quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Monólogo do Anjo

Estais aí. Desse lado da luz. Quis sempre descobrir-vos, sabeis? Surpreender-vos devagar nesta terra feroz e sumptuosa. Escutar as vossas preces. Comover-me com a doce fragilidade da vossa esperança. Adivinhar-vos os pensamentos. Beber-vos as emoções. Mesmo as mais secretas. Sobretudo as mais secretas. Para mim, cada dia é um caminho diferente. Uma palavra guardada que me espera. Sempre acompanhado do gracioso sussurro das aves, respondendo-vos quando o vosso campo se recusa encher-se de papoilas...
Às vezes, a luz esmorece. Porque as palavras que me procuram são palavras de crianças presas no tempo. Mas deixai-me sentar numa nuvem e dar pontapés na Lua, pois era como eu devia ter vivido a vida toda: dar pontapés até sentir um tal cansaço nas pernas que elas já não me deixassem voar.
Às vezes tenho tonturas. Quando olho para baixo, vejo sempre planícies muito brancas, intermináveis, povoadas por uma enorme quantidade de sombras. Sentado numa nuvem, na lua, ou em qualquer precipício, eu sei que as minhas asas voam para vós e as tonturas que a planície me dá são feitas por mim, de propósito, para irritar aqueles que não sabem subir e descer as montanhas geladas. Mas não quero que me ofereçam sombras. Não quero que me contem as vossas aventuras. Não quero que me escondam a vossa monstruosa inocência. Pois se fordes tocados por toda a beleza do mundo, conhecereis então a imensa crueldade que ele encerra.
Sou um desconhecido movendo-se constantemente no deserto, onde cada pegada deixa bem marcada na areia a imagem dessa outra existência em que a morte e a memória já nada significam. Mas as asas, as asas que sinto bem presas, seguras, essas, ficai a saber, podem ainda esmagar com cuidado, com extremo cuidado, dilacerar suavemente, pois nos olhos está o amor, o misterioso voo das aves que partem para o desconhecido.
Eu sei que para todos vós há um lugar por descobrir, um lugar tenebroso e cantante. Simples como é a claridade, torna-se a coisa mais difícil de encontrar. Talvez porque a distância que nos separa, longa, muito longa, seja a torre de chumbo do vosso próprio isolamento, talvez porque sentir o aparecimento da madrugada seja a origem da música onde a palavra se apaga. Criem-na. Sem medo. E agora, outros mais longe me chamam. Adeus, meus amigos. Estarei sempre, sempre convosco.

(Texto incluído no guião da peça teatral Guarda, Paixão e Utopia, apresentada no TMG nos dias 26 e 27 de Novembro)

Imagens de Portugal romântico - 12

Amarante
Portimão, foz do Arade
Lisboa, torre de Belém

terça-feira, 28 de novembro de 2006

O apito das aves

(clicar para ampliar)

Diálogos no Olimpo -2

B: assim ninguém chateia. podes desligar o canal…alô! A:-))) já desliguei! B: o tal canal? A: sim, esse. E então aí pela lancia oppidana? B: nem imaginas o perfume q por aqui vai...A: alguma nova ETAR? B: não, o perfume é outro: umas trocazinhas de favores entre as famílias do costume e amigalhaços…A: mas isso não acontece em todo o lado? B: aqui é + à descarada. perante o fenómeno os antropólogos dividir-se-iam entre considerá-lo um potlach invertido, em q todos põem mas só alguns tiram para si e para oferecer aos afilhados, ou uma variante mansa e benigna de compadrio à siciliana, naturalmente sem ofertas q ñ se podem recusar e senza il capo di tutti capo, enfim, uma coisa mole, discreta, acolitada por serranas pancadinhas nas costas, lol…A: mas é assim tão mau? B: impede que a região se desenvolva, sendo q o mérito e a excelência fogem daqui como o diabo da cruz…A: ñ estás a exagerar? B: antes fosse…A: o livro k vais escrever fala de k? B: já lá vamos...mas antes, o q causou o teu momento de felicidade? pode-se saber? A: ñ sei…B: talvez o vento...lolol…A: não havia vento…aliás havia pq eu estava a dançar, mas era só esse…B: então talvez as notícias de um país distante e q teimas em ignorar...A: por momentos deixei de ignorar talvez tenha sido por isso…mas foi mt bom! B: exactamente. eram os teus a chamar-te. os hobbits...ñ é que esteja a chamar-te baixinha...lol. A: pois. :)). k são hobbits?? B: ñ viste o senhor dos anéis? A: vi, mas ñ tou a ver os hobbits…B: eram aqueles habitantes da aldeia de onde saiu o herói: pequeninos, rechonchudos e sempre felizes...A: ahh, tipo duendes! adoro duendes…B: já falaste com algum? A: adorava! dizem k ainda existem e q era parecida com um. k achas? B: pela foto q mandaste, tens bastantes semelhanças...A: J)), tb acho. B: só q não andas aos saltinhos, excepto em ocasiões especiais, lol…A: só qd ponho tacões altos…B: já sei o q foi. é o Outono que está a chegar...A: ñ gosto do Outono, costumo ficar deprimida. B: errado. a época das depressões é a primavera...aquele verde, aquela positividade obrigatória, é como ter de recitar o hino na escola primária...A: isso é paranóia. B: ñ, é só nóia, lol. já topaste a quantidade de cores q agora há? A: por aki nota-se pouco, mas vai dos vermelhos aos castanhos, a variedade é pouca. B: aqui nota: as uvas a serem recolhidas, as folhas a descreverem o último voo antes de encontrarem o chão, os soitos a abarrotar de castanhas, um cheiro novo q paira...A: pois e as pessoas a recolherem toda a lenha k podem para depois se fecharem em casa. é triste. B: como a cigarra...A: pois, estás a ver!!! depois vem a tempestade e lá vai a cigarra e a formiga na maior. B: achas isso triste? É só mais uma página se quer virar! o Outono é esperança pura...A: o Outono é esperar pelo Inverno. :-) hoje estou no contra. B: ñ! é esperar simplesmente. A: escolhi uma boa ocasião para ter um ataque de felicidade, amanhã gostava de me sentir assim outra vez. B: como vês é fácil. e não há contra-indicações...A: a sério q sentiste o mesmo ontem? B: sim, pq vejo uma série de projectos a concretizar-se, mas só os meus olhos os vêem...A: ainda ñ posso dizer o mesmo mas vou no bom caminho. B: sim, a passo de caracol e a assobiar para o ar, mas tenho a certeza que vais...:)) A: as cigarras são assim…B: há um haikai japonês q diz: "Silêncio: as cigarras escutam o canto das rochas". então já vais? A: vou tomar banho. adorei este bocadinho aki ctg. B: eu tb. então esfrega bem as costas...lol…

