*Para uma melhor compreensão desta entrada, leia-se o que a propósito aqui se escreveu.
segunda-feira, 7 de agosto de 2006
sábado, 5 de agosto de 2006
Diário de um tolo - 5
Ser como se já não fosse ainda não é o fim ainda não é só a terra que se estende infinita nos meus passos é só o nascer de um lugar para as palavras que esqueci é só o começo dos dias dos meses e dos anos depois de mim não de ti mas as torres já ruiram e logo no outono com o sopro de um coração estéril de que já nem as pedras se conseguem apiedar ainda me vejo de cócoras no meio das ruínas a tentar descobrir como a tarde pode morrer de repente um sinal um vislumbre um ardor de que ninguém falou uma pontuação para os abismos um espelho para encontrar o meu rosto mais claro do que os pensamentos o meu nome mais profundo do que a escuridão dos sentimentos onde está fechado mas nada encontrei só um céu amargo onde a noite se tornou insensível ao dia e o meu sono é todo o crepúsculo que resta ah ainda se conseguisse ser como se já não fosse ainda se conseguisse recitar uma fábula onde o vento tudo arrebatasse e me atirasse para a efémera matéria do silêncio mas os vulcões secos estalaram e cuspiram cidades de tédio uma solidão que dói como uma dor de dentes como um convite da eternidade para deslizar por ela como um manual para proteger os meus passos numa dança impossível como uma música que finalmente ascende ascende nunca aceitando que a sua harmonia é harmonia ah se eu fosse como já não fosse.
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sexta-feira, 4 de agosto de 2006
Já lá vão 6 meses, olhem q'esta!
-Sempre é verdade que este blogue faz hoje seis meses?
-Verdade verdadinha, uma nas canelas e duas na pinha.
-Nunca pensaste em desistir?
-No me lo digas, é como mijar num campo de urtigas.
-E porque é que não metes umas gajas nuas de vez em quando?
-É política editorial e ninguém leva a mal.
-Que tipo de temas abordas?
-Desde a celulite da vizinha à ignota pesca à linha.
-A blogosfera vicia?
-Mais do que ir à missa e menos do que comer linguiça.
-Tens algum momento especial ligado ao blogue de que queiras falar?
-A bola é redonda e tudo é possivel no final da monda.
-"I always depend on the kindness of strangers" seria um bom lema para os bloguistas?
-No hay camiños, solo hay que estar juntinhos...
-Boa sorte e continua a dar-lhe com força.
-Nem é preciso mais, a segunda é prós pardais...
-Verdade verdadinha, uma nas canelas e duas na pinha.
-Nunca pensaste em desistir?
-No me lo digas, é como mijar num campo de urtigas.
-E porque é que não metes umas gajas nuas de vez em quando?
-É política editorial e ninguém leva a mal.
-Que tipo de temas abordas?
-Desde a celulite da vizinha à ignota pesca à linha.
-A blogosfera vicia?
-Mais do que ir à missa e menos do que comer linguiça.
-Tens algum momento especial ligado ao blogue de que queiras falar?
-A bola é redonda e tudo é possivel no final da monda.
-"I always depend on the kindness of strangers" seria um bom lema para os bloguistas?
-No hay camiños, solo hay que estar juntinhos...
-Boa sorte e continua a dar-lhe com força.
-Nem é preciso mais, a segunda é prós pardais...
quinta-feira, 3 de agosto de 2006
O bardo
Van Morrison em 1973. Um irlandês teso e que ainda dá cartas. Para amostra, um excerto da letra de "Crazy love":She got a fine sense of humour, when I'm feelin' low down
And when I come to her, when the sun goes down
Take away my trouble, take away my grief
Take away my heartache, in the night like a thief
Nocturno Estátua
Sonhar, sonhar a noite, a rua, as arcadas
e o grito da estátua desdobrando as esquinas.
correr até à estátua e encontrar só o grito,
querer apanhar o eco e sentir apenas um muro,
correr até ao muro e ver-me dentro de um espelho.
descobrir no espelho a estátua assassinada
retirá-la do véu de sangue
da sombra desenhada no mármore
vesti-la depressa
acariciá-la como uma irmã imprevista
brincar com a curvatura dos seus dedos
sussurrar aos seus ouvidos cem vezes, cem, cem vezes
até ouvi-la dizer: "toca-me toca-me suaves olhos
ensina-me o que esqueci ao nascer".
e o grito da estátua desdobrando as esquinas.
correr até à estátua e encontrar só o grito,
querer apanhar o eco e sentir apenas um muro,
correr até ao muro e ver-me dentro de um espelho.
descobrir no espelho a estátua assassinada
retirá-la do véu de sangue
da sombra desenhada no mármore
vesti-la depressa
acariciá-la como uma irmã imprevista
brincar com a curvatura dos seus dedos
sussurrar aos seus ouvidos cem vezes, cem, cem vezes
até ouvi-la dizer: "toca-me toca-me suaves olhos
ensina-me o que esqueci ao nascer".
in "Labirintos"
terça-feira, 1 de agosto de 2006
O Povo é quem mais ordena
A vontade do povo, a par da vontade de Deus, é dos desígnios mais impenetráveis e misteriosos de que há memória. Na maioria dos casos, aparece como fórmula mágica para amparar outros desígnios, mais terrenos, dos seus intérpretres qualificados: os políticos que o representam, um ou outro publicitário bem sucedido, alguns maus tradutores de Hegel e certos epígonos de António Ferro em versão liberal. Por exemplo, na Guarda existe um Presidente da Câmara que, após consulta ao oráculo de Delfos, lá encontrou a fórmula secreta para dar ao povo o que o bom povo gosta: umas festarolas com muitas sandes de coiratos e o trabécula (Luís Filipe Reis) a debitar decibeis!
