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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Diário de um tolo - 16

Na semana passada regressei a Sintra, por uma tarde. Na continuação do episódio caricato que revela o funcionamento da Justiça e que aqui relatei. Neste caso, não sei se tem a ver com insegurança dos magistrados, atribuível ao início de carreira. Ou ao próprio funcionamento caótico daquele Tribunal. Ambos o magistrados eram mulheres. E isso pode explicar muita coisa: mostrar um excesso de zelo defensivo pode ser o melhor argumento para a irrepreensibilidade na carreira. Mas é péssimo para a aplicação equilibrada da Justiça. É claro que, mais uma vez, a audiência foi suspensa. Desta vez porque, ao contrário da primeira, não estavam presentes duas testemunhas. E mesmo assim não se deu início à sessão. Agora que houve duas faltas, isso já constituiu motivo para a continuação! E nada pude fazer, pois o MP não prescindiu delas.
O melhor de tudo foi o diálogo interessante que mantive com um casal de franceses, no comboio para Sintra. Às tantas resolveram perguntar-me qual era o primeiro nome do "président de la Comission" Barroso. Lá os elucidei, e ainda que, quando foi nomeado, vinha de ocupar o cargo de PM e não de Ministro dos NE, como pensavam. Um "libérrrral?" Percebendo que esta palavra tem em Portugal uma conotação que não tem no resto da Europa, respondi que não, não senhor, porque no nosso país há uma tradição omnipresente do Estado em todos os domínios e, como tal, ainda é muito cedo para um verdadeiro liberal chegar a PM. A conversa prosseguiu com as eleições presidenciais em França. Questionei-os se o outsider Bouvet, o conhecido activista anti-globalização e pela "cozinha lenta" sempre faria a campanha da prisão. Fiquei a saber que esse episódio foi deliberadamente empolado por si para aumentar a simpatia do eleitorado, mas que, em rigor, a sua popularidade é escassa. A tarde estava chuvosa e nublada. Ao despedir-me, após algumas algumas sugestões de visita, felicitei-os porque "escolheram" o tempo certo para se descobrir Sintra.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Diário de um tolo - 14

Ontem estive em Sintra, mais propriamente no Tribunal, onde tinha marcada uma intervenção num julgamento. Apresentei-me no enorme edifício com pontualidade britânica. Pois bem, duas horas e meia depois, e após ter verificado que todos os intervenientes se encontravam presentes, sou chamado à sala. Onde a juíza me informou ter havido uma sobreposição de marcações e que, por esse motivo, a audiência se realizaria na segunda data marcada - quinze dias depois. Fê-lo de uma forma especialmente atabalhoada, defensiva. Pois não ignorava a dimensão do seu erro. Quando dei conta do que se estava a passar, numa primeira fase adoptei a pose b-428: de pé, olhar fuzilador, queixo levantado. Mas percebendo que, embora o movimento possa ter resultados saudavelmente intimidatórios, poderia haver danos colaterais e mesmo "fogo amigo", passei imediatamente para a pose f-5119.2: a chamada lânguida-assassina, resultado de uma ira elaborada, apresentada sob as vestes de um impulso genuinamente sedutor, mas terrivelmente destrutivo. Lembrei então a meritíssima que percorreria 700 km para estar presente na sessão. E que, sabendo que nenhum dos motivos previstos na lei impediria a realização da audiência, posteriormente iria consultar a justificação para o adiamento consignada em acta. Já com a pose citada no máximo da intensidade (e com uma jovialidade extra) acabei por dar o tirinho final: estava a pensar mudar de ramo e abrir uma agência de viagens.
Cá fora - saturado de tanta displicência, tanto desperdício, tanta falta de respeito da Justiça pelos cidadãos, e de um Tribunal pelo patrocínio forense que, segundo a Constituição, é um "elemento essencial à administração da justiça" (art.º 208.) - lembrei-me que estava em Sintra. E não hesitei em dar um pulo até Seteais, um local da minha especial predilecção. E também de Marguerite Yourcenar, que aqui chegou a passar algumas temporadas. Após uma breve digressão, dirigi-me ao miradouro, por trás do grande arco. E sem esperar, vivi um momento único. Algo próximo de uma visão doce, magnânima, inexplicavelmente próxima do que não se conhece, do que se teme, do que se espera, do que se ama. A plenitude intocada da vida mesmo ali, ao meu alcance, devolvendo-me a paisagem transfigurada.