sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Diário de um tolo - 7

Ser ainda como se já não fosse buscar no meio da chuva uma textura nova quando o dia é noite e a noite é dia gritar por todos os primeiros instantes de um novo tempo buscar o lugar a voragem a lucidez um alfabeto o sangue no meio das palavras as cinzas de um deserto as ruas vazias a dor de todas as ruas vazias ah ser como se já não fosse encontrar a morada de uma vida inteira a solidão estendendo-se como um lençol uma lâmpada acesa para os navios que nunca hão-de zarpar murmurar uma última canção para os olhos e adormecer quella sí lontana sorrise e poi si tronò all'eterna fontana mas há pouco a fazer quando no horizonte só há destroços talvez um arremedo de santidade ah ser como se já não fosse eis finalmente o dique que erigi para me salvar da enxurrada que aí vem pernoitar na doçura tão breve de um coração atónito. Areia. Areia e mais nada. Que venham as águas.

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quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Nocturno em que nada se ouve

No meio de um silêncio deserto como uma rua antes do
crime,
sem sequer respirar para que nada perturbe a minha morte
nesta solidão sem paredes
deixo a minha estátua de terra limpa,
aventuro-me na lentidão da chuva
numa descida interminável,
sem braços que alcançar,
sem dedos para inventar a escala que sai de um piano
invisível,
sem outra coisa que um olhar e uma voz
que esqueceram de que olhos e lábios partiram.

o que são lábios?
o que é um olhar?

a minha voz já não me pertence:
dentro da água que escapa
dentro do ar que me foge
dentro do lívido fogo que corta como um grito.

e no jogo errante de um espelho frente a outro
cai a minha voz,
a minha voz que cresce
a minha voz que queima
dentro de um bosque de gelo:

aqui
deste lado
o barulho do mar onde tudo esqueci
onde ninguém me sabe.

in Labirintos

A honra do convento

Henri Cartier-Bresson

Nunca li nenhuma obra de Günter Grass. Vi o filme baseado em "O Tambor" e é tudo. A recente confissão de que pertenceu às Waffen SS, enquanto adolescente, não me surpreende. Naquela época, era difícil escapar ao massivo recrutamento nazi, especialmente em jovens cuja doutrinação política andava pelos rudimentos do culto do Fuhrer, do III Reich e da grandeza da Alemanha. Nada que se pareça com a sofisticação demoníaca evidenciada pelo jovem personagem de "Os Malditos", de Visconti.
O que me surpreende verdadeiramente é que tenha demorado tanto tempo a desvendar a faceta "negra" da sua biografia. E que entretanto se tenha tornado a consciência moral "de esquerda" da literatura alemã. Que tenha sido um pacifista exemplar. Que tenha vociferado como poucos contra a reunificação da nação alemã.
Grass, como Saramago, como Boaventura Sousa Santos, parecem fantasmas saídos do checkpoint Charlie, em Berlim, numa pose nonchalance, sempre dispostos a justificar o injustificável, como se o mundo ainda fosse a preto e branco. O nobilizado não tinha que possuir um certificado de bom comportamento moral para entrar na história da literatura. Como li noutro lado, alguns dos maiores crápulas deste mundo também foram escritores. Mas isso não permite menorizar ou amplificar a sua obra. Até porque, como dizia José Cardoso Pires, uma das funções mais nobres da literatura é precisamente corromper. Se agora viesse a lume que Homero era um encarniçado pedófilo e praticante de cultos obscuros e vagamente sinistros, será que a Odisseia iria ser banida dos compêndios da Literatura?
Grass deu um passo à frente dos biógrafos, numa jogada de corta-fogo. Mas não se livra de ser o ex-libris de uma certa esquerda europeia, no pior que ela representa.

