A hallaca é um prato típico venezuelano, muito popular no período natalício. Consiste, grosso modo, num pastel feito com farinha de milho. O recheio consiste num guisado de várias carnes, preparado com sementes de onoto, azeitonas, cebola, passas, pimentos e ingredientes que variam consoante a região. Depois, é envolto numa folha de bananeira, atado com cordão de algodão e fervido em água. Ao que parece, a sua origem deve-se ao ensejo dos colonizadores espanhóis em "melhorar" o tamal preexistente. Ontem tive o privilégio de degustar pela primeira vez esta preciosidade. Fica o registo fotográfico. Ou seja, o antes e o depois...
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domingo, 3 de janeiro de 2010
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Sopa da pedra
Sou espectador assíduo do programa Ponto/Contraponto, na SIC Notícias. Um emissão onde Pacheco Pereira tem oportunidade de se debruçar em pormenor sobre vários exemplos de mau jornalismo. E de como isso ilustra a falta de pluralidade e de isenção na informação. JPP é aqui, com toda a propriedade, uma espécie de provedor do cidadão, no que aos media diz respeito. E o programa é claramente um exemplo de serviço público. Ora, os baixos níveis de qualidade da maioria do jornalismo que se pratica no nosso país aferem-se, sobretudo, no tipo de tratamento dado aos temas de 1ª página. Mas nem por isso o tipo de apresentação das notícias "menores" deixará de definir também um quadro clínico de negligência e falta de rigor. Muitas vezes, é mesmo através do pormenor que se detectam os principais sintomas.
E é precisamente de um exemplo desses que hoje irei falar. Recentemente, no "Portugal em Directo" emitido pela RDP Centro, a seguir ao noticiário das 13h00, um jornalista dessa estação apresentava o "X Festival de Sopas da Serra da Estrela", em S. Paio, Gouveia. Claro que se não andasse com uma dieta semi-rigorosa às costas, tinha lá dado um pulo, mas a questão não é essa. Em termos globais, se abstrairmos do indiscutível mérito da ideia e da qualidade evidenciada, o facto em si não passa de mais uma iniciativa de promoção local. Todavia, o tratamento dado por esse jornalista foi desastroso. Após a descrição inicial, com aquele à vontade de quem associa uma mostra gastronómica a uma quermesse de feira, informou o auditório indígena que os que ali acorriam estavam (sic) "sequiosos de comer"!!! Sequiosos? Mas de comer o quê? As sopas, presumo! Confesso que, em termos semânticos, é complicado definir a apetência segregada no hipotálamo por uma sopa. Será sede? Será fome? Será uma sede que não chega a ser fome? Será uma fome envergonhada, mascarada de sede? Ou antes uma irreprimível necessidade de um aconchego da alma, por via do estômago, sem demasiado comprometimento? É de supôr que todas estas visões contraditórias passaram pela cabeça do jornalista. Se tal ocorreu depois de uma prova das sopas, é de supôr igualmente que o paradoxo se transmutou, adquirindo as propriedades do puro disparate. Se foi antes, é de acatar a hipótese de o jornalista pré-comensal ter ficado à mercê do trocadilho semântico de ocasião. Ou seja, o pau para toda a colher dos preguiçosos. E a ocasião produziu um magnífico oxímoro (figura de estilo que consiste numa contradição muito intensa e cujo significado é aparentemente absurdo). Vejamos então a definição para "sequioso" no Dicionário Priberam de Língua Portuguesa: 1. Sedento, ávido de água. 2. Seco em extremo, falto de água. 3. Fig. Sedento; ávido; muito desejoso. Como se depreende, o elemento chave é a falta de água. A qual, no limite, também pode ser a metáfora para outros apetites. Que inclui, ora aí está, o apetite de comer, perdoem-me o recurso estilístico. Portanto, não é de descartar a possibilidade de o jornalista, alucinado com os aromas de uma sopa de beldroegas, ter efectuado um trajecto linguístico singular, bizarro mesmo. Ou seja, o percurso que vai de um oxímoro a um simples pleonasmo.
