terça-feira, 31 de outubro de 2006

Acabou de sair mais um número da revista Atlântico. Trata-se, quanto a mim, da melhor publicação sobre temas de actualidade política - e não só - existente em Portugal. A maioria dos articulistas são igualmente bloguistas activos, notando-se uma desenvoltura e um discurso escorreito muito próprios da blogosfera. É claro que as análises efectuadas nem sempre merecem a minha concordância. Mas habituado que estou à ideia de que o bem-comum é uma categoria necessariamente partilhada, sei reconhecer quando ela é feita com pertinência. O que é o caso.
Neste número, de realçar o excelente artigo de Enrique Pinto Coelho intitulado Espanha-Portugal: de costas voltadas?, acompanhado de um pequeno glossário dos grandes equívocos entre os dois países. Como por exemplo, o fantástico artigo definido "lo" utilizado no "portunhol" ou "espanholês" corrente, o "Juanito Camiñante" e outros lugares-comuns, aqui desmistificados. Destaque também para os artigos Pacto para a Injustiça, de Nuno Garoupa - uma análise crítica do que falhou no recente pacto entre o PS e PSD - bem como O Aborto: um dilema Liberal, por Rui de Albuquerque - uma breve recensão bem enquadrada e plural do problema, numa perspectiva liberal.

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Every leaf is a flower

domingo, 29 de outubro de 2006

Êxodus

Fui ver a última produção teatral do Aquilo. A peça chama-se "Êxodo Rural: Rural Industrial", com encenação de Bernhard Bub. Um espectáculo visualmente poderoso, graças a uma complexa estrutura cenográfica, em metal, onde foram acoplados vários maquinismos, instrumentos de percussão e adereços mecânicos. Decerto se pretendeu reproduzir um estaleiro de obra pós-industrial, onde as funcionalidades cénicas se multiplicassem. De realçar igualmente a banda sonora, que conseguiu evocar as ambiências pretendidas.
No entanto, notam-se aspectos menos conseguidos. Desde logo, ao nível da direcção de actores, sendo notório que estes, em alguns momentos, deambulassem de forma errática pelo espaço, numa completa descoordenação de movimentos. Dando a entender que não havia marcações específicas para esses períodos.
Por outro lado, o espectáculo enferma de um problema estrutural que já havia detectado nas últimas produções dos Fura del Baus: uma sucessão de efeitos - espectaculares, é certo - mas sem qualquer fio narrativo que os enquadre, como se o artifício valesse por si próprio. Ora, no teatro, o artifício só é entendível se ao serviço da naturalidade. De outra forma, o actor desaparece, substituído por uma série de automatismos de ordem técnica.
Mas há ainda um equívoco fundamental na arquitectura desta peça: uma ingenuidade tributária de Rousseau, que inquina definitivamente qualquer suposto propósito pedagógico associado. No texto que acompanha o espectáculo pode ler-se: Nós próprios, perante a onda industrial do progresso, temos a sensação que este desenvolvimento nos divide em duas partes e que nos poderá custar as nossas origens, a nossa cultura e até a nossa própria existência. (...) Por entre o barulho da "máquina" os humanos ainda procuram a sua sorte. Como se poderá depreender, este discurso sinaliza um retorno de 200 anos, transportando-nos aos luddites - um movimento nascido da Inglaterra, no início do séc. XIX, contra a mecanização da indústria têxtil e que promovia a destruição pura e simples das máquinas - e ao inefável bom selvagem. Ignora-se completamente a modernidade - com a sua apologia da máquina, a descentralização do objecto artístico, o nihilismo como condição moderna por excelência - propondo-se um retorno a uma naturalidade que a própria peça desmente, enquanto proposta artística.
Dois pormenores ainda.
Em primeiro lugar: a colocação da palavra Pátria, em letras gigantes, no topo da estrutura, como instância repressiva, é de um mau gosto inqualificável. Faria sentido há 30 anos atrás, no contexto da época. Hoje é um simples erro grosseiro de casting. Não é a "Pátria" que oprime, mas a avidez, a impunidade, a mediocridade sufragada, a desresponsabilização generalizada, os micro-medos que tomaram conta de nós, que infantilizam e armadilham o desempenho da cidadania.
Em segundo lugar, e como não podia deixar de ser, o "politicamente correcto" faz a sua aparição triunfal, neste excerto do texto atrás mencionado: Até que um muro de arame farpado cercou a Europa, fingindo a salvação do status quo e impedindo a entrada de outros povos, outras culturas mais pobres. Repare-se que não está só em causa a entrada de "outros povos" , mas também de "culturas mais pobres", assumindo-se um irresponsável e piedoso - embora camuflado - eurocentrismo assistencial, produto da mesma má-consciência que leva a relativizar o terrorismo, por exemplo, ou a desculpabilizar a hostilidade dos tais povos que não admitem a "diferença" da Europa.

