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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Sá Carneiro por Pulido Valente

«Trabalhei dia a dia desde o princípio de 1979 até Dezembro de 1980 com Sá Carneiro; primeiro como adjunto no partido e membro do Governo-sombra, a seguir como secretário adjunto no Governo propriamente dito. Até há pouco tempo, julguei que sabia o que ele pensava da política portuguesa e que tinha uma ideia aproximada do que ele se propunha fazer. Erro meu. Hoje, trinta anos depois do desastre que o matou, apareceram dúzias de íntimos, que nunca vi na altura perto dele e filósofos que explicam numa prosa arrevesada e solene o verdadeiro pensamento do homem. Compreendo que a ocasião é boa para ganhar uns cêntimos ou para ajudar carreiras tremelicantes. Mas não consigo deixar de me espantar com revelações que não revelam nada e com a transposição anacrónica para a cabeça de Sá Carneiro de coisas que manifestamente não o preocuparam ou que nem sequer imaginava. Assim se escreve a história e o jornalismo que se diz de “referência”. No meio dessa mistura de alhos com bugalhos, convém perceber que os fins de Sá Carneiro eram dois. Primeiro, levar a direita (o PPD e o CDS) ao poder e, segundo, acabar com a tutela militar a que Portugal estava submetido. Talvez seja inútil explicar que se o poder ficasse indeterminadamente nas mãos da esquerda que se opusera à ditadura, e só nas dela, não tardaria que se criasse a ideia de que não assistia ao PSD e ao CDS qualquer legitimidade para governar e o regime democrático ficava à partida liquidado. As maiorias de 1979 e de 1980 e a genérica moderação da AD (que se absteve de perseguir fosse quem fosse e respeitou meticulosamente a lei) legitimaram a direita em definitivo. O que simplificou a vida a Diogo Freitas do Amaral, ao PS e a Mário Soares, quando, pouco a pouco, resolveram reduzir os “revolucionários” de 1974 e 1975 ao pequeno papel que, num país civilizado, lhes cabia. Sá Carneiro queria apressar este processo, que, na prática, durou até ao colapso do PRD. O plano (se merece o nome) era eleger Presidente da República um general conservador e provocar, com o apoio dele, um referendo sobre a Constituição. Infelizmente, esta estratégia não passava de uma fantasia. Em 1980, o eleitorado da direita andava pelos 47 por cento e não bastava para submeter a esquerda. Pior ainda, a AD proclamara na campanha para as legislativas que “governara bem”, com Eanes, e ninguém aceitaria, como não aceitou, a súbita necessidade de correr com Eanes para garantir que dali em diante não governaria mal. Sá Carneiro morreu e o candidato da AD, como se previa, perdeu. Muita gente não se consolou deste desastre. Acontece que um desgosto, que do coração partilho, não substitui a evidência histórica.»

Vasco Pulido Valente, no "Público"

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Lido

Extractos do artigo "Apodrecer ao sol", de Vasco Pulido Valente, no "Público" de sábado:

A velha Sedes (com gente nova) veio agora anunciar [...] que Portugal está na iminência de “uma crise social de contornos difíceis de prever”. O prestígio e o peso de quem fala merece, em princípio, que se ignorem as preocupações do dia-a-dia, para ouvir e pensar. Em que funda a Sedes [...] um aviso tão melodramático e severo? Em essência, na “degradação da confiança”. O país deixou de acreditar no “sistema político” e, em particular, nos partidos, de direita ou de esquerda, e esse crescente cepticismo ou, se preferirem, esse quase universal cinismo poderá levar ao rápido fracasso da democracia representativa. Ou, pelos menos, de uma democracia representativa, por assim dizer, “normal”. [...] O remédio da Sedes para este desastre é, como se esperaria, pedir aos partidos que promovam uma “elite de serviço” e se coíbam de interferir abusivamente na vida do país. Nunca com certeza a preveniram que as meninas não reformam o bordel. Como nunca com certeza lhe explicaram que andam por aí há anos “derivas populistas, caciquistas, personalistas”, para qualquer gosto ou vício. No fundo, os senhores da Sedes não percebem que nenhuma “crise social” (que fazem eles senão descrever sem grande originalidade a que neste momento vivemos?) põe em perigo o suave arranjo da política portuguesa, enquanto Portugal pertencer à “Europa”: e os partidos sabem isso muito bem. O destino de Portugal é, como sempre foi, apodrecer ao sol.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Pensar em voz alta

Passou ontem à noite uma longa entrevista - conduzida por Rui Ramos - a Vasco Pulido Valente, na RTP N. Para quem aprecia a verdadeira liberdade de pensamento, como é o caso do escriba, estes momentos são naturalmente de celebração. O historiador passou em revista o que de mais relevante se passou em Portugal nos últimos 40 anos. O marcelismo, o pronunciamento do 25 de Abril, o PREC, as nacionalizações, Mário Soares, Sá Carneiro, Cavaco, Sócrates, etc. E fê-lo desenrolando um fio de pensamento absolutamente coerente, um destemor não colaboracionista com a "ilusão colectiva" que embala o país. Enfrentando os lugares-comuns e as vulgatas.

segunda-feira, 22 de maio de 2006

Leituras

Não resisto a divulgar aqui a crónica de Vasco Pulido Valente, no "Público" de ontem.
«Recebi uma carta assinada por três ministros (a sra. Ministra da Cultura, a sra. ministra da Educação e o sr. ministro Santos Silva), que me convidava para ser membro de uma Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura. [...] Propaganda por propaganda, resolvi responder em público que não aceito. Por várias razões. Em primeiro lugar, porque a carta e a “síntese do Plano” estão escritas num português macarrónico e analfabeto (frases sem sentido, erros de sintaxe, impropriedades, redundâncias, por aí fora). Quem escreve assim precisa de ler, e de ler muito, antes de meter o bedelho no que o próximo lê ou não lê. Em segundo lugar, não aceito por causa do próprio Plano. O fim “essencial” do Plano é “mobilizar toda a sociedade portuguesa para a importância da leitura” (a propósito: como se “mobiliza” alguém ‘para a importância’?). [...] Em terceiro lugar, não aceito porque o Plano é inútil. Nunca se leu tanto em Portugal. Dan Brown, por exemplo, vendeu 470 000 exemplares, Miguel Sousa Tavares, 240 000, Margarida Rebelo Pinto vende entre 100 e 150 000 e Saramago, mesmo hoje, lá se consegue aguentar. O Estado não gosta da escolha? Uma pena, mas não cabe ao Estado orientar o gosto do bom povo. No interior, não há livrarias? Verdade. Só que a escola e a biblioteca, ainda por cima “orientadas”, não substituem a livraria. E um hiper-mercado, se me permitem a blasfémia, promove a leitura mais do que qualquer imaginável intervenção do Estado. O Plano Nacional de Leitura não passa de uma fantasia para uns tantos funcionários justificarem a sua injustificável existência e espatifarem milhões, que o Estado extraiu esforçadamente ao contribuinte. Quem não percebe como o país chegou ao que chegou, não precisa de ir mais longe: foi com um número infinito de “causas nobres” como esta. “Causas nobres”, na opinião dos srs. ministros, convém acrescentar.»