As eleições americanas deixaram de me interessar a partir do momento em que Hillary ficou de fora na corrida. O que significa que nenhum dos dois candidatos me entusiasma particularmente. Mc Cain, do mal o menos, mas o estilo não satisfaz. Obama porque desconfio de tele evangelistas e porque o Daniel Oliveira gosta dele. Todavia, não deixarei nunca de estar atento àquilo que se debate e de que forma. O cenário estava assim montado, até que apareceu Sarah Palin. O desassombro com que esta mulher desempenha as suas funções de mestre-escola anti-aborto, contra os "homenssexuais e coijas axim", saída da América profunda, dos valores restauracionistas, é matéria de um filme de David Lynch. Por outro lado, o seu estilo faz lembrar aquelas donas de casa da publicidade dos anos 50, sempre perto de um frigorífico ou de uma televisão, e com um rancho de criancinhas rechonchudas à volta. Mais cedo ou mais tarde vai-se despedir do marido à porta, também sorridente. Que traz consigo uma pasta, entra no carro, e ala que sa faz tarde, rumo à downtown. O conservadorismo de Palin tem uma matriz novecentista, puritana. O meu, paradoxalmente, tem uma génese anarquista. Mas deixemo-nos de efabulações. Palin acaba de se estender ao comprido. Ao acusar Obama de "manter relações amistosas com terroristas", durante uma acção de campanha no Colorado. Estas declarações têm invariavelmente um efeito de ricochete. Os republicanos deveriam antes tentar demonstrar que Obama não tem soluções políticas credíveis para lidar com o terrorismo. Este tipo de soundbites é que não ajuda nada. A campanha está ao rubro. domingo, 5 de outubro de 2008
Palin strikes again
As eleições americanas deixaram de me interessar a partir do momento em que Hillary ficou de fora na corrida. O que significa que nenhum dos dois candidatos me entusiasma particularmente. Mc Cain, do mal o menos, mas o estilo não satisfaz. Obama porque desconfio de tele evangelistas e porque o Daniel Oliveira gosta dele. Todavia, não deixarei nunca de estar atento àquilo que se debate e de que forma. O cenário estava assim montado, até que apareceu Sarah Palin. O desassombro com que esta mulher desempenha as suas funções de mestre-escola anti-aborto, contra os "homenssexuais e coijas axim", saída da América profunda, dos valores restauracionistas, é matéria de um filme de David Lynch. Por outro lado, o seu estilo faz lembrar aquelas donas de casa da publicidade dos anos 50, sempre perto de um frigorífico ou de uma televisão, e com um rancho de criancinhas rechonchudas à volta. Mais cedo ou mais tarde vai-se despedir do marido à porta, também sorridente. Que traz consigo uma pasta, entra no carro, e ala que sa faz tarde, rumo à downtown. O conservadorismo de Palin tem uma matriz novecentista, puritana. O meu, paradoxalmente, tem uma génese anarquista. Mas deixemo-nos de efabulações. Palin acaba de se estender ao comprido. Ao acusar Obama de "manter relações amistosas com terroristas", durante uma acção de campanha no Colorado. Estas declarações têm invariavelmente um efeito de ricochete. Os republicanos deveriam antes tentar demonstrar que Obama não tem soluções políticas credíveis para lidar com o terrorismo. Este tipo de soundbites é que não ajuda nada. A campanha está ao rubro. sábado, 4 de outubro de 2008
Alojamento de artistas
A Pensão Ulisses é a última e afortunada descoberta deste blogue. É grátis para quem não tem medo de atirar fora as certezas. Os alojamentos são do melhor. O bom gosto e a sobriedade predominam. Os muitos temas em circulação são quase sempre perigosos, polémicos, controversos, mas sempre apresentados com elegância, retocados com uma pincelada crítica, luminosa e doce.Todos os quartos têm uma ampla vista para o mar, comme il faut, e estão de costas viradas para os horizontes remotos do socialite literato, a pequenez das cidades pequenas, dos espíritos pequenos, de muitas revistas culturais. Para lá chegar, basta bater aqui ao lado, nos favoritos. Entre e deixe-se ficar, só ou acompanhado. Boa estadia.