Publicado no jornal "O Interior"

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

Crimes exemplares - 10

Aquela manhã tinha todas as condições para acolher uma vida pouco exaltante, previsível, em que os acontecimentos se empilhassem como maçãs numa caixa. Mas há sempre que contar com a música do acaso, ou melhor, com a cacofonia ensurdecedora do desconhecido. Que, de repente, baralha todo o cálculo, dinamita toda a previsão, esmaga toda a certeza. Saí de casa acompanhado do meu irmão, com destino a uma loja de material informático. O objectivo era comprar alguns consumíveis a preço de revenda, após o que iria apanhar o comboio à estação central. Estava tudo a correr bem, até chegarmos perto do centro comercial. Mas eis que, por causa de umas obras na estrada, esta encontrava-se vedada ao trânsito. O que obrigou a um "desvio" por "mares nunca dantes navegados", durante cerca de vinte minutos. Nesse périplo, houve de tudo um pouco: circulação pela via reservada aos transportes públicos, inversões de marcha pouco ortodoxas, pedidos de informação aos chamados transeuntes - sendo que um deles era gago - passagem de semáforos no limite, etc. Por fim, lá chegamos. Num ápice, voámos até à tal loja. Mal entrei, apercebi-me do insólito: o empregado, num vagar oriental, contava dezenas de parafusos minúsculos no interior de uma caixa, alheado da nossa presença. Dissemos então ao que vínhamos. Por fim, lá se dignou a atender o nosso pedido. Dirigiu-se ao local onde estavam os artigos e, após um minuto de reflexão - presumo que de ordem metafísica - lá trouxe o que pretendíamos. O pior foi o pagamento. Num ritmo de fazer envergonhar uma lesma, introduziu no PC os dados para as fichas de cliente. Quando ia para pagar com cartão multibanco, informou que o terminal respectivo não estava operacional. Corri até ao andar de cima, onde, numa caixa MB, esperei durante cerca de 10 minutos que dois idosos fizessem uma transferência bancária. Por fim, contas feitas, rumo à estação. Naquele momento, faltavam 15 minutos para o comboio partir. Entretanto, no percurso até ao carro, a embalagem contendo as caixas de DVD rompeu-se. Imagine-se! O que obrigou a uma recolha caricata no meio do trânsito. Já no carro, começou uma corrida louca até ao comboio. Que contou com uma troca de mimos com um taxista num semáforo, várias ultrapassagens impossíveis, um desesperante camião de recolha do lixo pela frente, etc. Por fim, chegámos. Exactamente em cima da hora. A custo, "teletransportei-me" com a bagagem até à linha respectiva, rogando algumas pragas pouco recomendáveis a pessoas sensíveis. Só que, comboio nem vê-lo. Pelos altifalantes chegou então a canora mensagem, naquele som característico semelhante à celebre cena das "Férias do Senhor Hulot": por motivo de inundações, a circulação nessa linha estava suspensa. O transporte era assegurado por autocarros até à próxima estação. O meu já tinha saído, é claro. Lindo! Nesta altura, ultrapassados os limites do razoável, fui tomado por uma estranha impassividade. Telefonei ao meu irmão, contando-lhe o que se estava a passar. Deu meia volta e veio buscar-me. Não foram precisas mais do que meia dúzia de palavras. Dirigimo-nos à loja, manietamos o empregado e metemos-lhe a cabeça dentro da caixa dos parafusos. Ainda hoje estou para saber como os peritos forenses explicaram a existência, no seu estômago, de dezenas de objectos metálicos com 5mm de comprimento.

Ver anterior

Imagens de Portugal romântico - 10

Porto, Ponte das Barcas
Vila Nova de Milfontes

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Notícias da blogosfera

Dois blogues portugueses estão nomeados para a edição deste ano dos BOB Awards. Diário de um Quiosque concorre na categoria de blogwurst, que premeia os mais criativos, e Podcomer na de melhor blogue. Os Best of the Blogs Awards (BOB) são organizados desde 2004 pela rádio alemã Deutsche Welle.

«Conheça as novidades, a facturação, as despesas, as dívidas, as histórias e os gamanços. Tudo ao pormenor. Saiba o que vende mais. Leia, comente e participe na gestão de seis metros quadrados. Aproveite, é inédito», escreve o autor do Diário de um Quisque como sendo o lema do blogue, que tem o objectivo de descrever o quotidiano de um ponto de venda de imprensa.

No Podcomer são apresentadas receitas de culinária em formato de podcast. Como diz o autor na apresentação, "Aqui, além de ver as imagens e ler as receitas, podem ouvi-las. Coloquem as receitas no vosso leitor de MP3 e vão para a cozinha! Podem parar a emissão à vontade ou repetir e não ficam com papel espalhado por todo lado." Sugestivo, não acham?

Em 2004, Portugal trouxe um BOB Awards, ganho pelo Ponto Media do jornalista António Granado. Os vencedores são escolhidos pelo público no site The Bobs, onde se pode votar até ao dia 11 de Novembro, de entre os 150 nomeados nas 15 categorias.

Fonte: Diário Digital

Sinais

Há uns dias atrás pude dar conta de algo nunca visto na Guarda: um arrumador de carros. Os mais cínicos poderão dizer que tal ocorrência é mais um sintoma de urbanidade, que tardava em chegar a uma pequena cidade ainda marcada por uma ruralidade degradada. Para mim, o fundamental é ter percebido de imediato que esse arrumador é exactamente igual aos que invadiram Lisboa ou Porto. O olhar é o mesmo. O estado de necessidade idem. O mesmo se diga da suave extorsão com que angariam os meios para sutentar a sua adição, promovendo, sem o saberem, uma espécie de taxa consuetudinária destinada a satisfezer fins próprios de quem a recolhe. Uma espécie de imposto do vício, da mesma forma que certos grupos terroristas utilizavam o célebre "imposto revolucionário" - pagamento exigido às empresas e comerciantes, em troca de protecção - para se financiarem. Retomando a ideia inicial, a espantosa identidade de procedimentos destes arrumadores provém de um único factor: a necessidade. Ela vence o medo, a conveniência. Triunfa sobre qualquer barreira geográfica ou sociológica. É assim.