domingo, 14 de maio de 2006

PÓS - POEMA (1)

é tempo de escutar o poema
escorrer por dentro

gota a gota

uma chuva de que não há notícia

in "Labirintos"

sábado, 6 de maio de 2006

DOSTOIEVSKI, sempre


". . . to be acutely conscious is a disease, a real, honest-to-goodness disease." (Notes from the Underground)
"When . . . in the course of all these thousands of years has man ever acted in accordance with his own interests?" (Notes from the Underground)
"For what is man without desires, without free will, and without the power of choice but a stop in an organ pipe?" (Notes from the Underground)
"Talking nonsense is man's only privilege that distinguishes him from all other organisms." (Crime and Punishment)
"You laugh at your dream's absurdities, and at the same time you feel that in the fabric of those absurdities some thought is hidden, but a thought that is real, something belonging to your actual life, something that exists and has always existed in your heart." (The Idiot)
"If there is no God, then I am God." (The Possessed [Kirilov])
"So long as man remains free he strives for nothing so incessantly and so painfully as to find some one to worship." (The Brothers Karamazov)
"In an abstract love for humanity one almost always loves only oneself." [lost source!]
"The complete atheist stands on the penultimate step to most perfect faith." [lost source!]

Sobre o autor de "O Tio", ver o que aqui já se disse.
Decorreu no Porto, no dia 3 de Maio, a conferência-debate "Soluções para uma Indústria Musical em Portugal", acerca das questões respeitantes à indústria discográfica nacional. Contou com a presença de músicos, representantes de associações do sector e das editoras. Trata-se de uma actividade em crise, como é sabido, mas que tem respondido da pior maneira aos desafios que lhe estão a ser colocados, como já aqui referi.
A propósito do evento, veja-se este artigo no "Turno da Noite", bem como este libelo de Valter Hugo Mãe, em "Da Literatura".

Rose c'est la vie


Está aí a chegar o 19 de Maio. Data importante, porque mudou a história recente da Academia de Lisboa. Para sempre. E orgulho-me de ter estado presente nos acontecimentos que assim o determinaram: a tomada da Reitoria e da cantina velha, em 1982.
Daí nasceu a Tertúlia Libertas que ainda hoje continua a editar "O Berro", um sai quando sai que deu dores de cabeça a muita gente: professores, políticos. aprendizes de políticos, arrivistas das juventudes partidárias, medíocres avulso, listas para a Associação, etc.
Para muitos que por ela passaram, a Tertúlia será ao longo da vida uma escola de irreverência, autonomia do pensamento e da acção, mas também, porque não, de poesia. Entre muitos outros que poderia escolher, eis um exemplo do que então se fazia.

Mas, para ir mais além desta lacónica notícia, veja-se um texto de André Bandeira em "Duas Cidades". Aqui

quinta-feira, 4 de maio de 2006

UPS!

ORCHATA DE CHUFA

a Garcia Lorca

Descia as serras em Outubro
se a respiração num repente parasse
de mãos estendidas para os olhos.

esquecia o fino azul das manhãs
se presa fácil de uma vertigem:

embriagar de cores meu destino
em cada constelação uma cigana
uma doce cabala de dias férteis
e nuas terras prometidas.

inventaria um estilhaço qualquer
para me ferir nos olhos
e tombar no chão da tribo
no sul nas marés.

faria rodar em mim
ainda o pião ainda a criança
- e mesmo assim percorrer
a fogueira nocturna e nunca
acordar os outros, estes outros.

na geografia simples de um rosto,
como na de um país,
há por vezes uma erosão
que devasta a pele e a pedra,

um sopro de sementes fuzilando os lábios
hasta el corazón del sueño . é

um grito é um beijo. são
mil searas andaluzas
numa lenda de terra queimada.

in "Labirintos"

terça-feira, 2 de maio de 2006

O 1º de Maio

O Dia do Trabalhador é feriado nacional. Tirando esse facto, tornou-se o dia mais cinzento do ano. Veja-se o afã com que os sindicatos repetem de ano para ano, ad nauseum, o mesmo discurso catastrofista e atávico, uma fábula em que os bons e os maus só mudam de nome. Longe vão os tempos das lutas operárias a sério. Mas não é essa memória, nem a grandeza de tantos que nelas participaram, o que se comemora. Não! Até porque a classe operária começa a ser coisa do passado, desmantelada que está a indústria pesada e desaparecidas as grandes concentrações industriais.
A questão é, pois, ver quem fala mais alto contra os "perigos" que espreitam, os previlégios em risco, as "manobras obscuras" que estão prestes a abater-se sobre a "classe trabalhadora" e, sobretudo, o supremo instrumento do mal, o Código do Trabalho. Uma rétorica cheia de tropismos, destinada a assegurar a sobrevivência dos próprios sindicatos, em muitos casos estruturas pesadas e mais preocupadas com a visibilidade das acções que promovem, do que com uma defesa efectiva dos seus associados.
Duas notas, para terminar. Durante dois anos trabalhei intensivamente com o Código do Trabalho, na altura precisamente em que entrou em vigor. Para lá de algumas imprecisões técnico-jurídicas, parece-me ser um óptimo instrumento de desenvolvimento económico, com mecanismos onde certos direitos dos trabalhadores são, até, melhor salvaguardados, para lá das inegáveis vantagens da sistematização.
Por outro lado, durante esse período, estive em contacto directo com o mundo do trabalho, no sector informativo de um serviço público. Posso dizer que, em relação aos trabalhadores, numa percentagem de 80% daqueles que atendi, a sua única preocupação era "fazer contas". Os seus "direitos" resumiam-se a isso: um resultado expresso numa máquina de calcular.