terça-feira, 30 de outubro de 2007

Oh, Up Yours Tony


Existe algures em Londres uma criatura saída do esgoto que dá pelo nome de Tony Parsons. Sabe-se que é colunista e escreveu uma biografia sobre George Michael. Em síntese, mais um paparazzo capaz de alinhar dois parágrafos. Pois bem, o emplastro acaba de assinar um artigo no "The Mirror", onde insulta despudoradamente o embaixador português em Londres, António Santana Carlos e faz uma série de alusões de carácter xenófobo em relação ao nosso país. Isto a propósito de uma entrevista que aquele concedeu ao "The Times", onde comentou o caso Mc Cann. O hominídeo aconselhou-o a "manter fechada a sua estúpida boca de comedor de sardinhas" e referiu-se à polícia portuguesa como "estúpida e cruel". A arrogância prossegue, atacando a "aterradora" imprensa portuguesa, sempre disposta a publicar qualquer pedaço de lixo tóxico. Uma prática desconhecida na velha Albion, como se sabe. Onde um tablóide espreita em cada esquina. E é precisamente num dos mais emblemáticos que pasta o nosso Tony "Thin Dick" Boy. Que aproveita ainda para afirmar que os apupos dos populares a Kate McCann "não foram de outro país, foram de outro planeta". É claro que o jornal deveria imediatamente enviar um pedido de desculpas ao Embaixador e aos portugueses. Todavia, a estratégia dos Mc Cann ganha peso e medida: a criação de uma turbulência mediática que passa pela xenofobia, o reavivar de preconceitos colonialistas, a insinuação de uma polícia incompetente, uma imprensa venal e uma opinião pública terceiromundista. Isto é, a criação de um casus belli com incidências nacionalistas, uma cortina de fumo propícia à confusão e à vitimização. De resto, a pose imaculada dos Mc Cann sempre me levantou suspeitas. A adesão obsessiva a uma exemplaridade moral, tecida através de spin doctors e bons contactos, é mais própria de um sociopata ou de uma consciência que sufoca sob o peso do remorso. Mas é unicamente às autoridades policiais que cabe concluir as averiguações. Para os Tonys refocilantes e restantes zotes pagos pela task force de public relations dos Mc Cann, aqui vai pois o respectivo. Se não chegar, este vai a seguir.

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Lido

espera-me onde tudo ficou por dizer
nessa casa de mágoa
entre árvores
no meio da solidão
num jardim de Outubro
perto do fim

A.M., no "Imitação dos Dias"

A estação sem apeadeiros

1984

Estas são realmente as coisas que me assustam. A deriva totalitária e as formas de controlo sobre o tráfego da web, numa excelente postagem de Rui Bebiano. Que remete para um artigo saído no Suplemento Digital do Público, intitulado "Quando os governos preferem que o seu país fique offline". A lista negra começa no Panamá e acaba em Cuba, passando pela China, Coreia do Norte, Bielorrússia e alguns países islâmicos. Muitos deles, santuários onde são inquestionáveis as verdadeiras liberdades, segundo o PCP.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Crimes exemplares - 18

L. é um homem de 55 anos. Há quinze anos que está reformado por invalidez psicológica, a família preferiu assim. Nunca casou e desde a morte dos pais passou a viver na casa do irmão mais velho que lhe arranjou um biscate onde se vai entretendo e juntando mais uns tostões à magra reforma que recebe do estado.
L. quase não fala. Até um ‘bom dia’ é coisa difícil de se lhe arrancar dos lábios. Não se sabe ao certo se vive de acordo com a sua vontade; nunca abriu a boca para dizer o que queria assim como nunca se queixou do destino que a família lhe escolheu. Vive hermeticamente dobrado sobre si próprio e os seus olhos negros terrivelmente brilhantes e irrequietos como o voar de uma mosca parecem ganhar alguma tranquilidade apenas quando o vemos regressar das longas caminhadas que faz todos os dias.
Na família não há memória de alguma vez L. ter tido amigas ou amantes. Pelos trinta e poucos, as irmãs, substituíram-se à sua extrema timidez e fizeram-lhe um arranjinho com a solteirona lá do bairro. Era vê-los todos os domingos sentados no banco de pedra em frente ao café, ele sem abrir a boca debruçado sobre os joelhos e ela tagarelando a tarde inteira fazendo as perguntas e respondendo por ele. Mas nem a anafada da J. resistiu a tanta apatia e continua até hoje sozinha à espera de arranjar marido. Anos mais tarde, o primo M., que tem fama de gabiru, pegou nele e levou-o às putas, mas L. nem uma nem duas, voltou de lá sem saber o que a coisa era.
A família de L. há muito tempo que não questiona a sua estranha existência. Dão-lhe cama e roupa lavada e lá deixam o homem viver à sua maneira. Das longas e misteriosas caminhadas adivinham apenas que regressa feliz. De tal forma que ninguém estranha umas manchas vermelhas que às vezes aparecem nos sapatos.

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Graffitis - 22


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domingo, 28 de outubro de 2007

Diário de um tolo

As abluções domingueiras aconselham uma colheita de pensamentos originais, desalinhados, clarividentes, de uma circunspecção à prova de fogo. Por conseguinte, deveria destilar um brilhante silogismo, um naco de ironia, uma posta de saber com provas dadas, que se sustem à beira do abismo do auto convencimento, um vôo poético de fazer inveja, uma carga certeira no bombo da festa do momento, um feixe de luz para um sentido oculto, um casus belli desencantado onde ninguém esperaria, o xeque-mate numa polémica à beira da caducidade, tudo isso, o exercício de austeridade virtual, o mantra cibernético, a erudição prostituída, o cheirinho a obscuridade, só porque sim, ou porque não, a solidão desfeita e refeita. Contudo, por mais que tente, é a alquimia que não sai, que se tornou impossível, porque basta estender a mão e respirar.