sábado, 28 de fevereiro de 2009

O vazio estridente (2)

A expressão "para quem é bacalhau basta" tem um âmbito de aplicação maior do que se julga. Na criação cultural, pode justificar a falta de talento ou de empenho. Ou até mesmo a condescendência, esse agente patogénico com efeitos devastadores na arte. O "bacalhau" a pataco é pois o álibi perfeito para a falta de audácia e de capacidade de assumir riscos. Na política, esse fenómeno é ampliado até à exaustão. Com as consequências que se conhecem. Veja-se o que se está a passar em Pyongyang. Perdão, em Espinho, no congresso do Partido Socialista.

A chave

Wordle: hh

Imagem obtida no Wordle, a partir de um verso de Herberto Helder

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O vazio estridente

Há umas horas atrás, pude escutar o início do discurso de José Sócrates, a abrir o congresso albanês do PS. O qual decorre em Espinho durante este fim de semana., como é sabido. Seguindo a clássica divisão da oratória popularizada pelo Padre António Vieira, o "querido líder", começou por exortar os celebrantes a apoiá-lo. Sim, já que a sua dívida de gratidão era imensa, e paga "al contado" a quem tamanha fidelidade lhe demonstrou, ao longo de quatro penosos anos. Não vou aqui analisar ponto por ponto o exórdio e a introdução. Queria apenas deter-me nas razões apresentadas para se candidatar a primeiro ministro nas próximas legislativas. Na altíssima ideia que tem de si, Sócrates declarou ter-se chegado á frente porque o país assim o exige. O mesmo país que anseia pela continuidade do seu programa político. O mesmo país que padece da falta de "alternativas credíveis". O mesmo país onde os spin doctors de serviço descobriram uma vaga de fundo imparável. Então pronto, já que o país tanto insiste, já que os portugueses esperam um santo milagreiro, ele avança! Vieram então os ataques à oposição, aos maldicentes, aos críticos, aos profissionais do bota-abaixo. Assunto onde o nosso Hohxa se demorou quanto baste. Evidenciando uma saudade irresistível dos tempos da ANP, onde a oposição ia para os calaboiços ou para o degredo. Até porque, caso único na nossa democracia, este Governo não teve oposição digna desse nome a perturbá-lo. Até porque o assalto à máquina do Estado pelo PS atingiu dimensões nunca vistas. Mas foi na última razão apresentada - a ética, a decência - que o discursante mais se expôs. Ou seja, forçou o discurso da vitimização até à náusea. Nada que não se esperasse. O escrutínio da opinião pública, da imprensa e dos próprios órgãos jurisdicionais, imprescindível nas sociedades abertas e democráticas, é reduzido por Sócrates a campanhas infâmes, orquestradas para manchar o seu bom nome. A maquinações destinadas a destruí-lo. Parecia uma sessão de terapia de grupo. Onde o celebrante necessita de inventar inimigos e fábulas conspiratórias para reforçar a coesão grupal. Utilizando um discurso onde nenhuma ideia pautava. Nenhum sinal de mudança. Nenhum sinal de uma nova leitura para um mundo globalizado e instável. Nenhuma resposta para a crise que comece por aceitá-la. Ao contrário de Obama, que não só enuncia os desígnios por que se bate, como diz porquê, Sócrates limita-se aos ajustes de contas domésticos, à infantilização, à pequena política. Ao precipício.

Stalker

O fogo que arde

O ano passado pelo Outono, durante um fim-de-semana, frequentei uma acção de formação na Universidade do Minho, em Braga. O tema eram as novas funcionalidades da web 2.0. Mas o assunto trazido para aqui é outro. Aproveitei a ocasião para uma escapada a Ponte de Lima, um lugar predilecto do escriba. Com passagem pela capela visigótica de S. Frutuoso e o magnífico Mosteiro de Tibães. Este último, um edifício imponente, que se destaca na clássica paisagem minhota em redor, foi recentemente objecto de obras consideráveis de reabilitação. Na área adjacente, destaco um fontanário em rocaille com um enorme reservatório circular, a área agrícola com o milheiral, várias pequenas fontes e um modesto mas fresquíssimo jardim desenhado "à francesa". Este rodeado das proverbiais vinhas em enforcado, frondosos carvalhos e castanheiros. Tudo condimentos mais do que suficientes para um amante das paisagens bucólicas, como é o caso do escrevente, se perder por umas largas horas. Mas vamos ao que interessa. O mosteiro, fundado no séc. XII, destacou-se precisamente por ter sido a casa mãe da próspera Ordem Beneditina. Até à sua venda, em 1834, por via da extinção das ordens religiosas ocorrida naquele período. O claustro principal, logo à entrada, notabiliza-se pelos painéis de azulejos ao longo das paredes. Os quais relatam os episódios mais marcantes da vida do santo fundador da ordem, S. Bento. Alguns desapareceram ou estão incompletos, fruto de actos de vandalismo. Todavia, um deles destaca-se pelo episódio nele relatado. A história é simples: certo dia, no meio das austeridades próprias da sua vida de eremita, o santo deparou-se com uma rapariga banhando-se num rio que ali passava. A qual, como se adivinha, nem mesmo o trapinho que figura no painel tinha para se cobrir. O santo homem deve ter logo rezado uns valentes Pai-Nossos e Avé-Marias, com alguns actos de contrição pelo meio e esconjuros avulso. Mas a solução não parece ter resultado. O vade retro para esta aparição demoníaca exigia medidas radicais. Pois bem, dito e feito. O santo dirigiu-se a um matagal de... urtigas. Onde se mortificou demoradamente, esperando assim que o ardor da planta extinguisse outros fogos. E é precisamente no meio das urtigas que S. Bento foi representado para a posteridade. Preservado das tentações e envolto numa espécie de pudicícia vegetal. Há imagens que valem mesmo mais do que mil palavras. Ou então, mais do que dois mil anos de história.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Só até domingo

Algumas das fotos do autor exibidas neste blogue, na série "Stalker", podem ser vistas até domingo no Café concerto do Teatro Municipal da Guarda. Mais precisamente no "Table of contents" da segunda quinzena de Fevereiro. Para quem não sabe, trata-se de uma rubrica que consiste basicamente numa mostra informal e temporária (duas por mês) de textos ou imagens colocados em mini-expositores dispostos pelas mesas do café. E cujo autor é convidado para o efeito.

Stalker