segunda-feira, 29 de maio de 2006

O Circo democrático

O primata da Atlântida tem um acordo tácito com este país e que, valha a verdade, tem cumprido escrupulosamente: para gáudio da plateia e para combater a proverbial tendência depressiva da nação, aparece periodicamente no galho mais alto, perdão, nos media e, aclamado pela assembleia, dá início ao seu one monkey show (perdoem o trocadilho fácil, mas não resisti). Depois de distribuir mais umas bananas pelo clã, debita então uns soundbytes que vai tirando da cartola - que usa como sinal distintivo da sua preponderância - enquanto bate furiosamente na barriga, apontando para leste, terra dos macacos grandes que, supostamente, querem disputar a ilha da sua tribo e roubar-lhe a comida. Cada gesto mais expressivo, ou cada onomatopeia mais desafiadora, são imediatamente reproduzidos pelos macacos dos galhos inferiores, numa sintonia unânime e típica, temendo que, se não o fizerem, ficarão excluídos na próxima distribuição de bananas. Entretanto, e enquanto duram estes rituais, os humanos da ilha, não dispondo ainda de meios para a criação de uma reserva natural para fixação dos símios, vivem aterrorizados e amordaçados de todas as formas e feitios.
A história é sobejamente conhecida, tendo-se tornado mesmo objecto de estudo por paleontólogos e pseudólogos (pseudologia, ciência do quimérico, do falacioso). Há até quem afirme que Platão, em A República, deveria ter previsto mais esta modalidade de perversão totalitária, criada e alimentada pela democracia, algures na Atlântida.
Mas veja-se com maior detalhe a última homilia do celebrante macaco-chefe: desta vez exige a criação de um sistema judicial "regional", uma espécie de foro privado convenientemente inspirado por costumes locais e formado por macacos às ordens do chefe. Deste modo, a distribuição de bananas permaneceria intocada, os macacos do continente já não poderiam vir pedir contas e os macacos de todo o mundo teriam ali uma zona franca para poder trocar todo o tipo de bananas, sem que ninguém colocasse questões incómodas. Bravo! É de mestre! Atenção pseudólogos! Mesmo os piratas e flibusteiros de antanho, quando criaram uma rede global de "redistribuição" da riqueza, ao arrepio de todas as leis conhecidas, nunca deixaram de criar as suas, para uso interno: simples, cruéis e de uma lógica desconcertante. Em todo o caso, essas regras eram escrupulosamente aplicadas. Sem excepções. Ora, no nosso exemplo, a ideia seria desmantelar a última forma independente de controlo das tropelias simiescas do chefe y sus muchachos, visto que o controlo e a responsabilização por via política já deixaram de existir há muito. As portas ficariam abertas para o último passo: um regime de excepção, apto a assegurar a inimputabilidade permanente e vitalícia do seu líder.
Mas azar dos azares, as plateias menos desatentas já deixaram de se impressionar com estas macacadas. E já aprenderam que o show off esconde o medo e a insidiosa chantagem. E que esta mais não é do que a preclara antecipação de mais umas dotações extra para financiar a bananada local. Enviadas por correio expresso pelos macacos do continente, num assomo magnânimo e liberal. Como uma mesada que um pai desiludido já deixou de fazer acompanhar de prosélitas recomendações de bom comportamento, mas que, sem dúvida, ainda aliviavam a consciência de assim estar a alimentar a irresponsabilidade e o desvario. Até ver.

Publicado no jornal "O Interior"

domingo, 28 de maio de 2006

PÓS - POEMA (2)

passam os rios
como deuses
e as mãos revelam-se
no seu refúgio de areia.

passam os deuses
como sombras iluminadas
e logo se desenham nos álamos
bocas caiadas de verão.

passam os dias
como flâmulas cinzentas,
batalhas, frutos, searas

e um torpor longínquo
e amante nasce

uma insaciedade humana
cresce como o ganges
nas nossas veias
e torna-se imensa
como os deuses
como os rios

in "Labirintos"

quinta-feira, 25 de maio de 2006


A entrevista a LUIZ PACHECO por João Pedro George, saída no seu blogue em Maio do ano passado, foi um momento único para a reconstituição da memória da vida literária no séc. XX em Portugal. Brevemente voltaremos a este autor da nossa predilecção. Para já, a conversa poderá ser lida aqui

Revista

Publicação semestral de âmbito literário e artístico, cujo número inaugural saiu em Maio de 2004, a que se seguiram mais dois. Inclui textos literários, (conto, poesia), recensões, ensaios, artigos de opinião, trabalhos de investigação, desenhos, gravuras. O leque de colaboradores tem um âmbito nacional e internacional, compreendendo escritores, poetas, artistas plásticos e investigadores.