Mais à frente, o jornalista entrevista alguns transeuntes. A páginas tantas, questiona um jovem sobre "o que é que andava ali a fazer"!!! Isto na suposição, presume-se, de que o jovem pudesse ser um ET, um adepto de uma claque de futebol em vilegiatura serrana, ou um pré-delinquente a quem foi dado o devido "correctivo das sopinhas". O mencionado jovem respondeu, sensatamente, que vinha "experimentar umas sopas". "Sopas?!", zuniu o jornalista. "Então vocês não gostam mais de bifes e assim?", acrescentou. Claro que a luminária queria dizer hambúrgueres. Claro que o perguntante estava surpreendido por causa de o jovem estar ali, "normalmente", e não num estabelecimento de fast food a empaturrar-se de toxinas, ou a fumar um charro, ou a insuceder na escola, ou a jogar ao braço de ferro com um professor numa sala de aula, com um telemóvel de permeio. Claro que esses clichés (temos que chamar as coisas pelos nomes), alimentados em grande parte pelos media, são de tal forma irresistíveis que o nosso jornalista não evitou sucumbir diante deles. Imaginemos que diante da sopa. Precisamente.
E é precisamente de um exemplo desses que hoje irei falar. Recentemente, no "Portugal em Directo" emitido pela RDP Centro, a seguir ao noticiário das 13h00, um jornalista dessa estação apresentava o "X Festival de Sopas da Serra da Estrela", em S. Paio, Gouveia. Claro que se não andasse com uma dieta semi-rigorosa às costas, tinha lá dado um pulo, mas a questão não é essa. Em termos globais, se abstrairmos do indiscutível mérito da ideia e da qualidade evidenciada, o facto em si não passa de mais uma iniciativa de promoção local. Todavia, o tratamento dado por esse jornalista foi desastroso. Após a descrição inicial, com aquele à vontade de quem associa uma mostra gastronómica a uma quermesse de feira, informou o auditório indígena que os que ali acorriam estavam (sic) "sequiosos de comer"!!! Sequiosos? Mas de comer o quê? As sopas, presumo! Confesso que, em termos semânticos, é complicado definir a apetência segregada no hipotálamo por uma sopa. Será sede? Será fome? Será uma sede que não chega a ser fome? Será uma fome envergonhada, mascarada de sede? Ou antes uma irreprimível necessidade de um aconchego da alma, por via do estômago, sem demasiado comprometimento? É de supôr que todas estas visões contraditórias passaram pela cabeça do jornalista. Se tal ocorreu depois de uma prova das sopas, é de supôr igualmente que o paradoxo se transmutou, adquirindo as propriedades do puro disparate. Se foi antes, é de acatar a hipótese de o jornalista pré-comensal ter ficado à mercê do trocadilho semântico de ocasião. Ou seja, o pau para toda a colher dos preguiçosos. E a ocasião produziu um magnífico oxímoro (figura de estilo que consiste numa contradição muito intensa e cujo significado é aparentemente absurdo). Vejamos então a definição para "sequioso" no Dicionário Priberam de Língua Portuguesa: 1. Sedento, ávido de água. 2. Seco em extremo, falto de água. 3. Fig. Sedento; ávido; muito desejoso. Como se depreende, o elemento chave é a falta de água. A qual, no limite, também pode ser a metáfora para outros apetites. Que inclui, ora aí está, o apetite de comer, perdoem-me o recurso estilístico. Portanto, não é de descartar a possibilidade de o jornalista, alucinado com os aromas de uma sopa de beldroegas, ter efectuado um trajecto linguístico singular, bizarro mesmo. Ou seja, o percurso que vai de um oxímoro a um simples pleonasmo.