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segunda-feira, 27 de novembro de 2006

The day after

Ontem foi a estreia do espectáculo Guarda, Paixão e Utopia, uma co-produção TMG/ACERT, integrada nas comemorações do 807º aniversário da cidade e já aqui anunciada. A peça foi muito bem recebida pelo público, como espero o venha a ser também hoje. Como tive oportunidade de escrever na folha de sala do espectáculo, a propósito da concepção do guião, a opção seguida foi a criação de uma ideia “da” Guarda “para” a Guarda: uma narrativa não documental, diacrónica, baseada no “real”, mas colocando-o ao serviço das finalidades próprias de um espectáculo teatral, com forte componente musical e coreográfica. Arquitectada segundo uma tensão dialéctica entre um discurso optimista e outro pessimista – o Anjo da Guarda e o Velho - resolvida num clímax final absolutamente surpreendente. Concluída a apresentação, algumas reflexões:
  • desde logo, o próprio processo de produção. Esta é uma obra colectiva por excelência, com cerca de 250 pessoas envolvidas, a grande maioria pertencente a colectividades locais. Mas nem por isso as dificuldades inerentes à reunião, num projecto artístico, de tanta gente, se pareceram sentir. É simplesmente espantoso observar o resultado produzido com os mais diversos contributos artísticos, técnicos e logísticos, como se de uma só voz se tratasse. Grande parte do mérito, há que reconhecê-lo, vai para a direcção artística do projecto. Mas nada disto seria possível sem um prévio e demorado trabalho de apoio e consolidação das colectividades envolvidas.
  • esta peça pode muito bem marcar uma nova etapa na consciência cívica da Guarda. Não é impunemente que se congregam vários grupos de teatro, ranchos, filarmónicas, coros, fanfarras, actores, etc., ao serviço de uma proposta teatral única, talvez a nível nacional. Como se a generosidade e o talento de tanta gente tivessem brilhado com uma magnitude imprevista. Mas sinaliza sobretudo a afirmação da cultura como agente primeiro de qualificação e desenvolvimento. Aqui como em qualquer outro local. Talvez aqueles que negavam esta evidência reconsiderem as suas posições. Há batalhas que se vencem aos pontos. Até todos perceberem que ninguém perde.
  • o meu contributo, para além da co-autoria do guião, passou também pela representação: o poeta que inaugura a luz. Foi, sem dúvida, das experiências mais gratificantes em que tomei parte neste cidade.

O regresso de Tom Waits

Acabou de sair o último trabalho de Tom Waits: Orphans. Trata-se de uma recompilação de material gravado para albuns anteriores e não utilizado, aqui alinhado em três partes distintas: Brawlers, Bawlers e Bastards. Ao longo de 56 canções e 3 discos, foram capturados os poderes "xamânicos" de Tom Waits como vocalista, poeta, melodista, arranjador e pioneiro de ambientes sonoros únicos.
Esta edição limitada, assinada e produzida por Waits e sua mulher, Kathleen Brennan, contém 30 novas gravações, nunca antes escutadas , e ainda temas raros retirados de colaborações com vários artistas em filmes, livros e música — completado com um booklet de 94 páginas manuscritas com as letras e fotos nunca vistas.
Cada um dos CD’s está arranjado separadamente, com os títulos referidos, de modo a assegurar uma perspectiva tão completa quanto possível da variedade de estilos musicais experimentados por Tom Waits.
Brawlers é apresentado como o roadhouse Waits... Que explode, assobia e grita. São os primitivos e surreais blues, convocados os Stones, Beefheart, Muddy Waters e T-Rex.
Bawlers – Baladas intimistas sobre a tristeza no final da estrada são emolduradas por delicadas canções sobre a inocência e uma esperança jovial.
Bastards – explora o lado estranho e pouco comum de Waits. Encontramos aqui os seus temas mais experimentais e estórias bizarras. Há diversões inclassificáveis neste lado sombrio. Que atravessa e cidade com longos discursos, spoken words, ritmos vocalizados, um cover dos Ramones e uma versão de Daniel Johnston, “King Kong,” uma perturbante história de embalar e um poema de Charles Bukowski.
Imprescindível.