Edição: Aquilo Teatro, CRL
Direcção: Américo Rodrigues, António Godinho, Maria Lino
Design e Paginação: Alexandre Gamelas

Colaboradores: Ana García Varas, Américo Rodrigues, André Bandeira, António Bento, Bartolomé Ferrando, Carlos Alberto Machado, Domingo Sanchez, E. M. de Melo e Castro, Fernando Aguiar, Gerda Lepke, Ingrid Kerma, João Camilo, José Alberto Ferreira, José Manuel Pinto, José Oliveira, José Teixeira, Julien Blaine, Karla Woisnitza, Klaus Becker, Manuel Poppe, Manuel Portela, Maria Fisahn, Maria Lino, Pedro Dias de Almeida, Pedro Vilar, Rui Eduardo Paes, Rui Sousa, Sabine Peters, Sérgio Monteiro de Almeida e Vítor Viçoso


Pedidos para: aquilo.teatro@sapo.pt bocadeincendio@clix.pt
ou Livraria Leitura

segunda-feira, 22 de maio de 2006

A Ponte

Os sindicatos ligados à função pública decidiram agendar mais um dia de luta para a passada sexta-feira, vulgo, mais uma greve. Vendo bem, até estava sol, e um dia de luta com as filas de trânsito junto às praias não seria problema. E mais não digo...
Já aqui referi algumas razões da falência social e política dos sindicatos, da sua situação de reféns de um modelo de actuação esgotado e minado por interesses puramente partidários e demagógicos. Por exemplo, quando estive na Inspecção Geral do Trabalho, era vulgar virem trabalhadores ao serviço informativo induzidos em erro pelo seu sindicato, uma vez que este, em caso de litígio, informava os associados dos níveis salariais do CCT para o sector onde eles fossem mais altos e não, como seria normal, daquele que era efectivamente aplicável no caso concreto. Coisas...
Ora, sabe-se que a taxa de sindicalização em Portugal anda na ordem dos 25%. Nos países nórdicos ronda os 75%. Mas aí são autênticos parceiros sociais: as propostas sensatas e credíveis que apresentam são invariavelmente tomadas em linha de conta, quer ao nível da negociação colectiva, quer ao nível das condições de trabalho nas empresas. Ao invés, aqui tornaram-se, em grande parte, estruturas de bloqueio com tiques corporativos e em permanente sintonia com a agenda política do Partido Comunista.
É certo que em Portugal também não há um tecido empresarial digno desse nome e uma parte significativa dos empregadores são pequenas e micro-empresas onde é comum o recurso ao trabalho clandestino. Mas isso será motivo para outro post.
Voltemos então a este glorioso dia de luta contra...ora deixem cá ver..."ó raquel, passa aí o bronzeador!"...
Não será pois de admirar que, qualquer dia, expeditivas técnicas de marketing - sorteios de panelas de pressão ou leitores de CDs portáteis, p.ex. - venham "encorajar" a parca militância dispendida numa auto-intitulada "jornada de luta contra as políticas neo-liberais". Vai um aposta?

* Sobre a matéria, veja-se este divertido texto.

Leituras

Não resisto a divulgar aqui a crónica de Vasco Pulido Valente, no "Público" de ontem.
«Recebi uma carta assinada por três ministros (a sra. Ministra da Cultura, a sra. ministra da Educação e o sr. ministro Santos Silva), que me convidava para ser membro de uma Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura. [...] Propaganda por propaganda, resolvi responder em público que não aceito. Por várias razões. Em primeiro lugar, porque a carta e a “síntese do Plano” estão escritas num português macarrónico e analfabeto (frases sem sentido, erros de sintaxe, impropriedades, redundâncias, por aí fora). Quem escreve assim precisa de ler, e de ler muito, antes de meter o bedelho no que o próximo lê ou não lê. Em segundo lugar, não aceito por causa do próprio Plano. O fim “essencial” do Plano é “mobilizar toda a sociedade portuguesa para a importância da leitura” (a propósito: como se “mobiliza” alguém ‘para a importância’?). [...] Em terceiro lugar, não aceito porque o Plano é inútil. Nunca se leu tanto em Portugal. Dan Brown, por exemplo, vendeu 470 000 exemplares, Miguel Sousa Tavares, 240 000, Margarida Rebelo Pinto vende entre 100 e 150 000 e Saramago, mesmo hoje, lá se consegue aguentar. O Estado não gosta da escolha? Uma pena, mas não cabe ao Estado orientar o gosto do bom povo. No interior, não há livrarias? Verdade. Só que a escola e a biblioteca, ainda por cima “orientadas”, não substituem a livraria. E um hiper-mercado, se me permitem a blasfémia, promove a leitura mais do que qualquer imaginável intervenção do Estado. O Plano Nacional de Leitura não passa de uma fantasia para uns tantos funcionários justificarem a sua injustificável existência e espatifarem milhões, que o Estado extraiu esforçadamente ao contribuinte. Quem não percebe como o país chegou ao que chegou, não precisa de ir mais longe: foi com um número infinito de “causas nobres” como esta. “Causas nobres”, na opinião dos srs. ministros, convém acrescentar.»

domingo, 21 de maio de 2006

O Habilus e os malefícios da rede

Não é preciso ser pirata informático para, dentro da rede de computadores dos tribunais, consultar um processo alheio. Um magistrado do Ministério Público, que pediu para não ser identificado, relatou que dentro da rede de computadores, administrada pelo Ministério da Justiça, conseguiu aceder, por acaso, e em tempo real, ao despacho que um colega juiz estava a elaborar.
O caso aconteceu já há quatro anos, mas o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), António Cluny, tem recebido testemunhos de situações idênticas ocorridas mais recentemente.
Apesar de «nunca ter confirmado a veracidade dos relatos», os receios e as desconfianças de que os processos, alguns em segredo de justiça, pudessem estar ao alcance de terceiros foram suficientes para levar o SMMP a solicitar ao Ministério da Justiça, em finais do ano passado, que esclarecesse os procedimentos de segurança na utilização da rede.
António Cluny garante que o assunto «caiu no esquecimento» e que, até ao momento, o Ministério da Justiça não prestou qualquer esclarecimento.
*Ver notícia desenvolvida em Portugal Diário.