O mobbing dos remediados - 2
Ainda a propósito do episódio que aqui relatei, o qual originou um fenómeno localizado de "troll", fui buscar as palavras sumamente apropriadas de Pacheco Pereira, num texto de 2006, que aqui poderá ser lido na íntegra. E sobre o tema em concreto, I rest my case, remetendo para o disclaimer ao lado, na caixa informação/contacto.
"No caso português, os comentadores não parecem ser muitos, embora a profusão de pseudónimos e nick names, dê uma imagem de multiplicidade. São, na sua esmagadora maioria, anónimos, mas o sistema de nick names permite o reconhecimento mútuo de blogue para blogue. Estão a meio caminho entre um nome que não desejam revelar e uma identidade pela qual desejam ser identificados. Querem e não querem ser reconhecidos. (...)
Imaginam-se como uma espécie de proletariado da Rede, garantes da total liberdade de expressão, igualitários absolutos, que consideram que as suas opiniões representam o “povo”, os “que não tem voz” os deserdados da opinião, oprimidos pelos conhecidos, pelos célebres, pelos “sempre os mesmos”. São eles que dizem as “verdades”. Mas não há só o reflexo do populismo e da sua visão invejosa e mesquinha da sociedade e do poder, há também uma procura de atenção, uma pulsão psicológica para existir que se revela na parasitação dos blogues alheios. Muitos destes comentadores têm blogues próprios completamente desconhecidos, que tentam publicitar, e encontram nas caixas de comentários dos blogues mais conhecidos uma plataforma que lhes dá uma audiência que não conseguem ter.
Não são bem “Trolls”, sabotadores intencionais, mas tem muitas das suas formas perturbadoras de comportamento. A sua chegada significa quase sempre uma profusão de comentários insultuosos e ofensivos que afastam da discussão todos os que ingenuamente pensam que a podem ter numa caixa de comentários aberta e sem moderação. Quando há um embrião de discussão, rapidamente morto pela chegada dos comentadores compulsivos, ela é quase sempre rudimentar, a preto e branco, fortemente personalizada e moralista: de um lado, os bons, os honestos, os dignos, do outra a ralé moral, os ladrões, os preguiçosos que vivem do trabalho alheio, e dos impostos dos comentadores compulsivos presume-se. O que lá se passa é o Far West da Rede: insultos, ataques pessoais, insinuações, injúrias, boatos, citações falsas e truncadas, denúncias, tudo constitui um caldo cultural que, em si , não é novo, porque assenta na tradição nacional de maledicência, tinha e tem assento nas mesas de café, mas a que a Rede dá a impunidade do anonimato e uma dimensão e amplificação universal.
O que é que gera esta gente, em que mundo perverso, ácido, infeliz, ressentido, vivem? O mesmo que alimenta a enorme inveja social em que assentam as nossas sociedades desiguais (por todo o lado existe este tipo de comentadores), agravada pela escassez particular da nossa. Essa escassez não é principalmente material, embora também seja o resultado de muitas expectativas frustradas de vida, mas é acima de tudo simbólica. Numa sociedade que produz uma pulsão para a mediatização de tudo, para a espectacularização da identidade, para os “quinze minutos de fama” e depois deixa no anonimato e na sombra os proletários da fama e da influência, os génios incompreendidos, os justiceiros anónimos, o “povo” das caixas de comentários, não é de admirar que se esteja em plena luta de classes."
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
A ponte
Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.
– Mas qual é a pedra que sustém a ponte? – pergunta Kublai Kan.
– A ponte não é sustida por esta ou por aquela pedra – responde Marco – mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, reflectindo. Depois acrescenta:
– Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde:
– Sem pedras não há arco.
– Mas qual é a pedra que sustém a ponte? – pergunta Kublai Kan.
– A ponte não é sustida por esta ou por aquela pedra – responde Marco – mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, reflectindo. Depois acrescenta:
– Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde:
– Sem pedras não há arco.
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