Publicado no jornal "O Interior"

terça-feira, 22 de agosto de 2006

A sopa Campbell's


Recomendo a leitura do recente post de Rui Bebiano intitulado "A Outra Revolução", no "Terceira Noite". Um contributo decisivo para arrumar uma questão fundamental do imaginário colectivo dos últimos 50 anos: medir o impacto das novas formas de cultura popular e de afirmação individual surgidos nos anos 60. Conforme aí se diz, os anos 60 e 70 definiram-se muito mais pela afirmação da juventude enquanto grupo social portador de um padrão de vida autónomo, pelo fulgor da nova cultura popular, por uma intensa abertura no campo da moral (incluindo a construção de uma sexualidade renovada), por uma atitude estética própria e omnipresente, pela emergência dos movimentos sociais de um tipo novo, pela afirmação de um modelo de sociedade de natureza anti-disciplinar, do que pela proeminência nos processos de mudança das organizações políticas da esquerda. Isto é, a música de Bob Dylan, as provocações pictóricas de Andy Wharol, ou "a imaginação ao poder" do maio de 68, exerceram uma influência muito mais acentuada do que o "eurocomunismo", a "terceira-via" ou as inumeráveis reinterpretações do marxismo. Essa influência foi exercida essencialmente em meios estudantis e em vastos sectores urbanos, sendo decisiva, em Portugal, para a eclosão do 25 de Abril.
Bem a propósito, caberá fazer uma reflexão pessoal sobre o que significa ser "de esquerda", hoje em dia. Verifico que, nas grandes questões geo-políticas mundiais pós guerra fria e sobretudo pós 11 de Setembro, as minhas posições raramente coincidem com as da esquerda tradicional. Em relação à dimensão do Estado e ao peso do funcionalismo idem. O mesmo se diga quanto à necessidade de alteração da legislação laboral e do papel dos sindicatos, ou relativamente às politicas de emigração. Perante isto, só poderei concluir o óbvio: o vínculo que me prende à esquerda é de ordem estética, defesa da separação entre o Estado e as igrejas, apreço pelas liberdades individuais, por movimentos sociais novos e formas de vida sem delegação de responsabilidades. Do ponto de vista ideológico e programático, nada me entusiasma. Antes pelo contrário. Até mesmo os zapatistas perderam o encanto. O irrealismo e a cegueira com que encara a contemporaneidade, balizando-se atrás de uma superioridade moral que ninguém vê excepto quem a invoca, torna-a risível aos meus olhos. Vejam-se as posições tomadas em relação ao conflito israelo-árabe, situação política em Cuba, luta anti-terrorista e islamismo radical, neo-populismo de Chavez e Moralez, tumultos de ordem étnica em França (a que se seguiu a ocupação da Sorbonne como protesto contra a lei que previa a flexibilização laboral para jovens à procura do 1º emprego, que incluiu a pilhagem e o incêncio de parte da biblioteca de um departamento), a escalada nuclear iraniana, o episódio dos cartoons dinamarqueses, etc.
A esquerda, durante muito tempo, soube ser a protagonista de uma pretensão política da utopia, de uma pretensão salvífica de carácter heurístico. Que após ter conduzido ao oposto daquilo que reclamava, para muitos se tranformou numa fantasia compensatória caracterizada pela má-fé, pela reivindicação de um futuro impossível e de um passado que jamais existiu. E o presente? Para responder, é importante salientar que, por trás de muitos movimentos de rebelião inspirados no igualitarismo, está a implantação e defesa de estruturas sociais fixas e não necessariamente melhores, ou mais justas. Para sair do beco sem saída em que se recolheu, a esquerda terá que perceber cabalmente quem são os novos humilhados e ofendidos da actualidade, ser a sua voz, abandonando definitivamente veleidades meta-históricas. Terá que saber falar para todos e não para uma assembleia de paroquianos que a sustenha, sociológica ou eleitoralmente.

O regresso do MEC (epílogo)

Tal como grande parte da comunidade blogger, também eu caí na esparrela: afinal o blogue do MEC não é do MEC, mas de um clone virtual, fazendo-se passar por ele. Quando há tempos o JPP falava da espectacularização da identidade virtual, soou-me a devaneio futurista. Graças a esta história, percebi que não é uma coisa nem outra. Pelos vistos, alguém quis fazer uma gracinha ao jeito da silly season que atravessamos. Só lamento que, graças a ela, o verdadeiro possa ter alguma vontade em voltar mesmo. Toda a história aqui, sendo a fraude desmontada com estes contributos.

