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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sopa da pedra

Sou espectador assíduo do programa Ponto/Contraponto, na SIC Notícias. Um emissão onde Pacheco Pereira tem oportunidade de se debruçar em pormenor sobre vários exemplos de mau jornalismo. E de como isso ilustra a falta de pluralidade e de isenção na informação. JPP é aqui, com toda a propriedade, uma espécie de provedor do cidadão, no que aos media diz respeito. E o programa é claramente um exemplo de serviço público. Ora, os baixos níveis de qualidade da maioria do jornalismo que se pratica no nosso país aferem-se, sobretudo, no tipo de tratamento dado aos temas de 1ª página. Mas nem por isso o tipo de apresentação das notícias "menores" deixará de definir também um quadro clínico de negligência e falta de rigor. Muitas vezes, é mesmo através do pormenor que se detectam os principais sintomas.
E é precisamente de um exemplo desses que hoje irei falar. Recentemente, no "Portugal em Directo" emitido pela RDP Centro, a seguir ao noticiário das 13h00, um jornalista dessa estação apresentava o "X Festival de Sopas da Serra da Estrela", em S. Paio, Gouveia. Claro que se não andasse com uma dieta semi-rigorosa às costas, tinha lá dado um pulo, mas a questão não é essa. Em termos globais, se abstrairmos do indiscutível mérito da ideia e da qualidade evidenciada, o facto em si não passa de mais uma iniciativa de promoção local. Todavia, o tratamento dado por esse jornalista foi desastroso. Após a descrição inicial, com aquele à vontade de quem associa uma mostra gastronómica a uma quermesse de feira, informou o auditório indígena que os que ali acorriam estavam (sic) "sequiosos de comer"!!! Sequiosos? Mas de comer o quê? As sopas, presumo! Confesso que, em termos semânticos, é complicado definir a apetência segregada no hipotálamo por uma sopa. Será sede? Será fome? Será uma sede que não chega a ser fome? Será uma fome envergonhada, mascarada de sede? Ou antes uma irreprimível necessidade de um aconchego da alma, por via do estômago, sem demasiado comprometimento? É de supôr que todas estas visões contraditórias passaram pela cabeça do jornalista. Se tal ocorreu depois de uma prova das sopas, é de supôr igualmente que o paradoxo se transmutou, adquirindo as propriedades do puro disparate. Se foi antes, é de acatar a hipótese de o jornalista pré-comensal ter ficado à mercê do trocadilho semântico de ocasião. Ou seja, o pau para toda a colher dos preguiçosos. E a ocasião produziu um magnífico oxímoro (figura de estilo que consiste numa contradição muito intensa e cujo significado é aparentemente absurdo). Vejamos então a definição para "sequioso" no Dicionário Priberam de Língua Portuguesa: 1. Sedento, ávido de água. 2. Seco em extremo, falto de água. 3. Fig. Sedento; ávido; muito desejoso. Como se depreende, o elemento chave é a falta de água. A qual, no limite, também pode ser a metáfora para outros apetites. Que inclui, ora aí está, o apetite de comer, perdoem-me o recurso estilístico. Portanto, não é de descartar a possibilidade de o jornalista, alucinado com os aromas de uma sopa de beldroegas, ter efectuado um trajecto linguístico singular, bizarro mesmo. Ou seja, o percurso que vai de um oxímoro a um simples pleonasmo.
Mais à frente, o jornalista entrevista alguns transeuntes. A páginas tantas, questiona um jovem sobre "o que é que andava ali a fazer"!!! Isto na suposição, presume-se, de que o jovem pudesse ser um ET, um adepto de uma claque de futebol em vilegiatura serrana, ou um pré-delinquente a quem foi dado o devido "correctivo das sopinhas". O mencionado jovem respondeu, sensatamente, que vinha "experimentar umas sopas". "Sopas?!", zuniu o jornalista. "Então vocês não gostam mais de bifes e assim?", acrescentou. Claro que a luminária queria dizer hambúrgueres. Claro que o perguntante estava surpreendido por causa de o jovem estar ali, "normalmente", e não num estabelecimento de fast food a empaturrar-se de toxinas, ou a fumar um charro, ou a insuceder na escola, ou a jogar ao braço de ferro com um professor numa sala de aula, com um telemóvel de permeio. Claro que esses clichés (temos que chamar as coisas pelos nomes), alimentados em grande parte pelos media, são de tal forma irresistíveis que o nosso jornalista não evitou sucumbir diante deles. Imaginemos que diante da sopa. Precisamente.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O "novo" Público

A nova direcção do jornal "Público" entrou recentemente em funções. Trata-se de um título que se tornou, como é sabido, num bastião no jornalismo de referência que escapou à tabloidização. Razões que justificam uma atenção especial sobre essas alterações. Ora, o editorial de apresentação evidencia alguns pontos preocupantes: 1º Sinais inequívocos de uma ostracização do antigo director, José Manuel Fernandes, o que seria perfeitamente evitável; 2º Retorno a uma espécie de idade mítica do jornalismo, sem ideologia oficial, onde imperará, adivinha-se um frentismo politicamente correcto. No entanto, diz-se "Daremos expressão a todos os pontos de vista, mas afirmaremos os nossos"! Afinal, nada que não se tenha visto antes... 3º Embora no capítulo da opinião se tenha assegurado, até ao momento, uma relativa pluralidade de pontos de vista, não é difícil vislumbrar que a redacção venha a assumir a postura de um "colectivo", extensivo à nova directora. O que levará a uma diluição das posições político-ideológicas e à responsabilidade solidária pelas mesmas. 4º Relacionado com o ponto anterior, adivinha-se a tendência para uma predominância de um certo tipo de jornalismo "em directo", ideologicamente motivado. Relembremos as inenarráveis reportagens de Alexandra Lucas Coelho no Médio Oriente. Onde a jornalista se revela como pouco menos do que provedora dos palestinianos radicais, pintando sistematicamente os israelitas como eternos perpetradores do mal.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Omo lava mais branco