Mais à frente, o jornalista entrevista alguns transeuntes. A páginas tantas, questiona um jovem sobre "o que é que andava ali a fazer"!!! Isto na suposição, presume-se, de que o jovem pudesse ser um ET, um adepto de uma claque de futebol em vilegiatura serrana, ou um pré-delinquente a quem foi dado o devido "correctivo das sopinhas". O mencionado jovem respondeu, sensatamente, que vinha "experimentar umas sopas". "Sopas?!", zuniu o jornalista. "Então vocês não gostam mais de bifes e assim?", acrescentou. Claro que a luminária queria dizer hambúrgueres. Claro que o perguntante estava surpreendido por causa de o jovem estar ali, "normalmente", e não num estabelecimento de fast food a empaturrar-se de toxinas, ou a fumar um charro, ou a insuceder na escola, ou a jogar ao braço de ferro com um professor numa sala de aula, com um telemóvel de permeio. Claro que esses clichés (temos que chamar as coisas pelos nomes), alimentados em grande parte pelos media, são de tal forma irresistíveis que o nosso jornalista não evitou sucumbir diante deles. Imaginemos que diante da sopa. Precisamente.
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domingo, 18 de novembro de 2007
Cogumelos e tudo
A Associação Luzlinar, sediada no Feital (Trancoso), realizou ontem uma actividade chamada (ups!): "Vamos aos tortulhos, comer cogumelos e estudar macrofungos IV (passeio, almoço e conferência)". Pois o escriba esteve lá. Acaso já adivinhava que a coisa iria ser superlativa. E foi mesmo. Pena que o Outono esteja tão seco, primando os fungos pela escassez. Sobre a morfologia dos cogumelos, cuidados a ter na identificação e recolha, quais as espécies comestíveis e as razões porque Portugal é um país micófobo, remeto para aqui, aqui e aqui. A conferência, a cargo da Dra. Sílvia Neves, bióloga, teve duas qualidades fundamentais: suficientemente curta para não se tornar sonolenta; suficientemente rica em informação para estimular um conhecimento mais profundo dos fungos nas várias vertentes: características, papel desempenhado no eco-sistema, reconhecimento e classificação, utilização para fins gastronómicos, farmacêuticos ou industriais, cuidados a ter na sua recolha e preservação e, numa perspectiva antropológica, práticas e costumes associados ao longo da história. Algumas espécies são produzidas em cultura (Agaricus bisporus, Agaricus campestris, Auricularia auricula-judae, Lentinus edodes, Pleurotus ostreatus), mas a maioria dos cogumelos mais valorizados ainda não se consegue obter desta forma e por isso são recolhidos no campo e depois comercializados: Tricholoma Equestre (míscaros), Amanita caesarea (amanita dos césares), Boletus edulis (boletos ou cepes), Cantharellus cibarius, Lactarius deliciosus (sanchas), Fistulina hepatica (língua-de-boi), Macrolepiota Procera (frades ou tortulhos). De entre os mencionados na conferência, chamaram-me a atenção três espécies:
- o extraordinário Claviceps Purpurea, ou esporão do centeio. Trata-se de um fungo que cresce nas espigas do centeio. É conhecido na Beira Alta por lenticão. Tem propriedades alucinogéneas. De um dos seus alcalóides, em 1943, extraiu Albert Hofmann o LSD. Na Idade Média originou uma doença chamada ergotismo, devido ao consumo daquele cereal.
- o Amanita Muscaria, o mais popular dos cogumelos mágicos. A sua beleza carismática, difundida pela literatura e pelo imaginário popular, é proporcional à sua toxicidade, graças à psilocibina que contém.
- o Amanita Caesarea, uma das espécies comestíveis mais apreciadas desde a Antiguidade.
Reservo o inesquecível almoço para o final. Uma verdadeira ode culinária em honra dos "tortulhos". Só para fazer inveja aos leitores, aqui vai a ementa.
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