quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Identidade

Ilha não ilha

Ao cair do pano do ano da graça de 2007, este blogue recebeu um dos estímulos mais gratificantes desde que foi criado. Pedro Correia, do "Corta-Fitas", leitor atento deste espaço, dignou-se elaborar uma lista de bloggers que, no seu entender, pelo seu desempenho na blogosfera, melhor exemplificaram o aforismo de Jonh Donne de que nenhum homem é uma ilha. Ser incluído no rol e vindo de quem vem é efectivamente um motivo de orgulho e um desafio. Que este blogue irá naturalmente aceitar, agora que está prestes a entrar no terceiro ano da sua existência. No arquipélago, precisamente.
Por outro lado, em jeito de balanço caseiro, o ano que passou firmou a continuidade, um maior apuro gráfico e dos conteúdos. Eis um blogue unipessoal, interventivo, sério sem solenidade, bem disposto sem leviandade, confessional sem ser "o meu diário", comprometido com causas e não com interesses. Três polémicas dignas desse nome marcaram o ano: a questão do aborto, a "beira interior" e os fundamentalismos religiosos. Espero que outras lhes sucedam em 2008. A todos os que o leram, o comentaram, o referiram, o criticaram e ainda àqueles que só agora chegaram e continuarão a chegar, desejo um excelente 2008.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Stalker

O deserto

Percorrer a Rua do Comércio, na Guarda, é como fazer uma visita guiada a uma zona de guerra. Metade dos espaços comerciais estão devolutos. Não existe um único local cívico digno desse nome. Um local onde se entra, se circula, se faz uma prospecção, se encontram pessoas, se descobre algo inesperado: uma livraria, um alfarrabista, uma loja de discos, uma galeria de arte, uma loja de bom artesanato, ou um café em que algumas dessas valências coexistissem e com um serviço de qualidade, por exemplo. Por outro lado, o comércio não tem um horário diferenciado naquela área, zona histórica incluída, como deveria. Nem existe uma loja de conveniência, com um período de funcionamento que se prolongue pela noite. Evidentemente, a emoldurar estes progressos, o arranjo urbanístico deveria ser exemplar. Todavia, a realidade é dolorosa. De tal forma, que o aspecto actual da principal artéria comercial da cidade coloca-a no plano de um pesadelo balcânico.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Mnemónica

"We live, as we dream – alone."

Kurtz, em "Heart of Darkness", de Joseph Conrad (obra que inspirou o filme "Apocalipse Now")

Mosaicos - 2





Jaime Hernando Osorio Jaramillo, Animais

Falsos ídolos

Aqui não se teria dito melhor. Ontem, no "Combustões":
Porque era mulher e era livre; porque era civilizada e cosmopolita; porque pertencia àquele grupo social que pela educação e horizontes alargados não se submete ao reducionismo de uma religiosidade desesperada que se nutre do analfabetismo e do obscurantismo; porque acreditava na inevitabilidade da adesão do Islão à contemporaneidade; porque advogava tudo o que os inimigos da liberdade abominam; porque fazia frente à sharia, à lapidação, à justiça de sangue e à guerra santa, foi morta. Morta pelos barbas-de-açafrão, danada nas mesquitas e nas madrassas, Benazir não serve de desculpa aos amigos dos nossos inimigos. Não era serva nem factotum de Bush, não era ditadora nem violara os sacrossantos pergaminhos da democracia, não se lhe conheciam amizades sionistas nem jamais abdicou do véu. Eles odeiam tudo o que não entendem, pelo que hoje, mais que uma derrota da Liberdade, a morte de Benazir Bhutto é um claro demarcador entre a civilização e a barbárie. A escolha nunca foi tão clara. Ou se está por "eles" ou se está pela comunidade de valores que, no Ocidente como no Islão laico, defende a retirada do confessional para o mais estrito domínio das escolhas individuais. Como aqui por mais de uma vez se disse, o estertor de um certo Islão nutre-se da violência do desespero. O tempo demonstrará que, no limite, os maiores inimigos do Islão foram esses loucos de Deus que não compreenderam que o tempo de uma certa ideia de religiosidade impositiva, purificadora e totalitária desapareceu.