Ora, na última edição do jornal "O Interior" aparece uma excelente crónica do Pedro Almeida a colocar o problema no seu devido lugar - a formatação do gosto - a que se juntou uma carta de uma leitora onde o enfoque é posto nas péssimas soluções de gestão encontradas. Mas o que me chamou logo a atenção foi um texto do José Carlos Alexandre, tecendo longos encómios às Festas e remetendo os seus críticos à qualidade de intelectuais subdesenvolvidos e arrogantes "educadores" do povo, entre outras vibrantes reflexões. Imediatamente desfaleci na cadeira. Consegui ainda dirigir-me à casa de banho e meter a cabeça debaixo da torneira, mas o choque emocional foi demasiado. Comecei então a balbuciar umas palavras desconexas, acompanhadas de um delírio quase vegetativo. Já imaginava o Luís Filipe Reis a açoitar o Stockausen com o microfone, elementos do rancho folclórico do Centro Cultural a bombardear o Luís Miguel Cintra com pernas de frango, brigadas populares compostas por trolhas e leitores do "Record" percorrendo a cidade, numa defenestação enérgica dos perigosos críticos.
Enquanto me debatia neste estado meio cataléptico, acorreu o anjo da Guarda, perguntando-me o que tinha. Disse-lhe as palavras terríveis: "meu caro, sou um intelectual subdesenvolvido". Graças a um leve bater de asas, senti que um calafrio o percorreu. Todavia, e sem qualquer razão aparente, começou a rir perdidamente, benzendo-se por diversas vezes. Finalmente, recompondo-se, disse que me compreendia muito bem, mas que, nestes casos, nada poderia fazer. Recomendou-me então uma ida à consulta de psiquiatria no Hospital. E pronto, depois de várias sessões de choques eléctricos ao som do Toy e do rancho folclórico da Associação de Melhoramentos de Catrapim de Baixo, entre outras canoras virtudes teologais, tornei-me outra pessoa. Em boa hora. Deixa-me cá dar uma vista de olhos ao "Jornal do Crime"...
*A propósito de mais um "intelectual" do G8 guardense - os arautos da vox populi, em oposição aos subdesenvolvidos elitistas - nada melhor do que uma visita e este post.
Ora, na última edição do jornal "O Interior" aparece uma excelente crónica do Pedro Almeida a colocar o problema no seu devido lugar - a formatação do gosto - a que se juntou uma carta de uma leitora onde o enfoque é posto nas péssimas soluções de gestão encontradas. Mas o que me chamou logo a atenção foi um texto do José Carlos Alexandre, tecendo longos encómios às Festas e remetendo os seus críticos à qualidade de intelectuais subdesenvolvidos e arrogantes "educadores" do povo, entre outras vibrantes reflexões. Imediatamente desfaleci na cadeira. Consegui ainda dirigir-me à casa de banho e meter a cabeça debaixo da torneira, mas o choque emocional foi demasiado. Comecei então a balbuciar umas palavras desconexas, acompanhadas de um delírio quase vegetativo. Já imaginava o Luís Filipe Reis a açoitar o Stockausen com o microfone, elementos do rancho folclórico do Centro Cultural a bombardear o Luís Miguel Cintra com pernas de frango, brigadas populares compostas por trolhas e leitores do "Record" percorrendo a cidade, numa defenestação enérgica dos perigosos críticos.
Enquanto me debatia neste estado meio cataléptico, acorreu o anjo da Guarda, perguntando-me o que tinha. Disse-lhe as palavras terríveis: "meu caro, sou um intelectual subdesenvolvido". Graças a um leve bater de asas, senti que um calafrio o percorreu. Todavia, e sem qualquer razão aparente, começou a rir perdidamente, benzendo-se por diversas vezes. Finalmente, recompondo-se, disse que me compreendia muito bem, mas que, nestes casos, nada poderia fazer. Recomendou-me então uma ida à consulta de psiquiatria no Hospital. E pronto, depois de várias sessões de choques eléctricos ao som do Toy e do rancho folclórico da Associação de Melhoramentos de Catrapim de Baixo, entre outras canoras virtudes teologais, tornei-me outra pessoa. Em boa hora. Deixa-me cá dar uma vista de olhos ao "Jornal do Crime"...
*A propósito de mais um "intelectual" do G8 guardense - os arautos da vox populi, em oposição aos subdesenvolvidos elitistas - nada melhor do que uma visita e este post.
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