L'important c'est la rose

Afinal, o meu projectado devaneio humorístico-desconstrucionista para este mês de sirocco e aqui anunciado - rebolar a rir depois de consultar as nomeações políticas publicadas no DR - já não se vai poder concretizar. A notícia chegou-me via "Do Portugal Profundo": as contratações do Governo deixam de ser publicadas em Diário da República. E logo agora que o acesso ao jornal oficial se tornou gratuito para qualquer cidadão! Será que o Governo quer continuar a esconder o óbvio? Será que não previu que desta forma está a privar o povo de um dos divertimentos grátis mais genuínos de que há memória? Ainda não percebeu que assim vai pôr o país inteiro a espreitar à fechadura, para se deleitar com a confirmação do célebre refrão, aplicado às eternas sinecuras: l'important c'est la rose...?
Ver aqui notícia completa.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

O circo

Segundo rumores que circulam na egitana, estão em curso grandes cozinhados ao mais alto nível, de modo a colocar na administração da CulturGuarda um prometedor gestor comercial, com vasta experiência na...Loja do Concelho. Ao que parece, o apelido sonante terá contado muito na escolha. Velhos hábitos de sucessão dinástica, de fazer corar um verdadeiro monárquico. Todavia, é lícito concluir que uma mudança de rostos traga consigo uma alteração de prioridades ao nível da politica cultural local. As provas estão à vista: ao mesmo tempo que é abandonada a conclusão da construção da nova biblioteca municipal, é promovido o cantor pimba Luís Filipe Reis como símbolo oficial da cidade. Prepara-se pois o abandono de um projecto que em 20 anos colocou a Guarda no roteiro cultural nacional, como referência e exemplo do aproveitamento das valências locais, combinadas com uma programação ambiciosa e exigente. Que, para além da diversidade das propostas, foi criando e fixando públicos, reconstituiu a memória local e criou uma mais-valia estratégica para a região. Um conjunto de manifestações culturais duradouras e bem planeadas representa, para qualquer cidade que se preze, uma efectiva condição de desenvolvimento a todos os níveis, e favorece a criação de uma certa imagem de marca da localidade. Não acredito que esta viragem de rumo seja unicamente explicada pela insensatez, pelo mau gosto, pela ignorância, ou pela contabilidade do curto prazo. A razão é fundamentalmente política. Ou, se se quiser, eleitoralista. Pão e circenses: a receita que continua a fazer milagres. Mesmo com algum Doutor Fausto pelo caminho a remoer a consciência.
Devo dizer que tive oportunidade de conhecer a Guarda em momentos distintos. Para o que aqui interessa, senti na pele a cidade, quando a opressão moral, social e clerical, herança do salazarismo, era um manto de estupidez castradora, que obrigou os inconformados de duas gerações a buscar outras paragens. Talvez porque, simultaneamente, inspirava o doce sabor da transgressão criadora. Alguns, muito poucos, ficaram, resistiram e conseguiram inverter as regras. Mesmo errando, o medo de não errar nunca suplantou o receio de assumir os próprios erros.
Tudo se prepara pois para que nos próximos tempos os números triunfem em toda a largura de banda. É previsível que quem quiser comprar um livro ou um CD - não disponíveis nas grandes superfícies - terá que se deslocar a Salamanca, a Coimbra, ao Porto ou a Lisboa. Quem quiser assistir durante o ano a algum espectáculo com alguma qualidade, ou fora dos circuitos habituais, passará a ter que fazê-lo obrigatoriamente, se o desinvestimento no TMG se concretizar. Como sempre, vai valer o espírito de procura de quem não se conforma com a hegemonia do maistream. Falo por muitos, acreditem.
A opressão que mencionei teve consequências devastadoras para o desenvolvimento da cidade, mas os efeitos do triunfo do populismo que se avizinha irão ser muito muito piores. A prová-lo, são suficientemente elucidativas as inenarráveis condutas de esgoto plantadas na Praça Velha a fazer de vasos para árvores. O erzatz de um tempo.