quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Sempre a Amante Ultrapassa o Amado

O destino gosta de inventar desenhos e figuras. A sua dificuldade reside no que é complicado. A própria vida, porém, tem a dificuldade da simplicidade. Só tem algumas coisas de uma dimensão que nos excede. O santo, declinando o destino, escolhe estas coisas por amor a Deus. Mas que a mulher, segundo a sua natureza, tenha de fazer a mesma escolha em relação ao homem, isso evoca a fatalidade de todos os laços de amor: decidida e sem destino, como um ser eterno, fica ao lado dele, que se transformará. Sempre a amante ultrapassa o amado, porque a vida é maior do que o destino. A sua entrega quer ser sem medida: esta é a sua felicidade. A dor inominada do seu amor, porém, foi sempre esta: exigirem-lhe que limitasse essa entrega.

Rilke, in "As Anotações de Malte Laurids Brigge"

Diário de um tolo - 14

Ontem estive em Sintra, mais propriamente no Tribunal, onde tinha marcada uma intervenção num julgamento. Apresentei-me no enorme edifício com pontualidade britânica. Pois bem, duas horas e meia depois, e após ter verificado que todos os intervenientes se encontravam presentes, sou chamado à sala. Onde a juíza me informou ter havido uma sobreposição de marcações e que, por esse motivo, a audiência se realizaria na segunda data marcada - quinze dias depois. Fê-lo de uma forma especialmente atabalhoada, defensiva. Pois não ignorava a dimensão do seu erro. Quando dei conta do que se estava a passar, numa primeira fase adoptei a pose b-428: de pé, olhar fuzilador, queixo levantado. Mas percebendo que, embora o movimento possa ter resultados saudavelmente intimidatórios, poderia haver danos colaterais e mesmo "fogo amigo", passei imediatamente para a pose f-5119.2: a chamada lânguida-assassina, resultado de uma ira elaborada, apresentada sob as vestes de um impulso genuinamente sedutor, mas terrivelmente destrutivo. Lembrei então a meritíssima que percorreria 700 km para estar presente na sessão. E que, sabendo que nenhum dos motivos previstos na lei impediria a realização da audiência, posteriormente iria consultar a justificação para o adiamento consignada em acta. Já com a pose citada no máximo da intensidade (e com uma jovialidade extra) acabei por dar o tirinho final: estava a pensar mudar de ramo e abrir uma agência de viagens.
Cá fora - saturado de tanta displicência, tanto desperdício, tanta falta de respeito da Justiça pelos cidadãos, e de um Tribunal pelo patrocínio forense que, segundo a Constituição, é um "elemento essencial à administração da justiça" (art.º 208.) - lembrei-me que estava em Sintra. E não hesitei em dar um pulo até Seteais, um local da minha especial predilecção. E também de Marguerite Yourcenar, que aqui chegou a passar algumas temporadas. Após uma breve digressão, dirigi-me ao miradouro, por trás do grande arco. E sem esperar, vivi um momento único. Algo próximo de uma visão doce, magnânima, inexplicavelmente próxima do que não se conhece, do que se teme, do que se espera, do que se ama. A plenitude intocada da vida mesmo ali, ao meu alcance, devolvendo-me a paisagem transfigurada.

sábado, 27 de janeiro de 2007

Manual de instruções

Curtas

Afinal, a campanha desencadeada pela opinião pública e meios especializados contra a famigerada TLEBS surtiu efeito. Segundo o "Público", o Ministério da Educação anunciou que irá emitir uma Portaria que suspende a aplicação da terminologia . Mas com efeitos só no próximo ano lectivo. Entretanto, quer o alunos quer os professores envolvidos no processo ficarão a saber que estão a ensinar e a aprender algo que para o ano que vem será outra coisa. Acreditam? Mas o assunto não se esgota aqui. Um dos membros designados para a recém-criada comissão de revisão tem interesse directo na actual terminologia. A promiscuidade é a palavra de ordem em todo este processo. Os contornos desta história são contados no "Da Literatura".