Abílio Curto, o conhecido ex-presidente da Câmara da Guarda, é agora comentador no programa radiofónico "Politicamente Incorrecto", no ar desde Novembro na Rádio Altitude. Sobre o assunto já aqui fiz uma referência abertamente crítica. Recentemente, numa das suas crónicas, lançou um esconjuro contra os bloguistas que se pronunciaram negativamente acerca do seu reaparecimento público. Como nos velhos tempos, este senhor gesticula freneticamente, faz uso de uma verbosidade de feira, continua a ser o que a demissão cívica de uma cidade o deixou ser durante demasiado tempo. Ou seja, convive mal com a crítica, com a pluralidade, com uma opinião pública esclarecida e independente, com tudo aquilo que extravase a rede clientelar do amiguismo e da vacuidade ideológica e política. O que inclui a modernidade, a transparência, uma actividade cultural regular e seus agentes, e um jornalismo independente. Para "notoriedades" de província do género, o paternalismo e o apagamento da cidadania no seu entorno são o garante da sobrevivência e protagonismo na res publica. E tornam-se elementos de um estilo que, ficámos a saber, Curto nunca irá perder. Nessa crónica, chega a ameaçar os críticos, os bloggers que publicamente denunciaram a irresponsabilidade desta rentré. O que, só por si, diz tudo. Agora cabe perguntar: perdeu Curto o direito à intervenção cívica, à opinião? Evidentemente que não. Aliás, se fosse isso que estivesse em causa, podem os leitores ter a certeza que seria eu dos primeiros a avançar em sua defesa. Como faria em relação a qualquer outro cidadão. Discordasse ou não das duas opiniões. Ou ele das minhas. A questão está na oportunidade de um comentário sobre a vida política local por alguém que perdeu a legitimidade ética para o fazer. O que significa que, do ponto de vista jornalístico, abrir-lhe esse espaço representa não só uma cedência ao sensacionalismo, como não produz qualquer tipo de contraditório produtivo, nem acrescenta nada à actual dinâmica da cidade. Curto dá palpites, exorcisa fantasmas antigos, reparte elogios, excomunga, cozinha ambições e lugares, distribui presentes, alguns deles envenenados. Sobre política a sério, nada. Sobre ideias para a cidade, idem. Sobre ideologia, é melhor nem falar. A única vantagem deste discurso é lembrar à audiência como ainda decorre, em grande parte, a luta política neste canto do país. Por outro lado, Curto dá-se ares de político jubilado, a quem tudo é permitido, pois está em tudo e já não está em nada. O que só em parte é verdade, pois parte da rede clientelar que criou acabou por lhe sobreviver. Ora, no seu anátema contra os bloguistas, com recadinhos pelo meio, Curto vem lembrar como o bom povo ainda o idolatra, ou pelo menos, está certo da sua eterna gratidão. Neste momento veio-me à memória a sua imagem de marca: o "presidente das aldeias". O que inculca outra característica no seu perfil, comum a todos os caciques: o populismo. Ou seja, o homem que faz, o que no meio de cegos, o senhor entre os vassalos, o que foge do escrutínio de uma autêntica opinião pública como o diabo da cruz. Pois Curto vem agora lembrar precisamente o "bem" que fez a tanta gente. E descobre nisso a razão para a inveja dos que o atacam. Estou a falar a sério, acreditem. Ora, será que Curto "deu" algo a alguém? Os melhoramentos e benefícios onde interveio foram actos próprios de um benemérito? Obviamente que não. Um político que exerça cargos públicos é eleito precisamente para cumprir o programa para que foi sufragado, tomar decisões sobre o bem comum na circunscrição respectiva. Utilizando recursos públicos, é claro. É fundamentalmente isso que se espera dele. O grau de satisfação dos eleitores é medido sobretudo através de instrumentos que tornem possível um escrutínio permanente, de que o voto é o resultado típico. É essa a sua "gratidão", ou o seu contrário. Seja como fôr, esse sentimento deveria ser reservado para um empresário, ou um filantropo. Casos em que, por razões distintas, "dão" algo de si em benefício dos outros. Em relação aos políticos, vale a saudável regra da contratualização: a avaliação do mandato de quem é eleito determina a sua continuidade no cargo. E nada mais. Naturalmente, as qualidades humanas de um político, a notoriedade do seu desempenho, terão sempre um lugar na História e no coração daqueles que apreciarem o estilo. Todavia, tudo o que extravasar esta representação colectiva, sobretudo a reivindicação do amor da populaça pelo interessado (Vd. "O Perfume", de Patrick Süskind), o apelo a uma vaga de fundo que tudo possa justificar, a exigência de um dasagravo permanente que garanta a impunidade, não deixando de ser um assunto sério, mesmo que no domínio do small talk, remete menos para a vida pública do que para a virulência de uma ferida narcísica ainda por sarar.