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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Geórgia em chamas


Os tiros continuam a ouvir-se no Cáucaso. A Rússia entrou a matar e não admite que a Geórgia toque nos "seus" enclaves da Ossétia do Sul e da Abcásia. Não obstante pertencerem à Geórgia, o facto da população russa estar em maioria dá poderes acrescidos a Moscovo. Durante anos, Putin tem engolido em seco o facto do alargamento da NATO estar a aproximar-se das suas fronteiras. A Geórgia deu-lhe uma oportunidade de ouro: ajustar contas. Agora a Rússia marca a sua posição e trava a "ofensiva ocidental". Putin está não só a saldar contas com o Ocidente mas também a exigir cautela às "ovelhas negras" que mudaram de campo. A Geórgia está na berlinda e vai ser moeda de troca. A União Europeia apenas tem a diplomacia. A Rússia tem tanques no terreno e em actividade. De acordo com os últimos desenvolvimentos, as tropas russas já entraram em território da Georgia e ocuparam a cidade de Senaki. Entre os apelos da União Europeia e as ameaças dos Estados Unidos, a Rússia conquista posições. Quando os protestos internacionais tomarem uma dimensão global, aí a pressão abranda mas Moscovo vai impor condições. No meio disto tudo, vem à memória a questão chechena. O que a Rússia aí fez é indescritível. O que a Rússia pode fazer na Geórgia é melhor nem pensar.

Nota: sobre o assunto, recomendo a leitura de "O Urso Ferido", por Bruno Alves.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Sobre a coragem

Anna Politkovskaya foi assassinada à porta de sua casa em Moscovo. Exactamente há um ano. Já aqui tinha deixado a minha profunda indignação por este acto hediondo. A qual decerto não deixará de estar presente em todos os que acreditam nos valores em que ela acreditava. De entre a sua obra, escolhi "A Rússia de Putin", (edição Pedra na Lua, 2007, trad. António Costa Santos), o seu último livro. Trata-se de um conjunto de peças jornalísticas cujo pano de fundo é o défice democrático e a cleptocracia que se instalaram na Rússia. Começa por relatar vários casos ocorridos no Exército em que os responsáveis ficam invariavelmente impunes. Graças à dependência das instâncias judiciais em relação ao poder político. Com excepção do respeitante ao Coronel Budanov, acusado de ter espancado um oficial subalterno e assassinado uma civil tchetchena. Depois de uma série de expedientes, incluindo relatórios psiquiátricoa forjados pelos mesmos que atiravam os dissidentes na era soviética para o degredo, o caso foi finalmente julgado. Com o resultado esperado pelos "patriotas". No entanto, a pressão do governo alemão determinou que o Supremo tribunal Militar anulasse o julgamento. Repostas as garantias básicas da acusação, Budanov foi finalmente condenado a 10 anos de degredo num campo prisional. A jornalista conta-nos também as profundas transformações que sofreu o país desde a perestroika. Através das histórias cruzadas e em primeira mão de quatro pessoas. As quais sinalizam a história recente da Rússia: Tanya, uma ex-engenheira que singrou no comércio que só graças a uma infinidade de subornos consegue manter a actividade; Misha, um tradutor e intérprete qualificado, despedido, que caiu no alcoolismo e se voltou para a Igreja, acabando por suicidar-se; Lena, sua mulher; Rinat, um antigo combatente operacional dos serviços especiais da era soviética, vítima da intriga de um oficial de secretaria, burocratas que naturalmente singraramm na era Putin. Fala-nos também da história tenebrosa da nova máfia dos Urais. Em especial do seu líder, Pashka Fedulev, que graças a uma rede de apoios e subornos na Administração se tornou um intocável. Realce para o seu antigo capanga, Nikolai Ovchinnikov, o qual foi designado por Putin para vice-ministro do Interior e chefe do GUBOP, a Agência Central de Combate ao... Crime Organizado.

1.Sobre a obra, veja-se também este comentário.
2. A recente
recusa de uma editora russa em publicar um livro de Kasparov não augura nada de bom.

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

O novo czar



A jornalista russa Anna Politkovskaya foi assassinada em Moscovo no passado sábado. Trabalhava no “Novaia Gazeta”, onde denunciava sistemáticamente os atropelos aos direitos humanos praticados pelos russos no Cáucaso e, em particular, na Tchetchénia. Publicou vários trabalhos de investigação em forma de livro, como "A Dirty War" e "Putin's Russia - Live in a failing democracy". Depois de 1989 e após alguns anos em que a liberdade de expressão foi relativamente salvaguardada na Rússia, a situação mudou um pouco após a primeira campanha do Cáucaso (1994-96). Com a chegada de Putin ao poder, em 2000, foi o que se sabe. Recentemente, a pretexto das tensões com a Geórgia, e para desviar as atenções da cleptocracia que tomou conta do país, o Kremlin tem vindo a legitimar uma onda xenófoba como nunca se tinha visto. Afinal, a vocação imperialista da Rússia continua a manifestar-se quando necessário. No blogue "Geopolítica" aparece um artigo de Nsousa, com data de Outubro de 2003, bem a propósito intitulado "A Ascenção do Czar Putin fere de morte a independência da comunicação social russa". A história está lá toda.