Partida

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

A náusea

Tenho percorrido alguns blogues que, explicitamente, convocam ao voto no "Não", no próximo referendo. Li coisas inacreditáveis. Falácias puras. Destinadas unicamente a baralhar e distorcer o debate em curso. A mensagem é, muitas vezes, apocalíptica. Acenam-se fantasmas como o da "liberalização do aborto", a sua "inscrição como direito fundamental", o aumento catastrófico do seu número, em caso de vitória do "sim", o "genocídio" que vem aí, o apelo à desobediência civil, não pagando impostos que financiem a "matança", etc. A criação de um cenário angelical faz parte do programa: basta ver a profusão da amostragem de bebés, com músicas de fundo em defesa de uma "vida" onde aqueles que a geram não têm qualquer possibilidade de decidir. Pois o assunto já está sentenciado pelos que querem manter esta lei iníqua, exclusivamente em favor das suas convicções particulares. E logo num domínio interdito: a auto-determinação do corpo e da reprodução. A evidência é esta: a possibilidade legal de a mulher interromper a sua gravidez até às dez semanas, sem riscos e sem medo não faz aumentar o número de abortos. Basta ver as estatísticas de países onde o enquadramento legal nesse sentido já existe há muito. Para além do que, acreditar no contrário, é não querer entender a penosidade e as circunstâncias que levam a mulher a tomar a decisão de abortar. Todavia, mantendo-se a lei actual, como querem os defensores do"não", tal significa que essa mulher, nas mesmas circunstâncias, pode ser condenada pela prática de um crime. É esta a diferença abissal entre o reconhecimento pelo Estado de os cidadãos poderem exercer uma faculdade, em condições dignas, e a imposição de um estigma moralmente inaceitável, com os efeitos perversos - aborto clandestino - que se conhecem. Negando estas evidências, numa demonstração inequívoca de má-fé, os adeptos do status quo passam ao lado do que é fundamental, optando pelo mais fácil: baralhar, confundir, branquear, mascarar a desumanidade que querem manter com propósitos salvíficos.
Entretanto, fiquei hoje a saber no Público que o blogue "Pela Vida" tem links direccionados para outros blogues notoriamente de inspiração fascista e nazi. Como exemplos: Fascismo em Rede, o Pasquim da Reacção, Kombat Mortal, Império Lusitano, Alma Pátria, Jovem NS, Estado Novo, PNR Aveiro e Último Reduto. Todos incansáveis defensores do "Não", como já devem ter adivinhado. E todos filiados em correntes ideológicas que muito prezam a "Vida", como se sabe. Não eram os franquistas que gritavam "Viva la muerte"? Todavia, acredito que esta circunstância seja meramente conjuntural e tem a importância que merece. Mas, organicamente, deu-me um sinal precioso: BASTA!
Este debate assinala uma recomposição do país que cai muito para além da política. Reacende arcaísmos, preconceitos de classe, atavismos fundamentados em crenças religiosas e filosóficas, diferenças profundas de ordem sociológica, demográfica ou cultural, colocando o pior do país "antigo"e o pior do país "moderno" num destaque imerecido, mas útil. E o que vi já chega. Já anunciei o sentido do voto. Já dei o correspondente contributo para o debate. Mas agora impõe-se o silêncio. A vida é realmente um mistério e uma das formas de a venerar é não contrabandear com a dor que ela encerra. Fica assim encerrada, pela minha parte e neste espaço, a discussão sobre o tema. Voltarei para a regulamentação da futura lei. Essa sim, uma questão em que as opções políticas de gestão de meios se tornarão mais prementes.
PS: Vou abrir uma única excepção em relação ao silêncio prometido. A razão é desculpável: o líder do PSD, Marques Mendes, foi "apanhado" em Aveiro pela comunicação social, por "mero acaso", como "cidadão", num conclave dos medievalistas pró-não. Sabem que mais?: o deputado, com a boca na botija, disse precisamente o mesmo que o Bispo de Viseu. Ipsis verbis. De perna aberta, quis agradar sobretudo a gregos, mas acenar com o lenço aos troianos. Uau! Que triste intermezzo para a penosa tragi-comédia quotidiana dos políticos!

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

O Grande Português

Toda a gente já ouviu falar no programa da RTP "Os Grandes Portugueses". Recentemente, foram eleitos 10 "finalistas" de entre os 100 que maior votação recolheram. Entre eles está Salazar e Álvaro Cunhal. É nestas alturas que me apetece dizer, num assomo à Almada Negreiros, "então quero ser espanhol!"
Mas a história não fica aqui: nesses 90 que ficaram de fora figuram Catarina Eufêmia (não é por nada, mas quanto a mitos prefiro a padeira de Aljubarrota), um tal Hélio Pestana (nem sei quem é o vate), essa figura exemplar da fruticultura, de sua graça Pinto de Costa e, por último, Alberto João Jardim (palavras para quê?).
Tudo isto seria unicamente paródico se não fosse um verdadeiro insulto a alguns grandes portugueses que nem sequer foram mencionados: os emigrantes, Fernão Lopes, Martim Moniz, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Sá de Miranda, Pero Vaz de Caminha, Amadeo de Souza Cardoso, Amato Lusitano, Teixeira de Pascoaes, José Matoso, Jorge de Sena, Bartolomeu Dias, Vieira da Silva, Emmanuel Nunes, Oliveira Martins, Domingos Bomtempo, Infante D. Pedro, Garcia da Horta, José Cardoso Pires, Venceslau de Moraes, Paiva Couceiro, Agustina Bessa Luís, Manoel de Oliveira, Mário Cesariny, José Régio, Nuno Gonçalves, Garcia de Resende, Sophia de Melo Breyner, Luísa Tody, Emídio Santana, Alexandre O'Neill, Pedro Nunes e tantos, tantos outros.

Por tudo isto, o meu voto de pesar por esta farsa de mau gosto fica expresso na minha escolha: um sólido e sugestivo exemplar da genuína loiça de Caldas, devidamente adornado.