palavras combinadas relatam a História da Guerra Civil Americana (1861-65). São eles Matthew J Fuller, Polly Ann Stafford, Caleb Stone, o Narrador (The Drifter) e um coro de Escravos.
A obra conta com as participações de Henry Spinetti (percussões), Dave Markee ( baixo), Steve Cash (harmónica, voz e direcção vocal), John Dillon, (guitarra acústica, piano, saltério, violino, voz), Bernie Leadon, (guitarras acústica e eléctrica, Banjo, Bandolim, voz), Waylon Jennings (guitarras acústica e eléctrica, direcção vocal), Jessi Colter (voz). De realçar ainda alguns dos músicos convidados: Tim Hinkley (piano, órgão) e Eric Clapton (guitarra). Os covers com fotografias da época, enquadramento histórico e informação sobre o álbum podem ser vistos aqui.
Em resumo, esta pérola já está na bagagem para a tal ilha deserta.

O papel de música

Hoje é dia oficial de ressaca, após os calorosos festejos de mais um aniversário do escriba. Como sempre, o SOS Guronsan tem estado, até ao momento, à altura de tão embaraçosa situação.